Vez por outra alguém me pergunta
sobre o que eu acho dos ‘milagres’ de tal religião, das ‘curas’ de tal igreja,
dos ‘sinais’ operados por tal “profeta”, “apóstolo”, “santo” ou quem quer que
seja – mesmo quando esses mesmos são bastante questionáveis na conduta que
seguem ou na doutrina que creem. Aí já se encontra o primeiro problema: para a
maior parte das pessoas, se há alguma ação sobrenatural em algum lugar ou
através de qualquer pessoa, já significa necessariamente
que Deus está aprovando essa pessoa, esse ministério ou essa igreja. É como
se Deus estivesse concordando com tudo o que é praticado ali, dando o seu aval
ou selo de aprovação.
Eu costumo responder que esta
não é a única razão (e frequentemente não é mesmo) pela qual Deus pode operar
um milagre. Em muitos casos, Deus pode curar alguém simplesmente por
misericórdia e amor pelo próprio indivíduo que está sofrendo, a despeito de
todas as suas crenças ou de quem “a curou” (ou melhor, de quem orou pela cura, já que quem cura mesmo é
Deus). Isso é às vezes difícil de compreender usando a mentalidade humana, pois
estamos tentados a pensar que, se Deus age através de alguém, é porque ele
concorda com o que esse alguém está fazendo. Mas da mesma forma que nós muitas
vezes ajudamos mendigos e pessoas carentes que não compartilham da mesma fé e
que talvez estejam até afundados nas drogas ou em vícios sem fim, Deus também
intervém em favor de pessoas que não necessariamente podem ser consideradas “salvas”.
O texto mais conhecido por todos
é o de Mateus 7:21-23, que diz:
“Nem
todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas
aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele
dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não
expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi
claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’”
(Mateus 7:21-23)
Note que Jesus não nega, em
momento algum, que aquelas muitas pessoas
realmente profetizavam, expulsavam demônios e realizavam milagres em nome de
Cristo. Ele não diz: “Vocês fizeram isso pelo demônio”, e seria altamente
improvável que todos aqueles indivíduos fossem apenas charlatões conscientes de
que estavam enganando as pessoas com truques e enganações, pois neste caso eles
jamais iriam reivindicar tais operações miraculosas diante do próprio Deus. À
luz do texto bíblico, parece evidente que aquelas pessoas realmente eram usadas
por Deus – mas a resposta de Cristo a elas não é mais do que a condenação ao
inferno.
Tais indivíduos presumivelmente
pensavam que o fato de estarem expulsando demônios com êxito, profetizando
coisas que aconteciam realmente e operando milagres reais na vida de outras pessoas
implicava que Deus as aprovava, ou senão elas não conseguiriam continuar
fazendo essas coisas. Assim, se sentiam confortáveis para continuar levando uma
vida de pecado, extorquindo as pessoas, enganando e manipulando à vontade – e tudo
sob a falsa noção de que Deus não estava se importando com tal comportamento;
afinal, elas continuavam sendo usadas para coisas sobrenaturais!
Um caso que também chama a
atenção é dos sete filhos de Ceva, que expulsavam demônios em nome de Jesus,
mesmo sem nenhuma autoridade espiritual para isso:
“Alguns
judeus que andavam expulsando espíritos malignos tentaram invocar o nome do
Senhor Jesus sobre os endemoninhados, dizendo: ‘Em nome de Jesus, a quem Paulo
prega, eu lhes ordeno que saiam!’ Os que estavam fazendo isso eram os sete
filhos de Ceva, um dos chefes dos sacerdotes dos judeus. Um dia, o espírito
maligno lhes respondeu: ‘Jesus, eu conheço, Paulo, eu sei quem é; mas vocês,
quem são?’ Então o endemoninhado saltou sobre eles e os dominou, espancando-os
com tamanha violência que eles fugiram da casa nus e feridos” (Atos
19:13-16)
O que é geralmente ressaltado
nas pregações é a parte final, que os mostra envergonhados e humilhados pelo
demônio, mas muitos se esquecem que, até
aquele dado momento, esses filhos de Ceva estavam expulsando os demônios
com êxito, sem nenhuma diferença em relação aos apóstolos. O texto não
esclarece precisamente quantos demônios ou por quanto tempo eles conseguiram
fazer isso, mas deixa claro que isso aconteceu mesmo. Se eles conseguiram
expulsar com êxito mesmo sem autoridade espiritual, é perfeitamente possível
que nos dias de hoje pessoas que também não tem nenhuma aprovação de Deus
consigam expulsar espíritos malignos, pelo menos por certo tempo.
Em se tratando de curas, temos a
ocasião em que Jesus enviou seus doze discípulos para curar as pessoas, e elas
foram curadas mesmo:
“Reunindo
os Doze, Jesus deu-lhes poder e autoridade para expulsar todos os demônios e
curar doenças, e os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos (...)
Ao voltarem, os apóstolos relataram a Jesus o que tinham feito. Então ele os
tomou consigo, e retiraram-se para uma cidade chamada Betsaida” (Lucas
9:1,2,10)
O que chama a atenção é que o
texto não diz que onze fizeram isso com êxito e um dos doze (Judas) falhou
miseravelmente. Ao contrário, deixa subtendido que todos os doze expulsaram os demônios e curaram as doenças. E nessa
época Judas já era um ladrão (Jo 12:6) e um “diabo” (Jo 6:70), que mais tarde
viria a trair Jesus.
Finalmente, em se tratando de
profecias, temos o caso de Balaão, que de fato profetizou em nome do Senhor
coisas que realmente se concretizaram:
“Então
pronunciou este seu oráculo: ‘Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra daquele
cujos olhos vêem claramente, daquele que ouve as palavras de Deus, que possui o
conhecimento do Altíssimo, daquele que vê a visão que vem do Todo-poderoso,
daquele que cai prostrado, e vê com clareza: Eu o vejo, mas não agora; eu o
avisto, mas não de perto. Uma estrela surgirá de Jacó; um cetro se levantará de
Israel. Ele esmagará as frontes de Moabe e o crânio de todos os descendentes de
Sete. Edom será dominado; Seir, seu inimigo, também será dominado, mas Israel
se fortalecerá’” (Números 24:15-18)
Balaão é o personagem principal
de três capítulos (de Nm 22 a 24), mas nenhum deles diz que ele era um falso
profeta, um charlatão ou alguém que profetizava pelo demônio. E mesmo assim, Balaão
é relacionado na lista de pessoas ímpias, junto com Caim e os da rebelião de
Corá:
“Ai
deles! Pois seguiram o caminho de Caim, buscando o lucro, caíram no erro de
Balaão e foram destruídos na rebelião de Corá” (Judas 11)
A conclusão inevitável é que,
embora Deus “usasse” Balaão e até falasse através dele, ele de modo algum
aprovava suas atitudes, nem tampouco o fato de ser profeta o colocava em um
pedestal “acima de qualquer suspeita”. A Bíblia diz que os dons de Deus são
irrevogáveis (Rm 11:29), o que significa que Deus não vai tirar o dom que ele
deu a alguém por essa pessoa tê-lo usado inadequadamente, ou por estar em
pecado. Se fosse assim, o texto diria que os dons são revogáveis, e não irrevogáveis. Ainda que a pessoa tenha recebido
os dons em um momento de sinceridade na fé, isso não significa que após tê-los
recebido ela necessariamente continuará firme com Deus por todo o resto da vida
– os próprios testemunhos à nossa volta testificam disso.
Finalmente, uma outra razão pela
qual não devemos nos impressionar apenas pelos milagres ou creditarmos a fé
verdadeira à fé da pessoa que realizou o milagre, é o fato do diabo também
poder realizar (ou falsificar) coisas do tipo com poder sobrenatural, mas
satânico. Um exemplo disso é Simão, o mago, sobre quem a Bíblia narra:
“Um
homem chamado Simão vinha praticando feitiçaria durante algum tempo naquela
cidade, impressionando todo o povo de Samaria. Ele se dizia muito importante, e
todo o povo, do mais simples ao mais rico, dava-lhe atenção e exclamava: ‘Este
homem é o poder divino conhecido como Grande Poder’. Eles o seguiam, pois ele
os havia iludido com sua mágica durante muito tempo” (Atos 8:17-19)
Diante de Moisés, a vara dos
magos do Egito também se transformaram em serpentes (Êx 7:10-12), e esses
mesmos magos também conseguiam copiar o milagre da água se transformando em
sangue (Êx 7:22) e das rãs surgindo no Egito (Êx 8:7). Quando Deus deu a
permissão no livro de Jó, o diabo conseguiu intervir sobrenaturalmente nas
forças da natureza, a ponto de fazer fogo cair do céu (Jó 1:16) e um “forte
vento” capaz de destruir uma casa e matar quem estava lá dentro (Jó 1:19). O
próprio apóstolo Paulo disse que Satanás tem poder para se transformar até em
anjo de luz (2Co 11:14), e de fato há muitas “aparições” por aí com a única
finalidade de perverter o evangelho puro e conduzir os homens a servirem mais a
criatura do que o Criador (Rm 1:25).
Agora imagine que você esteja no
meio da grande tribulação do Apocalipse, e diante dos seus olhos acontece isso:
“E faz grandes sinais, de maneira que até
fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E engana os que habitam
na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta,
dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a
ferida da espada e vivia” (Apocalipse 13:13-14)
Para a grande maioria das
pessoas – senão todas – esta será de longe a maior intervenção sobrenatural que
seus olhos já viram: fogo descendo do céu à terra, e isso não em um filme de
Hollywood ou em uma foto cheia de photoshop, mas “à vista dos homens”, como ocorreu com o profeta Elias. Se alguém
está inclinado a seguir aquele que possui os milagres mais extraordinários,
certamente seguirá o anticristo sem nenhuma hesitação. Contudo, o próprio
relato bíblico assegura que “são espíritos de
demônios que realizam sinais miraculosos” (Ap 16:14). Não tem nada de
Deus ali.
Este artigo não visa fazer você
desacreditar em todo e qualquer milagre que ver por aí. Afinal de contas, o
próprio Jesus garantiu que os sinais acompanhariam os que creem (Mc 16:17), e
que faríamos obras ainda maiores do que as que ele fez (Jo 14:12). Entretanto,
é importante termos em mente que o fato de Deus usar alguém para realizar um
milagre ou uma intervenção sobrenatural de qualquer natureza não significa
necessariamente que esteja aprovando as crenças, os métodos ou a conduta de
quem o fez, ou de quem recebeu (de fato, não significa a priori nem mesmo que seja Deus realizando o milagre!). Não se faz
teologia por meio de “onde estão os milagres”, mas através de um estudo bíblico
sério e sincero, de quem está realmente interessado em descobrir a verdade, e
não de alguém que meramente deseja confirmar suas crenças prévias utilizando os
milagres para este fim.
É como disse Lutero:
"Qualquer
ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que
faça chover milagres todos os dias" (Luther's Works, vol. 24, p. 367)
Você pode pregar
maravilhosamente, e, ainda assim, não ser aprovado por Deus. Você pode cantar
no louvor da igreja brilhantemente, e, ainda assim, não ser aprovado. Você pode
escrever extraordinariamente, e, ainda assim, não ser aprovado. Você pode ter
cargos importantíssimos na igreja, e um reconhecimento humano ainda maior, e
ainda, assim, não ser aprovado. Você pode ganhar milhões de pessoas para
Cristo, e, ainda assim, perder sua própria alma. Você pode até mesmo
profetizar, expulsar demônios e realizar muitos milagres e maravilhas para
impressionar até os mais incrédulos, e, ainda assim, ouvir naquele dia: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais
a iniquidade” (Mt 7:23). Não são seus dons, seus cargos ou seu renome
que te definem, mas sua fé, seus frutos e o amar a Deus acima de todas as
coisas, e ao próximo como a si mesmo.
Paz a todos vocês que estão em
Cristo.
Fonte: lucasbanzoli.com


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