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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Jesus é Deus? As provas bíblicas da divindade de Cristo

*Nota: Originalmente este artigo se chamaria “As provas bíblicas da trindade”, mas como só a parte relacionada à divindade de Cristo já ficou bastante longa, decidi postar em partes e dar continuidade ao estudo em artigos futuros. Boa leitura!  


***

Há muitos textos bíblicos que atestam a divindade de Cristo, sendo o mais famoso deles o de João 1:1, que diz:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1:1)

Uma vez que o contexto deixa claro que o Verbo aqui é Cristo (Jo 1:10-17), unitaristas como as testemunhas de Jeová precisaram adulterar a tradução para “o Verbo era um deus”, em vez de “o Verbo era Deus”. Eles argumentam que a ausência do artigo definido no grego implica que Jesus era apenas “um deus” (uma vez que o grego não possui artigo indefinido). O problema com esse argumento é que no Novo Testamento nomes próprios não exigem artigo definido (cf. At 19:13; Mt 2:7; 1Co 9:6; Cl 4:10), tampouco os primeiros versos de um livro (cf. Mc 1:1; 1Pe 1:1-2).

O próprio Deus Pai é citado dezenas de vezes na Bíblia sem o artigo definido (cf. Mc 12:26; 1Co 3:7, Tg 2:19; Gl 6:7, etc), incluindo em João 1:1 (a parte que diz “o Verbo estava com Deus” também aparece sem o artigo definido, e mesmo assim todos os unitaristas concordam que “Deus” aqui é o Pai, e não “um deus”). Além disso, como diz Norman Geisler, se João tivesse a intenção de dar à frase um sentido adjetivo (que o Verbo era “semelhante a um deus”, um ser divino), ele teria à sua disposição um adjetivo (theios) pronto, à mão, que poderia perfeitamente ter sido utilizado caso quisesse, mas em vez disso prefere empregar theos, o mesmo termo usado para Deus em todo o Novo Testamento.

Poucos versos adiante, João diz que “ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido” (Jo 1:18). Há discussão quanto ao uso do termo “Deus unigênito” ou “Filho unigênito” no original grego, mas Marcelo Berti prova neste artigo aprofundado que todas as evidências apontam para a tradução que aqui vimos – Jesus como o Deus unigênito.

O que não se discute é que em João 20:28 Tomé reconhece Jesus como “Senhor meu e Deus meu”, numa das provas mais fortes da divindade de Cristo – e ainda com o artigo definido que os unitaristas tanto usam contra João 1:1. Mas para eles, Tomé não estava falando de Jesus, mas apenas “com” Jesus. Eles interpretam como alguém que está apavorado e grita “meu Deus do céu!”, não como se Tomé estivesse realmente reconhecendo o senhorio e a divindade de Cristo. O problema é que o texto diz claramente que Tomé dirigiu essas palavras diretamente a Jesus, e não que simplesmente “exclamou” aquilo ao vento, de susto:

“E Jesus disse a Tomé: ‘Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia’. Disse-lhe Tomé: ‘Senhor meu e Deus meu!’. Então Jesus lhe disse: ‘Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram’” (João 20:27-29)

O texto não diz: «disse Tomé», mas sim: «disse-lhe Tomé». Ou seja, Tomé dirigia aquelas palavras especificamente a Jesus, reconhecendo-o como Senhor e Deus. E se Tomé estivesse apenas assustado e dizendo “meu Deus” a Jesus sem ele ser Deus de fato, Jesus obviamente o teria repreendido por usar o nome de Deus em vão (para não dizer blasfemando), mas faz justamente o contrário, elogiando a fé de Tomé.

O próprio Senhor Jesus agiu muitas vezes de um modo que seria blasfêmico se ele não fosse Deus, comparando-se e igualando-se a Deus inúmeras vezes e sem cerimônia alguma. Por exemplo, ele disse que “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14:9), que “quem me vê a mim vê aquele que me enviou” (Jo 12:45) e que “eu e o Pai somos um” (Jo 10:30), sugerindo que ele era igual a Deus. Tanto é assim que logo após dizer essas palavras os judeus pegaram em pedras para apedrejá-lo:

“Novamente os judeus pegaram pedras para apedrejá-lo, mas Jesus lhes disse: ‘Eu lhes mostrei muitas boas obras da parte do Pai. Por qual delas vocês querem me apedrejar?’. Responderam os judeus: ‘Não vamos apedrejá-lo por nenhuma boa obra, mas pela blasfêmia, porque você é um simples homem e se apresenta como Deus’(João 10:31-33)

Se Jesus não era Deus, ele era no mínimo um farsante que induzia o povo à idolatria, se expressando de uma forma que deliberadamente os levava a crer que ele era Deus. Mais do que isso, ele nunca rejeitou a adoração de quem quer que fosse, e há dúzias de textos onde isso ocorre, como exemplo:

“Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus” (Mateus 14:33)

“E eis que Jesus lhes veio ao encontro, dizendo: Salve. E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, e o adoraram” (Mateus 28:9)

“E outra vez, ao introduzir no mundo o primogênito, diz: todos os anjos de Deus o adorem” (Hebreus 1:6)

Curiosamente, ele mesmo disse que “ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” (Lc 4:8), usando o mesmo termo proskuneo que é usado nessas passagens para ele mesmo – o que implica que Jesus via a si mesmo como digno de receber a adoração devida somente a Deus (precisamente porque era Deus). Em outro conflito com os judeus, João diz que “os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus(Jo 5:18). É de se perguntar com que propósito Jesus se expressaria de forma no mínimo ambígua e bastante sugestiva, de modo a levar os judeus a pensarem que ele era Deus, em vez de se esforçar em evitar este mal-entendido.

Nada induziria mais um judeu a entender que Jesus enxergava a si mesmo como Deus do que as suas palavras sobre ele ser o próprio “Eu Sou” do Antigo Testamento:

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8:58)

Jesus não apenas está dizendo que existe desde antes de Abraão, mas se apropria da linguagem com que os judeus sempre se referiram a YHWH – o “Eu Sou”. Foi essa a primeira forma com que Deus se identificou aos israelitas através de Moisés, o primeiro nome que eles conheceram de Deus:

“Moisés perguntou: Quando eu chegar diante dos israelitas e lhes disser: O Deus dos seus antepassados me enviou a vocês, e eles me perguntarem: ‘Qual é o nome dele?’, que lhes direi? Disse Deus a Moisés: ‘Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: O Eu Sou me enviou a vocês’" (Êxodo 3:13-14)

Jesus poderia ter dito que “antes de Abraão, eu era”, o que estaria de acordo com a gramática, mas fez questão de infringir as normas gramaticais porque seu objetivo era se identificar do mesmo modo com o que o Eterno se identifica no Antigo Testamento – “Eu Sou”. Não admira que a reação imediata dos judeus que ouviram isso tenha sido pegar em pedras para executá-lo por blasfêmia (o que Jesus também não faz a menor questão de corrigir):

“Respondeu Jesus: ‘Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!’. Então eles apanharam pedras para apedrejá-lo, mas Jesus escondeu-se e saiu do templo” (João 8:58-59)

Diante de tantas declarações – algumas deliberadamente ambíguas, outras bastante inequívocas – de Jesus sugerindo ser Deus, devemos concluir: ou ele era Deus como dizia ser, ou ele estava conduzindo o povo à idolatria, que é o pior dos pecados, e é o maior responsável pela “heresia” da trindade que permanece muito viva até hoje (e que jamais teria existido se ele não tivesse insinuado ser Deus ou se tivesse se recusado a receber adoração).

Imagine um judeu ouvindo esse tipo de declaração:

Eu sou o Primeiro e o Último (Ap 22:13), a Luz do Mundo (Jo 8:12), o Pão da Vida (Jo 6:35), a Pedra Angular (Ef 2:20), a Rocha (1Co 10:4), o Cabeça da Igreja (Ef 1:22), o Verbo de Deus (Jo 1:1), o Deus conosco (Mt 1:23), o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19:16), o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14:6); tenho toda a autoridade nos céus e na terra (Mt 28:18), tudo o que você pedir eu meu nome eu o farei (Jo 14:13), eu e Deus somos um (Jo 10:30), quem vê a mim vê a Deus (Jo 14:9), e bem-aventurado é você por crer que eu sou Senhor e Deus (Jo 20:27-29). Eu Sou (Jo 8:58)!

O que eles pensariam de alguém dizendo essas coisas seriamente? Certamente não seria: “Uau, acho que ele é um grande profeta!”. Não, eles achariam que é um blasfemo, porque está definitivamente afirmando ser Deus.

Nos demais evangelhos também vemos Jesus como o Deus encarnado, a começar pelo nome “Emanuel”, profetizado desde os tempos de Isaías (Is 7:14), devido ao seu significado que Mateus expõe: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, que é Deus conosco (Mt 1:23). Nos evangelhos também é frequente a aplicação a Jesus de textos veterotestamentários referentes a Deus (YHWH), mostrando que Jesus é YHWH. Um exemplo é Zacarias 12:10, onde o próprio YHWH diz que seria transpassado, o que no Novo Testamento se cumpre pessoalmente em Jesus:

"Naquele dia procurarei destruir todas as nações que atacarem Jerusalém. E derramarei sobre a família de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de ação de graças e de súplicas. Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele como quem chora a perda de um filho único, e lamentarão amargamente por ele como quem lamenta a perda do filho mais velho” (Zacarias 12:9-10)

“Mas quando chegaram a Jesus, percebendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum dos seus ossos será quebrado’, e, como diz a Escritura noutro lugar: ‘Olharão para aquele que traspassaram’" (João 19:33-37)

Note que João cita diretamente a profecia de Zacarias (“olharão para aquele que transpassaram”) e a aplica a Jesus, embora no livro de Zacarias isso seja dito na primeira pessoa pelo próprio Deus, o que implica que Jesus é Deus. No próprio Antigo Testamento há a noção de pluralidade na unidade de Deus, como por exemplo no salmo que diz:

O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros ungindo-te com óleo de alegria” (Salmos 45:6-7)

O verso 6 fala do trono de Deus, que subsiste para todo o sempre. Aqui qualquer unitarista interpretaria como uma referência ao Pai, mas note como o salmista prossegue: por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros...”. O texto começa se referindo a Deus, mas prossegue dizendo o teu Deus, ou seja, está se referindo a alguém que é Deus mas que também tem um Deus. Pode parecer confuso, mas faz todo o sentido à luz de Cristo, que é Deus e ao mesmo tempo é Filho de Deus (o Pai), por isso ele é o “Deus que subsiste para todo o sempre” e “o seu Deus (o Pai) o escolheu”.

O mesmo é destacado pelo autor de Hebreus, que escreveu:

“Mas a respeito do Filho, diz: ‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria’” (Hebreus 1:8-9)

Jesus é chamado de Deus (v. 8), mas ao mesmo tempo tem um Deus (v. 9). Por isso a trindade consiste na “pluralidade na unidade”: um Deus, que subsiste em três pessoas, com o Pai no topo da hierarquia administrativa (mas igual em natureza). Um outro exemplo é o Salmo 102, que diz:

“Então pedi: Ó meu Deus, não me leves no meio dos meus dias. Os teus dias duram por todas as gerações! No princípio firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim” (Salmos 102:24-27)

Aqui o salmista está falando de Deus, e qualquer um poderia pensar que está falando do Pai. Mas na sequência do texto de Hebreus, ele diz:

“Mas a respeito do Filho, diz: ‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria’. E também diz: ‘No princípio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Tu os enrolarás como um manto, como roupas eles serão trocados. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim’” (Hebreus 1:8-12)

O verso 8 diz que está falando a respeito do Filho. Após a citação do Salmo 45 (que conferimos anteriormente) ele prossegue com uma nova referência ao Filho (“e TAMBÉM diz”), e então cita o texto do Salmo 102, que diz que Deus criou os céus e a terra, e que seus dias não terão fim. Ou seja, tudo o que o salmista dizia em relação a Deus, o autor de Hebreus aplica a Jesus Cristo – incluindo a criação do universo. Está óbvio que para ele Jesus era o Deus criador, o Todo-Poderoso, aquele de quem os salmistas escreveram e os profetas profetizaram.

Outro caso de “pluralidade na unidade” no Antigo Testamento é o Salmo 110, que diz:

“O Senhor disse ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés’” (Salmos 110:1)

Aqui dois “Senhor” aparecem. O primeiro recebe o nome de YHWH no hebraico, e o segundo de Adonai. Ambos são termos rotineiramente usados para Deus em todo o AT, e o próprio Jesus o aplicou para si em Mateus 22:24 (ou seja, se identificou como Adonai).

Isaías diz que ao Senhor dos Exércitos é que vocês devem considerar santo, a ele é que vocês devem temer, dele é que vocês devem ter pavor. Para os dois reinos de Israel ele será um santuário, mas também uma pedra de tropeço, uma rocha que faz cair (Is 8:13-14). Pedro cita este trecho final e o aplica a Jesus em 1ª Pedro 2:8, mas Isaías se referia ao “Senhor dos Exércitos”, usando o termo YHWH. Ou seja, Jesus é YHWH e Adonai; ele é Deus da mesma forma que o Pai é Deus. Semelhantemente, em Isaías 40:3 é dito:

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Isaías 40:3)

No entanto, Isaías não define quem é essa “voz que clama no deserto”, nem quem é o Senhor. Isso é Mateus que esclarece, quando escreve:

“Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: ‘Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo’. Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: ‘Voz do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’” (Mateus 3:1-3)

Aqui vemos que essa “voz” era João Batista, e que o Senhor é Jesus. No original hebraico de Isaías, é novamente YHWH que aparece – o que Mateus aplica a Cristo, mostrando que Cristo é YHWH. No mesmo livro vemos Deus dizendo:

“Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus” (Isaías 44:6)

Quem tem familiaridade com as Escrituras se lembra que alguém diz o mesmo em Apocalipse:

“Quando o vi, caí aos seus pés como morto. Então ele colocou sua mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último. Sou aquele que vive. Estive morto mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades’” (Apocalipse 1:17-18)

Quem é «o primeiro e o último» é o mesmo que “esteve morto mas vive”, ou seja, Jesus. Note que do Gênesis ao Apocalipse Jesus se identifica sempre com os mesmos requisitos que na Bíblia pertencem somente a Deus (YHWH). Note ainda que apesar de Jesus ser “o primeiro e o último”, Isaías 44:6 diz que «além de mim não há Deus», o que mais uma vez prova a pluralidade na unidade: um único Deus, mas que subsiste em mais que uma única pessoa.

Em Jeremias, Deus também diz:

“Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: Senhor, Justiça Nossa (Jeremias 23:5-6)

Aqui, o hebraico traz YHWH nas duas vezes em que a palavra “Senhor” aparece no texto em português, mas claramente se trata de pessoas diferentes, pois o primeiro YHWH é o que diz, e o segundo é sobre quem ele diz. O primeiro fala na primeira pessoa, e o segundo está na terceira pessoa. O primeiro é o YHWH que envia, o segundo é o YHWH que é enviado – o “Renovo justo”. Há um único ser chamado YHWH, mas não uma única pessoa. Outro exemplo é o texto de Joel, que diz:

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar” (Joel 2:32)

Onde você já leu isso antes? Aqui:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Romanos 10:9-13)

Como vemos, Paulo aplica este texto a Jesus, que Joel chama de YHWH. Joel diz que todo aquele que invocar YHWH será salvo; Paulo cita Joel e diz que todo aquele que invocar o nome do Senhor Jesus será salvo, porque sabia que Jesus também é YHWH. Ele ainda aplica um texto do Antigo Testamento a Jesus em 1ª Coríntios 10:3-4, que diz:

“Todos comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da mesma bebida espiritual; pois bebiam da rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo” (1ª Coríntios 10:3-4)

“Mas esse texto não diz que a rocha era YHWH”, dirá você. Nem sequer precisava, pois em todo o Antigo Testamento havia o consenso de que só havia uma rocha, que é Deus:

“Como poderia um só homem perseguir mil, ou dois porem em fuga dez mil, a não ser que a sua Rocha os tivesse vendido, a não ser que o Senhor os tivesse abandonado? Pois a rocha deles não é como a nossa Rocha, com o que até mesmo os nossos inimigos concordam” (Deuteronômio 32:30-31)

“Não há santo como o Senhor; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus” (1ª Samuel 2:2)

“Por que, quem é Deus, senão o Senhor? E quem é rocha, senão o nosso Deus?” (2ª Samuel 22:32)

“Vive o Senhor, e bendito seja o meu rochedo; e exaltado seja Deus, a rocha da minha salvação” (2ª Samuel 22:47)

“Porque quem é Deus senão o Senhor? E quem é rocha senão o nosso Deus?” (Salmos 18:31)

Em suma, para os escritores inspirados do Antigo Testamento, só há uma rocha: Deus. E para Paulo, essa rocha é Cristo (1Co 10:4). Caso semelhante ocorre em Isaías 43:11, que diz que fora de YHWH não há salvador:

“Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador” (Isaías 43:11)

Todavia, poderíamos acumular aos montões versículos bíblicos que dizem que Jesus é o nosso salvador. Pedro mesmo disse:

“Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (Atos 4:11-12)

Em Isaías, não há salvador senão YHWH. Em Atos, não há salvação em nenhum outro a não ser Jesus. Esses dados não se conflitam, pelo simples fato de que tanto Jesus como o Pai são YHWH – a pluralidade na unidade da divindade. Quem também não hesita em mostrar que Jesus é YHWH é Lucas, que diz:

“Este é aquele a respeito de quem está escrito: ‘Enviarei o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti’” (Lucas 2:27)

De onde ele tirou isso? Daqui:

“Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês desejam, virá, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:1)

Note que o texto de Malaquias diz que “o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo”, que no hebraico é Adonai (um dos títulos mais usados para Deus no AT), mas este que veio foi Jesus, o qual é enviado pelo “Senhor dos Exércitos”. Mais uma vez, vemos dois “Senhor”: o que envia e o que é enviado, ambos com o título de Deus no AT, e que o evangelista aplica a Cristo (Lc 2:27), o qual foi enviado pelo Pai (Jo 5:37).

Há muitos outros textos do AT que provam que Jesus é YHWH e que apontam à trindade, tantos que se citasse cada um deles aqui tornaria o artigo insuportavelmente longo. Mas para quem quiser se aprofundar nisso, o melhor vídeo que conheço é este em inglês (se você não sabe inglês pode ativar a tradução da legenda e entender boa parte), que é bem detalhista e que prova, entre outras coisas, que o Anjo do Senhor é YHWH e que esse YHWH é Jesus:


A noção de que Jesus é Deus também é presente no pensamento de Paulo, que disse:

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue (Atos 20:28)

Logicamente, não foi o sangue do Pai que foi derramado na cruz do Calvário, mas o de Jesus, que aqui é chamado de Deus. Paulo também afirma que em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9), e diz que “deles [dos judeus] descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre" (Rm 9:5). Uma de suas declarações mais fortes foi feita aos filipenses, para os quais escreve:

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:5-8)

Este texto não apenas prova a pré-existência de Cristo, mas também que ele era Deus, pois diz que ele não se apegou ao fato de ser Deus e decidiu esvaziar-se a si mesmo para se tornar humano como nós. Note que é justamente o fato de Jesus ser Deus que mostra o quanto a encarnação foi algo humilhante: um Deus se rebaixando ao mesmo patamar de meros seres humanos mortais, e sujeito às mesmas limitações e condições destes.

O mesmo apóstolo também diz que está “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2:13), texto este que a “Tradução Novo Mundo” das testemunhas de Jeová adicionam o “do” após o “e”, para separar uma coisa da outra (“do nosso grande Deus e do Salvador Jesus Cristo”), numa tentativa desonesta e sorrateira de perverter o texto bíblico ligeiramente, mas o suficiente para anular a mensagem da divindade de Cristo (contrariamente ao texto grego, que não adiciona nenhuma partícula entre um e outro).

Eles fazem o mesmo quando Pedro escreve “aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1:1). Aqui, mais uma vez, a TNM recorre à manobra de adicionar um “do” à tradução, quando no grego novamente não há qualquer partícula separando “Deus” e “Salvador Jesus Cristo” (θεου ημων και σωτηρος ιησου χριστου). Por sua vez, o autor de Hebreus diz que Jesus é “o resplendor da glória e a expressão exata de Deus, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1:3), e João sustenta que “estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5:20).

No Apocalipse, Jesus é apresentado desde o início como o Todo-Poderoso:

“"Eu sou o Alfa e o Ômega’, diz o Senhor Deus, ‘o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-poderoso’” (Apocalipse 1:8)

Quem é esse «que é, que era e que há de vir»? Não pode ser o Pai, porque o Pai não “há de vir”; quem vem para buscar os Seus é o Senhor Jesus (cf. Mt 24:44; Ap 22:12; At 1:10-11, etc). Também a expressão « Alfa e Ômega» (que em grego equivale à primeira e à última letra do alfabeto) se aplica a Jesus, o que é confirmado pela própria continuação do capítulo:

“Voltei-me para ver quem falava comigo. Voltando-me, vi sete candelabros de ouro e entre os candelabros alguém semelhante a um filho de homem, com uma veste que chegava aos seus pés e um cinturão de ouro ao redor do peito. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como a lã, tão brancos quanto a neve, e seus olhos eram como chama de fogo. Seus pés eram como o bronze numa fornalha ardente e sua voz como o som de muitas águas. Tinha em sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma espada afiada de dois gumes. Sua face era como o sol quando brilha em todo o seu fulgor. Quando o vi, caí aos seus pés como morto. Então ele colocou sua mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último. Sou aquele que vive. Estive morto mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades’” (Apocalipse 1:12-18)

Este “primeiro e último” (=Alfa e Ômega) não pode ser o Pai, pois se refere ao «Filho do homem», título sempre usado por Jesus nos evangelhos (cf. Mt 17:22; Mc 9:9; Lc 17:30, etc), e tampouco o Pai esteve morto e ressuscitou, como diz o verso 18. No final do livro, João confirma que este Alfa e Ômega é Jesus:

"Eis que venho em breve! A minha recompensa está comigo, e eu retribuirei a cada um de acordo com o que fez. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Felizes os que lavam as suas vestes, para que tenham direito à árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas. Fora ficam os cães, os que praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira. Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e a resplandecente Estrela da Manhã” (Apocalipse 22:12-16)

Aqui Jesus fala (na primeira pessoa) que ele é o Alfa e o Ômega, aquele que vem em breve. É impossível ser mais claro que isso. Sendo ele o Alfa e o Ômega no Apocalipse, está óbvio que é ele o «Senhor Deus» e o «Todo-Poderoso» de Apocalipse 1:8. Vale ressaltar que a própria expressão “Alfa e Ômega” denota a eternidade de Cristo (auto-existência), ilustrada pela abrangência de todo o alfabeto grego. A eternidade de Jesus também é anunciada em Miquéias, no texto que diz:

“E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Miquéias 5:2)

Isaías também prediz o mesmo acerca do Messias quando escreve:

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6)

Primeiro ele chama o Messias de «Deus Forte», e depois de «Pai da Eternidade». Como poderia ser “Pai da Eternidade” alguém que nem mesmo é eterno? É lógico que esses textos descrevem a eternidade de Cristo, o que seria impossível se ele fosse um ser criado. Somente Deus é eterno; Jesus é eterno; logo, Jesus é Deus.


Refutações

Unitaristas (como as testemunhas de Jeová) argumentam que Jesus não pode ser Deus porque ele disse que o Pai é “o único Deus verdadeiro” (Jo 17:3). No entanto, o próprio Senhor Jesus é chamado de “o Deus verdadeiro” (1Jo 5:20), e como vimos exaustivamente aqui, a Bíblia é clara ao falar da pluralidade na unidade de Deus (ou seja, o fato do Pai ser Deus, ou o “único Deus”, não anula o fato de Jesus também ser Deus). Jesus não estava dizendo que ele não era o Deus verdadeiro ou que ele era um “falso Deus”, mas apenas denunciando a falsidade dos outros deuses (ou seja, o panteão de deuses do paganismo). Um exemplo disso é um texto altamente esclarecedor em que Paulo diz:

“Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1ª Coríntios 8:5-6)

Qualquer unitarista que lesse apenas a primeira parte do texto – a que diz que «há um só Deus, o Pai» – poderia pular de alegria por pensar que encontrou a “prova” de que Jesus não é Deus, usando o mesmo tipo de argumento que encontram em João 17:3. O problema é que a sequência do verso diz que «há um só Senhor, Jesus Cristo», e um unitarista jamais diria o absurdo de que o Pai não é Senhor – título que carrega em toda a Bíblia. Portanto, a conclusão que chegamos é a mesma que já vimos: a da pluralidade na unidade da divindade.

Jesus é o “único Senhor”, mas o Pai também é Senhor. O Pai é o “único Deus”, mas Jesus também é Deus. Não há contradição nisso porque eles são um em essência, diferente de qualquer exemplo simplista que pudéssemos citar entre pessoas normais. A falha dos unitaristas é exigir para Deus o mesmo tipo de “lógica” humana que aplicamos para pessoas comuns, quando Deus por natureza difere totalmente das coisas criadas, sendo muito mais complexo que qualquer um de nós. Assim como o conceito de “eternidade” (algo que não tem início e nem fim) é naturalmente incompreensível a mentes humanas limitadas e finitas como a nossa, o conceito de “pluralidade na unidade” também é difícil de ser assimilado pela lógica humana, mas nem por isso deixa de ser verdadeiro à luz das Escrituras.

Também argumenta-se que o Filho não sabe o dia da sua volta, mas apenas o Pai (Mc 13:32). Mas não há conflito entre isso e a divindade de Cristo, uma vez que Jesus disse isso como homem, sujeito às limitações que se submeteu de acordo com Filipenses 2:5-8. Em sua condição atual, é evidente que Jesus sabe o dia da sua volta, pois ele possui a plenitude da divindade (Cl 2:9).

Outro argumento que usam é que Jesus teria dito que só o Pai é bom, e ele não:

“Quando Jesus ia saindo, um homem correu em sua direção, pôs-se de joelhos diante dele e lhe perguntou: ‘Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus’” (Marcos 10:17-18)

Na verdade, Jesus estava querendo dizer exatamente o contrário do que ensinam os unitaristas. Ele não estava negando que ele é bom, nem estava insinuando que era mau (o que seria blasfêmico). Pelo contrário, ele estava levando aquele homem a raciocinar: se só Deus é bom e ele (Jesus) foi chamado de bom, então ele também é Deus. Este argumento segue um silogismo dos mais simples possíveis:

• Só Deus é bom.
• Jesus é bom.
• Logo, Jesus é Deus.

É importante ter em mente que Jesus não disse “eu não sou bom”, mas sim que “só Deus é bom”. Então, de duas, uma: ou ele estava dizendo que ele é bom (e portanto que ele é Deus), ou estava dizendo que ele não é. Mas se ele não é bom, então ele não seria retratado como alguém sem pecado (Hb 4:15), nem seria o único digno de abrir o selo, por ser o único completamente santo:

“Então vi na mão direita daquele que está assentado no trono um livro em forma de rolo escrito de ambos os lados e selado com sete selos. Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro?’. Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que podia abrir o livro, ou sequer olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse digno de abrir o livro e de olhar para ele. Então um dos anciãos me disse: ‘Não chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos’ (Apocalipse 5:1-5)

Toda a Bíblia aponta que Jesus é bom, e não há nada que sugira que ele não seja. Portanto, Marcos 10:17-18 se volta contra os próprios unitaristas, como mais uma prova de que Jesus se via como Deus. Naturalmente, é impossível lidar com cada argumento unitarista em um único artigo, por isso recomendo essa página do Fernando Galli para quem quiser se aprofundar nas refutações ponto a ponto. 


Fonte: lucasbanzoli.com

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