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domingo, 27 de setembro de 2020

Quando a Bíblia é lida com as lentes do paganismo


Você pode pensar que não, mas todos nós, numa medida maior ou menor, colocamos nossos pré-conceitos na Bíblia, quando vamos interpretar algo. Uma simples expressão pode ser interpretada de modo totalmente antagônico por grupos diferentes, independentemente do contexto. Por exemplo, se um católico ler a palavra “santos”, ele imediatamente irá pensar nos “santos” canonizados pela Igreja Católica, enquanto um evangélico que ler essa mesma palavra na Bíblia irá entender que se refere a qualquer crente que vive uma vida de santidade. Semelhantemente, se um católico lê a palavra “Igreja” na Bíblia, ele imediatamente pensará que está falando da igreja dele (ICAR), enquanto um evangélico normalmente entenderá que se refere a todo o corpo de Cristo, ou seja, todos os cristãos.

E é lógico que a partir deste entendimento totalmente diferente de uma única palavra, todo o versículo em que ela estiver inserida será inevitavelmente interpretado de uma forma totalmente diferente também. Por exemplo, os apologistas católicos usam 1ª Timóteo 3:5 para argumentar que a Igreja (deles) é a “coluna e sustentáculo da verdade”. A conclusão (de que a Igreja Romana é essa coluna e sustentáculo) é parte da própria premissa (de que essa Igreja que o texto diz se refere à Igreja Romana). Já para o protestante, dizer que a Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade equivale a dizer o mesmo que Jesus disse: nós somos a “luz do mundo” (Mt 5:14) e o “sal da terra” (Mt 5:13), responsáveis por levar a verdade de Deus ao mundo (leia mais sobre isso aqui).

Note que embora as duas interpretações sejam muito diferentes, essa diferença toda gira em torno da diferente compreensão de uma única palavra. Uma vez que você tem um conceito errado em mente, este conceito errado irá enviesar todo o resto da sua interpretação, como um pouco de veneno que contamina todo um copo d’água. Por isso, não raramente vemos espíritas recorrendo a João 3:1-4 para provar a reencarnação na Bíblia, que diz:

“Havia um fariseu chamado Nicodemos, uma autoridade entre os judeus. Ele veio a Jesus, à noite, e disse: ‘Mestre, sabemos que ensinas da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não estiver com ele’. Em resposta, Jesus declarou: ‘Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo’. Perguntou Nicodemos: ‘Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!’” (João 3:1-4)

Os espíritas interpretam este “nascer de novo” como uma referência ao ciclo da reencarnação, o que sabemos que não era a intenção de Jesus. Mas note que o próprio Nicodemos também não entendeu direito, pois estava pensando sobre voltar ao ventre da mãe e renascer literalmente. Temos aqui duas interpretações errôneas, mas ambas teoricamente possíveis de se concluir, dependendo dos pressupostos que pautam o entendimento de cada um. Mais uma vez, são os pressupostos que decidem tudo.

Se alguém acredita em reencarnação e acha que Jesus era um reencarnacionista, faz todo o sentido pensar que ele estava falando sobre uma alma encarnando de novo. Se alguém acredita ser possível voltar ao ventre da mãe e renascer literalmente, faria todo o sentido pensar que Jesus estava falando tudo literalmente. O erro pode parecer flagrante para quem tem entendimento, mas para quem parte de pressupostos errados, ele pode soar facilmente como uma confirmação de suas crenças prévias.

A essa tendência humana de interpretar tudo de acordo com suas crenças prévias chamamos de “viés de confirmação” – tudo é empacotado de uma forma que combine perfeitamente com o que você já pensava, e nunca com o oposto. Por isso, quando vemos os papistas fazendo os seus malabarismos típicos para “provar” doutrinas como o purgatório e a imaculada conceição na Bíblia – usando textos que claramente não tem nada a ver com aquilo – dizemos que eles estão lendo a Bíblia “com as lentes de Roma”.

Mas as lentes de Roma estão longe de serem as únicas lentes defeituosas: todos nós temos nossas próprias lentes, que refletem geralmente aquilo no qual fomos ensinados desde a infância. A essas “lentes” damos o nome de pressupostos, conceitos que assumimos de antemão, e que, mesmo sem pensar, colocamos para dentro dos textos bíblicos, condicionando nossa interpretação. Muitas vezes esses pressupostos são extremamente frágeis, mas como eles são assumidos de antemão (às vezes até inconscientemente), nós não paramos um minuto para questionar seus fundamentos. Eles são tomados no grau de verdades lógicas, tal como que 2+2=4, sem a necessidade de discuti-los.

Para mostrar como costumamos condicionar determinados textos bíblicos aos nossos pressupostos, nada exemplifica melhor do que o dualismo grego de corpo e alma, amplamente aceito no meio evangélico por causa da tradição – um exemplo de ensino que é transmitido adiante como verdade absoluta sem questionar, e que por sermos ensinados assim desde a mais tenra infância não percebemos a fraqueza de suas bases. É através da filosofia grega que entendemos por “instinto” a interpretar “alma” como sendo um “fantasminha” preso no nosso corpo – o mesmo “instinto” que leva católicos a interpretar “Roma” por “Igreja”. Tome como exemplo a parte final de 1ª Reis 19:4, onde Elias diz:

“Já basta, Senhor, agora tira a minha alma, pois não sou melhor que os meus pais” (1ª Reis 19:4b)

Qualquer imortalista ao se deparar com um verso desses pensaria que Elias estava pedindo para Deus tirar a alma do corpo dele e levá-la intacta ao céu, em conformidade com a crença platônica na sobrevivência da alma na morte. No entanto, observe o versículo completo:

“E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: ‘Já basta, Senhor, agora tira a minha alma, pois não sou melhor que os meus pais’” (1ª Reis 19:4)

Com o verso completo, percebemos que Elias não estava pedindo que sua alma sobrevivesse, mas justamente o contrário, que ela morresse. Ao usar a expressão “tira a minha alma”, ele não estava falando sobre salvar uma alma da morte, mas simplesmente sobre tirar sua vida. Elias compreendia que a morte incluía corpo e alma, porque uma alma vivente nada mais é do que um ser vivo completo (cf. Gn 2:7). Por isso, uma expressão tão simples como “tirar a alma”, que para os gregos significava a “libertação” da alma de sua prisão corporal, para Elias e os judeus da época significava uma coisa totalmente diferente, diametralmente oposta.

Ou então pense no texto em que Paulo diz:

“Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente. Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (1ª Coríntios 5:3-5)

Um espiritualista da Nova Era imediatamente veria neste texto a prova da “projeção astral”, como se Paulo estivesse dizendo que sua alma havia partido do corpo e estava ali perto dos coríntios observando tudo o que eles faziam. No entanto, um olhar atento no contexto nos mostra que “estar em espírito” tem aqui um significado bem mais simples, e diz respeito apenas ao fato de Paulo estar em concordância com o ato praticado pela igreja. Ou seja, as cartas que Paulo escrevia já mostravam a posição dele sobre isso, então é “como se estivesse presente” (v. 3). Isso é “estar com vocês em espírito”, em vez de uma projeção astral. Mas se lermos o texto pelas lentes do espiritismo, poderemos facilmente concluir que Paulo estava falando neste texto de algo que contraria toda a sua teologia.

O que pensar então dos “pecados fora do corpo”, que Paulo escreve em 1ª Coríntios 6:18?

“Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo” (1ª Coríntios 6:18)

Dualistas não podem ver o termo “fora do corpo” que já pensam numa alma saindo do corpo, como ensinava Platão. Será que era isso o que Paulo estava dizendo aqui? Será que todos os pecados de natureza não-sexual são cometidos por nossa alma fora do nosso corpo? Obviamente, não era isso o desejado por Paulo aqui. “Fora do corpo” era apenas uma forma de dizer que esse tipo de pecado não era praticado fisicamente, como o pecado de natureza sexual. Por exemplo, quando xingamos alguém, estamos usando apenas palavras, sem envolver o nosso corpo como um todo. Isso era pecar “fora do corpo” – totalmente diferente do que qualquer espiritualista entenderia pelo termo. “Fora do corpo” na Bíblia nunca tem o significado de uma alma saindo do corpo, mas de algo praticado sem o uso do corpo (veja aqui).

Como se nota, os apóstolos usavam com frequência termos que tinham no mundo grego uma conotação que destoava completamente do significado que tinha na cultura hebraica bíblica. Ou seja, uma mesma palavra ou uma mesma expressão podia ser entendida de um modo por um filósofo pagão, e de um modo totalmente antagônico por um judeu ou cristão esclarecido. Tome como exemplo um texto que é até hoje muito usado pelos dualistas de nossos dias, como uma “prova” da sobrevivência da alma à morte do corpo:

“Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor” (2ª Coríntios 5:8)

Tal como nos outros textos, a expressão “ausente do corpo” é interpretada do modo pagão – uma alma “fantasminha” deixando o corpo após a morte, como imaginava Platão e garantia Alan Kardec. No entanto, um olhar pelo contexto nos deixa nítido que a intenção, novamente, passava longe disso. Como eu argumento neste artigo bem extenso, todo o contexto mostra que Paulo esperava estar com Cristo apenas quando ressuscitasse em um corpo glorioso, e não como uma “alma sem corpo”. Há um capítulo inteiro sobre este texto em meu livro “Exegese de Textos Difíceis da Bíblia”, mas para resumir brevemente, Paulo falava do dissolvimento deste corpo para obter o corpo futuro da ressurreição, quando veria a Deus. Por isso ele escreve:

"E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu" (v. 2)

Note que Paulo não diz “no céu”, mas sim “do céu”. Ele não está falando sobre ir morar no céu (um conceito também estranho às Escrituras, como mostro neste artigo), mas sobre ser revestido de algo que vem do céu. Esse termo – “revestir” – é exatamente o mesmo que ele usa para se referir ao corpo glorioso da ressurreição, em sua carta anterior aos mesmos cristãos de Corinto (1Co 15:53-54). Seu propósito não era ser “despido” de um corpo, mas revestido do corpo da ressurreição:

"Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida" (v. 4)

Em outras palavras, Paulo queria mesmo estar ausente do corpo, mas nem passava pela cabeça dele que isso consistia numa alma penada deixando o corpo, como imaginam os kardecistas, mas sim com obter o corpo glorioso da ressurreição, no qual veria a Deus. A noção de “vida fora do corpo” era inteiramente estranha à mentalidade dos escritores bíblicos. Só se tem vida no corpo, de modo que estar “ausente do corpo” não significa estar “sem” corpo, mas apenas ausente deste corpo atual (porque estaremos no corpo glorioso da ressurreição, que é muito melhor).

Quando um imortalista de nossos dias usa esse texto como “prova” da sobrevivência da alma, ele não está extraindo do texto algo que ele diz, pois parte nenhuma afirma que uma alma incorpórea sai do corpo com consciência e personalidade para a presença de Deus. Em vez de extrair do texto o seu autêntico significado (que é no que consiste a exegese), o imortalista está colocando no texto os seus pressupostos pagãos, oriundos do platonismo grego, e não dos próprios escritos de Paulo. Em termos simples: ele está interpretando como um pagão interpretaria, emprestando os significados e conceitos do paganismo que enviesam sua interpretação, em vez de adotar os próprios padrões bíblicos.

Os platônicos transformaram o corpo em uma “casca” desnecessária, uma “prisão” que impede a “libertação” da alma, mas na Bíblia a vida só se manifesta através do corpo, que passará por uma transformação completa quando ressuscitarmos para estar com o Senhor. Tudo isso acontece num "abrir e fechar de olhos" (1Co 15:52), ainda que se passem milênios na perspectiva de quem permanece vivo na terra até Jesus voltar. O fato é que Paulo jamais diria que não queria ser “despido”, se é na condição de “despido” que ele estaria com o Senhor (que era o que ele queria). Sua mente estava lá na frente, no glorioso dia da volta de Jesus, quando todos ressuscitaremos a uma só vez e entraremos juntos na glória (cf. 1Ts 4:13-18).

Por mais simples que isso seja no conceito paulino, aceitar conceitos como este é uma tarefa árdua a qualquer um de nós, porque diferente dos autores bíblicos nós somos doutrinados há milênios com o ensino predominante de que possuímos uma alma imortal e que essa alma imortal é liberta do corpo na morte. Intuitivamente, lemos os textos que passei aqui (e inúmeros outros em toda a Escritura) da forma dualista, mesmo não sendo essa a cultura dos próprios autores da Bíblia, e tampouco fosse sua intenção. Assim, faz-se necessária uma “reprogramação mental”, que basicamente consiste em sair de Atenas para voltar a Jerusalém – isto é, abandonar os conceitos gregos que levamos em conta como “pressupostos óbvios” e que enviesam toda a interpretação, substituindo-os pelo viés que os próprios escritores bíblicos tinham em mente, o que não é uma tarefa das mais fáceis.

Temos exemplos interessantíssimos na Bíblia sobre como os escritores sacros não tinham a menor noção de que a alma (nephesh, no hebraico) fosse alguma coisa parecida com o que os gregos imaginavam (i.e, um “fantasminha” separado do corpo, que sobrevive à morte com consciência e personalidade). O salmista escreve:

“Salva-me, ó Deus, pois as águas subiram até o meu pescoço. Nas profundezas lamacentas eu me afundo, não tenho onde firmar os pés. Entrei em águas profundas; as correntezas me arrastam. Cansei-me de pedir socorro; minha garganta se abrasa. Meus olhos fraquejam de tanto esperar pelo meu Deus” (Salmos 69:1-3)

Poucos sabem, mas a parte que diz que “as águas subiram até o meu pescoço” (NVI) no hebraico é nephesh – «subiram até a minha alma». Isaías diz sobre Ariel que “será também como o faminto que sonha que está a comer, mas, acordando, sente-se vazio” (Is 29:8). A parte que diz “sente-se vazio”, no hebraico, é literalmente «sua nephesh-alma está vazia». Quando os israelitas murmuraram contra Deus pela fome no deserto, disseram:

“Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; e dos pepinos, e dos melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos. Mas agora a nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos” (Números 11:5-6)

Naturalmente, o Salmo 69:1 fala de pescoço, Isaías 29:8 fala de estômago e Números 11:6 fala de garganta, e não de uma alma incorpórea. Mas é nephesh que aparece em todas essas ocasiões, assim como é nephesh que aparece em todas as centenas de textos bíblicos que discorrem abertamente sobre a morte da alma (veja os textos aqui). Jó diz que sua ruach (espírito) está nas suas narinas (Jó 27:3-4), mas nenhum dualista arriscaria dizer que é no nariz que essa tal “alma imortal” se esconde. Jó 11:20 também diz que o “expirar da alma” seria a única esperança dos ímpios – justamente quando ela seria lançada no maior suplício de todos, o tormento eterno. Quando está para morrer, é dito que “sua nephesh-alma se chega à cova, e sua vida aos que infligem a morte” (Jó 33:22), e não que a nephesh se aproxima do céu ou do inferno.

O salmista diz que a alma-nephesh sofre decomposição no túmulo (Sl 49:8-9), e é interessante notar que para ele “ninguém jamais preservará viva a sua própria alma” (Sl 22:29), ou seja, exatamente o inverso do que nos asseguram os imortalistas. Às vezes a nephesh é identificada com o próprio sangue (Gn 9:4-5), outras vezes com o cadáver de um morto (Nm 6:6). Às vezes ela emagrece (Sl 106:15), outras vezes tem sede (Is 29:8); às vezes chora (Sl 119:28), outras vezes repousa (Sl 25:13). A nephesh/psiquê não é poupada da morte (Sl 78:50), é completamente eliminada (Êx 31:14), desce à cova na morte (Jó 33:22), revive na ressurreição (Ap 20:4), é totalmente destruída (Js 10:28), é derramada na morte (Is 53:12), é penetrada ao fio da espada (Jr 4:10), é golpeada fatalmente (Lv 24:17), pode ser assassinada (Nm 35:11) e exterminada (At 3:23).

Tais coisas seriam impensáveis, incogitáveis e impossíveis de serem ditas por um platônico da época, como continuam sendo impensáveis, incogitáveis e impossíveis de serem ditas por um imortalista cristão de hoje. Na noção hebraica bíblica, uma alma não tem nada a ver com um “fantasma” incorpóreo que habita dentro do corpo, mas se refere simplesmente à vida manifestada através do corpo, nas suas mais diversas facetas. É tão difícil para um imortalista assimilar o conceito hebraico bíblico que a simples afirmação de que “a alma morre” (que ocorre pelo menos 59 vezes de forma explícita nos originais do AT e do NT) os escandaliza e os choca tanto quanto escandalizava e chocava os gregos com os quais Paulo discutiu no Areópago (At 17:19-32).

Por que uma afirmação que soaria tão natural para um hebreu dos tempos bíblicos soa tão absurda para imortalistas dos nossos dias? Pela simples razão de que o viés deles é o mesmo pressuposto platônico, que entende a alma como um elemento incorpóreo e imortal que não pode nunca, jamais, em hipótese alguma ser atingido ou morto, e muito menos “depender” de um corpo físico, tratado como mera “carcaça” dispensável. Um exemplo de como os dualistas usam o pressuposto da alma imortal para provar a própria alma imortal é o texto de 1ª Tessalonicenses 5:23, usado como a prova “cabal” (e única!) da tricotomia na Bíblia:

“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, alma e corpo de vocês seja conservado irrepreensível na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1ª Tessalonicenses 5:23)

O simples fato de espírito, alma e corpo serem mencionados juntos neste texto é a “prova” de que somos um ser tripartido – o que teria tanto cabimento quanto afirmarmos que somos divididos em quatro partes baseado no texto em que Jesus diz para amar a Deus “com todo o vosso coração, alma, força e entendimento” (Mc 12:30). Um tricotomista jamais aceitaria dividir a natureza humana em quatro partes só porque quatro “elementos” são mencionados em Marcos 12:30, ainda mais quando sabe que coisas como “força” e “entendimento” não são “partes” distintas, mas apenas características de um mesmo e único indivíduo.

Essa é exatamente a mesma lógica que deveria ser aplicada ao próprio texto de 1Ts 5:23 que ele usa: Paulo não falava de “três partes” do homem, mas apenas de três características, à semelhança das quatro citadas por Jesus em Mc 12:30. O “espírito” aqui representa nosso aspecto espiritual (i.e, nossa comunhão com Deus), a “alma” representa nossas emoções (i.e, nosso psicológico), e o “corpo” aquilo que envolve o físico. Eles não são três partes, mas três aspectos de uma coisa só (o homem).

Em geral, a Bíblia usa o termo "corpo" para se referir ao aspecto físico (visível), enquanto "espírito" na maior parte das vezes se refere àquilo que não se pode ver, como as emoções, sensações, sentimentos, espiritualidade e capacidades cognitivas. 
Tudo isso diz respeito a aspectos de um mesmo indivíduo, não um indivíduo “repartido” em várias partes. Uma mesma pessoa pode estar passando por problemas espirituais, psicológicos e físicos, não porque tenha três “eus” dentro de si, mas porque é um ser multifacetado – um ser único, mas com características variadas e peculiares.

Esses aspectos intangíveis não provém de um outro "ente" preso no corpo, mas são produzidos pelos aspectos tangíveis e por isso não podem existir sem o corpo. Por exemplo, nossa visão não é uma coisa física, mas ela é produzida por algo físico (os olhos). Da mesma forma, os pensamentos não são uma coisa física que possamos ver ou tocar, mas são produzidos por algo físico (o cérebro). A esse aspecto “não-físico” do ser humano a Bíblia às vezes retrata usando metáforas como o coração, a alma, o espírito e até mesmo os rins, nos originais hebraico e grego. Nós sabemos que o coração em si é “apenas” um órgão de corpo responsável por bombar o sangue, mas na Bíblia é dito que do coração procedem as saídas da vida (Pv 4:23).

Claro que ela não está dizendo que existem “dois corações”, o coração físico que bombeia o sangue e um “coração invisível” de onde procedem as saídas da vida. Este “coração invisível” é apenas uma metáfora para se referir a esses aspectos “não-físicos” do ser humano, que todavia são produzidos por algo físico. O mesmo ocorre com alma e espírito, como Samuelle Bacchiocchi demonstrou no estudo mais completo elaborado sobre o tema, que você pode conferir aqui e aqui. Note que isso é totalmente diferente de dizer que existe uma “alma imortal” e “não-física” presa dentro do nosso corpo. Antes, diz respeito meramente a características físicas e não-físicas de um mesmo indivíduo, ou seja, a aspectos da sua existência.

A essa doutrina que enxerga o ser humano como um ser único que sobrevive através do corpo e não “fora” dele, nós chamamos de holismo. Para os holistas, não há “divisão” na natureza humana, mas integração de diferentes características que perfazem uma única pessoa. Uma mesma pessoa (que aqui chamaremos de “Cláudia”) pode ser mãe, irmã, filha, esposa, médica, flamenguista, roqueira, brasileira e cristã, mas ainda assim é uma mesma e única pessoa que executa todas essas diferentes funções. Não existe “divisão” entre uma “Cláudia doutora” e uma “Cláudia cristã”, mas é uma mesma Cláudia que é doutora e é cristã. Da mesma forma, somos um ser físico, psíquico, espiritual, racional e emocional, que são características de um mesmo e único indivíduo, e não um “ser dentro do ser”, não um “elemento” fantasmagórico que levamos aqui dentro em algum lugar.

Um hebreu dos tempos bíblicos podia usar diferentes termos para se referir a características não-físicas de um ser físico e ninguém imaginaria que ele estava falando de um “outro ser”, mas graças ao paganismo grego (sobretudo ao platonismo dualista) hoje pensamos imediatamente num “outro ser” quando ouvimos falar em ‘alma’ e ‘espírito’ associados a características não-físicas em determinados textos bíblicos, como se fosse a “prova” de que existe uma “alma imortal” presa no corpo. Assim como as lentes do papismo, as lentes imortalistas só funcionam com alguém que já se habituou a olhar os textos com esses óculos, cuja interpretação está viciada e a conclusão é parte da sua própria pressuposição.

Tal como o papista que lê “Roma” por “Igreja”, o imortalista enxerga um “fantasma” quando a “alma” aparece, e a partir daí toda a interpretação está viciada, tendendo a interpretar cada texto sob a ótica do paganismo, e não pela ótica bíblica. Isso muitas vezes é um ato inconsciente e à vezes parece bem racional, como quando argumentam que não faz sentido a vírgula de Lucas 23:43 ser colocada depois do “hoje”, já que seria redundante Jesus usar o “hoje” quando já estava bem claro que estava dizendo aquilo naquele dia. O erro aqui não é pensar com as “lentes do paganismo”, mas com nossas próprias lentes modernas, em vez de regressarmos à mentalidade e à cultura hebraica na qual Jesus e o ladrão estavam inseridos. Uma simples pesquisa no AT nos mostra dezenas de casos onde a mesma estrutura ocorre:

"...te ordeno hoje" (Dt 6:6, 11:8, 4:40, 30:11, 27:10, 15:5, 30:8, 27:1, 10:13, 11:13, 15:5, 8:11, 28:14, 27:4, 13:18, 19:9, 8:1, 1:28, 28:1, 28:13)

"...declaro hoje" (Jr 42:21; Dt 30:18; At 20:26)

"...testifico hoje" (Dt 8:19, 32:46)

"...ponho hoje" (Dt 4:8)

"...proponho hoje" (Dt 30:15, 11:32)

"...vos mando hoje" (Dt 11:27)

"...vos anuncio hoje" (Zc 9:12)

Era redundante Jesus dizer naquele dia que estava dizendo aquilo naquele dia? Era, como também era redundante Deus fazer a mesma coisa dúzias de vezes. A lógica da nossa cultura nos leva a pensar que Jesus não teria dito “em verdade te digo hoje” porque seria redundante, mas a lógica da cultura deles tornava isso completamente possível. Provavelmente gerações futuras irão estranhar e achar sem sentido expressões que costumamos usar cotidianamente, tais como “tire o cavalinho da chuva”, “nem que a vaca tussa”, “acertou na lata (ou na mosca)”, “fez vistas grossas”, “acabou em pizza”, e assim por diante. Alguém poderia alegar que a expressão “abrir o coração” não faz sentido, pois alguém com o “coração aberto” estaria morto. Outras poderiam pensar que “abrir os olhos” é desnecessário e redundante, pois a pessoa já está de olhos abertos.

É claro que nada disso importa, uma vez que sabemos que essas coisas são apenas forças de expressão e que, embora soem sem sentido para pessoas de outras culturas, o que importa é que fazem sentido para pessoas da nossa cultura, para as quais falamos. O mesmo ocorre com Lucas 23:43 – Jesus podia estar soando “redundante” para um brasileiro do século XXI, mas estava apenas recorrendo a um hebraísmo bem conhecido dos judeus daquela época, frequentemente usado para ressaltar e destacar uma sentença importante. Neste caso, como já disse, o erro não está em assumir um pressuposto pagão, mas em assumir pressupostos que diferem dos assumidos pelos personagens originais. Somente “imergindo” na cultura hebraica dos tempos bíblicos poderemos compreender corretamente os pensamentos e intenções dos seus autores, de modo a interpretarmos não mais pelo nosso viés, muito menos pelo viés do paganismo, mas pela ótica deles e de seus destinatários originais.

Fonte: lucasbanzoli.com

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