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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O que dizer sobre os desigrejados?

Poucos assuntos são tão comentados comigo quanto aquilo que diz respeito aos desigrejados. Há uns dez ou quinze anos atrás ninguém falava em “desigrejado”, mas hoje o termo está mais do que na moda. Ser desigrejado é a onda do momento, surfando na maré trazida por gente como Caio Fábio, “irmão” Rubens, Mário Persona e diversos youtubers por aí. Aqui eu não pretendo desmerecer o conceito como um todo, porque entendo que existem diversos tipos de desigrejados e pelas razões mais variadas possíveis. Por exemplo, eu sou amigo de pessoas que são desigrejadas não porque sejam radicais “anti-templo” (ou “anti-sistema”, como dizem), mas apenas porque não conseguem encontrar nenhuma igreja decente na região onde moram, e na ausência de igrejas decentes preferem ficar sem congregar – algo que eu não tenho muito como contestar.

Mas não é desses que falarei aqui, e sim daqueles que popularizaram um discurso que, entre outras coisas, condena com veemência qualquer forma de denominacionalismo, qualquer templo e qualquer pastor – independentemente do ensino que é pregado ali. Por vezes esse discurso se apropria de textos legítimos que caracterizam a Igreja como o corpo místico e invisível de Cristo, como eu também sempre ressaltei em meus artigos (veja aqui ou aqui), mas distorce esse discurso no sentido de condenar qualquer adoração a Deus em ambientes “institucionais”. O fato é que embora a Igreja em si consista primordialmente na reunião espiritual de todos os cristãos em qualquer parte do mundo onde estejam, isso não proíbe que esses cristãos se reúnam como igreja em casas ou templos.

Muito pelo contrário, vemos logo no início da Igreja os apóstolos congregando no templo:

“Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava todos os dias os que iam sendo salvos” (Atos 2:46-47)

“Certo dia Pedro e João estavam subindo ao templo na hora da oração, às três horas da tarde. Estava sendo levado para a porta do templo chamada Formosa um aleijado de nascença, que ali era colocado todos os dias para pedir esmolas aos que entravam no templo. Vendo que Pedro e João iam entrar no pátio do templo, pediu-lhes esmola. Pedro e João olharam bem para ele e, então, Pedro disse: ‘Olhe para nós!’” (Atos 3:1-4)

Se Pedro e João tivessem essa visão radical “anti-templo” que os pregadores desigrejados insistem em propagar, eles jamais teriam decidido se reunir como igreja justamente em um templo no início da comunidade cristã. Eu já vi muitas vezes proselitistas desigrejados condenando os templos usando como argumento a passagem onde Jesus prevê a destruição do templo ou quando diz que a Igreja somos nós, mas se essa fosse de fato a implicação que tomamos desses textos, os próprios apóstolos estariam condenados em sua atitude de adorar a Deus no templo.

É verdade que depois disso vemos os cristãos primitivos congregando nas casas, como os textos a seguir nos mostram:

“Saúdem Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Arriscaram a vida por mim. Sou grato a eles; não apenas eu, mas todas as igrejas dos gentios. Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles” (Romanos 16:3-5)

“Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa” (Colossenses 4:15)

“À irmã Áfia, e a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que está em tua casa” (Filemom 1:2)

Porém, isso não aconteceu porque repentinamente os apóstolos tiveram uma revelação divina e perceberam que era pecado congregar em templo, mas sim porque a nova fé passou a ser perseguida pelos judeus e pelos romanos, tendo como consequência imediata a supressão do Cristianismo formal. Em outras palavras, a partir de agora os cristãos teriam que se reunir em casas porque apenas escondidos poderiam adorar a Deus sem serem mortos por conta disso.

É por isso que quando o Cristianismo voltou à “legalidade” (no século IV) os cristãos voltaram a congregar em templos, não porque tenham virado “anti-casa”, mas porque viam o templo como um local mais apropriado em função de sua maior capacidade e de ser um local exclusivo para a finalidade de adoração, sem ter que incomodar a privacidade de ninguém. Caso semelhante ocorre hoje em países onde o Cristianismo é fortemente perseguido nos dias de hoje, como a China, que tem a maior “igreja subterrânea” do mundo. Mas quando missionários cristãos lhes perguntam se eles gostariam de ser livres para congregar em templos se pudessem, eles são quase unânimes em responder que sim.

É importante ressaltar que isso não significa que o templo em si seja a igreja. Não, não é, e este conceito está claro em textos muito usados pelos desigrejados como Atos 17:24, que diz que Deus “não habita em templos feitos por mãos de homens”. Não é o templo em si o local onde Deus habita, mas o coração das mulheres e dos homens regenerados (1Co 3:16). Mas isso não impede que essas mulheres e homens regenerados se reúnam em templos para adorar a Deus como igreja (e não “na” igreja, como costumamos dizer erroneamente), até porque o mesmo Deus que não habita em templos feitos por mãos humanas também não habita em casas feitas por mãos humanas.

O importante não é o local em que se cultua a Deus e que comumente é chamado de "igreja", mas sim o coração dos adoradores ali presentes, e a doutrina que está sendo ali ensinada. Se há adoradores em espírito e em verdade (Jo 4:24) compartilhando uma doutrina autenticamente evangélica (Fp 1:27), Deus estará ali presente (Mt 18:20), independentemente se estão se reunindo em um templo, ou em uma casa, ou ao ar livre, ou no espaço sideral, ou onde quer que seja. Limitar o agir de Deus ao lugar em si é se apegar demasiadamente ao aspecto material da coisa, em vez do espiritual que realmente interessa.

Por ironia, muitos desses desigrejados que atacam os que congregam em templos pelo simples fato de estarem “se aliando ao sistema denominacional” são hereges de laia bem pior que aqueles a quem tanto criticam. Grande parte deles não crê em doutrinas básicas do Cristianismo como a inspiração da Bíblia, o batismo, a Santa Ceia ou a própria volta de Jesus. Alguns são grupos liberais como o de Caio Fábio, que defende a legalização de drogas, aborto e o casamento gay; outros seguem a linha de conspiracionistas de internet como Rubens Sodré, que atacou as Escrituras dizendo que “a Bíblia mente” porque narra personagens bíblicos mentindo em algumas ocasiões (é sério, veja aqui), e outros são hereges dos mais variados tipos, desde sabelianos até judaizantes.

Quase todos eles se utilizam do dízimo como arma de fogo para demonizar as denominações evangélicas (e até certo ponto, com razão), mas pedem mais “contribuições voluntárias” do que pastor neopentecostal, e acabam extraindo de seus seguidores até mais do que o dízimo que antes pagavam nos templos. Outros tem canais sensacionalistas cuja única finalidade é lucrar com AdSense e com a venda de produtos da China revendidos a preços exorbitantes. Não há entre eles sequer uma unidade em torno de doutrinas fundamentais (como essa confissão de fé evangélica que reúne todas as crenças básicas de todas as igrejas protestantes); basicamente qualquer um ensina e prega o que quer e o único consenso que existe é falar mal dos pastores, das denominações e dos templos, como se fosse nisso que o evangelho consistisse.

Há poucas semanas uma pessoa apareceu nos comentários de um post meu no facebook comentando algumas coisas estranhas, e confesso que levei um bom tempo até entender que se tratava de um desigrejado. Ele dizia:


Primeiro ele disse que não existe pastor no contexto da nova aliança (o que, acreditem, é bastante disseminado entre os grupos de desigrejados, inclusive muitos rejeitam o rótulo de “pastor” por acreditar ser “coisa das denominações”), então eu respondo com um versículo curto, simples e claro onde pastores e outros cargos eclesiásticos são estabelecidos, então ele parece não saber que esse texto de Paulo aos Efésios era do Novo Testamento e me contesta como se eu estivesse pegando coisa da velha aliança, e depois pergunta se estão vivos(?), o que eu francamente ainda não entendi até agora. Isso mostra que o problema de muitos desigrejados é apenas e tão somente a falta de leitura da Bíblia. É muito youtube para pouca Escritura.

Eu não preciso passar versículos clichês aqui a respeito da importância de congregar em algum lugar, como Hebreus 10:25 (“não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns”), porque a princípio concordo que uma casa poderia ser esse lugar, desde que apresente os critérios básicos para ser considerada uma igreja visível autêntica, o que inclui as crenças básicas do Cristianismo que, em grande medida, são rejeitadas pelos grupos desigrejados que demonizam as estruturas eclesiásticas tradicionais. O problema de grande parte dos desigrejados não é o fato de não se reunirem como igreja em um templo, mas sim o fato de não se reunirem como igreja, pois quando o ensino é corrompido e a mensagem é falsa, não pode ser considerada igreja nem em um sentido visível, nem no sentido invisível (se você não está a par do conceito de igreja visível e invisível, por favor leia este artigo agora mesmo).

Os desigrejados também frequentemente criticam as denominações pelo simples fato de serem denominações, isto é, por designarem a si mesmas com um nome específico, quando para eles a verdadeira igreja não tem nome, é apenas “cristã”. Mas o nome em si é irrelevante, porque nenhum ministério se torna automaticamente cristão pelo simples fato de se chamar assim, pela mesma razão que um ministério não é necessariamente falso por dar um nome pelo qual se identifique frente a outros ministérios cristãos (por exemplo, “Igreja Batista”, “Assembleia de Deus”, “Menonita”, etc). Não é o nome que importa, mas o ensino e a pureza doutrinária e moral presentes (ou não) nesses ministérios. Um “ministério sem nome” que congregue em casas não pode se achar legítimo pelo simples fato de não dar a si mesmo um nome, mesmo porque com o tempo os próprios membros acabam se intitulando de alguma forma para facilitar a identificação (por exemplo, “ministério Caminho da Graça”, para quem é da turma do Caio Fábio).

O mesmo ocorre no próprio meio católico, já que hoje em dia se dizer apenas “católico” não significa nada, tendo em vista tantos “catolicismos” diferentes que existem por aí. Por isso eles se identificam entre si de diferentes maneiras; uns se dizem tradicionalistas, outros são modernistas, outros são carismáticos, outros são sedevacantistas, outros são veterocatólicos e por aí vai, todos alegando serem os “verdadeiros católicos” que agem “de acordo com a tradição da Igreja”. O ponto em questão é que a denominação em si (e “denominação” nada mais é do que “denominar”, ou seja, “dar um nome” a algo) não é o mais importante, ou senão o próprio Cristianismo não teria vários nomes na Bíblia, tais como “Caminho” (At 9:2), “seita dos nazarenos” (At 24:5) e “cristãos” (At 11:26), de onde vem o termo “Cristianismo”, o mais popular, embora não o mais antigo.

Desigrejados também costumam frequentemente criticar asperamente aspectos negativos da estrutura eclesiástica tradicional, e até certo ponto eu concordo. Há igrejas que parecem hospícios, há outras que parecem centros de umbanda e candomblé, há outras que parecem uma empresa ou mercado, e outras que são tão exclusivistas e legalistas que não são mais que seitas propriamente ditas. Mas o erro é generalizar, como se todas as denominações evangélicas estivessem completamente corrompidas e agora não nos restasse outra opção a não ser congregar em grupos discretos como o de Caio Fábio e companhia limitada, ou simplesmente não congregar em lugar nenhum. Há muitas igrejas corrompidas, mas também há muitas igrejas que ainda guardam boa parte da pureza original da Igreja primitiva, e não querer enxergar Cristianismo em lugar nenhum é um exagero dramático para não dizer soberbo.

Por isso os desigrejados apelam tanto a generalizações descabidas e a exageros de linguagem, como se todas as denominações evangélicas fossem como aquelas que aparecem na televisão, como se todos os pastores fossem um Agenor Duque ou um Valdemiro Chapelão da vida, e como se todas elas estivessem exclusivamente interessadas no seu bolso. Esse quadro é um exagero descabido e para refutá-lo não é preciso fazer mais do que procurar igrejas uma a uma e perceber a diferença entre elas. Como eu disse no início do artigo, há lugares onde a coisa está realmente tão feia que não se pode encontrar uma igreja pura nem em um sentido relativo, mas há outros onde o cenário destoa completamente. Na minha experiência pessoal, eu tive mais dificuldade em escolher que igreja boa congregar do que dificuldade em encontrar uma igreja boa.

Quem ainda pensa que não existe evangelho genuíno sendo pregado em denominações precisa urgentemente assistir a pregações de um Paul Washer, de um John Piper, de um Luciano Subirá, de um Ed René Kivitz, de um Maurício Zágari, de um Paulo Junior e de muitos outros – todos eles pregando nos abomináveis “templos feitos por mãos humanas”. E se alguém escuta essa classe de pregadores e mesmo assim ainda pensa que eles estão “corrompidos” e que quem guarda a pureza da fé nos dias atuais é um Rubens Sodré da vida, precisa muito rever os seus conceitos do que vem a ser Cristianismo, antes de rever qualquer coisa relacionada a denominações.

Antes de terminar, eu preciso reforçar minha mensagem inicial: esse artigo não é uma ofensa aos desigrejados como um todo e nem uma “apologia” ao conceito de “igreja-templo”. Durante algum tempo da minha vida o único lugar em que eu congregava era na casa de um jovem que era um profundo conhecedor da Bíblia e que pregava como poucos que eu já vi, com certeza no top 3, e nem por isso eu o considerava um herege por não estar congregando em uma denominação formal, tampouco me via como um “desigrejado”, porque aquelas reuniões eram, para mim, uma igreja, tal como os cultos nas casas dos cristãos primitivos (hoje ele congrega em uma denominação, e eu continuo o vendo como cristão da mesma forma que antes, não maior nem menor).

Minha crítica é para os radicais anti-templo, para os que conseguem enxergar tudo corrompido à exceção de Caio Fábio e mais meia-dúzia de “iluminados”, para os que se reúnem em grupos heréticos para atacar as denominações com argumentos fraudulentos e, principalmente, para aquele tipo de conspiracionista de youtube que apenas se apropria de um discurso clichê anti-denominacional não porque realmente tenha algum estudo ou preparo bíblico, mas apenas porque precisa fazer sensacionalismo com alguma coisa para se promover e ganhar o dinheiro que não conseguiu ganhar através dos templos que tanto critica. Talvez o debate abaixo diga alguma coisa.
 
Fonte: lucasbanzoli.com

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