terça-feira, 24 de abril de 2018

Quando a ganância nos domina

“Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” 1Tm 6.7-11.

O apóstolo Paulo alerta seu filho na fé Timóteo que há um perigo que nos rodeia que devemos tomar redobrado cuidado, esse perigo é a ganância. Que é o desejo de ficar rico sem qualquer escrúpulo.

Paulo na verdade está repetindo, em outras palavras, o que o Senhor Jesus disse no Sermão do Monte, quando alertou aos seus discípulos que não podemos servir a dois senhores:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24).

O termo riqueza ou mamom é usado para descrever a cobiça que domina o coração de uma pessoa. A palavra mamom é uma transliteração da palavra hebraica “Mamom” (מָמוֹן), que significa literalmente dinheiro. Nas palavras tanto de Jesus como nas de Paulo o desejo de ficar rico leva a ganância ou avareza, e dessa forma quem é dominado por esse desejo acaba se afastando de Deus que é o provedor de todas as coisas e passa a confiar em Mamom como o único provedor em sua vida. Esse demônio é descrito como devorador de almas, e um dos sete príncipes do Inferno. Sua aparência é normalmente relacionada a um nobre de aparência deformada, que carrega um grande saco de moedas de ouro, e “suborna” os humanos para obter suas almas. Em outros casos é visto com uma espécie de pássaro negro (semelhante ao Abutre), porém com dentes capazes de estraçalhar as almas humanas que comprara [1].

Independentemente de sua aparência esse demônio tem seduzido muitas pessoas e a Bíblia nos alerta do perigo que é se deixar seduzir por ele. O primeiro perigo que a Bíblia nos alerta é que podermos nos tornar uma pessoa ambígua, ou seja, ficamos divididos entre dois senhores. No caso em questão a pessoa deixa de adorar a Deus pelo que Ele é e passa a servir a Mamom pelo o que ele pode vir a dar. Com isso, a pessoa que está dividida, na verdade está longe de Deus e está totalmente servindo a Satanás, pois o próprio Jesus deixou bem claro que não podemos servir a dois senhores e o Senhor não se deixa escarnecer. Veja o que ele disse aquele homem que queria servi-lo, mas que para isso ele deveria vender tudo que tinha e distribuir com os pobres, depois segui-Lo. Jesus não tinha nada contra o que ele possuía, mas da forma idolátrica que ele possuía os seus bens. A sua confiança e a sua religião estavam firmadas no que ele possuía e não em Deus que ele dizia servir (Mt 19.16-22). É bom lembrar que predominava entre os judeus daqueles dias a ideia de que as riquezas eram um sinal do favor de Deus, e que a pobreza era um sinal de falta de fé. Jesus então está mostrando para os discípulos que quem confia nas riquezas e não em Deus não entrará no Reino de Deus. Para isso Jesus ilustra a Sua palavra falando que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha (agulha de costura), do que entrar um rico no Reino de Deus:

“Então, disse Jesus a seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Mt 19.23,24).

A Bíblia nos mostra que essa busca insaciável e avarenta pelas riquezas é idolatria, a qual é demoníaca (cf. 1Co 10.19,20; Cl 3.5), e há muitos cristãos caindo nessa ilusão.

Segundo perigo que a Bíblia nos alerta é que quem é dominado por esse desejo é levado a ruína e a perdição (1Tm 6. 9).

Observe como essa ruína e perdição ocorrem. Em primeiro lugar Paulo diz que essa cobiça é uma tentação, ou seja, procede de Satanás, pois Deus não tenta ninguém e nem pode ser tentado: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). Deus prova os seus servos e provação é diferente de tentação (cf. Gn 22).

Em segundo lugar, Paulo nos diz que isso é uma cilada, uma armadilha para derrubar os incautos. Essa tentação leva a uma cilada que leva a muitas concupiscências insensatas e perniciosas, ou seja, o senso moral fica totalmente ofuscado como resultado da paixão que o domina [2]. A pessoa passa a agir de forma impensada, pois é dominada por um desejo incontrolável, tal pessoa perde o senso, ou seja, é dominado por uma concupiscência insensata (sem senso, que perdeu a razão). Outro detalhe que Paulo nos chama a atenção é que essa concupiscência é perniciosa. Esse termo quer dizer que é algo prejudicial, nocivo, ruinoso; perigoso. É como se a pessoa estivesse com uma febre muito grave, acompanhada de delírios, e amiúde mortal.

Em terceiro lugar, Paulo fala que tal desejo leva a pessoa à morte; morte essa que pode ser tanto espiritual quanto física, pois a pessoa é afogada na ruína e perdição. Paulo está dizendo que tal pessoa está em total decadência e desgraça. Esse é o preço pago pela ganância.  Um exemplo disso é o Mister Colibri, onde milhares de pessoas pensam que irão ficar ricas ou até mesmo milionárias da noite para o dia ganhando cerca de 240% de lucro ao mês. Isso não existe, mas tem pessoas cegas pela ganância que não conseguem ver isso.

Moeda virtual não tem lastro

A dona de casa Ivonete Mendes, de Itatiba, interior de São Paulo, é associada do Mister Colibri há quatro meses. Além dela, a irmã, a mãe e dois sobrinhos também aderiram ao site. Ivonete investiu R$ 5.000 e recebe cerca de R$ 1.300 por mês. Sua irmã já investiu R$ 15 mil e ganha mais de R$ 2.000 por mês. “É uma empresa maravilhosa, só preciso assistir a um minuto e meio de propaganda”, comemora.

Para conseguir esse lucro, ela precisa vender seu dinheiro virtual, os LPs, a outros associados, geralmente os que são mais novos no esquema. “Quando preciso de dinheiro rápido, vendo cada LP por R$ 1,70, mas já cheguei a vender por R$ 2”.

O problema é que quando houver mais vendedores que compradores, o LP vai se desvalorizar, até que os associados percebam que ele não tem valor nenhum. “É uma temeridade pessoas darem dinheiro para algo que não tem nenhuma regulamentação e nem garantia legal”, diz o professor de gestão empresarial da faculdade IBS/FGV, Pedro Leão Bispo.

“Captar dinheiro sem oferecer nenhum produto ou serviço é crime contra a economia popular”, esclarece o advogado especialista em direito criminal Fernando Khaddour. “Não conheço a Mister Colibri e não posso falar sobre a empresa, mas cabem investigações do Ministério Público ou da Polícia Federal para que sejam esclarecidas as formas de operação da empresa”. (PG) [3].

Esse amor às riquezas levam as pessoas a aprofundar raízes em todo tipo de males:

Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Primeiramente, se desviam da fé, ou seja, a pessoa se apostata da fé deixando de servir a Deus para servir os seus próprios interesses, pois passa a amar o dinheiro mais que a Deus. E segunda coisa que ocorre por se apostar da fé é que a própria pessoa se fere ou se transpassa com muitas dores. As consequências são as piores possíveis na vida do ganancioso. A ganância cega e leva a pessoa a amar a si mesmo (egoísmo) e passar por cima de tudo e de todos.

A MAIOR RIQUEZA É O SENHOR EM NOSSAS VIDAS

“Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão”

Depois de Paulo alertar dos perigos da riqueza, ou melhor, do amor ao dinheiro, ele mostra a Timóteo o que é prioridade na vida.

Em primeiro lugar, que na vida nada trazemos e nada levaremos dela. Em outras palavras Paulo está nos dizendo que tudo que alcançarmos nessa terra é lucro, mas ao mesmo tempo é fugas e passageiro. Observe o que ele disse: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes”. O termo contente que dizer que temos satisfação em tudo, que estamos satisfeito com que o Senhor tem nos dado. É isso que Paulo nos fala em Filipenses 4. 10-13:

“Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade.

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece”.

Segunda coisa que Paulo nos mostra é devemos fugir dessa tentação, pois ela pode ser maior que nossa resistência e não conseguiremos resisti-la: “Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas”. Com o pecado não se brinca, pelo contrário se foge-se dele.
Terceira coisa que Paulo lembra a Timóteo é que existem riquezas maiores a serem perseguidas. “Antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão”. Essas sim são riquezas que devemos buscar constantemente para sermos ricos aos olhos de Deus e também diante dos homens. Pois essas riquezas espirituais moldam e revelam o nosso caráter e nos faz testemunhas fiéis diante dos homens e diante de Deus.

Quero concluir dizendo que a ganância é o maior mal que entrou em nossas igrejas com o nome de Evangelho da Prosperidade. Esse espírito que na verdade é o espírito de mamom tem estado em muitas igrejas, algumas vezes disfarçadamente e outras descaradamente.
Que o Senhor nos de sabedoria e discernimento espiritual para não cairmos nessa tentação.

Que o Senhor nos ajude!


Fonte:
[2] Kelly, J.N.D. I e II Timóteo e Tito, Introdução e Comentário. Ed. Mundo Cristão e Edições Vida Nova, São Paulo, SP. Reimpressão 1986: p. 130
[3] Grossi, Pedro,  Jornal O Tempo – Belo Horizonte (08/06/2012)

Fonte: www.napec.org

domingo, 22 de abril de 2018

Mais que vencedor?

Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Romanos 8:37

A riqueza da carta que Paulo escreveu aos romanos é mesmo incomparável, pois, nesta carta o apóstolo trata de todos assuntos que envolvem o Evangelho e o faz de uma maneira sistematizada, não é sem razão que alguns gostam de chamá-la de “o Evangelho segundo Paulo”.

Ele trata aqui de temas como a corrupção geral da humanidade, fé, Cristo, salvação, justificação entre outros assuntos concernentes ao Evangelho, mas, mesmo tratando de todos estes assuntos ele toma a liberdade de falar de um atributo de Deus, por meio do qual todas estas coisas são possíveis, o AMOR DE DEUS.

Neste capítulo, Paulo, trata do efeito primário da justificação pela fé, ou seja, a falta de argumentos para qualquer condenação. O apóstolo afirma que esta justificação teve por base o amor de Deus, Sua inclinação natural.

Seu argumento é lógico e objetivo, “se Deus é por nós quem será contra nós?”, ou seja, se é Ele quem nos justifica, quem iria contra o veredito de um Juiz Idôneo e Soberano?

Então ele passa a falar de algumas situações que os cristãos romanos estavam enfrentando e que poderiam fazê-los duvidar desta justificação e, por consequência disso, do amor paternal de Deus, tais como tribulação, angústia, perseguição, fome, miséria, perigo ou a morte.

Ele afirma que, depois de envolvidos e revestidos deste amor, nenhuma destas situações teriam mais influência a ponto separá-los dele.
Então, o apóstolo cita o tão repetido versículo: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”.
Gosto de uma ilustração que ouvi como proposta para entender este versículo, deixando claro que é muito rasa perto do significado do versículo, é mais ou menos assim:

Imagine um boxeador, com essas histórias que se repetem a tais esportistas. Alguém pobre, que treina “de favor” em uma academia modesta, mas que possui algum talento e por isso então é alvo de um empresário visionário.

Passa a lutar como amador, depois se profissionaliza e disputa um título de importância internacional.

Então, desafiando e vencendo todos os oponentes que estão acima da sua colocação no ranking desta competição, ganha o direito de desafiar o campeão e, ao vencê-lo, então, torna-se o campeão, o vencedor!

Mas, se ele é o vencedor quem seria o “mais que vencedor” da história?
Sua esposa! Sim, porque teria acesso a tudo que ele conquistou às custas de socos e murros, sem nunca ter pisado em um ringue e nunca ter adquirido um hematoma!

Eu avisei que era pequena a ilustração, mas considere o seguinte:
Quem foi que sofreu? Quem apanhou? Quem foi crucificado? Quem morreu? Quem ressuscitou?

JESUS! Tudo por amor e hoje somos mais que vencedores neste amor, pois não fomos nós que sofremos com a angústia do Getsêmani, com a perseguição do seu próprio povo e com o pecado do mundo todo, mas, temos acesso hoje aos benefícios da Sua vitória.

Assim, a nossa condição de mais que vencedores consiste única e exclusivamente na vitória final do amor de Deus sobre todas estas coisas: JESUS!

Para muitos, a vitória do cristão se resume em estar acima dos outros, “honrado” por Deus e tendo o resto do mundo sob seus pés!

Para estes, a vitória tem sabor, doce como o mel!

Mas para aqueles que entendem que sua vitória consiste na sua justificação sem méritos, baseada somente nos méritos de outro maior que, por amor se fez menor, esta vitória tem cor, cheiro e sabor de sangue!

Sangue inocente!

Para aqueles que querem a vitória com sabor de mel, por mim, que se LAMBUZEM!

Mas, para aqueles que se vêem todos os dias confrontados com as acusações de serem quem são, pecadores, confiem somente na justificação para quem não tem mérito algum, a justificação que vem de Deus, a justificação que vem da Cruz, a justificação que vem do Evangelho, pois:

“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”.

Um amor que da significado a cruz e uma cruz que ganha significado no amor.

Fonte: www.napec.org

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Se Jesus foi rico, eu também quero ser!

Escutar de algum pregador que Jesus era rico e quem segui-lo será próspero financeiramente, soa como uma garantia de ganhar na loteria! Infelizmente, muita gente tem este conceito como premissa para frequentar uma igreja. Afinal: se Jesus foi rico, eu também quero ser – dizem os seguidores da teologia da prosperidade e confissão positiva! Vejam as declarações feitas por alguns famosos precursores deste movimento, desde os EUA até aqui no Brasil:

“João 19 nos diz que Jesus usava roupas de griffe… A túnica era sem costura, tecida de cima até embaixo. Era o tipo de vestimenta que os reis e os mercadores ricos usavam” (John Avanzini, gravado em 20.1.1991, no programa de Kenneth Copeland).

“Jesus tinha uma roupa tão bonita, tão cara, que os soldados disputaram para ver quem ficaria com ela. Outra coisa, Jesus era acompanhado por mulheres ricas que o serviam. Ele tinha seus doze discípulos e mais um grupo de 20 a 30 pessoas para alimentar diariamente. Quanto custa isso? A casa de Lázaro e outras residências onde ele se hospedava eram de classe média na época, ou até mesmo média-alta. Portanto, eu não consigo enxergar na Bíblia Jesus como uma pessoa paupérrima. Ele viveu como um rabi, que era um mestre. Eu não vejo Jesus pobre, mas vejo que ele demonstrava no seu estilo de vida excelência, tinha uma vida abençoada – multiplicou pães, proveu boa pescaria aos seus discípulos. Como Senhor e Deus, ele tinha acesso às riquezas.” (Bispo Robson Rodovalho, Revista Eclésia, edição 109)

“Sabe, Jesus e os discípulos nunca andaram num Cadilac. Não havia Cadilac naquela época. Mas Jesus andou num jumento. Era o “Cadilac” da época — o melhor meio de transporte existente.” (Kenneth Hagin, A Autoridade do Crente, p. 48.)

Declarações como estas são muito comuns nos dias de hoje, por conta da propagação da teologia da prosperidade no Brasil. Trata-se de um conceito que foi importado dos EUA, fixado atualmente como um forte pilar das igrejas neopentecostais brasileiras. Porém, como cristãos não deveríamos absorver ensinamentos sem antes analisar biblicamente para ver se, de fato, procedem ou não das Escrituras, o que no caso apresentado leva-nos ao seguinte questionamento: Será que realmente Jesus foi rico? Será que ser rico financeiramente é promessa de Jesus para nós?

De fato, Jesus ensinou princípios “riquíssimos” sobre prosperidade material, vivenciados inclusive em sua própria vida terrena. Porém, biblicamente veremos que em nada confere com as afirmações dos propagadores da teologia da prosperidade.

Antes de continuar, esclareço que eu não defendo de forma alguma a “teologia da miséria”, creio plenamente que Deus nos sustenta e supre as nossas necessidades, bem como prospera alguns conforme a sua soberana vontade. Porém, entendo que o grande problema é deixar de buscar a Deus pelo que Ele é em troca daquilo que Ele pode nos dar. Portanto, o que vou analisar exclusivamente neste artigo é a afirmação de que supostamente Jesus era rico e que Ele promete riquezas para os seguidores. Vejamos:

Em primeiro lugar, Jesus era e sempre será rico eternamente em sua posição gloriosa no céu, porém abdicou-se de sua glória celestial e veio à terra viver como um homem de maneira humilde, a fim de sofrer e morrer por nós: “pois conhecereis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.” (2Co 8:9)[1]. Ao contrário do que afirmam os defensores da teologia da prosperidade, nesta passagem está claríssimo que Jesus não era rico, o propósito d’Ele era exatamente o contrário. Cristo tornou-se pobre no mundo não para trazer riquezas materiais a humanidade, mas sim a salvação que é a verdadeira riqueza, por consequência a transformação de vida em amor para com o próximo. No contexto de 2Co 8, Paulo utiliza o exemplo da posição de glória que Cristo desfrutava com o Pai e que foi sacrificada por Ele a fim de nos auxiliar (Fp 2:5-8) para mostrar que, da mesma forma, os crentes de Corinto deveriam sacrificar algo para ajudar os irmãos da igreja de Jerusalém. Paulo incentiva-os a ofertar aos irmãos necessitados como um ato cristão de amor e cuidado.

Desde o início da vida terrena de Jesus, o propósito d’Ele de fazer-se humildemente pobre foi manifestado, a começar pelo seu nascimento: “E ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2:7) Em tese, seguindo a lógica da teologia da prosperidade, seria bem mais apropriado que Jesus Cristo tivesse nascido em um palácio, num berço de ouro forrado com tecido fino e vários criados para servi-lo. Porém, Jesus nasceu num estábulo e colocado numa humilde manjedoura para demonstrar desde o início o propósito de ir contra a ganância e as riquezas deste mundo[2]. A Bíblia indica que Maria e José eram pobres, pois quando Maria foi apresentar Jesus no templo, a oferta de sacrifício oferecida (segundo a lei mosaica – Lv 12:8) era oferta de pobre: “e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida lei: Um par de rolas ou dois pombinhos.” (Lc 2:24) Isto prova, pelo menos na época do nascimento de Jesus, que José não era financeiramente estável por conta de sua profissão de carpinteiro.

Quando Jesus começou seu ministério terreno, Ele largou tudo o que tinha (família, lar, conforto etc.) para dedicar-se integralmente ao propósito do evangelho. Tudo o que era necessário para o suprimento natural de Jesus foi providenciado pelos próprios discípulos, prova disso é o fato de que algumas mulheres serviram Jesus com seus bens (Lc 8:1-3).

Jesus, conhecendo o coração das pessoas, ao responder alguém que queria segui-lo provavelmente para buscar benefício próprio, disse que “As raposas têm seus covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. (Lc 9:58) Note que Cristo aborda exatamente a questão “moradia”, uma resposta clara que refuta a afirmação de alguns pregadores da prosperidade de que Jesus possuía uma enorme mansão em Jerusalém.

Na primeira multiplicação de pães e peixes, os discípulos poderiam muito bem sair para comprar os alimentos para o povo, porém os mesmos questionaram Jesus justamente pelo fato de não terem condições para tal feito. Foi necessária a operação de um milagre para alimentá-los (Mc 6:34-44).

Certa ocasião, quando Jesus chegou em Cafarnaum (Mt 17:24-27), ele não tinha dinheiro para efetuar o pagamento do imposto da cidade, sendo necessário operar um milagre através de Pedro para efetuar o pagamento. Ao perguntarem para Jesus se era lícito pagar tributo a César, Jesus respondeu: “Por que me experimentais? Trazei-me um denário, para que eu o veja” (Mc 12:14-16). Se Jesus fosse rico, com certeza teria uma moeda no bolso para usar, porém foi necessário alguém trazer uma para que Jesus pudesse vê-la.

A afirmação dos pregadores da prosperidade de que o Jumento que Jesus utilizou para entrar em Jerusalém, era como se fosse um Cadilac ou uma BMW da época, chega a ser ridícula e mostra o despreparo bíblico dos defensores da teologia da prosperidade. Ora, basta uma análise no contexto cultural para perceber que a “BMW” da época na verdade eram as carruagens e os cavalos, e não um jumento! Na Bíblia vemos claramente um exemplo disso: “Eis que um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro, que no seu carro, viera adorar em Jerusalém, estava de volta e, assentado no seu carro, vinha lendo o profeta Isaías.” (At 8:27:28) Além disso, o Jumento não era de Jesus, mas emprestado!

Ao contrário do que Rodovalho e John Avanzini afirmam, as roupas de Jesus no geral não eram de rico, pois os soldados tomaram as vestes e “rasgaram-nas em quatro partes” (Jo 19:23-24), somente a túnica (peça íntima que ficava debaixo das vestes) que era algo realmente nobre naquela época, pois não tinha costura e era tecida de cima abaixo. Por isso que os guardas lançaram sortes para ver quem ficaria com a mesma. Provavelmente tal peça pode ter sido doada por algum discípulo. Afinal, tudo ou quase tudo o que Jesus possuía durante o seu ministério era doado pelos discípulos que o acompanhavam, entre os quais alguns financeiramente prósperos, que era o caso das mulheres descritas em Lucas 8:1-3. O próprio túmulo de Jesus foi emprestado (Lc 23:50-53)!

Os pregadores da teologia da prosperidade, tentando contra-argumentar, ainda colocam que os apóstolos eram prósperos financeiramente. Porém, a Bíblia claramente refuta esta idéia. Dentre vários exemplos bíblicos, podemos listar alguns: Quando Pedro e João chegaram à porta do templo, onde um coxo de nascença pediu-lhes uma esmola. Se os apóstolos fossem ricos, com certeza eles teriam dado dinheiro ao pedinte, porém eles afirmaram: “Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!” (Atos 3:1-8), e o homem foi curado. O apóstolo Paulo passou por muitas necessidades financeiras ( Fp 4.10-20, 2Co 11.27), inclusive tendo que trabalhar fabricando tendas para se sustentar (At 18:3). O mesmo também ensinou a respeito da expectativa de buscar riquezas materiais: “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (I Tm 6.8-10)

Como podemos ver, não existe base bíblica para afirmar que Jesus e os apóstolos eram ricos. Na verdade, Cristo nunca defendeu a busca por riquezas materiais, pelo contrário, condenou-a mostrando o verdadeiro padrão a ser almejado: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.19-24). Ele exortou-nos a buscar primeiramente o reino de Deus e a sua justiça, sendo que o suprimento necessário virá naturalmente de Deus (Mt 6:25-34). Não devemos ter preocupações exageradas pela nossa sobrevivência, nem pelos cuidados materiais gananciosos, pois Jesus afirmou que este conceito é, de fato, o mais claro sinal de avareza na vida de alguém: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15)

Todavia, é importante salientar que devemos também seguir o exemplo dos cristãos da Macedônia, onde mesmo em meio de muita pobreza, manifestaram abundância de generosidade ao preparar ofertas para ajudar os irmãos da igreja de Jerusalém em dificuldades financeiras. (2Co 8:1-4)

Quanto aos cristãos financeiramente prósperos, a Bíblia diz: “Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida.” (1Tm 6:17-19) João Calvino interpretou este fundamento com clareza: “aqueles a quem houvermos de ver premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos.”[3] (Veja também 2Co 9:1-15)

Enfim, há muito mais passagens bíblicas que tratam sobre o assunto, mas creio que as citadas neste artigo sejam suficientes para esclarecer a questão.

Soli Deo Gloria!

Notas
[1] A tradução bíblica utilizada no artigo é a Almeida Revista e Atualizada – SBB.
[2] Observação simbólica feita por A.W. Pink, em “Por que Jesus nasceu numa manjedoura?”
[3] CALVINO, João. As Institutas Vol. 2. Casa Ed. Presbiteriana. São Paulo, 1985. P. 168

Fonte: www.napec.org

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Como Deus fala conosco?

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Introdução

Quando perguntamos “como Deus fala conosco?” diversas respostas podem ser formuladas. Por exemplo, se olharmos para o texto bíblico acima, algumas respostas já podem ser dadas. Ao consideramos a progressividade do Antigo Testamento vemos em algumas passagens Deus falando de forma audível, usando um anjo, os profetas ou até mesmo com o próprio dedo.

Parece ser uma questão infantil essa pergunta, mas ela pode definir toda a questão e uma cosmovisão. E quando olhamos para o passado, por exemplo, na Reforma Protestante ou até mesmo antes, essa pergunta faria todo o sentido tal como nos dias de hoje.

Naquela época os reformadores lutavam pela autoridade das Escrituras e contra o Catolicismo Romano que comparava a autoridade da Tradição igual ao das Escrituras. Ou seja, aquilo que a Tradição falava, mesmo que sem referência bíblica, era como se Deus estivesse falando com o Seu povo.

No entanto, todo aquele que quisesse lutar pela autoridade das Escrituras sofreram, ao ponto de darem sua vida em fidelidade a Deus. Em meados de 1173 um mercador, chamado Pedro Valdo, doou tudo o que tinha e decidiu seguir a vida eclesiástica, pregando e traduzindo as Escrituras para a língua local; dizendo que todos deveriam ler a Palavra de Deus. Porém, ele foi proibido de pregar o Evangelho, pois, com base em Atos 5:39, dizia que devemos, primeiramente, obedecer a Deus e não aos homens. Ele dizia isso contestando a autoridade da Igreja. Além desta doutrina, ele contestava a doutrina do Purgatório, culto aos santos e a importância das relíquias sagradas.

Um outro exemplo disso é o próprio Jan Hus, o ganso. Esse homem descobre os escritos de John Wycllif¹ e começa a divulgá-los, sem contar a briga que ele teve contra as indulgências e a autoridade do papa, dizendo que Cristo sim, era o cabeça da igreja. Mas em 4 de maio de 1415 ele foi tido como herege. Em 6 de julho do mesmo ano ele recusou negar seus escritos, e em praça pública ele foi morto.

Portanto, perceba que não é uma questão simplória perguntar como “Deus fala conosco”. Quando a Escritura é posta em primeiro lugar, aquele que a defende certamente sofrerá.

Lutero, Zwinglio, Calvino, a Tradição e as Escrituras

Por se tratar da Reforma Protestante, três pessoas nos vem a mente quando tratamos da Escritura, a Palavra de Deus: Martinho Lutero, Zwinglio e Calvino.

Em 1519, dois anos após Lutero pregar na porta do castelo de Wittenberg as 95 Teses, Lutero é convocado para um debate público com Johann Eck o qual acusara o Reformador de defender as mesmas teses que Jan Huss. E com essa acusação Eck dizia a Lutero que, o que o alemão estava defendendo já tinha sido condenado pela a Igreja Católica. Entretanto, para Lutero, com essa afirmação feita por Eck, o que estava em jogo era a autoridade da Igreja em contraste com a autoridade das Escrituras. Lutero preferiu ficar com as Escrituras, dizendo:

Respondo que, certa vez, Deus falou por meio da boca de asno. Direi diretamente o que penso. Sou teólogo cristão, e sinto-me obrigado a não somente afirmar, como também defender a verdade com meu sangue e minha morte. Creio livremente e não serei escravo da autoridade de ninguém, seja concilio, uma universidade ou um papa.
Nem só de teologia viverá o homem, mas de toda salsicha que ele poderá comer. Em 1522, em plena Quaresma², período esse que só pode comer verduras, legumes e peixes, Zwinglio, juntamente com um grupo de, em média, 12 pessoas, se empanturraram de salsichas. Após sete dias Zwinglio produziu um panfleto no qual argumentou que o que estava em jogo não era as salsichas, mas que a Bíblia nada diz sobre o não comer salsichas na Quaresma. E em 1523 Zwinglio escreve suas famosas 67 Conclusões.

No Evangelho e do Evangelho aprendemos que as doutrinas e os preceitos humanos não ajudam em absolutamente nada para a salvação. (Artigo 16)

Cada cristão é livre para fazer qualquer obra que não esteja ordenada por Deus, podendo comer a qualquer tempo, qualquer alimento que quiser. E, disto deduzimos que as datas estabelecidas quanto ao comer queijo e a manteiga, é um engano papista. (Artigo 25)

Os poderes do Papado e do episcopado, junto à exigência, prepotência e orgulho espiritual que ostentam, não tem nenhum fundamento na sagrada letra, nem na doutrina de Cristo. (Artigo 34)³

O que um herege precisa, manicômio ou refutação? Quando olhamos para Calvino, tanto em suas Institutas ou a carta em Resposta ao Sacerdote Sadoleto, ele é curto e grosso.

Ao tratar sobre a autoridade da igreja romana, Calvino diz que tais tradições serviam para “estrangular das míseras almas”, pois elas oprimem tiranicamente a consciência dos fiéis.

Importa reconhecer um Rei único, Cristo, seu libertador, e que sejam regidos somente por uma lei da liberdade, isto é, da sagrada Palavra do Evangelho.

Ou seja, para Calvino, além da tradição ser algo que vai contra o Evangelho, ela também colocava um fardo pesado sobre as costas do fiel, fazendo com que tal pessoa ficasse escravizada e a consciência sobrecarregada.

Quando Sadoleto, sacerdote católico, escreve para o povo de Genebra, ele faz seu argumento contra Calvino dizendo que o mesmo fez com que o povo se desviasse, não primeiramente de Cristo, mas “do caminho dos pais e seus ancestrais, da eterna doutrina da Igreja Católica e que tudo encheram com suas querelas e sedições; aliás, esse sempre foi o costume daqueles que atacam a autoridade da Igreja”.

Perceba, quando Sadoleto acusa Calvino de fazer o povo desviar, o foco dele não é Cristo e Sua Palavra, mas os pais [da igreja], os ancestrais, a doutrina da Igreja Católica e da tradição. Em nenhum momento esse sacerdote diz que Calvino fizera o povo desviar de Cristo. E Calvino responde:

Pomos a Palavra de Deus acima de qualquer juízo dos homens, temos, finalmente, concedido que os concílios e os santos Pais têm certa autoridade, desde que estejam de acordo com a Palavra de Deus; portanto, julgamos esses concílios e os santos pais dignos de honra e do lugar que ocupam, tão somente se estiverem razoavelmente sob Cristo.

Os Livros Apócrifos

Para os teólogos medievais, as Escrituras eram as obras incluídas na Vulgata, isso incluía os livros apócrifos. No entanto, os Reformadores questionaram essa definição. Eles entenderam que os livros apócrifos não poderiam fazer parte do cânon bíblico, pois na Bíblia hebraica eles não apareciam, somente na Bíblia grega e latina.

No primeiro ano da edição completa da Bíblia alemã de Lutero, os livros apócrifos foram colocados no final da Bíblia como livros “mais ou menos úteis para a vida cristã”. Para Calvino os livros apócrifos não deveriam ser tomados como Palavra de Deus:

Portanto, seja este um sólido preceito: não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos apostólicos; nem outro modo de ensinar a igreja corretamente, senão aquele prescrito e normativo dessa Palavra.¹

Da mesma forma, Zwinglio afirmou que os livros apócrifos valem a pena serem lidos, mas nunca igual as Escrituras, pois se portam como imitação das Escrituras.¹¹

Sendo assim, como podemos saber que um livro poderia ou não ser colocado como canônico? Mas, antes de mostrar, de forma básica, como poderemos ver isso; o que dizer do argumento católico de que os apócrifos são válidos porque são citados no Novo Testamento? Primeiro, o Novo Testamento também cita livros pseudoepígrafos (Ascensão de Moisés citado por Judas 9; Livro de Enoque citado por Judas 14, 15) os quais foram rejeitados pela própria Igreja Católica¹², sem contar que o apóstolo Paulo cita alguns filósofos: Em Atos 17.28 Paulo faz uma citação de um poeta do século IV antes de Cristo, Epiménedes de Cnossos; Em 1Co 15.33 Paulo faz uma citação de um provérbio retirado de um poema grego, Menandro; E em Tito 1.12 Paulo diz que o poema de Epiménedes de Cnossos era profético.

Segundo, o fato das Escrituras citar um autor não bíblico, não quer dizer que tudo o que ele escreveu é inspirado. Como podemos ver acima, Paulo cita filósofos não cristãos e ainda assim não consideramos todos os seus escritos como Palavra de Deus, mas só o que fora citado. Da mesma maneira podemos ver o capítulo 4 de Daniel, o qual foi escrito por Nabucodonosor. Ou seja, somente os textos que compõem a Sagrada Escritura são inspirados. Se há outros textos de autores citados na Bíblia que não estão entre os canônicos, esses não são inspirados por Deus. Portanto, qual o critério que podemos tomar para testar a canonicidade dos livros? Primeiro, ser escrito por um profeta ou uma pessoa com o dom de profecia. Segundo, um livro que fosse relevante não só para seu tempo como para todos os tempos e todas as épocas, bem como escrito de acordo com as revelações anteriores. Ou seja, esse livro não pode contradizer a mensagem de outros escritos.¹³

Seguindo o conselho do Rev. Augustus Nicodemus em uma palestra da Editora Fiel, basta ler os apócrifos ou os pseudoepígrafos que veremos de cara que não são livros inspirados. Por exemplo, quando lemos 2Mc 12.44 vemos o texto mostrando que devemos orar pelos mortos e oferecer sacrifício pelo mesmo para que seus pecados sejam pagos. Mas se compararmos esse texto com outros da Escritura, ele ainda assim seria verdadeiro?

Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar.  Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s)

Compare:

Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo,mas passou da morte para a vida.” (João 5.24 – negrito acrescentado)

Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção.” (Hebreus 9.12 – negrito acrescentado)

Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.” (Lucas 23.43)

Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.” (Filipenses 1.23)
Observe que os textos acima, como João 5.24 e Hebreus 9.12, mostram que Cristo propôs eterna redenção não estando mais sob o juízo da morte, mas estando sob a vida eterna (Jo 6.47). Do mesmo modo, Lucas 23.43 e Filipenses 1.23, mostram que após a morte o salvo vai direto para o encontro de Cristo. Ou seja, esses textos, bem como outros da Escritura, não mostram uma parada, uma escala entre o purgatório e o céu, da mesma forma uma escala entre o purgatório e o inferno (cf. a parábola do Rico e Lázaro – Lucas 16.19-31).

Outros textos que podemos analisar, sem dar risada, são textos que mostram a infância de Jesus. No livro A infância do Salvador, um livro pseudoepígrafo, encontramos esse relato:

CERTA VEZ aconteceu que muitos meninos seguiam Jesus para divertirem-se em sua companhia. Mas havia um pai de família que, irado ao ver que seu filho ia com Jesus, e para que não o seguisse mais, prendeu-o numa torre fortíssima e muito sólida, sem buraco nem entrada alguma além da porta e de uma janelinha estreitíssima, que apenas deixava passar um pouquinho de luz; e a porta estava bem escondida e trancada. E aconteceu que um dia Jesus aproximou-se dali com seus companheiros para brincar. Ao ouvi-los, o menino encarcerado pôs-se a gritar junto à janela da seguinte maneira: “Jesus, queridíssimo companheiro, ao ouvir tua voz minha alma regozijou-se e senti-me cheio de alívio. Por que me deixas aqui encarcerado?” Jesus foi até ele e lhe disse: “Estende-me uma mão ou um dedo pelo buraco”. E tendo feito isto, Jesus pegou a mão daquele menino e o tirou através daquela estreitíssima janelinha. E o menino foi embora em sua companhia. Jesus disse-lhe: “Reconhece o poder de Deus e na tua velhice conta o que Deus te fez na tua infância”.¹

Veja agora no livro Pseudo-Tomé, Narrações sobre a infância de Jesus:
Encontrava-se ali presente o filho de Anás, o escriba, e teve a ideia de fazer escoar as águas represadas por Jesus, usando uma planta de vime. Ante essa atitude, Jesus indignou-se e disse: — Malvado, ímpio e insensato. Será que as poças e as águas te estorvavam? Ficarás agora seco como uma árvore, sem que possas dar folhas, nem raiz nem frutos. Imediatamente o rapaz tornou-se completamente seco. Os pais pegaram o infeliz, chorando a sua tenra idade, e o levaram ante José, maldizendo-o por ter um filho que fazia tais coisas.¹

De outra feita, Ele andava em meio ao povo e um rapaz que vinha correndo esbarrou em suas costas. Irritado, Jesus disse-lhe: — Não prosseguirás teu caminho. Imediatamente o rapaz caiu morto.¹

Portanto, o próprio texto desses livros provam que são livros que não foram inspirados por Deus, pois não se encaixam em nenhuma outra passagem das Escrituras e ferem o caráter de Cristo.

As Escrituras, a Autoridade da Igreja e as nossas Confissões. Há alguma diferença? 

Vimos acima que a Autoridade da Igreja [Católica], ou Tradição, eram detentoras da correta interpretação das Escrituras e tudo quanto eles decidissem deveria ser aceito e não revogado.

Mas, e quando olhamos para as nossas confissões reformadas, como por exemplo, a de Westminster, e dizemos que a subscrevemos, não estaríamos nós se portando da mesma maneira como a igreja católica? Por exemplo, a Igreja Presbiteriana do Brasil no Artigo 1 diz que aceita “como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismo Maior e Breve”.¹ E também mostra que seus ministros e oficiais devem aceitar também esses documentos.¹

A diferenciação começa pelas definições dos termos. Para a Igreja Católica a Tradição é igualada às Escrituras, contendo toda a doutrina revelada.¹ Já os Símbolos de Fé, como o próprio Manual Presbiteriano os definem, são sistemas expositivos de doutrinas e práticas como explica o Dr. Heber:

A definição de uma confissão não difere basicamente da de um credo, senão na forma. Uma confissão contém mais ou menos os mesmos elementos de um credo, mas de forma bem mais elaborada, com detalhes que um credo não possui, por ser mais conciso. Uma confissão aborda mais assuntos do que um credo, e os apresenta de forma mais sistemática.²

Um segundo ponto que podemos levantar quanto a diferenciação é a possibilidade de mudança. Se a Tradição é igualitária às Escrituras, logo elas não possuem erros e não podem ser mudadas. Mas, como vimos acima, a doutrina do Purgatório, por exemplo, é facilmente contestada por outras passagens do Novo Testamento, bem como também a utilização dos livros apócrifos. No entanto, quando se trata da Confissão de Fé de Westminster já houveram mudanças e acréscimos. Uma mudança que é discutida até hoje por alguns foi a retirada de um trecho do capítulo XXIII sobre o Magistrado Civil e a utilização das autoridades seculares para suprimir pessoas que blasfemam e propagam heresias.²¹ Entretanto, essa mudança que fora feito pode ser explicada de duas maneiras: As formas de aplicação de punição contra aqueles que pervertiam as doutrinas na Antiga Aliança não são as mesmas que o Estado aplica e o sistema de Governo são totalmente diferentes e é uma contradição em si mesmo. O texto III do Magistrado Civil mostra que os magistrados não podem assumir para si a administração da Palavra, dos Sacramentos e das chaves do Reino dos céus, mas podem suprimir todo tipo de perversão. Com base no quê?

Sendo assim, há uma enorme diferença entre a Tradição Católica e a subscrição dos Símbolos de Fé.

Quando nós invalidamos a autoridade das Escrituras

De que maneira nós invalidamos a autoridade das Escrituras? De duas maneiras.

Em primeiro lugar nós podemos nos remeter ao Éden, quando os nossos primeiros pais desobedeceram a Palavra de Deus. Deus, ao criar tudo e o primeiro casal, deu-lhes ordens para que não comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.17) que estava no jardim. No entanto, ao estarem diante da serpente a autoridade da Palavra de Deus tinha sido colocada em xeque. Pois, Deus havia dito que se eles comessem certamente morreriam, mas a serpente disse que se eles comessem “certamente não morreriam” (Gn 3.4). De que maneira o casal poderia analisar tal confrontação? Por achismo? Pela circunstância? Ou pela relatividade da verdade? Na verdade, o casal fez uma investigação apurada dos fatos e concluiu: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.” (Gn 3.6)
O final nós já sabemos. Eles desobedeceram a Deus, mas essa desobediência não trouxe condenação somente aos dois, mas a toda posteridade depois deles, pois julgaram o que eles decidiram como certo e a Palavra de Deus errada.

Ao longo da história bíblica vemos os personagens bíblicos sofrendo porque invalidaram a autoridade das Escrituras e até mesmo o povo escolhido de Deus, sendo levado para o exílio porque transgrediram os mandamentos do Senhor.

Por que se submeter à autoridade das Escrituras? 

PORQUE ELA É A PALAVRA DE DEUS

O próprio Deus a inspirou (2Timóteo 3.16) sendo uma revelação d’Ele mesmo. A Bíblia revela a vontade de Deus para com o Seu povo como um manual de instruções. Os manuais que conhecemos, como os de eletrodomésticos, mostram diversas páginas de como usar tal equipamento e algumas páginas no final mostrando a quem devemos recorrer caso algo dê errado. As Escrituras, como manual, aponta algumas páginas de como Deus disse para usarmos aquilo que Ele criou, bem como demonstra em mais de 90% desse manual o que fazer caso algo dê errado. A Escritura é trinitariana. Ela é inspirada por Deus, mediante a ação do Espírito Santo em seus servos para revelar a Jesus Cristo (cf. 1Pedro 1.10-12).

CRISTO E A SUA PALAVRA SÃO UM

Quando afirmamos que Cristo e a Sua Palavra são um, isso não quer dizer que estamos venerando um livro, estamos afirmando que nele encontramos – não em uma parte, mas em toda a Escritura – a voz de Cristo e as ações do nosso Salvador desde a Antiga Aliança.

Um exemplo disso é quando olhamos para Atos 1.1. Lucas começa o seu relato afirmando que eram “…todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”. Ou seja, o Evangelho de Lucas não é só Palavra de Deus, mas são as ações do próprio Cristo, a Palavra encarnada.

Outro texto que mostra essa relação do nosso Senhor e de Sua Palavra, é João 15.4,7: “permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” Veja, o texto mostra que os discípulos de Jesus devem estar unidos a Ele, da mesma maneira unidos à Sua Palavra. Não existe a possibilidade de dizer que está unido a Cristo e distante da Palavra, ou estar unida à Palavra e distante de Cristo.

Respondendo a pergunta feita no início, “Como Deus fala conosco?”: Ele fala por meio de Sua Palavra.

Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.” João 17.7

Notas:
[1] Wycllif foi tido como o precursor da Reforma Protestante, não somente como tradutor das Escrituras, mas como aquele que lutou contra a autoridade do papa. Cf. “História da Teologia Cristã“, Roger Olson, Ed. Vida, páginas 365 a 370.
[2] A Quaresma é o período de preparação para a Páscoa do Senhor, cuja duração é de 40 dias. Tal período, portanto, inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e se estende até o Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa. O período é, assim, marcado pela penitência, pela realização constante de jejuns, pela conversão e pela preparação dos catecúmenos para o batismo. Fonte: < http://www.portalcatolico.org.br/single-post/2017/02/28/O-tempo-da-Quaresma> Acesso em: 07/09/17
[3] As 67 Conclusões de Ulrico Zwinglio. Traduzido por: Rev. Ewerton B. Tokashiki. Fonte: <https://www.academia.edu/2419171/As_67_Conclus%C3%B5es_de_Ulrich_Zwingli> Acesso em: 07/09/17
[4] Institutas, IV, 10, 1
[5] Institutas, IV, 10, 1
[6] Carta de Calvino ao cardeal Sadoleto. Disponível em: <http://projetocasteloforte.com.br/wp-content/uploads/2017/03/DE-CALVINO-AO-CARDEAL-SADOLETO-COM-CAPA.pdf> Acesso em: 08/09/17
[7] Ibid.
[8] Cf. MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: CEP, 2007, p.196
[9] BACKUS, Irena. Apócrifos. In: GISEL, Pierre (Org.) Enciclopédia do protestantismo: teologia, eclesiologia, filosofia, história, cultura, sociedade, política. – São Paulo: Hagnos, 2006, p.82
[10] Institutas, III, 8, 8
[11] JACKSON, S. Zwingli’s Influence, and His View of the Apocrypha. Fonte: <https://zwingliusredivivus.wordpress.com/2013/10/21/zwinglis-influence-and-his-view-of-the-apocrypha/> Acesso em: 09/09/17
[12] Cf. Sessão IV – Os Livros Sagrados e a Tradição dos Apóstolos. Fonte: <http://www.montfort.org.br/bra/documentos/concilios/trento/#sessao4> Acesso em: 09/09/17
[13] Cf. ARNOLD, Bill T. e BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento: uma perspectiva cristã. – São Paulo: CEP, 2001, p.22
[14] A infância do Salvador. In: PROENÇA Eduardo de (Org). Apócrifos e pseudoepígrafos da Bíblia – vol. 1. 17ª ed. – São Paulo: Fonte Editorial, 2017, p. 431
[15] Evangelho Pseudo-Tomé, 2017, ibid. p. 509-510
[16] Ibid. p. 510
[17] Manual Presbiteriano, Art. 1
[18] Manual Presbiteriano, Art. 119
[19] A Escritura e a Tradição da Igreja são Palavra de Deus, ensinamentos divinos. Fonte: <https://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/o-que-e-a-tradicao-da-igreja/> Acesso em: 09/09/17
[20] CAMPOS, Heber Carlos de. A Relevância dos Credos e Confissões. In: Fides Reformata II:2 (jul-dez 1997), 97.
[21] III. Os magistrados não podem assumir para si a administração da Palavra e dos sacramentos ou o poder das chaves do Reino do Céu (2Cr 26:18 com Mt 18:17 e Mt 16:19; 1Co 12:28,29; Ef 4:11,12; 1Co 4:1,2; Rm 10:15; Hb 5:4); mas, ele tem autoridade, e é o seu dever, fazer com que a paz e a unidade sejam preservados na igreja, que a verdade de Deus seja mantida pura e inteira; que todas as blasfêmias e heresias sejam suprimidas; todas as corrupções e abusos do culto e da disciplina sejam impedidos ou reformados; e todas as ordenanças de Deus sejam devidamente estabelecidas, administradas e observadas (Is 49:23; Sl 122:9; Ed 7:23,25-28; Lv 24:16; Dt 13:5,6,12; 2Rs 18:4; 1Cr 13:1-9; 2Rs 23:1-26; 2Cr 34:33; 2Cr 15:12,13). Para uma melhor eficácia destas coisas, ele tem poder para convocar sínodos, estar presentes neles, e providenciar para que o que quer que tenha sido decidido neles esteja de acordo com a mente de Deus (2Cr 19:8-11; 2Cr 29 e 30; Mt 2:4,5) <https://goo.gl/FCgaRw>. Compare com a Confissão adotada pela IPB: II. Os magistrados civis não podem tomar sobre si a administração da palavra e dos sacramentos ou o poder das chaves do Reino do Céu, nem de modo algum intervir em matéria de fé; contudo, como pais solícitos, devem proteger a Igreja do nosso comum Senhor, sem dar preferência a qualquer denominação cristã sobre as outras, para que todos os eclesiásticos sem distinção gozem plena, livre e indisputada liberdade de cumprir todas as partes das suas sagradas funções, sem violência ou perigo. Como Jesus Cristo constituiu em sua Igreja um governo regular e uma disciplina, nenhuma lei de qualquer Estado deve proibir, impedir ou embaraçar o seu devido exercício entre os membros voluntários de qualquer denominação cristã, segundo a profissão e crença de cada uma. E é dever dos magistrados civis proteger a pessoa e o bom nome de cada um dos seus jurisdicionados, de modo que a ninguém seja permitido, sob pretexto de religião ou de incredulidade, ofender, perseguir, maltratar ou injuriar qualquer outra pessoa; e bem assim providenciar para que todas as assembléias religiosas e eclesiásticas possam reunir-se sem ser perturbadas ou molestadas. <http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm>

Fonte: www.napec.org