sexta-feira, 24 de março de 2017

Se conhecemos, então a Trindade existe: um argumento transcendental a partir e para a Trindade

O argumento a partir e para a Trindade é a peça central do método apologético de Cornelius Van Til.[1] A inspiração para esse argumento é o problema filosófico que iniciou-se nos pré-socráticos[2], chamado de “problema de um e muitos”. Na visão de Van Til, apenas o teísmo – na verdade, apenas o teísmo cristão, com sua visão trinitária de Deus – pode fornecer uma solução para este problema. O que se segue é uma explicação exemplificada do problema. Com a advertência de que exigirá do leitor paciência e reflexão para entender cada parágrafo antes de passar para o próximo.

Uma característica intrigante da realidade é que ela existe em aspectos de unidade e pluralidade: por exemplo, João e Maria manifestam a unidade em virtude do fato de serem humanos e de pluralidade em virtude do fato de que não são os mesmos humanos, mas duas pessoas distintas. Além disso, para ter conhecimento de João, preciso ser capaz (pelo menos em princípio) de compreender tanto o que o unifica com outras coisas no mundo como o que o distingue dessas outras coisas. Se, em princípio, não posso compreender o que distingue João de outras coisas, por que qualquer conhecimento que eu possuir de João seja considerado realmente conhecimento de João, ao invés de Maria ou qualquer outra coisa? E se, em princípio, eu não posso nem mesmo entender o que unifica João com outras coisas (por exemplo, que ele tem qualidades que não são somente dele, mas podem ser exemplificadas[3] por outras coisas, como Maria), por que eu deveria pensar possuir qualquer informação significativa sobre ele?
Segue-se como um princípio geral que, para ter conhecimento de objetos no mundo, o mundo deve ser tal que sua unidade e pluralidade sejam relacionadas, mas distintas. Por essa razão, as expressões de unidade e pluralidade no mundo devem manifestar-se pela unidade (através de relações comuns) e pluralidade (através de distinções).
ARGUMENTOS CONTRA OS PLURALISTAS
A questão que surgiu na Grécia antiga questiona qual o aspecto da realidade é o final[4]: unidade ou pluralidade? Suponhamos que a pluralidade é final. Segue-se que a realidade, em última análise, consiste em um agregado de coisas que são completamente diferentes e não relacionadas entre si, uma vez que qualquer coisa que sirva para conectá-las equivaleria a um princípio unificador mais final, que por hipótese não existe. Na verdade, é ilusório falarmos de um “agregado” de “coisas”, uma vez que tais termos pressupõem uma unidade subjacente pelo qual as coisas podem ser “agregadas” como instâncias de “coisa”. No entanto, como eu observei em princípio nada pode ser conhecido sobre coisas completamente diferentes e não relacionadas.
Outros problemas podem ser derivados a partir deste princípio de pluralidade final. O pluralista abraça uma visão da realidade como uma esfera do acaso dentro do qual todas as verdades empíricas, racionais e éticas existem em indiferença relativa para com o outro, não há nenhuma coerência ou ligação entre um e outro. Problematicamente, isso nos dá todas as razões para duvidar de nossas capacidades cognitivas para conhecermos algo. Pois que princípio garante que nosso raciocínio é equipado para entender o mundo como ele realmente é, visto que todas as coisas são desconexas, incluindo a minha razão e a realidade? Se mesmo o menor pedaço de realidade fugir a compreensão da razão, haveria uma área de realidade totalmente desconhecida para todos. E ainda, esta área pode ter alguma influência sobre a realidade que parece termos conhecimento. Por isso, não teríamos nem mesmo conhecimento daquilo que pensávamos ter conhecimento. Van Til considera Kant como indubitavelmente correto em assegurar que a mente do homem e os fatos do universo nunca deveriam ter sido separados.[5]
Podemos pensar também que o mundo só é inteligível se houver princípios abstratos imutáveis. Precisamos pressupor, por exemplo, o princípio da não-contradição[6], até para nos comunicarmos. Sem esse princípio, a Trindade poderia existir e não existir, na verdade, até a comunicação seria impossível. Pois quando eu digo que algo é, não significa que não é. O significado pressupõe o princípio imutável da não-contradição. Mas, numa metafísica pluralista, esse princípio é algo evidente por si mesmo como existindo sem ter qualquer relação com a realidade, pois não há nada que unifique os dois. Assim, a realidade está completamente a mercê do acaso[7] e sujeito a contradições. Talvez a única característica confiável da realidade é o fato de estar constantemente flutuando e passando para o seu oposto. Mas um universo que está constantemente e imprevisivelmente mudando pode muito bem passar para a não-existência completamente, no qual cada característica do universo, incluindo a própria mudança, seria perdida.
Na teoria, o pluralista considera os fatos como objetos básicos e mais imediatos do conhecimento. Ele, por sua vez, se considera um recipiente igualmente vazio e indiferente desses fatos. Mas, na prática, esse ponto de vista revela-se auto-destrutivo. Cada tentativa de identificar conscientemente um fato bruto revela a dependência de qualidades universais (unas) – por exemplo, “ele é um homem”, “isto é vermelho”, etc.
ARGUMENTOS CONTRA OS MONISTAS
Suponhamos que a unidade é final. Segue-se que a realidade é fundamentalmente monista[8]: é uma coisa indiferenciada. Porém, em princípio, mais uma vez, nada pode ser conhecimento sobre tal coisa, porque não pode haver algo a partir do qual distingui-lo, incluindo o “nada” – pois nesse caso até a distinção entre ser e não-ser é dissolvida. Além disso, não poderíamos sequer nos conhecer. Pois para conhecermos qualquer coisa significativa sobre si mesmo, é preciso ser capaz de julgar que se exemplificam certas qualidades e não outras; contudo, se a realidade é uma unidade final, não pode haver distinção genuína entre uma qualidade e outra.
Até as ideias racionais[9] do monista, como “homem”, precisariam ser contrastadas e unificadas entre si em fatos concretos diferentes para serem definidas. O que poderia significar conhecer “homem” a parte de uma consciência empírica de que ele é incompatível com “os animais irracionais” e ainda perfeitamente capaz de união com outras qualidades universais diferentes como “gordo” ou “baixo”. Nesse caso, os universais não são autodefinidos, mas têm sua definição mediada por combinações factuais. Somos levados à conclusão de que os universais são ininteligíveis e indistinguíveis quando tomados em si e por si mesmos.

Em ambos os casos, uma vez que a realidade não pode ser conhecida em seu nível mais básico, a compreensão de qualquer coisa dela é obscura. Na verdade, em ambos os casos, como dito, a noção de “coisa” seria ininteligível.

Mas será que qualquer deus poderia criar a realidade de maneira una e múltipla? Pense em um deus unitário. Nada pode ser precisamente predicado de uma divindade estritamente unitária, uma vez que a multiplicidade envolvida na predicação está em desacordo com sua natureza. Uma coisa que não tem nada a distinguir é impensável, mas igualmente impensável é uma coisa que está tão separado de todas as outras coisas que não tem nada em comum com elas. Se tal ser tivesse uma definição negativa de como ela existe em contraste com a criação, ele só demonstraria sua dependência do universo temporal para ter diferenciação e relação que ele não tem em si mesmo. E mesmo que esse deus fosse considerado como tendo distinções internas entre princípios, faculdades, motivos, interesses que são distintos de sua pessoa, ele então seria um efeito de princípios sub-pessoais.[10] Tal deus não pode ser uma deidade verdadeira.

ARGUMENTO TRANSCENDENTAL A PARTIR E PARA A TRINDADE

Por que Van Til pensa que o teísmo cristão escapa desse dilema? Seu pensamento é que, em uma ontologia[11] teísta cristã, nem a unidade nem a pluralidade é final em relação ao outro, mas sim os dois aspectos da realidade são co-finais, na medida em que eles são expressões da tri-unidade de Deus. Deus exibe tanto unidade última quanto pluralidade última: ele é um em “essência” e três em “pessoa”. Além disso, a criação reflete a unidade e a pluralidade de seu Criador de uma forma derivada e análoga.
Assim, o “único” Deus não pode cair no esquecimento como um universal abstrato e indistinto, pois Ele é definido concreta e infinitamente em relação às “três” pessoas. Os “três” também não se rebaixam em particulares irracionais que evitam a definição, pois são exaustivamente definidos pela dinâmica trinitária. Nada, então, ficaria fora da compreensão pessoal de Deus, incluindo a relação entre Seu ser tríplice e seu autoconhecimento abrangente. Deus seria uma pessoa auto-contido, auto-definida e auto-suficiente.

Dessa maneira, não é que tal esquema crie uma compreensão abrangente do universo possível para nós, mas sim torna possível a Deus, que por sua vez pode nos fornecer uma compreensão parcial e derivada do universo. Em todo o caso, o ponto principal aqui é que somente uma ontologia na qual unidade e pluralidade são co-finais no nível mais fundamental pode permitir o conhecimento.
Se quisermos ter coerência em nossa experiência, deve haver uma correspondência de nossa experiência com a experiência eternamente coerente de Deus. O conhecimento humano, em última análise, repousa sobre a coerência interna dentro da divindade; nosso conhecimento repousa sobre a Trindade ontológica como o seu pressuposto.
A surpreendente conclusão é que até a negação da existência da Trindade, afirma-o. Todo ato de conhecimento ou predicação pressupõe a existência da harmonia absoluta e pessoal da unidade e da pluralidade, dentro do Deus Trino. Negações que a Trindade existe são afirmações de posse de conhecimento e atos de predicação. Portanto, o Deus Triúno existe.[12]

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Notas:
[1]Cornelius Van Til foi o fundador do método apologético chamado pressuposicionalismo. Neste mesmo blog você pode encontrar mais informações sobre essa metodologia em minha autoria.
[2] Os pré-socráticos foram os primeiros filósofos. Movimento que surgiu na Grécia Antiga.
[3] Como, por exemplo, ambos serem uma pessoa. “Exemplificados” é um termo que os filósofos usam para se referir que um universal está instanciado em algum particular.
[4] Por “final” eu quero dizer aquilo que é último ou definitivo, o que tem primazia.
[5] Você pode observar que a visão pluralista de mundo costuma ser o pressuposto dos cientistas contemporâneos que se professam ateus.
[6] Este princípio afirma que algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e no mesmo sentido.
[7] Esse argumento serve para qualquer outro princípio lógico que tem a utilidade de tornar o mundo inteligível, isto é, entendível para a mente humana.
[8] Monismo afirma a unidade da realidade como um todo.
[9] Por ideias racionais, eu me refiro a tanto universais quanto a princípios lógicos e éticos.
[10] Isto é, ele não é uma pessoa em si mesmo. Mas o resultado de diversas partes juntas que em si mesmo são menores que uma pessoa. A exemplo temos o Exodia do desenho animado Yu-Gi-Oh! que só se torna quem ele é devido a junção de suas partes, e ele é o efeito dessas partes. Mas, novamente, falar de “partes” aqui seria ilusório conforme argumentei em pontos anteriores. Outro artigo será necessário para esclarecer melhor o argumento contra um deus estritamente unitário.
[11] “Ontologia” é o estudo daquilo que existe.
[12] Está é uma versão de um argumento transcendental para a existência de Deus. Esse modo de argumento transcendental busca as condições de possibilidade para a experiência inteligível. E dado que Deus é essa condição, tanto a afirmação quanto a negação de sua existência irá afirmá-lo.

Sobre o autor: Gabriel Reis é Aspirante ao seminário na 1ª Igreja Presbiteriana do Brasil em Duque de Caxias-RJ. Graduando em filosofia pela UFRJ. Namora a Márcia Dias. Sonha em atuar no campo missionário transcultural junto com sua futura esposa. E fundador da Página Apologética Reformada.

Fonte: Bereianos

quarta-feira, 22 de março de 2017

Meu herege de estimação

Gostos pessoais nunca deveriam ser colocados em pé de igualdade ao Evangelho. Quando a subjetividade dos gostos pessoais se infiltra no contexto da igreja, a possibilidade de problemas é tão certa como o fulgor do sol do meio-dia. O Evangelho deveria ser o norteador de absolutamente tudo que acontece na igreja, justamente porque a igreja deveria estar sendo conduzida sob a direção do Evangelho. O grande problema que pode ser observado e que se torna um desafio para nossos dias é que os falsos ensinos e falsos mestres estão se multiplicando como fogo em palha, justamente pelo clamor e anseio de gostos pessoais.
Nestes dias tão estranhos, o que deixa grande parte dos crentes irritados já não são os falsos mestres e seus ensinos. O que os aborrece são justamente aqueles que denunciam a perversão do Evangelho e confrontam a operação dos “hereges de estimação”. Percebe-se uma clara inversão de valores e nunca será tarde para combater e bradar contra aquilo que foge ao padrão bíblico, já que não são poucos os tragados pelos falsos ensinos. Disse Spurgeon:
Falsos mestres que hábil e laboriosamente caçam preciosas vidas, devorando homens com suas falsidades, são perigosos e detestáveis como lobos da noite. Corremos muito perigo quando eles se vestem com pele de ovelha. Abençoado é aquele que está livre deles, pois milhares se tornam presas de lobos atrozes que transitam nos arredores da igreja. [1]

Eles estão espalhados, infiltrados por todos os lados. Não se trata de mera especulação ou mesmo de síndrome de conspiração. Basta observar o conteúdo das pregações, congressos, retiros, livros e músicas! Ah, as músicas, grande celeiro de ensinos duvidosos, fábrica de ídolos, pervertedores do Evangelho. Livros e mais livros nas fileiras de Best Sellers que ensinam de tudo sob o rótulo de cristão, porém com pouco ou nada de Evangelho. Preletores que movimentam massas e cifras para pregações vazias e com status de show de comédia stand-up. Já que estamos em busca de um avivamento genuíno em nossos dias, que seja algo puro e nutrido pela Palavra de Deus.
Um problema antigo
O que acontece em nossos dias vem se repetindo num desgastante movimento cíclico de geração em geração desde os primórdios da igreja. Para meditação e comparação com nosso contexto atual, o ponto de partida está na breve – porém profunda – Epístola de Judas, irmão de Tiago (Jd 1), irmão do Senhor Jesus (Mt 13.55; Mc 6.3). Este não deve ser confundido com Judas Iscariotes, o traidor. Ao lermos os ensinos prestados pelas Escrituras no texto de Judas, versículos 10 ao 13, podemos perceber que as preocupações da igreja naquele momento estão se repetindo em nossos dias. Afinal:
Judas descreve sua obra em termos de exortação e de encorajamento (Jd 3). Obviamente, ele queria fortalecer as igrejas contra falsos mestres que estavam pervertendo o evangelho. Desse modo, ele repetidamente conclamou os crentes a ficarem firmes ou manterem a sua pureza e o evangelho (vv. 3, 20, 21, 24). [2]

Crentes contemporâneos estão cada vez mais lendo as Escrituras de modo alegórico. Pregadores cada vez mais trazendo mensagens relativizadas e carentes de exposição das Escrituras. Cantores compondo e contando letras egocêntricas, focadas no homem e distantes de Deus e sua Palavra. Ainda que às vezes até falem no nome de Deus, tratam com objetivos cada vez mais distantes do Evangelho. João Calvino assim comenta sobre tais homens, dentro do contexto da Epístola de Judas, porém nada diferente dos dias da Reforma Protestante e de nossos dias:
Como os homens destituídos de princípios, sob o título de cristãos, se insinuavam sorrateiramente, cujo principal objetivo era levar os instáveis e fracos a um profundo descaso de Deus, Judas mostra, antes de tudo, que os fiéis não devem deixar-se mover por agentes deste gênero, pelos quais a igreja sempre se viu assaltada; e os exorta ainda a se precaverem, cuidadosamente, de tais pestes. […] Ora, se consideramos o que satanás tem tentado em nossa época, desde quando o evangelho começou a ser vivificado, e quais as artes ele ainda emprega ativamente com o fim de subverter a fé e o temor de Deus, e que utilidade teve esta advertência nos dias e Judas, ela se faz ainda mais que necessária em nossos dias. [3]

Assim como a advertência de Calvino há quase quinhentos anos, comentando sobre a Epístola de Judas, que a igreja já era perturbada por “pestes”, nossos dias mostram pela aplicação da própria Escritura exposta que nossa vigilância precisa ser constante. Ainda que muito prejudiciais para a saúde da igreja, existem aqueles que cegamente lançam-se aos braços dos hereges, cultivando-os como seres de estimação. Infelizmente este sistema de crença demonstra que se trata de uma relação quase comercial, de oferta e demanda: onde existe um herege levantando um falso ensino, existirão corações ávidos para aclamá-lo.

Nas Escrituras
Para amplitude do que está sendo aqui tratado, além da leitura completa da Epístola de Judas, recomenda-se a leitura da 2ª carta de Pedro, pela proximidade e complemento dos assuntos abordados.
Vejamos pela Bíblia:
Tais indivíduos, porém, zombam de coisas que não entendem. Como criaturas irracionais, agem segundo seus instintos e, desse modo, provocam a própria destruição”. Judas 10

Historicamente os oponentes da igreja que foram combatidos na Epístola de Judas são identificados como pertencentes à seita gnóstica primitiva[4]. Esta seita primitiva alegava que somente os iniciados em seus ensinos eram capazes de chegar ao verdadeiro conhecimento, ou seja, sua religião mística era detentora do caminho perfeito. Zombavam de coisas que não entendiam, pois seguiam seus mestres hereges, como bem descrito por Paulo em 1Tm 4.1. Acharam mestres segundo suas vontades (2Tm 4.1-5) e com isso traziam perversão ao Evangelho de Cristo e perturbação nas reuniões de comunhão dos crentes.
Em nossos dias não são poucos que se lançam a supostas visões e revelações que não encontram qualquer paralelo e respaldo nas Sagradas Escrituras – e pior – vão à contramão daquilo que a Bíblia ensina. Tais pessoas guiam cegos na sua cegueira rumo ao abismo e a destruição. Infelizmente seus seguidores mergulharam em nível de cegueira tão profunda que não aceitam sequer argumentos contrários. Apoiados na tolice e repetição quase como um papagaio de “não julgueis para não ser julgados”, filtram moscas e engolem camelos. Cultivam hereges de estimação.
Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré.” Judas 11

Aqui está o motivo de tudo. O enganoso coração dos falsos mestres que são postos pela Escritura em pé de igualdade com o que há de pior na Bíblia: Caim, Balaão e Coré. Da mesma forma que Jesus aplica os “ais” de Mateus 23, Judas aplica “ai” para estes que são comparados a Caim, Balaão e Coré.

Caim foi o primeiro assassino registrado nas Escrituras, homem perverso, injusto e vazio de amor, egoísta e egocêntrico. Leia e compare os textos de Gn 4.4-15 e 1Jo 3.11-12. Percebe-se também que Caim é a tentativa frustrada de tentar agradar ou mesmo barganhar com Deus pelos esforços meramente humanos. Pior que toda sua prática reprovável é sua atitude posterior, demonstrando o cinismo e materialismo desafiador de Caim quanto à soberania do Deus vivo. Para benefício próprio, aqueles que agem como Caim desprezam o próximo, são vazios de compaixão, fé e amor, além de passar a ser um claro agente opositor da ação da graça de Deus.
Balaão, por sua vez, mostra a personalidade do avarento, mentiroso e de coração cheio de cobiça e engano. Para aprofundar o entendimento sobre Balaão, leia Números nos capítulos 22 ao 24. Já em Nm 25 traz a narrativa sobre o erro de Balaão por ter levado o povo de Israel ao caminho da imoralidade e idolatria, ao incentivar Balaque, rei de Moabe, com a introdução de “donzelas” no meio do povo de Deus (veja Nm 31.16). Agiu desta forma, pois tentara amaldiçoar o povo de Deus sendo incapacitado a proferir maldições. Nos dias de hoje os que se assemelham a Balaão alegam que o pecado é algo não tão sério assim e que não existe conseqüência sobre nossos erros, afinal, movidos pela avareza e cobiça de um coração de Balaão, facilmente ocultam o que está errado pelos honorários e lucros financeiros que facilmente desvirtuam a exortação bíblica. Tais homens seriam capazes de vender a própria mãe pela avidez e presunção de seus corações, imagine o que são capazes de fazer com um povo ignorante a respeito da Bíblia? William MacDonald comenta assim sobre Balaão:
Como Balaão, os falsos mestres de hoje são agradáveis e convincentes. Conseguem dizer duas coisas ao mesmo tempo. Em sua ganância, omitem a verdade a fim de aumentar a própria renda e procuram transformar a casa de Deus em casa de negócio. A cristandade de hoje se encontra contaminada pelo pecado da simonia. Se a busca por lucro pudesse, de algum modo, ser removida, muitos trabalhos supostamente cristãos deixariam de existir.[5]

Coré, por sua vez,  apresenta a rebeldia e insubordinação aos valores absolutos. Fala também sobre um princípio de autoridade que fere os ouvidos de muitos – tanto dentro como fora da igreja – em dias de tanto relativismo ético e moral. Filhos desobedientes, empregados rebeldes, membros de igreja facciosos, os exemplos seriam intermináveis. Nm 16 fala sobre a desobediência, cegueira, rebeldia e insubordinação de Coré – em parceria com Datã e Abirão – contra Moisés e Arão. Coré se julgava como um tipo que nos dias de hoje são vistos como um canal, um guru, quase um gnóstico dos dias de Judas. Aqueles que alegam possuir revelações especiais e direções exclusivas – supostamente vindas de Deus – mas que passam longe da revelação bíblica, assim como o norte está do sul. O Novo Testamento fala sobre figuras de postura semelhante à de Coré, como pode ser complementado com a leitura dos textos de Tt 1.9-11; 1Tm 1.19-20 e 3Jo 9,10 que ajudarão a entender melhor as consequências desta rebeldia espiritual.
A sequência do texto de Judas exemplifica como estes três tipos desvirtuam a igreja de seu foco e propósito, sugando sua saúde e tirando propósito da própria comunidade em benefício próprio.
Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas; Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas.” Judas 12 – 13

As Festas de Comunhão ou as Ágapes eram momentos de comunhão entre os irmãos da igreja primitiva, muitas vezes apontando até mesmo para a celebração da Ceia do Senhor. Uma vez que estas reuniões ocorriam nas casas, os falsos mestres se infiltraram na comunidade pervertendo a comunhão em licenciosidade, com posturas de gula, desordem, imoralidades e até mesmo orgias. Calvino, ao comentar sobre estes indivíduos, lamenta que este “espírito de tolerância” tenha gerado conivência com o erro ao ponto de ser danoso para igreja:
Eu, em nossos dias, desejaria que houvesse mais critério em alguns bons homens, os quais, procurando ser extremamente bondosos para com homens perversos, causam grande dano em toda a igreja. [6]

Judas emprega uma série de exemplos da natureza e do cotidiano para tratar do cuidado que a igreja deve ter quanto aos falsos mestres, que assim como dito anteriormente, estavam infiltrados na igreja primitiva e continuam infiltrados na igreja contemporânea. Quando o texto emprega “manchas em vossas festas”, fala sobre rochas e recifes submersos (algumas tradução bíblicas empregam exatamente o termo rochas e recifes) que são verdadeiras armadilhas para embarcações no mar podendo levá-las ao naufrágio. Já para os cristãos estes certamente podem naufragar em sua fé diante destes riscos e pela ausência do filtro bíblico em suas vidas.

Estes pervertedores ainda são chamados de “pastores de si mesmos”, numa clara referência a rebeldia de Coré anteriormente relatada. São mestres do egocentrismo, pois apesar de querer conduzir a outros, não são capazes de se deixar ser pastoreados, mostrando claramente que não são ovelhas, mas bodes ou lobos. Não se deixam pastorear, mas levam e afastam as pessoas para os caminhos tortos. São como nuvens sem água, pois apesar do alarido e da promessa de chuva, por onde passam deixam a terra sedenta e seca, apenas tapando o sol temporariamente para que sejam levadas em seguida pelos ventos.
O texto fala ainda sobre árvores sem frutas sem folhas, murchas ou secas, mortos no pecado como consequência do afastamento de Deus e de sua palavra. Por dado momento engana a muitos com aparência de piedade e religiosidade fervorosa, até pareceu ter vida, mas na verdade era morta e sem raiz – duplamente mortos.
Por fim o contexto fala ainda sobre os falsos mestres como ondas do mar, que apesar de muito barulho e alarido apenas efetuam o infindável movimento de ir e vir, vomitando suas sujeiras e imundícies, bastando que baixe a maré para que sua impiedade, ganância e avareza fiquem à mostra na areia da praia. Ou ainda os comparando a estrelas cadentes que por um instante brilham no céu e trazem uma passageira beleza, que rapidamente torna-se fora de curso, se perdendo ao apagar na escuridão das trevas, para desgosto dos seguidores.

Conclusões

Nos versículos 20 a 25 da Epístola de Judas, encontramos palavras finais para todo o contexto da carta. Mais uma vez ele apela para que haja sobriedade por parte dos seus leitores e destinatários, bem como hoje para toda a igreja, quanto a postura ética e doutrinária. Além disso, conclama aos cristãos para que sejam edificados na fé, estejam revestidos pelo poder do Espírito Santo e em estado de firmeza e alerta. A Epístola termina com palavras de doxologia (oração de louvor e glorificação) para exaltação do Senhor por sua majestade e glória, bem como pelo seu poder de preservação de nossa fé.
Que possamos nos inspirar ainda mais para nossa vida cristã através das palavras desta curta e poderosa carta. Firmes e em prontidão para a defesa do Evangelho e alertando aqueles que insistem em manter estima pelos que pervertem a boa fé alheia.

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Notas:
[1] SPURGEON, Charles H. “Dia a dia com Spurgeon”. Curitiba: Pão Diário, 2015. p.519
[2] COMFORT, Philip W. e ELWELL, Walter A. org. “Dicionário Bíblico Tyndale”. Santo André: Geográfica, 2015. p.1023
[3] CALVINO, João. “Epístolas Gerais”. São José dos Campos: Fiel, 2015. p.497
[4]  WEBB, Robert in REID, Daniel G. ed. “Dicionário teológico do Novo Testamento”. São Paulo: Vida Nova, 2012. p. 780
[5] MACDONALD, William. “Comentário popular do NT”. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p.986
[6] CALVINO, João.  Op. cit. p.513

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Autor: João Rodrigo Weronka
Fonte: NAPEC

segunda-feira, 20 de março de 2017

O Evangelho de Satanás

O evangelho de Satanás não é um sistema de princípios revolucionários, nem ainda é um programa de anarquia. Ele não promove a luta e a guerra, mas objetiva a paz e a unidade. Ele não busca colocar a mãe contra sua filha, nem o pai contra seu filho, mas busca nutrir o espírito de fraternidade, por meio do qual a raça humana deve ser considerada como uma grande "irmandade". Ele não procura deprimir o homem natural, mas aperfeiçoá-lo e erguê-lo. Ele advoga a educação e a cultura e apela para "o melhor que está em nosso interior" - Ele objetiva fazer deste mundo uma habitação tão confortável e apropriada, que a ausência de Cristo não seria sentida, e Deus não seria necessário. Ele se esforça para deixar o homem tão ocupado com este mundo, que não tem tempo ou disposição para pensar no mundo que está por vir. Ele propaga os princípios do auto-sacrifício, da caridade, e da boa-vontade, e nos ensina a viver para o bem dos outros, e a sermos gentis para com todos. Ele tem um forte apelo para a mente carnal, e é popular com as massas, porque deixa de lado o fato gravíssimo de que, por natureza, o homem é uma criatura caída, apartada da vida com Deus, e morta em ofensas e pecados, e que sua única esperança reside em nascer novamente.

Contradizendo o Evangelho de Cristo, o evangelho de Satanás ensina a salvação pelas obras. Ele inculca a justificação diante de Deus em termos de méritos humanos. Sua frase sacramental é "Seja bom e faça o bem"; mas ele deixa de reconhecer que lá na carne não reside nenhuma boa coisa. Ele anuncia a salvação pelo caráter, o que inverte a ordem da Palavra de Deus - o caráter como fruto da salvação. São muitas as suas várias ramificações e organizações: Temperança, Movimentos de Restauração, Ligas Socialistas Cristãs, Sociedades de Cultura Ética, Congresso da Paz estão todos empenhados (talvez inconscientemente) em proclamar o evangelho de Satanás - a salvação pelas obras. O cartão da seguridade social substitui Cristo: pureza social substitui regeneração individual, e, política e filosofia substituem doutrina e santidade. A melhoria do velho homem é considerada mais prática que a criação de um novo homem em Cristo Jesus; enquanto a paz universal é buscada sem que haja a intervenção e o retorno do Príncipe da Paz.

Os apóstolos de Satanás não são taberneiros e traficantes de escravas brancas, mas são em sua maioria ministros do evangelho ordenados. Milhares dos que ocupam nossos modernos púlpitos não estão mais engajados em apresentar os fundamentos da Fé Cristã, mas têm se desviado da Verdade e têm dado ouvidos às fábulas. Ao invés de magnificar a enormidade do pecado e estabelecer suas eternas consequências, o minimizam ao declarar que o pecado é meramente ignorância ou ausência do bem. Ao invés de alertar seus ouvintes para "escapar da ira futura", fazem de Deus um mentiroso ao declarar que Ele é por demais amoroso e misericordioso para enviar quaisquer de Suas próprias criaturas ao tormento eterno. Ao invés de declarar que "sem derramamento de sangue não há remissão", eles meramente apresentam Cristo como o grande Exemplo e exortam seus ouvintes a "seguir os Seus passos". Deles é preciso que seja dito: "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus" (Rm 10:3). A mensagem deles pode soar muito plausível e seu objetivo parece muito louvável, mas, ainda sobre eles nós lemos: "Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras" (2 Co 11:13-15).

***
Autor: Arthur W. Pink (1886-1952)
Fonte: www.pbministries.org
Tradução: Pr. Walter Campelo

Via: Jornal Reforma Hoje, 2ª edição 2012, página 03.

sábado, 18 de março de 2017

Alimentando as ovelhas ou divertindo os bodes?

Existe um mal entre os que professam pertencer aos arraiais de Cristo, um mal tão grosseiro em sua imprudência, que a maioria dos que possuem pouca visão espiritual dificilmente deixará de perceber. Durante as últimas décadas, esse mal tem se desenvolvido em proporções anormais. Tem agido como o fermento, até que toda a massa fique levedada. O diabo raramente criou algo mais perspicaz do que sugerir à igreja que sua missão consiste em prover entretenimento para as pessoas, tendo em vista ganhá-las para Cristo. A igreja abandonou a pregação ousada, como a dos puritanos; em seguida, ela gradualmente amenizou seu testemunho; depois, passou a aceitar e justificar as frivolidades que estavam em voga no mundo, e no passo seguinte, começou a tolerá-las em suas fronteiras; agora, a igreja as adotou sob o pretexto de ganhar as multidões.

Minha primeira contenção é esta: as Escrituras não afirmam, em nenhuma de suas passagens, que prover entretenimento para as pessoas é uma função da igreja. Se esta é uma obra cristã, por que o Senhor Jesus não falou sobre ela? “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15) — isso é bastante claro. Se Ele tivesse acrescentado: “E oferecei entretenimento para aqueles que não gostam do evangelho”, assim teria acontecido. No entanto, tais palavras não se encontram na Bíblia. Sequer ocorreram à mente do Senhor Jesus. E mais: “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11). Onde aparecem nesse versículo os que providenciariam entretenimento? O Espírito Santo silenciou a respeito deles. Os profetas foram perseguidos porque divertiam as pessoas ou porque recusavam-se a fazê-lo? Os concertos de música não têm um rol de mártires.

Novamente, prover entretenimento está em direto antagonismo ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos. Qual era a atitude da igreja em relação ao mundo? “Vós sois o sal”, não o “docinho”, algo que o mundo desprezará. Pungente e curta foi a afirmação de nosso Senhor: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos” (Lc 9.60). Ele estava falando com terrível seriedade!

Se Cristo houvesse introduzido mais elementos brilhantes e agradáveis em seu ministério, teria sido mais popular em seus resultados, porque seus ensinos eram perscrutadores. Não O vejo dizendo: “Pedro, vá atrás do povo e diga-lhe que teremos um culto diferente amanhã, algo atraente e breve, com pouca pregação. Teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que com certeza realizaremos esse tipo de culto. Vá logo, Pedro, temos de ganhar as pessoas de alguma maneira!”. Jesus teve compaixão dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca procurou diverti-los. Em vão, pesquisaremos as cartas do Novo Testamento a fim de encontrar qualquer indício de um evangelho de entretenimento. A mensagem das cartas é: “Retirai-vos, separai-vos e purificai-vos!”. Qualquer coisa que tinha a aparência de brincadeira evidentemente foi deixado fora das cartas. Os apóstolos tinham confiança irrestrita no evangelho e não utilizavam outros instrumentos. Depois que Pedro e João foram encarcerados por pregarem o evangelho, a igreja se reuniu para orar, mas não suplicaram: “Senhor, concede aos teus servos que, por meio do prudente e discriminado uso da recreação legítima, mostremos a essas pessoas quão felizes nós somos”. Eles não pararam de pregar a Cristo, por isso não tinham tempo para arranjar entretenimento para seus ouvintes. Espalhados por causa da perseguição, foram a muitos lugares pregando o evangelho. Eles “transtornaram o mundo”. Essa é a única diferença! Senhor, limpe a igreja de todo o lixo e baboseira que o diabo impôs sobre ela e traga-nos de volta aos métodos dos apóstolos.

Por último, a missão de prover entretenimento falha em conseguir os resultados desejados. Causa danos entre os novos convertidos. Permitam que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o alcoólatra para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! A resposta é óbvia: a missão de prover entretenimento não produz convertidos verdadeiros. A necessidade atual para o ministro do evangelho é uma instrução bíblica fiel, bem como ardente espiritualidade; uma resulta da outra, assim como o fruto procede da raiz. A necessidade de nossa época é a doutrina bíblica, entendida e experimentada de tal modo, que produz devoção verdadeira no íntimo dos convertidos.



Autor: Charles H. Spurgeon
Fonte: Monergismo

quinta-feira, 16 de março de 2017

Escatologia das Testemunhas de Jeová - Uma Ilustração do Autoritarismo das Seitas

O objetivo deste artigo é apresentar a escatologia das Testemunhas de Jeová a fim de ilustrar o papel central que a doutrina dos últimos dias tem para as seitas como forma de justificar a liderança autoritária da Torre de Vigia. As seitas costumam ter uma escatologia própria como uma tentativa de explicar a descontinuidade histórica que há entre elas e o Cristianismo primitivo. Para isso, as igrejas pseudocristãs colocam a si mesmas como um grupo religioso, cujo surgimento e história foram profetizados nas Escrituras.

Os adventistas, por exemplo, afirmam que a Bíblia profetizou o surgimento de um movimento que anunciaria uma data errada para a Volta de Jesus gerando um grande desapontamento, pregaria a guarda do sábado, anunciaria o Juízo investigativo, teria uma profetisa e que surgiria no final do século XIX e assim identificam a si mesmos como a única igreja verdadeira, a “igreja da profecia”. Veremos que o mesmo se dá em relação aos russelitas, além de evidenciar outras funções que a escatologia cumpre dentro da seita, especialmente em relação à justificação do autoritarismo do Corpo Governante.
1914 – O INÍCIO DOS ÚLTIMOS DIAS
Para as Testemunhas de Jeová os últimos dias começaram em outubro de 1914. Nesse ano, algumas coisas aconteceram [1]:
1.  Jesus foi empossado Rei no Céu: Jesus começou a reinar no céu como Rei do Reino de Jeová.
2.  Satanás foi expulso do Céu: Quando começou a reinar, Jesus expulsou Satanás do céu para a terra.
3.  Os sinais da vinda de Cristo começam a se manifestar na Terra: A vinda de Jesus é sua presença invisível como rei celestial, como Satanás e os demônios foram lançados a Terra, as coisas no mundo começaram a ficar ruins, fazendo surgir guerras, fomes, terremotos e doenças.
4.  Iniciou-se a ressurreição espiritual dos ungidos: Jesus passou a ressuscitar (na verdade “recriar em espírito”), os salvos que vão morar no céu (cujo número exato é de 144.000 pessoas). Assim, os fiéis apóstolos foram recriados invisivelmente em espírito e levados para o céu, e a partir de então, todo cristão ungido, ao morrer, é recriado em espírito e levado para o Céu, passando a governar com Jesus, como poderosa criatura espiritual.

A PURIFICAÇÃO DOS CRISTÃOS UNGIDOS
De acordo com a organização, a partir do ano 100 d.C., começou o cativeiro babilônico, um longo período em que o povo de Deus estaria em inatividade espiritual [2]. Depois que se tornou Rei em 1914, Jesus veio a Terra para fazer uma inspeção, a fim de começar a separar o trigo do joio, visto que os poucos cristãos verdadeiros estavam ocultos desde 100 d.C., quando Satanás teria começado a semear os “cristãos nominais”.[3]

Mas antes que Jesus viesse para fazer a inspeção, Jeová levantou o mensageiro que prepararia o caminho do Senhor: Charles Taze Russel e seus associados, estudantes da Bíblia que começaram a obra de restauração da verdade na Terra, os fundadores da religião das Testemunhas de Jeová. Assim, quando Jesus veio invisivelmente fazer sua inspeção, ele encontrou um grupo de estudantes da Bíblia que já pregavam a verdade há 30 anos.[4]
No entanto, esse grupo ainda era cheio de imperfeições e precisava ser purificado, assim de Dezembro de 1914 a Junho de 1918, cumpriram-se os três tempos e meios ou 1260 dias, durante os quais os cristãos passariam por um processo de purificação por meio de perseguições sofridas pelos salvos que vão morar no céu.[5] Terminada a purificação, em 1919, Jesus designou esses salvos para serem “o escravo fiel e discreto”, o qual deveria ser “o canal de comunicação” entre Jesus e os cristãos. Este grupo é formado pelos cristãos ungidos que fazem parte dos 144.000, seu dever é fornecer “alimento espiritual”, por meio das revistas a Sentinela e Despertai. Hoje, o “escravo fiel” é a liderança da religião – O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová com sede em Brooklin, NY.[6]
Além dos salvos que vão morar no céu, existem os Testemunhas de Jeová comuns. Eles não têm um número definido, além disso, não têm os mesmos privilégios dos 144.000. Diferente dos que compõem o Corpo Governante, os Testemunhas de Jeová comuns, não são regenerados, nem adotados como filhos de Deus, não reinarão com Cristo e não podem participar da Santa Ceia. Jesus fez uma Nova Aliança apenas com os cristãos ungidos e por isso, Cristo é mediador somente entre Jeová e os 144.000. No entanto, os Testemunhas de Jeová comuns, por ajudarem os cristãos ungidos na obra da pregação, vão viver para sempre na Terra sob o governo dos 144.000.
O grupo dos “comuns” emergiu e se multiplicou ao sair vitorioso ao fim da Segunda Guerra Mundial, ocorrida no período profético das 2300 tardes e manhãs, que vai de 1 ou 15 de junho de 1938 a 8 ou 22 de outubro de 1944.[7] Enquanto os salvos que vão morar no céu são chamados “o escravo fiel e discreto”, os Testemunhas de Jeová comuns formam o grupo dos “domésticos”. Hoje existem cerca de 8 milhões de domésticos no mundo.[8] Um doméstico deve ser fiel aos ensinos do escravo fiel, mesmo quando eles são contrários à Bíblia [9]. Eles poderão viver para sempre no paraíso na Terra por terem auxiliado os 144.000 e por isso, são representados, por Jesus, como ovelhas à direita que deram de comer, beber e vestir aos “pequeninos de Jesus” (os cristãos ungidos).[10]

O ARMAGEDOM
De acordo com a seita, a última geração que não passará sem que aconteça o Armagedom, é formada por dois grupos: (i) os cristãos que foram ungidos em 1914, ou antes disso e (ii) os cristãos ungidos que foram contemporâneos aos do primeiro grupo. Alguns desse segundo grupo estarão vivos na Grande Tribulação. Esses cristãos já estão envelhecendo [11]  assim, o Armagedom deve acontecer por volta de 2034 [12].

Antes que comece a Grande Tribulação, haverá um tempo de “paz e segurança” pronunciado pelas nações e pelas religiões falsas. Em seguida, a Organização das Nações Unidas atacará as organizações religiosas do mundo, destruindo a cristandade e demais religiões falsas. A única religião que sobreviverá aos ataques da ONU será as Testemunhas de Jeová. Em seguida, provavelmente ocorrerão manifestações sobrenaturais no céu, então quando os perversos estiverem a ponto de iniciar um ataque contra as Testemunhas de Jeová, os cristãos ungidos que ainda estiverem na Terra serão arrebatados para o Céu. Em seguida, Jesus virá junto com os 144.000 e com seus anjos e aniquilará os maus da existência. Os que rejeitaram a Jeová no passado foram aniquilados assim que morreram (a morte natural é aniquilação da existência, segundo a escatologia das Testemunhas de Jeová), já os ímpios vivos no Armagedom serão eliminados da existência por Jesus. Ninguém sofrerá num inferno, mas somente as Testemunhas de Jeová sobreviverão ao extermínio. A sobrevivência ao extermínio que ocorrerá no Armagedom dependerá da obediência à Organização Torre de Vigia. [13]
O PARAÍSO RESTAURADO
As Testemunhas de Jeová sobreviventes ao Armagedom darão início à restauração da Terra. Elas terão a tarefa de transformar gradualmente toda a Terra em um paraíso. [14] Jesus e os 144.000 governarão, a partir do Céu, os súditos domésticos na Terra. O governo de Jeová promoverá diversos programas sociais para os habitantes da Terra, incluindo programas de saúde, moradia, alimento, educação e emprego. [15]

Ainda será possível perder a salvação durante os primeiros mil anos no paraíso. Quem for infiel a Jeová no paraíso será eliminado da existência. Jeová ressuscitará pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho e elas terão de cumprir as exigências que Jeová der a elas. Os que não estiverem dispostos a se ajustar às exigências de Jeová serão exterminados. Depois de 1.000 anos de paraíso, as pessoas ainda terão que passar por um teste final – uma tentação do Diabo. Somente aqueles que resistirem aos enganos de Satanás poderão continuar vivendo para sempre no paraíso na Terra, os demais serão eliminados da existência para sempre. [15]
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A escatologia das Testemunhas de Jeová ilustra bem as características de uma seita. Entre elas podemos citar:
1.  Autoritarismo: As Testemunhas de Jeová comuns estão debaixo da autoridade de um Corpo Governante privilegiado, ao qual são obrigadas a auxiliar caso queiram sobreviver ao extermínio do Armagedom.
2.  Exclusivismo: Somente sendo fiel à Organização Torre de Vigia será possível ser salvo. Elas são a única religião verdadeira. Jeová usará a Organização das Nações Unidas para eliminar todas as religiões, menos a Torre de Vigia.
3.  Legalismo: A condição para sobreviver ao Armagedom e até mesmo para não ser exterminado no paraíso, é ser obediente aos requisitos e exigências de Jeová. As Testemunhas de Jeová devem ser fiéis aos mandamentos da liderança, pois ela é o canal de comunicação que Jesus designou. [17]

A escatologia das seitas também é o meio que elas usam para explicar como um grupo que surgiu no século XIX pode ser a única religião verdadeira, mesmo estando em total descontinuidade com o Cristianismo primitivo. As Testemunhas de Jeová ensinam que o povo de Deus permaneceu oculto por 1819 anos (de 100 d.C. a 1919 d.C.) até que Jeová ressuscitasse do “vale de ossos secos”, a única religião verdadeira, colocando o “trigo” em evidência ao separá-lo do “joio” (Cristandade). Ainda, a Sociedade Torre de Vigia mantém a fidelidade de seus “domésticos” à organização, por meio do medo de que Jeová as extermine no Armagedom se não obedecerem ao escravo fiel e discreto:

“Elas acreditam que Jesus pagou pelo pecado de Adão, no jardim, mas cabe a elas trabalhar para a “perfeição”, seguindo as regras da organização Torre de Vigia. Embora as Testemunhas de Jeová sorriam quando apresentam a sua mensagem porta-a-porta, elas não têm a verdadeira paz e alegria no fundo de seus corações. Elas não têm certeza da salvação, porque a sua religião ensina que devem cumprir todos os regulamentos da organização Torre de Vigia, a fim ser achadas dignas o suficiente para sobreviver ao Armagedom (futura batalha de Deus para acabar com o governo dos ímpios). Em seu esforço para ter a aprovação de Deus, a organização domina-os através do medo e da culpa, concentrando-se na sua incapacidade de cumprir o que lhes é exigido. Isso deixa as Testemunhas de Jeová espiritualmente vazias, lutando arduamente pela aprovação de Deus, sem nenhuma garantia de onde elas vão acabar após a morte. É verdade que enquanto elas parecem felizes por fora, por dentro estão morrendo, ansiando a paz e alegria que só Cristo pode fornecer.” [18]

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Fontes:
[1] Testemunhas de Jeová (2016). Você pode entender a Bíblia. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 219, 91, 94-97, 80.
[2] A Sentinela (Edição de Estudos) de Março de 2016. Perguntas dos Leitores. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/a-sentinela-estudo-marco-2016/perguntas-dos-leitores/#?insight[search_id]=3724a4f7-46c1-457f-bd27-fd2d30407db9&insight[search_result_index]=1
[3] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 10, 100.
[4] A Sentinela (Edição de Estudos) de Julho de 2013: “Eis que estou convosco todos os dias”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/jesus-parabola-trigo-e-joio/#?insight[search_id]=f7fb3014-b94f-475e-aad4-7655113de756&insight[search_result_index]=1
[5] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 183 -187, 389.
[6] A Sentinela (Edição de Estudo) de Julho de 2013: “Quem é realmente o Escravo Fiel e Discreto?”. Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/w20130715/quem-e-o-escravo-fiel-e-discreto/#?insight[search_id]=150b039c-2df8-4126-927d-112aa0570807&insight[search_result_index]=0
[7] Testemunhas de Jeová (2004). Preste Atenção à PROFECIA DE DANIEL! – Edição de tipo grande. . Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 227 -231, 389.
[8] Quantas Testemunhas de Jeová existem no mundo? Disponível em: https://www.jw.org/pt/testemunhas-de-jeova/perguntas-frequentes/quantos-membros-tj/#?insight[search_id]=e520e77a-3eca-49ad-b0cc-ea4f9f25dad8&insight[search_result_index]=7
[9] http://www.4jehovah.org/pt-pt/como-testemunhar-eficazmente-as-testemunhas-de-jeova/
[10] Testemunhas de Jeová (2006). O Maior Homem que Já Viveu. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, seção 111.
[11] A Sentinela (Edição Fácil de Ler) de Janeiro de 2014. Disponível em: 
https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/ws20140115/venha-o-teu-reino/#?insight[search_id]=70294262-00b2-4115-80cc-ed7c4d0e09f8&insight[search_result_index]=3
[12] http://www.quotes-watchtower.co.uk/2034.html
[13] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 222 – 230.
[14] Testemunhas de Jeová (1985). A Vida – Qual a sua origem? A Evolução ou a Criação. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, pp. 235 – 238.
[15] Testemunhas de Jeová (2014). O Reino de Deus já Governa. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados Cesário Lange, São Paulo, Brasil, p. 27.
[16] O que a Bíblia Realmente Ensina. Apêndice: Dia do Julgamento: O que é? – Disponível em: https://www.jw.org/pt/publicacoes/livros/biblia-ensina/o-que-e-dia-do-julgamento-reinado-de-mil-anos/
[17] Ferreira, F. & Myatt (2007). Teologia Sistemática - VIDA NOVA, p. 917.
[18] http://www.4jehovah.org/pt-pt/como-testemunhar-eficazmente-as-testemunhas-de-jeova/



Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos