domingo, 26 de fevereiro de 2017

Oração a Deus

Quando falamos em oração, devemos ter em mente que ela NÃO é o meio pelo qual nós mudamos a vontade de Deus, isto é, a oração NÃO serve para "mudar o coração" de Deus - como querem muitos pentecostais e arminianos - e nem para mostrar a Deus que temos um problema para Ele resolver. Então, para que serve a oração? Creio ser prudente dizermos que a oração é o meio pelo qual Deus muda o coração do homem através da sua humilde submissão operada pelo Espírito Santo por meio de Sua palavra e de Seu poder regenerador. Vamos dividir essa afirmação em três partes para que sejam melhor analisadas.

- É o meio pelo qual Deus muda o coração do homem

O que estamos dizendo nesse ponto é que a oração humana não é capaz de modificar a vontade plena e ETERNA do Soberano Senhor, isto quer dizer que a oração tem a finalidade de nos humilhar perante e o Senhor e nos fazer humildes diante de toda a Sua grandeza e inefável sabedoria. Precisamos ter em mente de que a oração muda Deus, e sim o homem.

É necessário notarmos também que a oração é sim de muita valia para o crente - "A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos" (Tg 5:16). Mas então por que muitas pessoas ainda acreditam que a oração de fato muda a vontade de Deus? Muitas dessas crenças humanistas baseiam-se na esperança de que Deus não seja de fato Soberano e não tenha um propósito para tudo o que ocorre na terra e por isso necessita que o crente O "ajude", indicando e suplicando pelo que precisa e "auxiliando-O" sobre qual a melhor maneira de ordenar as coisas aqui na terra.

"Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17). Neste ponto, novamente Tiago nos é útil dizendo que em Deus não há variação, pois Ele não é o objeto atingido pela luz, e sim justamente o contrário, isto é, que Ele é a própria luz - "o Pai das luzes" - "em quem não há mudança nem sombra de variação".

- Através da sua humilde submissão operada pelo Espírito Santo

"Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente" (Mt 6.6). Nos chama atenção a maneira com que o Senhor Jesus Cristo orienta os Seus para orarem. Ele os instrui de maneira completamente oposta aos que faziam os fariseus que desde o momento que saiam de casa até a chegada no templo iam orando em voz alta para demonstrar sua "grande piedade" e reverência ao Senhor.

"Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" (Sl 51.17). Mais do que rituais e supostas "ações de graça e louvor" para o Senhor, o que o Senhor verdadeiramente requer dos Deus é um coração quebrantado e humilde diante de Sua presença. Muitos arminianos tem dito que a eleição torna o homem orgulhoso, pois foi escolhido por Deus - mas essa é a mais inverosímel das consequências da eleição. A eleição de Deus deve traduzir-se em uma humildade profunda na vida do crente, pois TUDO o que ele ganhou e ainda ganha (desde a salvação até o sustento terreno) vem do Senhor e por meio de Sua mão graciosa. Humildade de espírito é reconhecer que nada somos e que tudo provém nas mãos do Altíssimo.

- Por meio de Sua palavra e de Seu poder regenerador

"Nele... Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa" (Ef 1:11,13). O homem só pode ser verdadeiramente cristão quando ouviu a palavra da verdade e foi selado com o Espírito Santo e essa atividade do Espírito em sua vida dele levá-lo a orar cada dia mais. Certamente que a oração é um dos desdobramentos da vida cristã, isto é, é parte do processo natural da conversão uma vontade cada vez maior de achegar-se diante do Senhor em súplicas e orações contínuas, depositando aos pés da cruz nossas vontades e necessidades.

"Deus move o céu inteiro naquilo que o ser humano é incapaz de fazer. Mas não move uma palha naquilo que a capacidade humana pode resolver - Deus está no controle". Não, meus amados, isso não é um versículo bíblico, fique tranquilo. Essa é uma frase corrente nas "correntes evangélicas de e-mail", mas que nada tem de evangélico, exceto o humanismo que enraizou-se nos corações obstinados pela verdadeira palavra do Senhor.

Queridos, nada é mais tão mentiroso do que dizer que Deus não move uma palha naquilo que a capacidade humana pode resolver, pois o que a capacidade humana pode em si mesmo? "Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?" (Hb 2:6). Certamente que Deus ama os Seus e por eles (e tão somente por eles) se entregou na cruz, mas isso é muitíssimo diferente de dizermos que o homem tem uma capacidade natural em si mesmo para resolver as coisas e que quando isso não acontece, aí sim o Senhor Deus vem e atua no mundo.

Conforme vimos há algumas semanas, há vários textos bíblicos que nos mostram que a oração durante o culto público é algo ordenado por Deus. Também vimos que esses versículos não explícitos quanto ao culto público, mas nos ensinam que a igreja do Senhor deve levar TUDO em oração e isso certamente implica o culto público.

"Orai sem cessar" (1Ts 5.17). Esse versículo é conhecido por boa parte dos que se dizem cristãos. Todos nós já ouvimos ou lemos o trecho onde Paulo nos ensina a levarmos uma vida de oração constante. Uma vida que está sempre na alicerçada na graça de Deus em nossas vidas.

Mas por que orar sem cessar? Será que devemos orar para então conseguirmos o favor de Deus em nossas vidas? Orar com o intuito de mostrar nossa devoção ao Mestre? Creio que devemos orar sem cessar por 5 motivos:

1. Porque dependemos d'Ele para viver

"Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11:36). Precisamos estar conscientes de que sem Cristo nada somos e nada podemos fazer. A oração nos leva a termos uma consciência de quão pequenos e incapazes somos por nossas próprias forças. A oração faz com que sejamos humilhados e nos rendamos ao Seu poder redentor. Ela leva-nos a uma relação de total dependência da criatura para com o criador, não permitindo que homem algum achegue-se diante do Grande Trono e debata com Deus ou apresente-lhes melhores caminhos para o Seu agir. 

2. Porque somos fracos e inúteis

"Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer" (Lc 17.10). É necessário que oremos sem cessar porque a oração nos leva a perceber que somos tão fracos que até mesmo o ato de nos humilhar perante alguém é impossível para nós. Muitos ainda pensam que a depravação do homem não é total. Pensam que por mais pecadores que sejamos, ainda há algo de bom em nós. Porém, aqueles que assim pensam se afastam totalmente do ensino bíblico que mostra nossa incapacidade de fazer qualquer coisa boa sem a graça de Deus.

A palavra do Senhor nos instrui dizendo que não somos alguém diante da Majestade Suprema, isto porque não habita nada de bom em nossos corações. Constantemente somos levados para o caminho mau e nos desviamos do reto Caminho em nossas atitudes em pensamentos. "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5 - grifo meu).

3. Porque não temos consciência do que somos

Quando não levamos uma vida de oração, achamos que somos alguém e que somos pessoas muito importantes para o reino de Deus. É verdade o fato de que Deus nos ama e nos incumbiu de um trabalho aqui na Terra, mas jamais devemos pensar que sem nós, Deus não pode fazer sua obra acontecer ou que Seu propósito para com a humanidade irá falhar caso não desejemos proceder conforme Sua vontade. Deus não depende de nós e também não precisa de nós para que Sua vontade seja feita. É só graças ao Seu amor que Ele nos usa para fazermos Sua obra na Terra. A oração constante nos faz conhecedores de que Deus é soberano e que nós nada somos.

A narrativa de Lucas 16.19-31 nos ensina o dever que o homem tem em ouvir a Palavra de Deus e arrepender-se, caso queira encontrar a verdadeira vida. Aquele rico viveu toda sua vida cheia de regalias e honras o cercando, mas não percebeu o quão pobre e nu era diante da Soberania de Deus. Em contrapartida, Lázaro, aquele pobre homem que vivia às custas das migalhas que caiam da mesa do rico, morreu e foi para o lugar que lhe fora prometido.
4. Porque somos orgulhosos

Por mais que leiamos a bíblia e por mais que saibamos o quão falhos somos, nós ainda não gostamos de nos submeter a Cristo. O ser humano odeia ser rebaixado e se fazer escravo da vontade de alguém. Não gostamos disso! Queremos depender de Deus, mas ter certa liberdade para escolher aquilo que quisermos, sem a intromissão divina. Muitas vezes vivemos uma vida contraditória: afirmamos que somos cristãos, mas não nos submetemos a vontade daquele a qual estamos (ou deveríamos) alicerçados - "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6). Os milhões de "evangélicos" que se multiplicam sem parar nesse país, na verdade nada mais são do que homens que simpatizam com alguns ensinamentos morais do cristianismo.

Homens, mulheres e crianças têm ido à igreja em busca de uma moralidade mínima, procurando por algo que possa lhes ajudar a serem "boas pessoas" na sociedade, mas não vão buscar a verdadeira vida e o consolo aos pés da cruz. A morte de Cristo tem sido pintada de forma grotesca em nossos dias. A cruz de Cristo que outrora representava o perdão dos pecados e o acesso à Deus aos Seus filhos, hoje representa um amuleto que "basta pedir com fé" que acontece. O homem natural - que muitas vezes se diz "cristão" - tem em muitíssimos casos destronado o Senhor de Sua soberania e O colocado no banco dos réus para seu julgado à medida do homem imperfeito, pois não acredita nas Sagradas Escrituras, e sim em seu umbigo.

5. Porque amamos a Deus

Se não oramos e não buscamos a Deus de fato, não podemos dizer que o amamos de verdade. Seria o mesmo que dizer a nossas esposas e maridos que eles são a coisa mais preciosa que temos, embora poucas vezes passemos tempo ao lado dele ou dela. A verdade é que muitos de nós amam ter o conhecimento sobre Deus, amam saber mais sobre Sua vontade e sobre o que a Bíblia realmente quer dizer, mas não gostam e/ou não querem colocar em prática. Gostamos de ler dezenas de livros durante o ano, estudarmos em ritmo frenético e acumular o maior número possível de conhecimento em nosso cérebro, mas certamente não gostamos de nos despojar de nosso eu pecaminoso e botarmos em pratica aquilo que lemos e estudamos.

O Salmo 84 expressa a beleza de um coração renovado e que deleita-se no Senhor. O salmista "desfalece pelos átrios do SENHOR", tamanha é a vontade de estar com o Soberano. Também nos diz que "Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados", mostrando a todo o povo que a confiança no Senhor é o melhor que pode existir para o homem pecador.

Que Deus possa nos conceder a cada dia um coração desejoso por Sua Lei e por comunhão íntima com o Senhor dos Senhores. Que Seu filho amado seja a cada dia mais almejado por todos nós que buscamos crescer à estatura do varão perfeito. Que Seu Espírito Santo instrua-nos em amor, para que não oremos na obrigação, mas com o sincero desejo de ser transformado a cada manhã pelo Amado.

Amém.


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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Audição da Palavra de Deus

Quando falamos sobre a importância de ouvir-se a palavra de Deus durante o culto público, estamos querendo dizer duas coisas: Primeiro que estamos indo a um lugar para ouvir a palavra de Deus, isto é, vamos até a igreja (local onde os crentes se reúnem frequentemente) não para ouvirmos um homem falar, mas para ouvirmos Deus comunicar-se conosco. E em segundo lugar, esperamos que de fato Deus fale aos nossos corações através do ministro do evangelho, isto é, cremos que ao ouvirmos um homem pregar, na verdade é Deus quem se comunica conosco através de seus servos.

Tenho convicção de que essas duas coisas foram distorcidas - muitíssimo infelizmente - por duas pragas que atingiram a igreja evangélica: o pentecostalismo e o neopentecostalismo. 

pentecostalismo veio de maneira sorrateira, introduzindo levemente alguns pensamentos mundanos à igreja com o intuito de "melhorar" o serviço cristão. "Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição" (2 Pe 2:1 - grifo meu). Observe que Pedro diz que tais falsos profetas e mestres introduzirão de maneira encoberta, isto é, de modo obscuro, devagar, sem que seja percebido - mas não somente isso, eles também chegam a negar que o Senhor os resgatou. Como eles negam que o Senhor os resgatou? De muitas formas, certamente, mas a principal delas é dizendo que o seu próprio "livre arbítrio" as salvou do inferno e as fez trilhar o caminho do Salvador; Jesus ajudou, mas "eu" finalizei. 

Então, se o pentecostalismo tentou vir de forma sorrateira, o neopentecostalismo escancarou as heresias e fez com que o seu estado atual fosse pior que o anterior. "Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo pleno conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, ficam de novo envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior que o primeiro" (2Pe 2.20). Enquanto os pentecostais ainda tentavam manter a balança levemente equilibrada, os neopentecostais vieram e simplesmente chutaram a balança de medir e fizer o que era contrário à lei do Senhor - "A balança enganosa é abominação para o Senhor; mas o peso justo é o seu prazer" (Pv 11.1). Mas como eles fazem isso? Dizendo que é o homem que deve interpretar a Bíblia da melhor maneira que lhe convém, que é o homem a medida de todas as coisas, que é o homem quem deve decidir o seu futuro, que é o homem quem "compra" a salvação, que é o homem que determina e acontece, que o homem é o soberano, que o homem é o detentor do saber... a lista não tem fim.

Meus queridos, devemos também lembrar que nem sempre a heresias é tão "visível" a ponto de a percebermos no primeiro olhar, mas são justamente essas "pequenas heresias" que acabam contaminando toda a igreja de Cristo e fazendo com que os homens de Deus desviem-se do alvo e passem a servir a Satanás.

Quando então falamos sobre ouvir a palavra de Deus, precisamos compreender que SEMPRE que lemos e ouvimos a palavra de Deus (a verdadeira palavra de Deus e não a Bíblia como forma de dizer-se o que se deseja), é o próprio Senhor que está a se comunicar com os seus filhos e com todos aqueles que ainda não conhecem a Cristo mas que O leem e/ou O ouvem. Ouvir a palavra de Deus não é uma sugestão de Jesus ou de Paulo, mas uma ordem firmemente estabelecida nas Escrituras. Ir à igreja, reunir-se com os irmãos, falar sobre as Escrituras, lê-la, ouvi-la, cantá-la, não são "sugestões" bíblicas, mas mandamentos que TODOS os crentes devem seguir. Embora muitos crentes saibam disso (na teoria), negligencias tais mandamentos em seus cultos públicos.

A ideia moderna não é mais de que o culto público serve para o crente ouvir o Senhor e louvá-lo, mas sim que o culto público é o momento em que o crente faz o seu melhor "para Jesus". Tem-se disseminado a ideia de que o culto é um momento de - quase que - uma amostra de talentos humanos. Enquanto alguns apresentam-se tocando, solando, cantando, outros demonstram por meio da retórica e do bom falar o quão eruditos e ensinados são.

Meus irmãos, o que é que há em nós para dizermos que o culto é o momento de darmos o nosso melhor "para Jesus"? Acaso nosso grande mestre necessita de alguma coisa? Falta-lhe algum louvor nos céus para que precise de adoração vinda de um coração corrompido (ainda que regenerado)? Por algum motivo o Senhor Soberano está nos céus, mas não está satisfeito em si mesmo e por isso precise de louvores humanos? É necessário que compreendamos que o culto público não serve para o crente servir ao Senhor, mas justamente o contrário, isto é, são nesses momentos que o Senhor comunica-se conosco e agracia-nos com Sua presença. Certamente que durante o culto nós o louvamos, mas isso é diferente de dizer que o culto serve para darmos o nosso máximo - como se não precisássemos viver constantemente dessa forma.

Diante disso, pergunto: Qual deve ser nossa disposição para o culto ao Senhor? Nossa disposição deve ser a mesma do salmista quando disse: "Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor" (Sl 122:1). Para os judeus do Antigo Testamento, Jerusalém era a cidade que representava a estadia do Senhor em meio ao seu povo. Para eles, ir à Jerusalém e louvar ao Senhor, era uma das maiores alegrias que poderiam lhes ocorrer, pois lá "encontravam-se" com o Senhor e juntos (em comunidade) louvavam e eram fortalecidos pelo Senhor.

Não temos mais a Jerusalém terrena como nosso ponto de referência, mas temos a reunião dos santos como o momento sublime de nossa semana. O ápice de nossos dias deveria ser o domingo, o dia do Senhor, o dia em que comungamos em torno da causa de Cristo e de Seu estandarte. Ao irmos para o culto dos crentes, deveríamos de ter em mente que não estamos indo para um mero ajuntar-se de amigos, mas que lá esperaremos de maneira REVERENTE o Senhor falar conosco. Porém, infelizmente não é isso que temos visto em muitas igrejas. A igreja atual tem pervertido o sentido do culto público. Tiraram-lhe o status de santidade e reverência devida e deram-lhe uma "roupagem nova" que para nada serve, exceto entreter os homens pecadores e atrair a ira do Senhor.

"O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução" (Pv 1:7). Observe como o escritor chama aqueles que não têm o temor do Senhor: loucos! Homens sem juízo, cuja razão de existirem é tão somente para encherem e se fartarem do pão do mundo e para beberam da água que torna a dar sede. Homens que acham-se donos do próprio umbigo, que pensam que podem oferecer um fogo estranho ao Senhor, que não creem na suficiência das Escrituras para salvar e guiar o homem por esse mundo vil, que não atentam para as palavras do Senhor e por isso caminham em passos largos pela larga vereda, pensando consigo mesmos que estão a trilhar o reto caminho.

Tenho visto muitos crentes desperdiçarem o momento da palavra de Deus por muitos motivos fúteis e sem qualquer justificativa bíblica (aqui, não estou a falar sobre as vezes em que realmente estamos impossibilitados de ir ao culto público, seja por motivo de doença, necessidade urgente, ajuda ao próximo ou outra coisa qualquer). Amados, respondam para vocês mesmos: quantas vezes que vocês já vieram para a igreja com a cabeça "no mundo da lua"? Quantas vezes vocês fizeram mil e uma coisas antes de vir a igreja, exceto orar, ler e prepararem-se para esse momento? Quantas vezes vocês se "esqueceram" do horário do culto porque estavam entretidos com atividades que não eram lícitas para aquele momento? Quantas vezes que vocês deixaram de se organizar de maneira adequada e chegaram atrasados no culto por puro descaso para com a Palavra de Deus? Por algum motivo o culto público lhes é assim tão fútil e sem sentido que seus afazeres terrenos sejam de tal importância a ponto de cobrirem até mesmo esse momento dedicado ao Senhor? Quero crer que não e por isso passo a expor 3 motivos pelos quais devemos ouvir a palavra de Deus e também o porquê de precisarmos ouvir com um coração reverente - Rm 10.13-17.

1. Ouvir a palavra de Deus é a maneira que o Senhor usa para salvar o homem.
"Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?" (vs. 13-15a). Embora ao homem moderno possa ser agradável a ideia de que Deus salvará homens que nunca ouviram falar do evangelho, não é assim que a Bíblia retrata a salvação. A salvação bíblica vem por meio da palavra de Deus, quer seja por meio da leitura das Escrituras ou pela pregação da verdadeira palavra de Deus.

O apóstolo Paulo nos ensina que " todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo", porém ele faz algumas perguntas aos romanos a fim de ensinar-lhes sobre como é possível o homem invocar o Senhor: "Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?". O que Paulo está dizendo é que a palavra do Senhor precisa chegar ao homem ímpio para que ele seja regenerado. Certamente que a natureza revela-nos a criação do Sustentador de todas as coisas, mas ela não consegue comunicar-nos a salvação. Por mais que os rios, os pássaros e toda sorte de animais reflita e beleza e magnitude da criação, esses elementos não transmitem graça a ponto de retirar o homem de seu lamaçal de pecado em que está inserido. É a partir desse ponto que Paulo ensina os romanos dizendo-lhes que é necessário que o homem conheça o Senhor para então poder arrepender-se de seus pecados e ir a Cristo - pois como seria possível alguém ir até Cristo se nem ao menos O conhece ou ouvir falar?

Aqui, a ênfase de Paulo recai sobre a importância de pregarmos a palavra de Deus a toda criatura, mas implicitamente devemos lembrar que, se é necessário que preguemos a sã doutrina, é igualmente necessário que ouçamos atentamente o evangelho que é poderoso para nos salvar, isto é, se queremos pregar corretamente a palavra de Deus para nossos parentes, amigos, colegas e desconhecidos, precisamos estar firmemente estabelecidos sobre a rocha que é Cristo, pois caso contrário pregaremos um evangelho de homens e não de Deus.

2. Ouvir a palavra de Deus torna o homem formoso.


"Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas" (v. 15b). Aqui, Paulo anima os irmãos a pregarem o evangelho e lhes dizem que grande e majestosa é essa tarefa! - "Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!" (NVI). Paulo escreve aos romanos para que eles animem-se e preguem o evangelho, sabendo que esse dever não lhes é algo sem valor, mas que os torna belos ao olhos do Senhor, pois estão espalhando as boas novas, isto é, de que Cristo veio ao mundo para salvar pecadores. Aqui, é também necessário que tratemos como anteriormente, ou seja, de que se desejamos ser belos e formosos no serviço do reino de Deus, não podemos ser negligentes para com nossas disciplinas cristãs.

Escute bem o que vou lhes dizer: o jovem cristão não foi dotado de energia e grande vigor para aproveitar esses anos como bem lhe apraz. O jovem cristão não foi investido de grandes ideias para ganhar muito dinheiro e ficar viajando pelo mundo e conhecendo novos lugares. O jovem cristão não tem grande disposição para festas e encontros com os amigos, para ir dormir tarde no sábado e acordar "em cima da hora" do culto e praticamente dormir durante a pregação da palavra. O jovem cristão é aquele homem e aquela mulher que usa TODA a sua energia a fim de proclamar o evangelho de Cristo Jesus. O jovem cristão é aquele que aproveita sua "insônia" para ler, orar, pregar o evangelho e crescer em comunhão com Deus. O jovem cristão é aquele que sabe ser mordomo das coisas que lhe foram confiadas. O jovem cristão é aquele que planeja a sua semana a fim de poder descansar das atividades seculares e aproveitar o domingo como um momento de regozijo e restauração interior, pois teve uma semana de lutas e terá uma semana com grandes tentações que tentarão lhe persuadir o coração e fazer com que se desvie do reto caminho.

Quando Jesus disse, "porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem" (Mt 7.14), Ele não estava dizendo que a porta é estreita quando vista de longe, mas larga quando vista de perto. Não, não há aqui menção a qualquer teoria relativista ou humanista que busque acrescentar vãs filosofias do homem e que diga que na verdade o caminho é bastante largo, mas no intuito de amedrontar os homens, Jesus disse que era apertado e que por isso poucos há que encontrem a vida nele contida.. Há sim, e tão somente, a afirmação de que a porta é estreita e caminho que o crente deve seguir é um caminho apertado, isto é, ou pautamo-nos pelas Escrituras e encontramos a Vida ou estaremos no caminho largo e que leva à perdição e acharemos que estamos no caminho correto.

3. Ouvir a palavra de Deus não se traduz necessariamente em mudança de vida.

"Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (vs. 16,17). Finalizando seu argumento iniciado no versículo 12 - "Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam" - Paulo expõe aos irmãos de Roma que quando eles saíssem para pregar o evangelho, não deveriam esperar que todos se convertessem e voltassem-se para o Senhor, pois muitos os ouviriam, mas seriam cegados pelos seus pecados e rejeitariam a palavra do Mestre. Mas então, de que serviria a pregação se nem todos se convertem? Paulo responde dizendo que "a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus", isto é, ainda que muitíssimos não se dobrem diante do Altíssimo, a palavra de Deus é eficaz na vida de todo homem que se arrepende de seus pecados e torna a trilhar os caminhos do Reino.

De acordo com o que temos visto, devemos também saber que isso se faz presente em nossas vidas, pois o mero frequentar o culto público não se traduz obrigatoriamente em mudança vida. "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1 Jo 2:6). Neste ponto, vemos que João escreve dizendo que é um desdobramento natural da vida do crente o fato de ele buscar caminhar e viver conforme Cristo andou, "Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo" (Ef 4.13). Ao olharmos para a vida dos apóstolos de Cristo, certamente que encontramos muitas falhas e desvios, contudo uma coisa nos deveria chamar a atenção: eles buscavam estar perto do Mestre. Não me recordo de algum relato em que um dos apóstolos chegou "correndo" para o culto ou que no dia seguinte mandou uma carta para Jesus dizendo que não havia estado com ele no dia anterior porque lhe havia surgido uma oportunidade de encontrar-se com seus amigos ou viajar para algum lugar paradisíaco. O que encontro são homens falhos e pecadores, mas que deixavam tudo o que tinham para trás em busca e avançavam rumo ao Reino que lhes fôra prometido. "E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus" (Lc 9.62).

Que nessa manhã possamos ser renovados pelo poder de Deus. Que o Seu santo Espírito manifeste-se em nossas vidas de maneira grandiosa e nos livre de toda indiferença para com Sua palavra. Que o Senhor quebrante nossos corações e nos leve a dar mais valor à Sua palavra pregada, lida e ouvida. Que possamos mudar nossos hábitos e valores a fim de crescermos espiritualmente em santidade, "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14).



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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Soli Deo Gloria: Um lema para a vida

*Texto Base: Salmo 96

INTRODUÇÃO

Soli Deo Gloria, que quer dizer: Somente a Deus glória, é um dos lemas da Reforma Protestante.  O intuito dos reformadores com este lema foi endossar que apenas o SENHOR deve ser exaltado em tudo o que fizermos. Como nos diz o apóstolo Paulo “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. (1 Coríntios 10:31).

O pastor norte-americano John Piper costuma abordar o tema de quanto Deus ama a sua glória e de que nós também devemos amá-la e exaltá-la. Uma de suas frases mais famosas e mais repetidas é “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”. Por isso, devemos desejar Deus e fazer desse desejo o nosso estilo de vida. Nascemos para adorá-lo e devemos fazer isso em Espírito e em verdade. Se não glorificamos o Deus bendito com palavras e ações, logo, nos alienamos de nós mesmos e não viveremos uma vida plena. Não encontraremos satisfação em nada se não nos satisfizermos com a gloriosa presença do Deus trino.

Todavia, muitos se questionam se Deus não é egoísta ou narcisista ao querer ser glorificado e adorado entre os homens. Obviamente, Deus não é uma coisa e nem outra. Expondo o Salmo 96, que parece ser um resumo de um cântico de Davi (1 Crônicas 16) para alguma festa solene em celebração ao SENHOR no período pós-exílico, veremos o porque Devemos dar a Deus somente toda honra e toda glória.

EXPOSIÇÃO

1.Cantem ao Senhor um novo cântico; cantem ao Senhor, todos os habitantes da terra! 2. Cantem ao Senhor, bendigam o seu nome; cada dia proclamem a sua salvação! 3. Anunciem a sua glória entre as nações, seus feitos maravilhosos entre todos os povos!

Os versículos iniciais reforçam o louvor a Deus dando ênfase para que se cante em adoração ao SENHOR. Percebam que “cantai” aparece três vezes nos versículos iniciais do salmo. Um cântico novo não necessariamente seria uma música inédita. O próprio salmo é uma compilação de um texto composto por Davi para que os levitas entoassem no tabernáculo. Aqui, segundo a tradição rabínica e muitos comentaristas bíblicos, o cântico seria usado na inauguração do segundo templo, construído após um remanescente migrar do cativeiro babilônico para reconstruir Jerusalém. Mas então porque o canto se faz novo? Ora, ele se torna novo na disposição de nosso coração, quando cantamos com disposição e alegria para o enaltecimento do nome do Altíssimo. A novidade está na dinâmica de nossa adoração, que não pode ser mecânica, como se estivéssemos no “piloto automático”. E é justamente essa dinâmica que move o adorador a proclamar as maravilhas que vem de Deus. Observem que o canto não fica estático, ele vai se propagando por toda a terra na medida em que o nome do Senhor se torna bendito entre as nações e a sua salvação é proclamada. Isso é apregoar boas novas, o que nos remete a evangelização, termo que os tradutores gregos da Septuaginta usaram e que em nosso idioma foi traduzido por “proclamação”.

Anunciar a sua glória e a sua maravilha é compartilhar de quem Deus é e o que Ele faz para os que são seus. Este anúncio é o que cumprimos na grande comissão, quando pregamos a todos os homens sobre o que Deus Pai fez através de seu filho Jesus Cristo. A dinâmica da evangelização faz com que os adoradores aumentem e isso redunda em mais glória para Deus. Por isso que a adoração não pode ficar confinada ao culto, mas deve mover-se para fora, em busca de aumentar o coro que em muitas vozes cantará a majestade do Deus Todo-Poderoso.

4. Porque o Senhor é grande e digno de todo louvor, mais temível do que todos os deuses! 5. Todos os deuses das nações não passam de ídolos, mas o Senhor fez os céus. 6. Majestade e esplendor estão diante dele, poder e dignidade, no seu santuário.

E porque louvar ao Senhor? Seria Ele um egoísta? Como dito na introdução desta mensagem, a resposta é não. A tentativa de alguns ateus e inimigos da fé de pintar Deus com traços de Narciso é patética, pois, eles partem de um referencial humano para atribuir a Deus o sentimento egoísta. Deus é desde a eternidade, o que significa que não teve começo e não terá fim. Ninguém o criou e ninguém está acima do SENHOR. Ele é autossuficiente e seu deleite se encontra em seus próprios atributos. Ele é grande, maior do que a criação, que já imensa. Paremos para pensar na dimensão do planeta Terra e nos deparemos com o fato de que diante do vasto universo, nosso planeta é um pontinho azul entre bilhões de galáxias. Isso é a grandeza da coisa criada. Imaginemos então quão grande é o Criador. Só este fato deveria ser suficiente para reverentemente glorificarmos ao Deus dos céus e da terra.

O que você faria ao encontrar algo belo e grandioso que lhe conferisse um sentido de propósito? Com toda certeza você amaria tal coisa, a enalteceria com todas as suas forças e se entregaria por completo. Este algo existe e é o Criador que nos criou para si. Deus não pode se deleitar em nada fora dele mesmo, pois nada se equipara a sua grandeza. Por ser autossuficiente, tem paixão pela sua glória, que é a manifestação de seus santos atributos. Assim, pequeno e limitado que é o homem, necessita se conectar com Aquele que lhe confere um sentido para sua existência. O homem precisa de Deus, pois é Deus quem o confere a verdadeira humanidade. Por isso que C.S. Lewis nos diz que “em mandar-nos glorificá-lo, Deus está nos convidando a gozá-lo”. Portanto, quando adoramos a Deus e lhes rendemos glória, estamos fazendo aquilo que nos foi impresso na criação. Todo homem é um adorador por carregar dentro de si a imagem do Criador. Ao nos ordenar que lhe rendamos graças e louvor, Deus está nos dando o privilégio de sermos inteiramente satisfeitos e felizes, e a fonte que nos sacia por completo não é outra senão o próprio Iavé.

Por não glorificar a Deus, o homem sempre arruma um substituto para exercer veneração. Este é o cerne da idolatria, e o salmo deixa claro que todos os deuses não passam de ídolos criados. Eles são vazios e não possuem a majestade e o esplendor do Deus vivo, ao invés disso, são desprovidos de valor. Ao adentrar o santuário, o judeu deveria se deslumbrar não com a prata, não com o ouro e não com as pedras polidas e cravadas. O deslumbramento devia ocorrer diante da gloriosa presença do Deus que é santo. Sendo assim, que nós ao nos reunirmos com Igreja, sabendo que o SENHOR se faz presete, sejamos maravilhados com a beleza e com o esplendor de sua glória em nosso meio.

7. Dêem ao Senhor, ó famílias das nações, dêem ao Senhor glória e força. 8. Dêem ao Senhor a glória devida ao seu nome, e entrem nos seus átrios trazendo ofertas.

Por causa da grandeza de Deus, a adoração deve se estender a todos. As famílias precisam louvar a Deus juntas. Pais e Filhos. Irmãos e irmãs. Gente de toda classe social, seja de qualquer nação, falando qualquer língua. O nome do SENHOR deve receber a glória que é devida. As ofertas que se traziam ao Templo eram para render louvores ao Deus de Israel. Aqui necessitamos entender que não devemos adorar na intenção de receber favores. A adoração se dá como gratidão e serviço por tudo que Deus é e por tudo que Ele tem feito por nós e em nós. Que possamos fazer de nossa própria vida uma oferta toda vez que nos reunimos para engrandecer o nome do Santíssimo.

9. Adorem ao Senhor no esplendor da sua santidade; tremam diante dele todos os habitantes da terra. 10. Digam entre as nações: "O Senhor reina!" Por isso firme está o mundo, e não se abalará, e ele julgará os povos com justiça. 11. Regozijem-se os céus e exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! 12. Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta, 13. cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade!

O salmo vai se encaminhando para o fim sem perder de vista a conclamação a adoração ao Divino. O verso 9 enaltece a santidade do SENHOR, o que é visto como motivo para reverentemente tremermos diante do Santo dos Santos. Todos os que estão na presença de Deus devem reverência pelo fato dEle ser santo e sua santidade contrastar com a nossa pecaminosidade. O profeta Isaías se encheu de temor ao se deparar com a santidade divina (vide Isaías 6). Ele não ficou com vontade de pular ou dançar, mas automaticamente se prostou. Essa é a reverência que cabe ao Rei dos reis e Senhor dos Senhores.

Deus reina e o mundo é sustentado pelo cetro de seu poderio. Isso precisa ser dito entre as nações. Os governantes do mundo precisam saber que estão debaixo do poder dAquele que tudo governa. O mundo é dEle, criado por Ele e para Ele mesmo se deleitar. Por isso que a conclamação para o regozijo é geral, englobando todos os seres criados. De uma forma hiperbólica, até mesmo seres inanimados são convocados para enaltecerem o Criador. O louvor aqui é oferecido a um Rei que governará com justiça. Juíz, no texto, é aquele que governa, e seu governo será justo, pois a sua base está na fidelidade de quem não é homem para que minta e nem filho do homem para que se arrependa (Números 23.19).

CONCLUSÃO/APLICAÇÃO

Para que essa palavra seja aplicada em nossa vida, podemos responder a nós mesmos a algumas perguntas:

1. Se eu preciso glorificar ao Senhor em todas as coisas, em que área eu tenho sido negligente e não a vivo para o louvor do meu Deus?

2. A quem tenho proclamado sobre a grandeza do meu Deus? Estaria a minha adoração se restringindo apenas aos momentos de culto congregacional ou privado?

3. Diante do governo dos homens e de tanta instabilidade política e financeira, estamos louvando ao Rei dos reis na expectativa de participarmos de seu reino de justiça?


Que o Senhor nos ache no meio de seus adoradores. A Ele a glória, pra sempre e amém!


Postado por Thiago Oliveira
Fonte: http://blogelectus.blogspot.com.br


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Evangelização Reformada

Introdução

Ao examinarmos ainda que rapidamente o assunto – evangelização – pelo prisma mais popular notamos que comumente algumas frases prontas são utilizadas como:

a) “Aceite Jesus, ele quer morar em seu coração...”
b) “Dê uma chance a Deus, ele pode mudar sua vida...”
c) “Jesus te ama e quer te salvar... só depende de você...”

Esse tipo de abordagem é totalmente antropocêntrica, ou seja, a preocupação maior da evangelização é o homem, e vale tudo para que o homem entenda a mensagem. De fato o homem é alvo da graça de Deus e por ter sido feito a imagem e semelhança do criador ele precisa cumprir os mandatos que lhe foram dados no início, mas, sem a graça redentora de Deus ele não poderá cumprir esses mandatos contidos em Gênesis 1.26-30. Nessa passagem nós temos três mandatos pactuais – mandato cultural, mandato social e mandato espiritual. Esses mandatos foram dados antes da grande comissão (Mt 28.19), nesses mandatos dados pelo Criador o homem teria que glorificar a Deus em todas as suas atividades culturais, em todas as suas atividades familiares e em toda sua atividade espiritual. Ao estarmos na Queda do pai da raça que era Adão não seria possível o homem cumprir esses mandatos como Deus havia determinado, o pacto foi quebrado, e na teologia aliancista chamados esse pacto de: Pacto de Obras. E o que viria a ser o Pacto de Obras? Primeiro entendamos em que consiste esse pacto e o que é o pacto de obras, a Confissão de Fé de Westminster (CFW) nos diz que

Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto [1].

O primeiro pacto feito com o homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita obediência pessoal [2].

Essa é nossa base inicial para que compreendamos qual a posição do homem na evangelização e qual a posição de Deus na salvação de pecadores. Notemos que o homem não é o personagem principal no drama da salvação, mas, Deus. Por isso chamamos a evangelização bíblica de Teocêntrica e não de Antropocêntrica, a evangelização bíblica tem Deus no centro e não o homem. Visto que o homem quebrou esse pacto de obras o próprio Deus providenciou outro pacto para a salvação do homem caído vejamos:

O homem, tendo-se tornado pela sua queda incapaz de vida por esse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; nesse pacto ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele para que sejam salvos; e prometendo dar a todos os que estão ordenados para vida o Santo Espírito, para dispô-los e habilitá-los a crer [3].

Isso nos dá a base para afirmar que todo homem que não creu no Filho de Deus como seu suficiente salvador está debaixo do pacto de obras, notemos que ele está sob o pacto de obras, mas, não pode cumpri-lo porque está caído, está irredimido, está destituído da glória de Deus como nos diz o Texto Sagrado: “...pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. (Romanos 3.23-NVI)

O fato de o homem não cumprir o pacto de obras o condena, porque a lei exige dele esse cumprimento. Vejamos:  “Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente.” (Tiago 2.10 – NVI)

Fica claro que o homem por si mesmo não pode ir a Deus sem que seja trazido pelo próprio Deus.

Deus: o Autor da Evangelização

Entendido o fato que Deus é supremo na tarefa evangelizadora da Igreja, reconhecemos que Deus é o Autor da Evangelização. A maior tarefa da Igreja é glorificar a Deus entre todos os povos e a evangelização é um meio para que isso aconteça. É importante frisarmos que a evangelização está no decreto eterno de Deus, e chamamos isso na teologia de Pactum Salutis ou Aliança da Redenção como nos diz R.B. Kuiper:

As raízes da evangelização estão na eternidade. Os teólogos costumam falar do pactum salutis, feito na desde toda eternidade pelas três pessoas da Deidade. Pode-se traduzir a expressão pactum salutis tanto por Aliança da Redenção como por conselho da redenção... Neste plano, Deus o Pai devia enviar se Filho ao mundo para resgatá-lo; Deus o Filho haveria de vir voluntariamente ao mundo para se tornar merecedor da salvação por sua obediência até a morte; e Deus o Espírito aplicaria a salvação aos pecadores, instilando neles a graça renovadora [4].

É importante compreendermos um ponto da doutrina de Cristo que chamamos de obediência ativa de Cristo. Cristo obedeceu livremente, ou seja, guardou perfeitamente o pacto de obras, pacto este que o homem caído não pode mais guardar por que pecou e o pecado o legou ao fracasso espiritual, a morte espiritual (Ef 2.1-10), mas, Cristo morreu pela Igreja (Ef. 5.25; 2 Co 5.14; Jo 10.11), e sua morte foi o sacrifício substitutivo pelos pecadores que Deus determinou salvar como nos diz Lucas no livro de Atos 13.48. E a forma desses pecadores virem a Deus pela mediação de Cristo (1 Tm 2.5) é pela pregação do Evangelho conforme Paulo ensina em Romanos 10. A pregação é a forma que Deus determinou para trazer os pecadores à fé. Vejamos o que diz Romanos 10.17: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”.
A pregação é o meio pelo qual o pecador é levado à fé pelo Espírito Santo. Essa é uma verdade vital do Cristianismo bíblico.

Qual é o Motivo para a Evangelização?

Nos diz o  Breve Catecismo de Westminster em sua primeira pergunta:
Qual é o fim principal do homem?

Resposta:

O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre [5].

Ao evangelizarmos não cumprimos somente uma ordem divina, mas, devemos pregar ao mundo caído porque amamos a Deus e queremos proclamá-lo em todas as nações vejamos o que nos diz o salmista no Salmo 67:

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós, para que sejam conhecidos na terra os teus caminhos, e a tua salvação entre todas as nações. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Exultem e cantem de alegria as nações, pois governas os povos com justiça e guias as nações na terra. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos. Que a terra dê a sua colheita, e Deus, o nosso Deus, nos abençoe! Que Deus nos abençoe, e o temam todos os confins da terra.

Fomos comissionados a glorificar a Deus entre todas as nações, reder-lhe louvor entre todos os povos línguas e nações, o livro do Apocalipse nos mostra vários cânticos louvor a glória da graça do Deus salvador e redentor, no capítulo 15, versos 3 e 4 nós lemos:

Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações. Quem não te temerá, ó Senhor? Quem não glorificará o teu nome? Pois tu somente és santo. Todas as nações virão à tua presença e te adorarão, pois os teus atos de justiça se tornaram manifesto.

Diz o teólogo J.I. Packer – Glorificamos a Deus pela evangelização não somente porque a evangelização é um ato de obediência, mas também porque na evangelização contamos a todo o mundo quão grandes obras poderosas da graça de Deus se tornam conhecidas, ele é glorificado [6].

Consequentemente se entendemos que a evangelização é também uma expressão de nossa adoração e nosso amor ao Senhor, amaremos nosso próximo que desejaremos que muitos sejam alcançados com as verdades eternas do Evangelho de Cristo. Para finalizarmos, cito mais uma vez a CFW:

No Evangelho Deus proclama seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e crêem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça [7].
Conclusão

Deus, é o início e o fim da evangelização, a glória de Deus é a coisa mais importante. O desejo de Deus é ser glorificado e o homem foi criado para isso. Portanto todo método de evangelização que coloca o homem no centro é idólatra, todo método de evangelização que não diz que o homem é um pecador caído e necessitado de redenção falha em sua abordagem e todo método que somente mostra o homem como caído, mas, não lhe mostra Jesus como caminho é igualmente inválido. Todo método de evangelização deve ser teocêntrico, sendo teocêntrico será também Cristocêntrico. Toda a Bíblia possui uma abordagem histórico-redentiva, a história da salvação, devemos seguir o método bíblico em apresentar a mensagem do Evangelho, Deus no centro de tudo.

E disse-lhes: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas”.

Marcos 16.15
Amém.

***
Notas:

[1] CFW, cap. 7.1. Jó 9.32-33; Sal. 113. 5-6; At 17.24-25; Lc 17.10.
[2] CFW, cap.7.2. Gal. 3.12; Rom. 5.12-14 e 10.5; Gen. 2.17; Gal. 3.10.
[3] CFW, cap. 7.3. Gal, 3.21; Rom. 3.20-21 e 8.3; Isa. 42.6; Gen. 3.15; Mat. 28.18-20; Jo 3.16; Rom. 1.16-17 e 10.6-9; At. 13.48; Ezeq. 36.26-27; Jo. 6.37, 44,45; Lc. 11.13; Gal. 3.14.
[4] Kuiper. R.B. Evangelização Teocêntrica, Ed. PES, 2ª edição, 2013, p.9.
[5] Breve Catecismo de Westminster – Referências: Rom. 11.36; 1 Co 10.31; Sal 73.25-26; Is 43.7; Rom.14.7-8; Ef. 1.5-6; Is. 60.21; Is. 61.3.
[6] Packer, J.I. Evangelização e a Soberania de Deus, Ed. Cultura Cristã, 2ª edição, 2011, p.89.
[7] CFW, cap. 35.2. Jo 3.16 e 14.6; At 4.12; 1 Jo 5.12; Mc. 16.15; Ef. 2.4,8,9.


Fonte: http://blogelectus.blogspot.com.br

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pregação a partir da Bíblia

Sei que pode soar um tanto quanto "óbvio" o fato de dizermos que dentro de uma igreja que se diz cristã ser necessário que se pregue a palavra de Cristo - o seu mestre -, mas é necessário que tenhamos em mente que o mero reunir-se em uma igreja que se intitula "evangélica", não caracteriza verdadeira fidelidade à revelação (a Bíblia Sagrada) que Deus nos deixou e por isso que precisamos compreender algumas implicações que deve ter o pregar a partir da Bíblia.

Há tempos ouvi um pastor falando que conhecia um pregador que era conhecido como "o pastor engraçado" (ou "pastor piadista", algo assim),  pois suas "pregações" eram sempre muito engraçadas, cheias de comédia  e as vezes os ouvintes até mesmo urinavam de tanto rir durante as "pregações". Pensei por um breve momento que aquele pastor iria repudiar tal atitude de seu conhecido, mas não o fez; pelo contrário, aprovou e disse que não havia nada de errado com se ter uma pregação engraçada e que entretenha as pessoas.

"E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito" (Jo 3:1-6). Nesta passagem - humanamente falando -, Jesus tem uma excelente oportunidade para pregar a Sua própria mensagem àquele homem que era o príncipe dos judeus, porém Ele não o faz. Jesus não respondeu a Nicodemos de forma engraçada ou suavizou Sua mensagem. Quando Nicodemos questiona Jesus sobre como seria possível alguém nascer de novo (v. 9), Jesus simplesmente lhe responde: "Tu és mestre de Israel, e não sabes isto? (Jo 3:10). O que Jesus quis dizer àquele homem era: "Tu que és mestre de Israel e príncipe dos judeus, que ensinas e te vanglorias de teu conhecimento, não conheces o princípio mais básico sobre a mensagem que dizes viver?". Em momento algum vemos Jesus suavizando ou "divertindo" sua mensagem.

Em outra situação, Jesus ao combater o ensino dos fariseus sobre a necessidade de se lavar as mãos antes de comer (coisa que a lei veterotestamentária não havia imposto) e dizer que o que entra pela boca não é o que contamina, mas o que sai, é indagado por seus discípulos que questionam: "Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram?" (Mt 15:12). Vemos então a resposta do mestre: "Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova" (Mt 15:13-14). Aqui, novamente, não encontramos nenhum resquício de Jesus amenizando a mensagem, mas sim pregando-a com amor, contudo, energicamente e sem jamais renunciar a Verdade.

Ainda outra narrativa nos mostra como Jesus respondeu ao povo que foi até ele apenas para saciarem-se com pães: "E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou" (Jo 6:25-27). Neste ponto, mais uma vez percebemos que Jesus não adulterou a mensagem para que todo aquele povo continuasse a segui-Lo (do ponto de vista humano, que grande oportunidade desperdiçada!), mas condenou o erro e apontou para solução, isto é, que não se trabalhasse pela comida passageira, mas pela verdadeira comida, isto é, a palavra de Deus que nos supre para sempre.

De igual modo, quando o apóstolo Paulo está escrevendo ao seu amado Timóteo, ele insta-o para: "Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina" (2Tm 4.2). As cartas de Paulo são cheias de admoestações e instruções para seus queridos e para as igrejas que ele visitou ou visitaria, contudo não encontramos nenhuma exortação paulina para que os crentes "se divertissem" durante a pregação. Escrevendo a Timóteo, Paulo lhe diz para que pregasse a palavra, redarguisse, repreendesse e exortasse com toda longanimidade e doutrina. Pergunto: onde que encontramos base para termos uma pregação divertida? Respondo: em lugar algum. 

O Catecismo Maior de Westminster nos dá diretrizes de como deve ser pregada a palavra de Deus:

Pergunta 159: “Como deve ser pregada a Palavra de Deus por aqueles que para isso são chamados? Resposta:  Aqueles que são chamados a trabalhar no ministério da Palavra devem pregar a sã doutrina (Tt 2.1, 7, 8), diligentemente, em tempo e fora de tempo (At 18.25; II Tm 4.2); claramente (I Co 14.9), não em palavras persuasivas de humana sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder (I Co 2.4); fielmente (Jr 23. 28; I Co 4. 1, 2), tornando conhecido todo o conselho de Deus (At 20.27), sabiamente (Cl 1.28; II Tm 2.15) acomodando-se às necessidades e às capacidades dos ouvintes (I Co 3.2; Hb 5.12-14; I Ts 2.7; Lc 12.42) zelosamente (At 18.15; II Tm 4.5), com amor fervoroso para com Deus (II Co 5.13, 14; Fp 1.15-17) e para com as almas do seu povo (II Co 12.15; I Ts 3.12); sinceramente (II Co 4. 2; II Co 2. 17), tendo por alvo a gloria de Deus (Jo 7.18; I Ts 2. 4-6) e procurando converter (I Co 9.19-22), edificar (II Co 12.19; Ef 4.12) e salvar as almas (I Tm 4.16; II Tm 2.10; At 16.16-18)”. Diante dessas diretrizes elaboradas por homens piedosos, percebemos que em momento alguns eles sugerem que a palavra de Deus deva ser pregada com irreverência, pouca importância ou ainda que ela deva ser "divertida" e rápida.

Mas afinal, por quê é necessário que preguemos somente a palavra de Deus? Deixem-me listar 3 motivos (baseados em 2 Tm 3.16,17) pelos quais tão somente a palavra de Deus deve ser pregada e deva ser o centro do culto ao Senhor:

1. Somente a Escritura é divinamente inspirada por Deus - "Toda a Escritura é divinamente inspirada (2 Tm 3:16a).

Procuraremos em vão pelo restante das Escrituras em busca de alguma sentença que nos indique que algum outro escrito tenha sido escrito e inspirado pelo Senhor. Certamente que nos vem à mente a questão sobre os livros apócrifos e os pseudo-epígrafos, mas sobre eles falaremos em outra oportunidade [1]. Contudo, precisamos ter a certeza de que o livro que temos em mãos foi divinamente inspirado - mas que implicação isso tem?

Implica em dizer que, apesar de ter sido escritos por homens, estes foram inspirados pelo Senhor, isto é, "homens santos de Deus falaram [e aqui acrescento: escreveram] inspirados pelo Espírito Santo" (2 Pe 1:21). Dizer que a Escritura é divinamente inspirada, é afirmar que ela é perfeita, pura, e destituída de qualquer pecado ou invenção humana. Mas o que as Escrituras nos ensinam? O Breve Catecismo de Westminster nos auxilia nessa questão. 

Pergunta 3. "Qual é a coisa principal que as Escrituras nos ensinam?" Resposta: "A coisa principal que as Escrituras nos ensinam é o que o homem deve crer a respeito de Deus, bem como o dever que Deus requer do homem" (Mq 6.8; Jo 20.31; Jo 3.16).

Vemos que por ser inspirada, a palavra de Deus não necessita de acréscimo humanos ou de "benfeitorias necessárias", como se partes da revelação divina estivessem caducadas pelo tempo ou ainda que não sejam coerentes com o "tempo em que vivemos". Por divina, o Senhor quer dizer-nos que ela é fidedigna, isto é, que merece crédito, que tem procedência, pois emana do Pai celestial, o criador dos céus e da terra. "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1:17 - grifo meu). Se Deus é imutável, logo a Sua palavra também será imutável. Não haveria lógica em Deus dispor-nos de uma revelação para seguirmos (a Bíblia) e após morrermos recebermos o veredicto de que na verdade o Senhor "mudou de opinião" e agora executará a Sua justiça a partir de algo que nenhum humano jamais conheceu, e que por isso, todos estarão condenados.

Se o Senhor não pode mudar e inspirou toda a Sua palavra aos homens, aprendemos que temos uma revelação inspirada por Ele e que jamais poderá substituída, quer seja por filosofias ou qualquer outra "boa ideia" sugerida por vis pecadores.

2. Somente a Escritura pode nos ensinar, responder, corrigir e instruir em justiça - "e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça" (2 Tm 3:16b).

É importante atentarmos para o fato de que se a palavra de Deus foi inspirada por Ele mesmo, naturalmente decorre de que as Escrituras são suficientes para instruir e guiar o homem em sua peregrinação pela terra.

Muitos homens têm proclamado essa verdade em suas conversas, pregações e livros publicados, contudo tais palavras apenas "têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne" (Cl 2.23). Como vemos nos jornais e nas revistas, está "na moda" ser evangélico e crer numa entidade superior. O "evangelicalismo" está em alta, muitas editoras "evangélicas" estão com suas produções aquecidas, as livrarias "cristãs" proliferam com grande rapidez - mas será esse um marco da verdadeira vida cristã e de um avivamento genuíno? Creio que não.

Quando a palavra de Deus nos diz que ela é útil "para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça", isso necessariamente deve-se traduzir em boa piedade cristã, isto é, boa doutrina aliada à prática - e nesse ponto, os puritanos eram majestosos. Eles concordavam com o Catecismo Maior de Westminster que diz:

Pergunta 01: “Qual é o fim supremo e principal do homem? Resposta: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus (Rm 11.36; I Co 10.31) e gozá-lo para sempre”(Sl 73.24- 26; Jo 17.22- 24). 

Mas como isso se traduz na vida prática? Para Thomas Watson (puritano que viveu entre 1620 e 1686), essa resposta do catecismo tinha duas finalidades específicas para a vida: a glorificação de Deus e a satisfação em Deus [2]. "Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre. Amém" (1 Pe 4:11 - grifo meu).

Não há nenhum outro documento, livro, pensamento ou filosofia que esteja apto a ensinar o homem cristão sobre quem é Deus e o que o Senhor requer de Seus filhos, exceto a Bíblia. A suficiência das Escrituras nos mostram que pautar-se pelo estrito ensinamento bíblico é o melhor caminho a se seguir.

3. Somente a Escritura pode nos tornar perfeitos e aptos para a obra do Senhor - "Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2 Tm 3:17).

A finalização dessa breve sentença de Paulo (versículos 16 e 17) é quase que uma obviedade devido a construção que ele faz, contudo parece ser extremamente obscura para muitos professos da fé cristã.

Muitos "evangélicos" concordariam com nosso primeiro ponto que diz que "toda a Escritura é divinamente inspirada". Também estariam de acordo de que ela é "proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça", porém, quando suas vidas são analisadas à luz dessa Escritura que é proveitosa para instruir em todo o conhecimento de Deus, percebemos que o círculo não completa o seu ciclo, isto é, embora professem crer na inspiração da Escritura e digam que ela é proveitosa para suas vidas, isso não se manifesta em suas obras e em seu caráter que deveria ser de um crente em Cristo Jesus. Em muitos casos a Palavra de Deus parece ser suficientemente clara, a ponto de ninguém poder escusar-se da responsabilidade que tem  de seguir os princípios bíblicos ali expostos - e creio que esse seja um desses casos.

Observemos que Paulo finaliza o seu argumento dizendo que a implicação prática de toda a Escritura ser divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, é "Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra". Mas diferentemente do que muitos homens afirmaram - como John Wesley, Charles Finney e outros -, não se pode atingir a perfeição moral (isto é, boas obras e um viver digno perante a sociedade) e nem tampouco a perfeição teológica nessa vida (que naturalmente leva à uma boa prática cristã). 

Paulo instrui a Timóteo dizendo que a Escritura é suficiente "Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (grifo meu). Note que em momento algum das Escrituras (em todos os 66 livros da Bíblia) nos é dito que o homem convertido deixa de pecar quando torna-se crente, contudo, nos diz que no tocante à sua vida pós conversão, esse homem passa a ter um parâmetro perfeito para sua vida, a saber, as Escrituras. Isto é, se o homem regenerado não passa a pautar-se pelas Escrituras, grandes são as dúvidas de que tal homem foi verdadeiramente transformado - "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8:9).

A finalidade das Escrituras é nos fazer "perfeitamente instruído(s) para toda a boa obra", ou seja, se desejamos ter um andar cristão, um pensar cristão, um viver cristão, precisamos sem demora nos banharmos nas águas santas e profundas das Escrituras. "Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito" (Tg 1:23-25).

Amém.


Notas:
[1] Sobre esse ponto, recomendo ler GEISLER, Norman e William Nix. Introdução Bíblica - como a Bíblia chegou até nós. Editora Vida
[2] WATSON, Thomas. A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster. Editora Cultura Cristã


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