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Há muitos textos bíblicos que atestam a divindade
de Cristo, sendo o mais famoso deles o de João 1:1, que diz:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava com Deus, e o Verbo era Deus"
(João 1:1)
Uma vez que o contexto deixa claro que o Verbo aqui
é Cristo (Jo 1:10-17), unitaristas como as testemunhas de Jeová precisaram
adulterar a tradução para “o Verbo era um deus”, em vez de “o Verbo era
Deus”. Eles argumentam que a ausência do artigo definido no grego implica que
Jesus era apenas “um deus” (uma vez que o grego não possui artigo indefinido).
O problema com esse argumento é que no Novo Testamento nomes próprios não
exigem artigo definido (cf. At 19:13; Mt 2:7; 1Co 9:6; Cl 4:10), tampouco os
primeiros versos de um livro (cf. Mc 1:1; 1Pe 1:1-2).
O próprio Deus Pai é citado dezenas de vezes na
Bíblia sem o artigo definido (cf. Mc 12:26; 1Co 3:7, Tg 2:19; Gl 6:7, etc), incluindo
em João 1:1 (a parte que diz “o Verbo estava com Deus” também aparece sem o
artigo definido, e mesmo assim todos os unitaristas concordam que “Deus” aqui é
o Pai, e não “um deus”). Além disso, como diz Norman Geisler, se João tivesse a
intenção de dar à frase um sentido adjetivo (que o Verbo era “semelhante a um
deus”, um ser divino), ele teria à sua disposição um adjetivo (theios)
pronto, à mão, que poderia perfeitamente ter sido utilizado caso quisesse, mas
em vez disso prefere empregar theos, o mesmo termo usado para Deus em
todo o Novo Testamento.
Poucos versos adiante, João diz que “ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus unigênito, que
está junto do Pai, o tornou conhecido” (Jo 1:18). Há discussão quanto ao
uso do termo “Deus unigênito” ou “Filho unigênito” no original grego, mas
Marcelo Berti prova neste artigo aprofundado que todas as evidências
apontam para a tradução que aqui vimos – Jesus como o Deus unigênito.
O que não se discute é que em João 20:28 Tomé
reconhece Jesus como “Senhor meu e Deus meu”, numa das provas mais
fortes da divindade de Cristo – e ainda com o artigo definido que os
unitaristas tanto usam contra João 1:1. Mas para eles, Tomé não estava falando
de Jesus, mas apenas “com” Jesus. Eles interpretam como alguém que está
apavorado e grita “meu Deus do céu!”, não como se Tomé estivesse realmente
reconhecendo o senhorio e a divindade de Cristo. O problema é que o texto diz
claramente que Tomé dirigiu essas palavras diretamente a Jesus, e não
que simplesmente “exclamou” aquilo ao vento, de susto:
“E Jesus disse a Tomé: ‘Coloque o seu
dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de
duvidar e creia’. Disse-lhe Tomé: ‘Senhor meu e Deus meu!’. Então Jesus
lhe disse: ‘Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram’” (João 20:27-29)
O texto não diz: «disse Tomé», mas sim: «disse-lhe
Tomé». Ou seja, Tomé dirigia aquelas palavras especificamente a Jesus,
reconhecendo-o como Senhor e Deus. E se Tomé estivesse apenas assustado e
dizendo “meu Deus” a Jesus sem ele ser Deus de fato, Jesus obviamente o teria
repreendido por usar o nome de Deus em vão (para não dizer blasfemando), mas
faz justamente o contrário, elogiando a fé de Tomé.
O próprio Senhor Jesus agiu muitas vezes de um modo
que seria blasfêmico se ele não fosse Deus, comparando-se e igualando-se a Deus
inúmeras vezes e sem cerimônia alguma. Por exemplo, ele disse que “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14:9), que “quem me vê a mim vê aquele que me enviou” (Jo
12:45) e que “eu e o Pai somos um” (Jo
10:30), sugerindo que ele era igual a Deus. Tanto é assim que logo após dizer
essas palavras os judeus pegaram em pedras para apedrejá-lo:
“Novamente os judeus pegaram pedras
para apedrejá-lo, mas Jesus lhes disse: ‘Eu lhes mostrei muitas boas obras da
parte do Pai. Por qual delas vocês querem me apedrejar?’. Responderam os
judeus: ‘Não vamos apedrejá-lo por nenhuma boa obra, mas pela blasfêmia, porque
você é um simples homem e se apresenta como Deus’” (João 10:31-33)
Se Jesus não era Deus, ele era no mínimo um
farsante que induzia o povo à idolatria, se expressando de uma forma que
deliberadamente os levava a crer que ele era Deus. Mais do que isso, ele nunca
rejeitou a adoração de quem quer que fosse, e há dúzias de textos onde isso ocorre,
como exemplo:
“Então os que estavam no barco
adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus” (Mateus 14:33)
“E eis que Jesus lhes veio ao
encontro, dizendo: Salve. E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés, e o
adoraram” (Mateus 28:9)
“E outra vez, ao introduzir no mundo
o primogênito, diz: todos os anjos de Deus o adorem” (Hebreus 1:6)
Curiosamente, ele mesmo disse que “ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” (Lc
4:8), usando o mesmo termo proskuneo que é usado nessas passagens para
ele mesmo – o que implica que Jesus via a si mesmo como digno de receber a
adoração devida somente a Deus (precisamente porque era Deus). Em outro
conflito com os judeus, João diz que “os judeus
ainda mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também
dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo
5:18). É de se perguntar com que propósito Jesus se expressaria de forma no
mínimo ambígua e bastante sugestiva, de modo a levar os judeus a pensarem
que ele era Deus, em vez de se esforçar em evitar este mal-entendido.
Nada induziria mais um judeu a entender que Jesus
enxergava a si mesmo como Deus do que as suas palavras sobre ele ser o próprio “Eu
Sou” do Antigo Testamento:
“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em
verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8:58)
Jesus não apenas está dizendo que existe desde
antes de Abraão, mas se apropria da linguagem com que os judeus sempre se
referiram a YHWH – o “Eu Sou”. Foi essa a primeira forma com que Deus se
identificou aos israelitas através de Moisés, o primeiro nome que eles
conheceram de Deus:
“Moisés perguntou: Quando eu chegar
diante dos israelitas e lhes disser: O Deus dos seus antepassados me enviou a
vocês, e eles me perguntarem: ‘Qual é o nome dele?’, que lhes direi? Disse Deus
a Moisés: ‘Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: O Eu Sou
me enviou a vocês’" (Êxodo 3:13-14)
Jesus poderia ter dito que “antes de Abraão, eu
era”, o que estaria de acordo com a gramática, mas fez questão de infringir
as normas gramaticais porque seu objetivo era se identificar do mesmo modo com o
que o Eterno se identifica no Antigo Testamento – “Eu Sou”. Não admira que a
reação imediata dos judeus que ouviram isso tenha sido pegar em pedras para
executá-lo por blasfêmia (o que Jesus também não faz a menor questão de
corrigir):
“Respondeu Jesus: ‘Eu lhes afirmo que
antes de Abraão nascer, Eu Sou!’. Então eles apanharam pedras para apedrejá-lo,
mas Jesus escondeu-se e saiu do templo”
(João 8:58-59)
Diante de tantas declarações – algumas
deliberadamente ambíguas, outras bastante inequívocas – de Jesus sugerindo ser
Deus, devemos concluir: ou ele era Deus como dizia ser, ou ele estava
conduzindo o povo à idolatria, que é o pior dos pecados, e é o maior
responsável pela “heresia” da trindade que permanece muito viva até hoje (e que
jamais teria existido se ele não tivesse insinuado ser Deus ou se tivesse se
recusado a receber adoração).
Imagine um judeu ouvindo esse tipo de declaração:
Eu sou o Primeiro e o Último (Ap 22:13), a Luz do
Mundo (Jo 8:12), o Pão da Vida (Jo 6:35), a Pedra Angular (Ef 2:20), a Rocha
(1Co 10:4), o Cabeça da Igreja (Ef 1:22), o Verbo de Deus (Jo 1:1), o Deus
conosco (Mt 1:23), o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19:16), o Caminho,
a Verdade e a Vida (Jo 14:6); tenho toda a autoridade nos céus e na terra (Mt
28:18), tudo o que você pedir eu meu nome eu o farei (Jo 14:13), eu e Deus
somos um (Jo 10:30), quem vê a mim vê a Deus (Jo 14:9), e bem-aventurado é você
por crer que eu sou Senhor e Deus (Jo 20:27-29). Eu Sou (Jo 8:58)!
O que eles pensariam de alguém dizendo essas coisas
seriamente? Certamente não seria: “Uau, acho que ele é um grande profeta!”.
Não, eles achariam que é um blasfemo, porque está definitivamente afirmando ser
Deus.
Nos demais evangelhos também vemos Jesus como o
Deus encarnado, a começar pelo nome “Emanuel”, profetizado desde os tempos de
Isaías (Is 7:14), devido ao seu significado que Mateus expõe: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual
será chamado Emanuel, que é Deus conosco” (Mt 1:23). Nos
evangelhos também é frequente a aplicação a Jesus de textos
veterotestamentários referentes a Deus (YHWH), mostrando que Jesus é YHWH. Um
exemplo é Zacarias 12:10, onde o próprio YHWH diz que seria transpassado, o que
no Novo Testamento se cumpre pessoalmente em Jesus:
"Naquele dia procurarei destruir
todas as nações que atacarem Jerusalém. E derramarei sobre a família de Davi e
sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de ação de graças e de súplicas. Olharão
para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele como quem chora a
perda de um filho único, e lamentarão amargamente por ele como quem lamenta a
perda do filho mais velho” (Zacarias 12:9-10)
“Mas quando chegaram a Jesus,
percebendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Em vez disso, um
dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água.
Aquele que o viu, disso deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele
sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também
creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum dos
seus ossos será quebrado’, e, como diz a Escritura noutro lugar: ‘Olharão
para aquele que traspassaram’"
(João 19:33-37)
Note que João cita diretamente a profecia de
Zacarias (“olharão para aquele que transpassaram”) e a aplica a Jesus, embora
no livro de Zacarias isso seja dito na primeira pessoa pelo próprio Deus, o que
implica que Jesus é Deus. No próprio Antigo Testamento há a noção de pluralidade
na unidade de Deus, como por exemplo no salmo que diz:
“O teu trono, ó Deus, subsiste
para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino. Amas a justiça e
odeias a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os
teus companheiros ungindo-te com óleo de alegria”
(Salmos 45:6-7)
O verso 6 fala do trono de Deus, que subsiste para
todo o sempre. Aqui qualquer unitarista interpretaria como uma referência ao
Pai, mas note como o salmista prossegue: “por
isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros...”.
O texto começa se referindo a Deus, mas prossegue dizendo o teu Deus, ou
seja, está se referindo a alguém que é Deus mas que também tem um Deus. Pode
parecer confuso, mas faz todo o sentido à luz de Cristo, que é Deus e ao mesmo
tempo é Filho de Deus (o Pai), por isso ele é o “Deus que subsiste para todo o
sempre” e “o seu Deus (o Pai) o escolheu”.
O mesmo é destacado pelo autor de Hebreus, que
escreveu:
“Mas a respeito do Filho, diz: ‘O teu
trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro
do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu
Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de
alegria’” (Hebreus 1:8-9)
Jesus é chamado de Deus (v. 8), mas ao mesmo tempo
tem um Deus (v. 9). Por isso a trindade consiste na “pluralidade na unidade”:
um Deus, que subsiste em três pessoas, com o Pai no topo da hierarquia
administrativa (mas igual em natureza). Um outro exemplo é o Salmo 102, que
diz:
“Então pedi: Ó meu Deus, não me leves
no meio dos meus dias. Os teus dias duram por todas as gerações! No princípio
firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles
perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu
os trocarás e serão jogados fora. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias
jamais terão fim” (Salmos 102:24-27)
Aqui o salmista está falando de Deus, e qualquer um
poderia pensar que está falando do Pai. Mas na sequência do texto de Hebreus,
ele diz:
“Mas a respeito do Filho, diz:
‘O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro
do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus,
escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria’. E
também diz: ‘No princípio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra, e os
céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão
como vestimentas. Tu os enrolarás como um manto, como roupas eles serão
trocados. Mas tu permaneces o mesmo, e os teus dias jamais terão fim’” (Hebreus 1:8-12)
O verso 8 diz que está falando a respeito do
Filho. Após a citação do Salmo 45 (que conferimos anteriormente) ele
prossegue com uma nova referência ao Filho (“e TAMBÉM diz”), e então
cita o texto do Salmo 102, que diz que Deus criou os céus e a terra, e que seus
dias não terão fim. Ou seja, tudo o que o salmista dizia em relação a Deus, o
autor de Hebreus aplica a Jesus Cristo – incluindo a criação do universo. Está
óbvio que para ele Jesus era o Deus criador, o Todo-Poderoso, aquele de quem os
salmistas escreveram e os profetas profetizaram.
Outro caso de “pluralidade na unidade” no Antigo
Testamento é o Salmo 110, que diz:
“O Senhor disse ao meu Senhor:
‘Senta-te à minha direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os
teus pés’” (Salmos 110:1)
Aqui dois “Senhor” aparecem. O primeiro recebe o
nome de YHWH no hebraico, e o segundo de Adonai. Ambos são termos
rotineiramente usados para Deus em todo o AT, e o próprio Jesus o aplicou para
si em Mateus 22:24 (ou seja, se identificou como Adonai).
Isaías diz que “ao
Senhor dos Exércitos é que vocês devem considerar santo, a ele é que vocês
devem temer, dele é que vocês devem ter pavor. Para os dois reinos de Israel
ele será um santuário, mas também uma pedra de tropeço, uma rocha que faz
cair” (Is 8:13-14). Pedro cita este trecho final e o aplica a Jesus
em 1ª Pedro 2:8, mas Isaías se referia ao “Senhor dos Exércitos”, usando o
termo YHWH. Ou seja, Jesus é YHWH e Adonai; ele é Deus da mesma forma que o Pai
é Deus. Semelhantemente, em Isaías 40:3 é dito:
“Voz do que clama no deserto:
Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Isaías 40:3)
No entanto, Isaías não define quem é essa “voz que
clama no deserto”, nem quem é o Senhor. Isso é Mateus que esclarece, quando
escreve:
“Naqueles dias surgiu João Batista,
pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: ‘Arrependam-se, porque o Reino dos
céus está próximo’. Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: ‘Voz
do que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas
para ele’” (Mateus 3:1-3)
Aqui vemos que essa “voz” era João Batista, e que o
Senhor é Jesus. No original hebraico de Isaías, é novamente YHWH que aparece –
o que Mateus aplica a Cristo, mostrando que Cristo é YHWH. No mesmo livro vemos
Deus dizendo:
“Assim diz o Senhor, Rei de Israel,
seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e
além de mim não há Deus” (Isaías 44:6)
Quem tem familiaridade com as Escrituras se lembra
que alguém diz o mesmo em Apocalipse:
“Quando o vi, caí aos seus pés como
morto. Então ele colocou sua mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenha medo. Eu
sou o primeiro e o último. Sou aquele que vive. Estive morto mas agora estou
vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades’” (Apocalipse 1:17-18)
Quem é «o primeiro e o último» é o mesmo que
“esteve morto mas vive”, ou seja, Jesus. Note que do Gênesis ao Apocalipse
Jesus se identifica sempre com os mesmos requisitos que na Bíblia pertencem
somente a Deus (YHWH). Note ainda que apesar de Jesus ser “o primeiro e o
último”, Isaías 44:6 diz que «além de mim não há Deus», o que mais uma vez
prova a pluralidade na unidade: um único Deus, mas que subsiste em mais que uma
única pessoa.
Em Jeremias, Deus também diz:
“Eis que vêm dias, diz o Senhor,
em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá
sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será
salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado:
Senhor, Justiça Nossa” (Jeremias 23:5-6)
Aqui, o hebraico traz YHWH nas duas vezes em que a
palavra “Senhor” aparece no texto em português, mas claramente se trata de
pessoas diferentes, pois o primeiro YHWH é o que diz, e o segundo é sobre
quem ele diz. O primeiro fala na primeira pessoa, e o segundo está na
terceira pessoa. O primeiro é o YHWH que envia, o segundo é o YHWH que é
enviado – o “Renovo justo”. Há um único ser chamado YHWH, mas não uma única pessoa.
Outro exemplo é o texto de Joel, que diz:
“E há de ser que todo aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém
haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles
que o Senhor chamar” (Joel 2:32)
Onde você já leu isso antes? Aqui:
“A saber: Se com a tua boca
confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou
dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e
com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo
aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre
judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que
o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:9-13)
Como vemos, Paulo aplica este texto a Jesus, que
Joel chama de YHWH. Joel diz que todo aquele que invocar YHWH será salvo; Paulo
cita Joel e diz que todo aquele que invocar o nome do Senhor Jesus será salvo,
porque sabia que Jesus também é YHWH. Ele ainda aplica um texto do Antigo
Testamento a Jesus em 1ª Coríntios 10:3-4, que diz:
“Todos comeram do mesmo alimento
espiritual e beberam da mesma bebida espiritual; pois bebiam da rocha
espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo” (1ª Coríntios 10:3-4)
“Mas esse texto não diz que a rocha era YHWH”, dirá
você. Nem sequer precisava, pois em todo o Antigo Testamento havia o consenso
de que só havia uma rocha, que é Deus:
“Como poderia um só homem perseguir
mil, ou dois porem em fuga dez mil, a não ser que a sua Rocha os tivesse
vendido, a não ser que o Senhor os tivesse abandonado? Pois a rocha deles não é
como a nossa Rocha, com o que até mesmo os nossos inimigos concordam” (Deuteronômio 32:30-31)
“Não há santo como o Senhor; porque
não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus” (1ª Samuel 2:2)
“Por que, quem é Deus, senão o
Senhor? E quem é rocha, senão o nosso Deus?”
(2ª Samuel 22:32)
“Vive o Senhor, e bendito seja o meu
rochedo; e exaltado seja Deus, a rocha da minha salvação” (2ª Samuel 22:47)
“Porque quem é Deus senão o Senhor? E
quem é rocha senão o nosso Deus?”
(Salmos 18:31)
Em suma, para os escritores inspirados do Antigo
Testamento, só há uma rocha: Deus. E para Paulo, essa rocha é Cristo (1Co
10:4). Caso semelhante ocorre em Isaías 43:11, que diz que fora de YHWH não há
salvador:
“Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim
não há Salvador” (Isaías 43:11)
Todavia, poderíamos acumular aos montões versículos
bíblicos que dizem que Jesus é o nosso salvador. Pedro mesmo disse:
“Este Jesus é ‘a pedra que vocês,
construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Não há salvação em
nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens
pelo qual devamos ser salvos"
(Atos 4:11-12)
Em Isaías, não há salvador senão YHWH. Em Atos, não
há salvação em nenhum outro a não ser Jesus. Esses dados não se conflitam, pelo
simples fato de que tanto Jesus como o Pai são YHWH – a pluralidade na
unidade da divindade. Quem também não hesita em mostrar que Jesus é YHWH é
Lucas, que diz:
“Este é aquele a respeito de quem
está escrito: ‘Enviarei o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu
caminho diante de ti’” (Lucas 2:27)
De onde ele tirou isso? Daqui:
“Vejam, eu enviarei o meu mensageiro,
que preparará o caminho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês
buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês
desejam, virá, diz o Senhor dos Exércitos”
(Malaquias 3:1)
Note que o texto de Malaquias diz que “o Senhor
que vocês buscam virá para o seu templo”, que no hebraico é Adonai (um dos
títulos mais usados para Deus no AT), mas este que veio foi Jesus, o qual é
enviado pelo “Senhor dos Exércitos”. Mais uma vez, vemos dois “Senhor”: o que
envia e o que é enviado, ambos com o título de Deus no AT, e que o evangelista
aplica a Cristo (Lc 2:27), o qual foi enviado pelo Pai (Jo 5:37).
Há muitos outros textos do AT que provam que Jesus
é YHWH e que apontam à trindade, tantos que se citasse cada um deles aqui
tornaria o artigo insuportavelmente longo. Mas para quem quiser se aprofundar
nisso, o melhor vídeo que conheço é este em inglês (se você não sabe inglês
pode ativar a tradução da legenda e entender boa parte), que é bem detalhista e
que prova, entre outras coisas, que o Anjo do Senhor é YHWH e que esse YHWH é
Jesus:
A noção de que Jesus é Deus também é presente no
pensamento de Paulo, que disse:
“Cuidem de vocês mesmos e de todo o
rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem
a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20:28)
Logicamente, não foi o sangue do Pai que foi
derramado na cruz do Calvário, mas o de Jesus, que aqui é chamado de Deus.
Paulo também afirma que em Cristo “habita
corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9), e diz que “deles [dos judeus] descende o Cristo, segundo a carne, o
qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre" (Rm 9:5). Uma
de suas declarações mais fortes foi feita aos filipenses, para os quais
escreve:
“Seja a atitude de vocês a mesma de
Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a
Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser
servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana,
humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:5-8)
Este texto não apenas prova a pré-existência de
Cristo, mas também que ele era Deus, pois diz que ele não se apegou ao fato de
ser Deus e decidiu esvaziar-se a si mesmo para se tornar humano como nós. Note
que é justamente o fato de Jesus ser Deus que mostra o quanto a encarnação foi
algo humilhante: um Deus se rebaixando ao mesmo patamar de meros seres humanos
mortais, e sujeito às mesmas limitações e condições destes.
O mesmo apóstolo também diz que está “aguardando a bendita esperança e a manifestação da
glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2:13), texto
este que a “Tradução Novo Mundo” das testemunhas de Jeová adicionam o “do” após
o “e”, para separar uma coisa da outra (“do nosso grande Deus e do Salvador
Jesus Cristo”), numa tentativa desonesta e sorrateira de perverter o texto
bíblico ligeiramente, mas o suficiente para anular a mensagem da divindade de
Cristo (contrariamente ao texto grego, que não adiciona nenhuma partícula entre
um e outro).
Eles fazem o mesmo quando Pedro escreve “aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na
justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1:1). Aqui, mais uma
vez, a TNM recorre à manobra de adicionar um “do” à tradução, quando no grego
novamente não há qualquer partícula separando “Deus” e “Salvador Jesus Cristo”
(θεου ημων και σωτηρος ιησου χριστου).
Por sua vez, o autor de Hebreus diz que Jesus é “o
resplendor da glória e a expressão exata de Deus, sustentando todas as
coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1:3), e João sustenta que “estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este
é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5:20).
No Apocalipse, Jesus é apresentado desde o início
como o Todo-Poderoso:
“"Eu sou o Alfa e o Ômega’, diz
o Senhor Deus, ‘o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-poderoso’” (Apocalipse 1:8)
Quem é esse «que é, que era e que há de vir»? Não
pode ser o Pai, porque o Pai não “há de vir”; quem vem para buscar os Seus é o
Senhor Jesus (cf. Mt 24:44; Ap 22:12; At 1:10-11, etc). Também a expressão «
Alfa e Ômega» (que em grego equivale à primeira e à última letra do alfabeto)
se aplica a Jesus, o que é confirmado pela própria continuação do capítulo:
“Voltei-me para ver quem falava
comigo. Voltando-me, vi sete candelabros de ouro e entre os candelabros alguém
semelhante a um filho de homem, com uma veste que chegava aos seus pés e um
cinturão de ouro ao redor do peito. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como
a lã, tão brancos quanto a neve, e seus olhos eram como chama de fogo. Seus pés
eram como o bronze numa fornalha ardente e sua voz como o som de muitas águas.
Tinha em sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma espada afiada de
dois gumes. Sua face era como o sol quando brilha em todo o seu fulgor. Quando
o vi, caí aos seus pés como morto. Então ele colocou sua mão direita sobre mim
e disse: ‘Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último. Sou aquele que
vive. Estive morto mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as
chaves da morte e do Hades’” (Apocalipse 1:12-18)
Este “primeiro e último” (=Alfa e Ômega) não pode
ser o Pai, pois se refere ao «Filho do homem», título sempre usado por Jesus
nos evangelhos (cf. Mt 17:22; Mc 9:9; Lc 17:30, etc), e tampouco o Pai esteve
morto e ressuscitou, como diz o verso 18. No final do livro, João confirma que
este Alfa e Ômega é Jesus:
"Eis que venho em breve!
A minha recompensa está comigo, e eu retribuirei a cada um de acordo com o que
fez. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o
Fim. Felizes os que lavam as suas vestes, para que tenham direito à árvore da
vida e possam entrar na cidade pelas portas. Fora ficam os cães, os que
praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os
idólatras e todos os que amam e praticam a mentira. Eu, Jesus, enviei o
meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz
e o Descendente de Davi, e a resplandecente Estrela da Manhã” (Apocalipse 22:12-16)
Aqui Jesus fala (na primeira pessoa) que ele é o
Alfa e o Ômega, aquele que vem em breve. É impossível ser mais claro que isso.
Sendo ele o Alfa e o Ômega no Apocalipse, está óbvio que é ele o «Senhor Deus»
e o «Todo-Poderoso» de Apocalipse 1:8. Vale ressaltar que a própria expressão
“Alfa e Ômega” denota a eternidade de Cristo (auto-existência),
ilustrada pela abrangência de todo o alfabeto grego. A eternidade de Jesus
também é anunciada em Miquéias, no texto que diz:
“E tu, Belém Efrata, posto que
pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e
cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Miquéias 5:2)
Isaías também prediz o mesmo acerca do Messias
quando escreve:
“Porque um menino nos nasceu, um
filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu
nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe
da Paz” (Isaías 9:6)
Primeiro ele chama o Messias de «Deus Forte», e
depois de «Pai da Eternidade». Como poderia ser “Pai da Eternidade” alguém que
nem mesmo é eterno? É lógico que esses textos descrevem a eternidade de Cristo,
o que seria impossível se ele fosse um ser criado. Somente Deus é eterno; Jesus
é eterno; logo, Jesus é Deus.
Refutações
Unitaristas (como as testemunhas de Jeová)
argumentam que Jesus não pode ser Deus porque ele disse que o Pai é “o único Deus verdadeiro” (Jo 17:3). No entanto, o
próprio Senhor Jesus é chamado de “o Deus
verdadeiro” (1Jo 5:20), e como vimos exaustivamente aqui, a Bíblia é
clara ao falar da pluralidade na unidade de Deus (ou seja, o fato do Pai ser
Deus, ou o “único Deus”, não anula o fato de Jesus também ser Deus). Jesus não
estava dizendo que ele não era o Deus verdadeiro ou que ele era um “falso
Deus”, mas apenas denunciando a falsidade dos outros deuses (ou seja, o panteão
de deuses do paganismo). Um exemplo disso é um texto altamente esclarecedor em
que Paulo diz:
“Porque, ainda que haja também alguns
que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos
senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem
nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós
por ele” (1ª Coríntios 8:5-6)
Qualquer unitarista que lesse apenas a primeira
parte do texto – a que diz que «há um só Deus, o Pai» – poderia pular de
alegria por pensar que encontrou a “prova” de que Jesus não é Deus, usando o
mesmo tipo de argumento que encontram em João 17:3. O problema é que a
sequência do verso diz que «há um só Senhor, Jesus Cristo», e um unitarista
jamais diria o absurdo de que o Pai não é Senhor – título que carrega em toda a
Bíblia. Portanto, a conclusão que chegamos é a mesma que já vimos: a da pluralidade
na unidade da divindade.
Jesus é o “único Senhor”, mas o Pai também é
Senhor. O Pai é o “único Deus”, mas Jesus também é Deus. Não há contradição
nisso porque eles são um em essência, diferente de qualquer exemplo simplista
que pudéssemos citar entre pessoas normais. A falha dos unitaristas é exigir
para Deus o mesmo tipo de “lógica” humana que aplicamos para pessoas comuns,
quando Deus por natureza difere totalmente das coisas criadas, sendo muito mais
complexo que qualquer um de nós. Assim como o conceito de “eternidade” (algo
que não tem início e nem fim) é naturalmente incompreensível a mentes humanas
limitadas e finitas como a nossa, o conceito de “pluralidade na unidade” também
é difícil de ser assimilado pela lógica humana, mas nem por isso deixa de ser
verdadeiro à luz das Escrituras.
Também argumenta-se que o Filho não sabe o dia da
sua volta, mas apenas o Pai (Mc 13:32). Mas não há conflito entre isso e a
divindade de Cristo, uma vez que Jesus disse isso como homem, sujeito às
limitações que se submeteu de acordo com Filipenses 2:5-8. Em sua condição
atual, é evidente que Jesus sabe o dia da sua volta, pois ele possui a
plenitude da divindade (Cl 2:9).
Outro argumento que usam é que Jesus teria dito que
só o Pai é bom, e ele não:
“Quando Jesus ia saindo, um homem
correu em sua direção, pôs-se de joelhos diante dele e lhe perguntou: ‘Bom
mestre, que farei para herdar a vida eterna?’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Por que
você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus’” (Marcos 10:17-18)
Na verdade, Jesus estava querendo dizer exatamente
o contrário do que ensinam os unitaristas. Ele não estava negando que ele é
bom, nem estava insinuando que era mau (o que seria blasfêmico). Pelo
contrário, ele estava levando aquele homem a raciocinar: se só Deus é bom e ele
(Jesus) foi chamado de bom, então ele também é Deus. Este argumento segue um
silogismo dos mais simples possíveis:
• Só Deus é bom.
• Jesus é bom.
• Logo, Jesus é Deus.
É importante ter em mente que Jesus não disse “eu
não sou bom”, mas sim que “só Deus é bom”. Então, de duas, uma: ou ele estava
dizendo que ele é bom (e portanto que ele é Deus), ou estava dizendo que ele
não é. Mas se ele não é bom, então ele não seria retratado como alguém sem
pecado (Hb 4:15), nem seria o único digno de abrir o selo, por ser o único
completamente santo:
“Então vi na mão direita daquele que
está assentado no trono um livro em forma de rolo escrito de ambos os lados e
selado com sete selos. Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é
digno de romper os selos e de abrir o livro?’. Mas não havia ninguém, nem
no céu nem na terra nem debaixo da terra, que podia abrir o livro, ou sequer
olhar para ele. Eu chorava muito, porque não se encontrou ninguém que fosse
digno de abrir o livro e de olhar para ele. Então um dos anciãos me disse: ‘Não
chore! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o
livro e os seus sete selos’”
(Apocalipse 5:1-5)
Toda a Bíblia aponta que Jesus é bom, e não há nada
que sugira que ele não seja. Portanto, Marcos 10:17-18 se volta contra os
próprios unitaristas, como mais uma prova de que Jesus se via como Deus.
Naturalmente, é impossível lidar com cada argumento unitarista em um único
artigo, por isso recomendo essa página do Fernando Galli para quem quiser se
aprofundar nas refutações ponto a ponto.


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