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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Deus te usar não significa que Deus te aprove

Vez por outra alguém me pergunta sobre o que eu acho dos ‘milagres’ de tal religião, das ‘curas’ de tal igreja, dos ‘sinais’ operados por tal “profeta”, “apóstolo”, “santo” ou quem quer que seja – mesmo quando esses mesmos são bastante questionáveis na conduta que seguem ou na doutrina que creem. Aí já se encontra o primeiro problema: para a maior parte das pessoas, se há alguma ação sobrenatural em algum lugar ou através de qualquer pessoa, já significa necessariamente que Deus está aprovando essa pessoa, esse ministério ou essa igreja. É como se Deus estivesse concordando com tudo o que é praticado ali, dando o seu aval ou selo de aprovação.

Eu costumo responder que esta não é a única razão (e frequentemente não é mesmo) pela qual Deus pode operar um milagre. Em muitos casos, Deus pode curar alguém simplesmente por misericórdia e amor pelo próprio indivíduo que está sofrendo, a despeito de todas as suas crenças ou de quem “a curou” (ou melhor, de quem orou pela cura, já que quem cura mesmo é Deus). Isso é às vezes difícil de compreender usando a mentalidade humana, pois estamos tentados a pensar que, se Deus age através de alguém, é porque ele concorda com o que esse alguém está fazendo. Mas da mesma forma que nós muitas vezes ajudamos mendigos e pessoas carentes que não compartilham da mesma fé e que talvez estejam até afundados nas drogas ou em vícios sem fim, Deus também intervém em favor de pessoas que não necessariamente podem ser consideradas “salvas”.

O texto mais conhecido por todos é o de Mateus 7:21-23, que diz:

“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’” (Mateus 7:21-23)

Note que Jesus não nega, em momento algum, que aquelas muitas pessoas realmente profetizavam, expulsavam demônios e realizavam milagres em nome de Cristo. Ele não diz: “Vocês fizeram isso pelo demônio”, e seria altamente improvável que todos aqueles indivíduos fossem apenas charlatões conscientes de que estavam enganando as pessoas com truques e enganações, pois neste caso eles jamais iriam reivindicar tais operações miraculosas diante do próprio Deus. À luz do texto bíblico, parece evidente que aquelas pessoas realmente eram usadas por Deus – mas a resposta de Cristo a elas não é mais do que a condenação ao inferno.

Tais indivíduos presumivelmente pensavam que o fato de estarem expulsando demônios com êxito, profetizando coisas que aconteciam realmente e operando milagres reais na vida de outras pessoas implicava que Deus as aprovava, ou senão elas não conseguiriam continuar fazendo essas coisas. Assim, se sentiam confortáveis para continuar levando uma vida de pecado, extorquindo as pessoas, enganando e manipulando à vontade – e tudo sob a falsa noção de que Deus não estava se importando com tal comportamento; afinal, elas continuavam sendo usadas para coisas sobrenaturais!

Um caso que também chama a atenção é dos sete filhos de Ceva, que expulsavam demônios em nome de Jesus, mesmo sem nenhuma autoridade espiritual para isso:

“Alguns judeus que andavam expulsando espíritos malignos tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre os endemoninhados, dizendo: ‘Em nome de Jesus, a quem Paulo prega, eu lhes ordeno que saiam!’ Os que estavam fazendo isso eram os sete filhos de Ceva, um dos chefes dos sacerdotes dos judeus. Um dia, o espírito maligno lhes respondeu: ‘Jesus, eu conheço, Paulo, eu sei quem é; mas vocês, quem são?’ Então o endemoninhado saltou sobre eles e os dominou, espancando-os com tamanha violência que eles fugiram da casa nus e feridos” (Atos 19:13-16)

O que é geralmente ressaltado nas pregações é a parte final, que os mostra envergonhados e humilhados pelo demônio, mas muitos se esquecem que, até aquele dado momento, esses filhos de Ceva estavam expulsando os demônios com êxito, sem nenhuma diferença em relação aos apóstolos. O texto não esclarece precisamente quantos demônios ou por quanto tempo eles conseguiram fazer isso, mas deixa claro que isso aconteceu mesmo. Se eles conseguiram expulsar com êxito mesmo sem autoridade espiritual, é perfeitamente possível que nos dias de hoje pessoas que também não tem nenhuma aprovação de Deus consigam expulsar espíritos malignos, pelo menos por certo tempo.

Em se tratando de curas, temos a ocasião em que Jesus enviou seus doze discípulos para curar as pessoas, e elas foram curadas mesmo:

“Reunindo os Doze, Jesus deu-lhes poder e autoridade para expulsar todos os demônios e curar doenças, e os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos (...) Ao voltarem, os apóstolos relataram a Jesus o que tinham feito. Então ele os tomou consigo, e retiraram-se para uma cidade chamada Betsaida” (Lucas 9:1,2,10)

O que chama a atenção é que o texto não diz que onze fizeram isso com êxito e um dos doze (Judas) falhou miseravelmente. Ao contrário, deixa subtendido que todos os doze expulsaram os demônios e curaram as doenças. E nessa época Judas já era um ladrão (Jo 12:6) e um “diabo” (Jo 6:70), que mais tarde viria a trair Jesus.

Finalmente, em se tratando de profecias, temos o caso de Balaão, que de fato profetizou em nome do Senhor coisas que realmente se concretizaram:

“Então pronunciou este seu oráculo: ‘Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra daquele cujos olhos vêem claramente, daquele que ouve as palavras de Deus, que possui o conhecimento do Altíssimo, daquele que vê a visão que vem do Todo-poderoso, daquele que cai prostrado, e vê com clareza: Eu o vejo, mas não agora; eu o avisto, mas não de perto. Uma estrela surgirá de Jacó; um cetro se levantará de Israel. Ele esmagará as frontes de Moabe e o crânio de todos os descendentes de Sete. Edom será dominado; Seir, seu inimigo, também será dominado, mas Israel se fortalecerá’” (Números 24:15-18)

Balaão é o personagem principal de três capítulos (de Nm 22 a 24), mas nenhum deles diz que ele era um falso profeta, um charlatão ou alguém que profetizava pelo demônio. E mesmo assim, Balaão é relacionado na lista de pessoas ímpias, junto com Caim e os da rebelião de Corá:

“Ai deles! Pois seguiram o caminho de Caim, buscando o lucro, caíram no erro de Balaão e foram destruídos na rebelião de Corá” (Judas 11)

A conclusão inevitável é que, embora Deus “usasse” Balaão e até falasse através dele, ele de modo algum aprovava suas atitudes, nem tampouco o fato de ser profeta o colocava em um pedestal “acima de qualquer suspeita”. A Bíblia diz que os dons de Deus são irrevogáveis (Rm 11:29), o que significa que Deus não vai tirar o dom que ele deu a alguém por essa pessoa tê-lo usado inadequadamente, ou por estar em pecado. Se fosse assim, o texto diria que os dons são revogáveis, e não irrevogáveis. Ainda que a pessoa tenha recebido os dons em um momento de sinceridade na fé, isso não significa que após tê-los recebido ela necessariamente continuará firme com Deus por todo o resto da vida – os próprios testemunhos à nossa volta testificam disso.

Finalmente, uma outra razão pela qual não devemos nos impressionar apenas pelos milagres ou creditarmos a fé verdadeira à fé da pessoa que realizou o milagre, é o fato do diabo também poder realizar (ou falsificar) coisas do tipo com poder sobrenatural, mas satânico. Um exemplo disso é Simão, o mago, sobre quem a Bíblia narra:

“Um homem chamado Simão vinha praticando feitiçaria durante algum tempo naquela cidade, impressionando todo o povo de Samaria. Ele se dizia muito importante, e todo o povo, do mais simples ao mais rico, dava-lhe atenção e exclamava: ‘Este homem é o poder divino conhecido como Grande Poder’. Eles o seguiam, pois ele os havia iludido com sua mágica durante muito tempo” (Atos 8:17-19)

Diante de Moisés, a vara dos magos do Egito também se transformaram em serpentes (Êx 7:10-12), e esses mesmos magos também conseguiam copiar o milagre da água se transformando em sangue (Êx 7:22) e das rãs surgindo no Egito (Êx 8:7). Quando Deus deu a permissão no livro de Jó, o diabo conseguiu intervir sobrenaturalmente nas forças da natureza, a ponto de fazer fogo cair do céu (Jó 1:16) e um “forte vento” capaz de destruir uma casa e matar quem estava lá dentro (Jó 1:19). O próprio apóstolo Paulo disse que Satanás tem poder para se transformar até em anjo de luz (2Co 11:14), e de fato há muitas “aparições” por aí com a única finalidade de perverter o evangelho puro e conduzir os homens a servirem mais a criatura do que o Criador (Rm 1:25).

Agora imagine que você esteja no meio da grande tribulação do Apocalipse, e diante dos seus olhos acontece isso:

E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia” (Apocalipse 13:13-14)

Para a grande maioria das pessoas – senão todas – esta será de longe a maior intervenção sobrenatural que seus olhos já viram: fogo descendo do céu à terra, e isso não em um filme de Hollywood ou em uma foto cheia de photoshop, mas “à vista dos homens”, como ocorreu com o profeta Elias. Se alguém está inclinado a seguir aquele que possui os milagres mais extraordinários, certamente seguirá o anticristo sem nenhuma hesitação. Contudo, o próprio relato bíblico assegura que “são espíritos de demônios que realizam sinais miraculosos” (Ap 16:14). Não tem nada de Deus ali.

Este artigo não visa fazer você desacreditar em todo e qualquer milagre que ver por aí. Afinal de contas, o próprio Jesus garantiu que os sinais acompanhariam os que creem (Mc 16:17), e que faríamos obras ainda maiores do que as que ele fez (Jo 14:12). Entretanto, é importante termos em mente que o fato de Deus usar alguém para realizar um milagre ou uma intervenção sobrenatural de qualquer natureza não significa necessariamente que esteja aprovando as crenças, os métodos ou a conduta de quem o fez, ou de quem recebeu (de fato, não significa a priori nem mesmo que seja Deus realizando o milagre!). Não se faz teologia por meio de “onde estão os milagres”, mas através de um estudo bíblico sério e sincero, de quem está realmente interessado em descobrir a verdade, e não de alguém que meramente deseja confirmar suas crenças prévias utilizando os milagres para este fim.

É como disse Lutero:

"Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias" (Luther's Works, vol. 24, p. 367)

Você pode pregar maravilhosamente, e, ainda assim, não ser aprovado por Deus. Você pode cantar no louvor da igreja brilhantemente, e, ainda assim, não ser aprovado. Você pode escrever extraordinariamente, e, ainda assim, não ser aprovado. Você pode ter cargos importantíssimos na igreja, e um reconhecimento humano ainda maior, e ainda, assim, não ser aprovado. Você pode ganhar milhões de pessoas para Cristo, e, ainda assim, perder sua própria alma. Você pode até mesmo profetizar, expulsar demônios e realizar muitos milagres e maravilhas para impressionar até os mais incrédulos, e, ainda assim, ouvir naquele dia: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Não são seus dons, seus cargos ou seu renome que te definem, mas sua fé, seus frutos e o amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.
 
Fonte: lucasbanzoli.com

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