Por mais que a Bíblia afirme e
reafirme reiteradas vezes a existência dos irmãos de Jesus, os apologistas católicos
preferem acreditar na lenda de que eram “simples primos”, na única manobra possível
para salvar o dogma da virgindade perpétua de Maria. Para eles, os vários
textos do Novo Testamento que falam nos irmãos de Jesus dizem respeito apenas a
primos porque no hebraico a palavra para irmão e primo era a mesma. O que ninguém
jamais explicou a eles é que o Novo Testamento foi escrito em grego, não em hebraico,
e que neste idioma já havia palavra específica para irmão (adelphos) e primo (anepsios),
além do termo mais genérico para parente (suggenes).
E que, por “coincidência”, todas as vezes que a Bíblia se
refere aos irmãos de Jesus ela usa o termo para irmão mesmo (adelphos).
Mas eles não desistem e martelam
na tecla de que os autores do Novo Testamento preferiram dizer “irmão” para
quem era na verdade “primo”, mesmo tendo uma palavra específica para primo que
poderia ter sido perfeitamente utilizada caso quisessem, e mesmo correndo o
risco de alguém confundir um primo com um irmão quando lê um texto dizendo irmão.
Para eles, o mesmo apóstolo Paulo que disse que Marcos era primo-anespsios de Barnabé (Cl 4:10) preferiu
dizer que Tiago era irmão-adelphos de
Jesus (Gl 1:19), talvez porque tenha tido uma amnésia súbita da existência do
termo anepsios naquela ocasião, ou
porque estava mal-informado, ou porque não se importava em confundir as pessoas
mesmo.
Mas provar os irmãos de Jesus
pela Bíblia é covarde e duplamente inútil: primeiro porque isso já foi feito neste
artigo (altamente recomendável para quem quer entender o tema), e segundo
porque nenhum apologista católico crê realmente na Bíblia (a série de pérolas
dos zumbis tridentinos é uma prova clara disso). Então neste artigo eu irei
usar um historiador judeu que viveu no primeiro século e que é a principal
fonte não-cristã usada como prova a favor da historicidade de Cristo: trata-se
de Flávio Josefo (37-100 d.C). Apologistas católicos quando debatem com ateus
citam Josefo para provar que Jesus existiu (e fazem bem ao agirem assim), mas
misteriosamente somem com ele quando o mesmo escreve a respeito de Tiago, o irmão de Jesus.
Vejamos o que Josefo escreve
sobre Tiago, o “primo” de Jesus no conto papista:
“Mas
o jovem Anano, que, como já dissemos, assumia a função de sumo-sacerdote, era
uma pessoa de grande coragem e excepcional ousadia; era seguidor do partido dos
saduceus, os quais, como já demonstramos, eram rígidos no julgamento de todos
os judeus. Com esse temperamento, Anano concluiu que o momento lhe oferecia uma
boa oportunidade, pois Festo havia morrido, e Albino ainda estava a caminho.
Assim, reuniu um conselho de juízes, perante o qual trouxe Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, junto com alguns outros, e,
tendo-os acusado de infração à lei, entregou-os para serem apedrejados” (Antiguidades Judaicas, Parte 1, Livro
XX, 8)
Por alguma misteriosa razão, os
sites católicos que usam a outra citação de Josefo sobre Jesus simplesmente
somem com essa (algo me diz que é por conveniência, mas vamos dar o ônus da dúvida).
Algum apologista católico poderia contestar e dizer que Josefo escrevia em
hebraico e por isso teria dito “irmão”, mas sabemos que Josefo escreveu em grego.
Então poderiam objetar dizendo que, mesmo escrevendo em grego, Josefo preferiu usar
o termo “irmão” como uma palavra genérica significando irmão ou primo para manter
seu “costume hebreu” (sim, inacreditavelmente é a desculpa que eles arrumaram
para o NT!).
Para saber se essa segunda objeção
tem algum fundamento, só nos resta uma coisa: irmos até os escritos de Josefo para
averiguar se ele realmente costumava usar o termo “irmão” para qualquer
parentesco, ou se também usava o termo grego para “primo” e diferenciava um e
outro. Lamentavelmente para os apologistas católicos, eu não precisei de muito
tempo até encontrar inúmeras citações expressas de primos (anepesios), como por exemplo Boaz, primo (não irmão!) de
Abimeleque:
“Orfa
consentiu naquele desejo, mas a extrema afeição que Rute devotava à sogra não
lhe permitiu abandoná-la e desejou ser sua companheira também na adversidade.
Assim, chegaram ambas a Belém, onde veremos em seguida que Boaz, primo de Abimeleque, as recebeu com
grande bondade” (Antiguidades Judaicas,
Parte 1, Livro I, 11)
Ou quando diz que Jonadabe era primo de Amnom:
“Amnom,
seu filho mais velho, apaixonou-se tão perdidamente por ela que, não podendo
satisfazer a sua paixão, porque ela era cuidadosamente vigiada, ficou em tal
estado que se tornou irreconhecível. Jonadabe, seu primo e amigo particular, julgou que aquela enfermidade só podia
vir de uma causa semelhante e rogou-lhe que dissesse qual era. Amnom revelou o
amor que sentia pela irmã, e Jonadabe, que era um homem inteligente, deu-lhe um
conselho, o qual ele pôs em prática” (Antiguidades Judaicas, Parte 1, Livro VII, 7)
Ou então quando afirmou que
Grapta era primo de Izate:
“Travou-se
um combate, mataram a muitos dos dele, impeliram-no até quase o palácio,
construído por Grapta, primo de
Izate, rei dos adiabenianos, que João havia escolhido para sua residência e
onde ele guardava todo seu dinheiro, como produto dos roubos e saques, que eram
efeito de sua tirania; entraram lá com ele e o obrigaram a se retirar ao
Templo” (Antiguidades Judaicas,
Parte 2, Livro IV, 34)
Ou então quando escreveu que Macrom
(não confundir com o presidente francês) era primo de Caio:
“Tudo,
porém, Macrom fez para dissipar essas dúvidas e suspeitas e particular-mente o
temor que ele tinha pelo neto; ele afirmava-lhe que Caio tinha por ele grande
respeito, muito afeto como primo, e
que lhe cederia de boa vontade o império; que só se devia atribuir ao pudor e
ao seu retraimento o que todos julgavam espírito fraco” (Antiguidades Judaicas, Livro Único, 4)
Ou então quando alegou que Tibério
também era um primo de Caio:
“Ações
tão criminosas, na mente de Caio, eram como outras tantas vitórias que ele
obtivera sobre o que havia de mais ilustre no império. Seu furor tinha sufocado
o brilho da família imperial no sangue do jovem Tibério, seu primo, que ele devia, ao invés, ter
associado ao soberano poder” (Antiguidades
Judaicas, Livro Único, 6)
Um caso particularmente
interessante é quando “primo” e “irmão” são usados em um mesmo trecho,
mostrando que Josefo conhecia bem a diferença entre ambos:
“Eis
como Caio procedeu para executar uma resolução tão detestável contra aquele,
com o qual a justiça obrigava a dividir a suprema autoridade. Mandou vir o
jovem Tibério, reuniu seus amigos e disse-lhes falando dele: ‘Eu não o amo
somente como meu primo, mas como se
ele fosse meu próprio irmão, e
desejaria, de todo meu coração, poder agora associá-lo ao governo, para
satisfazer à última vontade de Tibério, mas vedes que, sendo tão jovem, ele tem
mais necessidade de governante do que de ser governador’” (Antiguidades Judaicas, Livro Único, 3)
E o que dizer disso?
“Mas
eu quisera bem saber de quem ele teria podido aprender o que diz; eu fui
instruído desde o berço por meu pai,
meus irmãos, meus primos, meus avós, meus bisavós e tantos outros grandes
príncipes, de quem sou descendente dos lados paterno e materno, sem falar das
sementes de virtude que a mesma natureza introduz no sangue daqueles que ela
destina a governa” (Antiguidades Judaicas,
Livro Único, 4)
A família inteira é mencionada
de uma só vez – pai, irmão, primo, avós e bisavós –, e mesmo assim, para os
apologistas católicos, Josefo não tinha a capacidade de distinguir irmão e
primo e por isso generalizava usando o termo “irmão” de forma genérica, aplicando-o
a qualquer forma de parentesco próximo – algo que beira o ridículo. Curioso é
notar que todas essas referências estão na mesma obra em que Josefo chama Tiago
de irmão (e não primo!) de Jesus. Qualquer um pode encontrar o livro em
pdf, baixá-lo e constatar que os trechos citados aqui estão exatamente como
constam no livro.
Diante disso, fracassadas todas
as suas tentativas de “refutar” Josefo, a última escapatória para um apologista
católico seria atacar a tradução em português, que talvez tenha sido feita por
um protestante cruel, malvado e anticatólico (talvez um membro da famosa – nos
blogs católicos, é claro – “Inquisição protestante”). Para descobrir essa última
informação que nos faltava eu procurei o grego original dos escritos de Josefo
e descobri aqui.
Os vinte livros da “Antiguidades Judaicas” estão lá, cada trecho com o original
grego seguido de uma tradução em inglês. Você pode entrar lá e conferir exatamente
o trecho citado na referência sobre Tiago, que é o livro 20 (veja aqui).
E, adivinhem, no grego consta exatamente o termo para irmão, como também traduz
a versão inglesa:
Eu fiz o mesmo para ver se no
grego consta a palavra diferente para primo, como nessa
citação do livro 17. E adivinhem:
Ou seja, o grego traz a mesma
coisa que a tradução em português e em inglês. Josefo cita adelphos em relação a Tiago irmão de Jesus, e anepsios em relação ao parentesco de outras pessoas que eram
primas, mas não irmãs. Agora que todas as possibilidades de refutação já foram demolidas
de antemão, só restará ao apologista católico apelar ao truque final: dizer que
Josefo estava redondamente mal-informado. Isso se tornaria ainda mais irônico
se vindo de certos apologistas católicos preteristas que interpretam o
Apocalipse 100% baseados no testemunho de Josefo, que por conveniência se torna
“não-confiável” quando o que escreve é algo que confronta diretamente suas
crenças pessoais – o que só mostra mais uma vez a desonestidade desse tipo de
gente.
Josefo é usado pelos católicos
quando fala de Jesus, também é usado por eles quando fala sobre a guerra entre
Jerusalém e Roma em 70 d.C, mas quando fala do parentesco de Tiago em relação a
Jesus se transforma subitamente em uma fonte contestável que deve ter errado grosseiramente
em suas pesquisas. Josefo era contemporâneo de Tiago, que era o líder da igreja
cristã em Jerusalém e contemporâneo de Josefo, que, como se não bastasse, era
um historiador competente – mas mesmo assim não sabia que Tiago era apenas um “primo”
de Jesus! Pelo jeito não são só os protestantes que se enganaram em relação a
Tiago, mas também um historiador contemporâneo não-cristão e todos os
escritores bíblicos de uma só vez. Todo mundo se enganou, exceto a apologética
católica, que com um golpe de mestre “descobriu” o primo de Jesus recorrendo
como fonte a um Pai da Igreja de cinco séculos posteriores. É realmente cômico.
Todos os evangelistas e apóstolos
disseram que os irmãos de Jesus eram adelphos
mesmo, e não primos – mas mesmo assim eram primos. Josefo se refere a Tiago
como sendo irmão-adelpho de Jesus em
vez de primo (mesmo tendo por hábito chamar os primos de primos), mas mesmo
assim Tiago era um primo. Mesmo quando a arqueologia descobre o ossuário de
Tiago datado exatamente do século I com a inscrição aramaica “Tiago, filho de
José, irmão de Jesus” (Ya'akov bar Yosef
achui d'Yeshua) e é provada
verdadeira em tribunal (veja
aqui), ainda assim Tiago continua sendo “apenas um primo”. Não importa
quantas provas sejam acumuladas – sejam elas bíblicas, históricas ou arqueológicas
–, nada poderá mudar a mente de alguém
que a tem cauterizada para não escutar verdades desagradáveis e inconvenientes.
Fonte: lucasbanzoli.com
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