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quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A trindade é pagã?


Uma acusação muito séria que é frequentemente levantada por grupos anti-trinitarianos é a de que a doutrina da trindade é “pagã”, como foi dito por um leitor do blog aqui. Embora eu seja trinitariano, este artigo não visa defender a trindade biblicamente, mas apenas responder a essa afirmação de que a trindade é pagã, que é muito fácil de ser acreditada quando não se estuda o paganismo a fundo. Por exemplo, foi afirmado pelo leitor que a trindade é uma “filosofia pagã”, o que exige necessariamente a existência de filósofos pagãos ensinando e defendendo a ideia da trindade. Mas não existe nenhum. Eu fiz uma pesquisa comum no Google por “a trindade é pagã”, e logo no primeiro resultado que aparece (de um site tentando provar que a trindade é pagã) eles mesmos afirmam isso (fonte):


Ou seja, eles alegam que o termo “trindade” é uma invenção de Teófilo de Antioquia, no segundo século. Ocorre que Teófilo não era nenhum filósofo pagão, e sim um bispo cristão. Os três livros que ele escreveu a Autólico não foram para convencê-lo do paganismo, mas do Cristianismo. Se a “origem” da trindade é mesmo Teófilo, isso significa que a trindade tem origem cristã, e não pagã.

É necessário deixarmos uma coisa bem clara aqui: uma coisa é dizer que “a trindade é falsa” (por exemplo, expondo argumentos bíblicos para esse fim), outra coisa bem diferente é dizer que “a trindade é pagã”. Para a trindade ser de origem pagã, ela deve ter sido crida e ensinada por povos pagãos, e então os cristãos teriam que ter, por alguma razão, transportado este ensino para dentro do escopo cristão. E quando se fala em "filosofia pagã", primeiro tem que mostrar qual filósofo pagão falou em trindade, depois mostrar as provas de que os cristãos antigos plagiaram essa crença e a transportaram ao Cristianismo e o que eles ganhariam com isso, e só então concluir tal coisa. Mas o que vemos por aí é que nada é provado, e já tiram de antemão a conclusão de que “a trindade é pagã”.

Um artigo de outro site que também visa provar que a trindade é pagã afirma o seguinte (fonte):


O que o autor não diz é que os romanos não tinham só esses três deuses citados (e diga-se de passagem, Mitra é de origem persa e não romana), mas um panteão enorme que incluía todos esses (fonte):

O mesmo erro é afirmado em relação às supostas “trindades” da Babilônia, do Egito e da Grécia, quando qualquer um que investigue o básico da mitologia desses povos confere que não há qualquer “trindade” ali, mas apenas um panteão de muitos deuses diferentes em um autêntico politeísmo. Você pode ver uma lista de vários deuses babilônicos aqui, dos egípcios aqui e dos gregos aqui. Se a trindade do Cristianismo é “pagã”, deveríamos esperar que no paganismo da época houvesse a crença monoteísta em um único Deus em três pessoas, mas essa não era a doutrina de nenhuma das religiões predominantes na época.

No máximo o que existiam eram “tríades”, que era quando três deuses entre esse panteão de outros deuses executavam uma função semelhante, mas isso nem de longe era considerado uma “trindade”. Nenhum pagão consideraria alguma tríade como o “Deus único”, nem tampouco assumiria que os três são na verdade um, e muito menos que não havia Deus além da tríade. Tampouco essas tríades eram consideradas responsáveis pela criação e manutenção de todo o Universo (na verdade, grande parte delas se preocupava com coisas bem menores, como “o poder de transformar em pedra qualquer um que as olhasse nos olhos”). Ou seja: eram apenas três deuses em meio a muitos outros deuses de um panteão de deuses do politeísmo da época, e responsáveis por uma função limitada e específica dentro desse panteão de deuses. Chega a ser ridículo afirmar que a trindade foi “cópia” disso.

Além do mais, a justificativa dada por qualquer um desses sites para o fato dos cristãos terem suprimido o “monoteísmo puro” pela “trindade pagã” no segundo século (ou depois de Constantino no quarto século, como afirmam outros) não apenas é bastante fraco, como prova o contrário se analisado criteriosamente. O argumento é o seguinte: os cristãos da época precisavam apresentar um Cristianismo mais “atraente” aos filósofos pagãos para ganhar a simpatia e a adesão da parte deles, e como o monoteísmo não era nada vantajoso, decidiram criar a trindade que supostamente já predominava nessas culturas do paganismo greco-romano.

Ora, já vimos que esses povos não eram trinitarianos, o que por si só já derrubaria o argumento. Mas o problema é muito maior que isso, pois se essa fosse mesmo a intenção dos antigos cristãos, lhes teria sido muito mais fácil dizer que existiam três deuses (ou seja, afirmando o politeísmo), ou três deuses entre muitos outros deuses (à semelhança das tríades do paganismo), do que afirmar algo que seria (e foi) considerado um completo absurdo para a época, uma novidade “escandalosa” e que ainda é complexa de se entender até para os dias de hoje: que há três pessoas, mas um único Deus. Ou, em outras palavras, que três pessoas compartilham de uma mesma e única natureza divina, designando um único Ser: Deus.

Os pagãos poderiam até admitir a crença em três deuses, mas nunca a de que não são três deuses, mas um só. Nenhum pagão estaria acostumado a lidar com isso, e isso de modo algum serviria a ganhar o apoio deles, mas, pelo contrário, contribuiria a ganhar antipatia e hostilidade desses povos que nem mesmo entenderiam do que se trata. Não à toa o arianismo fez tanto sucesso entre os bárbaros (pagãos), que embora fossem antes politeístas, tinham mais facilidade em assimilar o arianismo do que o trinitarianismo.

Em outras palavras, assumir a trindade para atrair os pagãos seria um verdadeiro “tiro no pé” se fosse mesmo a ideia. Se Constantino, como imperador e verdadeiro presidente do primeiro concílio ecumênico de Niceia quisesse infiltrar os deuses pagãos para dentro do Cristianismo, ele não teria feito isso inventando a trindade que nem existia no paganismo, mas simplesmente resgatando o “bom e velho” politeísmo romano e destruindo completamente qualquer noção de “um único Deus” no Cristianismo. E como esses próprios sites afirmam, Pais da Igreja como Teófilo e Tertuliano já falavam em trindade desde o século II, ou seja: muito, muito antes de Constantino...

Este artigo não visa ignorar a existência de sincretismos pagãos que adentraram o Cristianismo, o que qualquer pessoa sensata sabe que existiu e ainda continua existindo em muitos lugares. Eu mesmo afirmo um desses sincretismos no que se refere à crença na imortalidade da alma, trazida por filósofos cristãos admiradores do platonismo na segunda metade do segundo século, como mostro em meu livro "Os Pais da Igreja contra a Imortalidade da Alma". Mas exige-se uma justificativa séria e honesta para esse tipo de transposição doutrinária. No caso da imortalidade da alma, a temos como a crença predominante em todos os círculos “intelectuais” (filosofia grega) da época, mas no caso da trindade seria simplesmente estúpido inventá-la a fim de ganhar os pagãos, uma vez que a trindade causa apenas um profundo choque e incompreensão da parte de qualquer incrédulo até os dias de hoje, seja ele um monoteísta muçulmano ou judeu, um panteísta hindu ou budista, ou um politeísta clássico como os gregos e romanos dos primeiros séculos.

Cabe lembrar que mesmo se um dia alguém conseguisse provar de modo irrefutável que já havia pagãos crendo em uma trindade pagã antes da existência do Cristianismo, isso ainda não provaria nada por si só, pois da mesma forma existem muitíssimos registros de um dilúvio universal em muitos povos da Antiguidade que não eram nem judeus e nem cristãos (inclusive em tribos indígenas da América), como você pode ver aqui. Precisaria de muito mais do que isso: precisaria mostrar quem, quando e por que mudaria a doutrina “unitarista” pelo trinitarianismo, além, é claro, de provar historicamente que os cristãos eram unitaristas antes desse período de transição. Isso pode ser feito até com certa facilidade com relação a outras doutrinas e práticas, mas seguramente não com a trindade.

Cabe lembrar que há muitos ateus por aí que dizem que o próprio Jesus é um plágio de mitos pagãos por causa de supostas semelhanças com deuses pagãos da Antiguidade (como Hórus, Mitra e muitos outros), que eu já tive o trabalho de refutar aqui. Só isso já deveria ser o bastante para ficarmos em estado de alerta e bem atentos a toda vez que alguém vier com um discurso de que isso ou aquilo é pagão. É preciso uma análise mais detida de cada caso específico e um estudo sério e sincero em vez de comprar a ideia da primeira pessoa que tenta impor paganismo em uma ideia somente por não acreditar nela.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.
 
Fonte: lucasbanzoli.com

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