segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Existe justiça nas comissões judicativas?

Luiz Lopes

É comum, qualquer testemunha de Jeová conhece e sabe do que se trata mas nunca é demais explicar o que é uma comissão judicativa e qual a sua função. Como o próprio nome já declara, é uma comissão de três ou mais anciãos de uma congregação, que se reúne com alguém que porventura tenha cometido algum pecado grave, passível, portanto, de ser desassociado, quer dizer, expulso da congregação, deixando de ser considerado como uma testemunha de Jeová e sendo, a partir de então, ignorado, nem mesmo sendo cumprimentado pelas outras testemunhas enquanto estiver nesta condição. Uma pena terrível, que interpõe um muro de isolamento entre amigos, parentes e até mesmo entre pais e filhos.
A Sociedade Torre de Vigia, que nos últimos meses mudou a sua denominação para Associação Cristã das Testemunhas de Jeová, mas que nós - por sabermos os motivos reais da mudança - preferimos continuar chamando pela forma antiga, diz ser biblicamente correta a atitude de semelhante julgar, e por vezes condenar, semelhante. Baseia-se ela em alguns textos bíblicos, mas não é, no momento, nossa intenção questionar a validade ou não da aplicação de tais textos, nosso objetivo é questionar a capacidade de um ancião ou de alguns anciãos que apesar de serem, na maioria, homens experientes e maduros, são apenas isso mesmo, homens, tão imperfeitos e pecadores como qualquer outro. É muito importante discutir isso, pois nas mãos de muitos destes homens, deposita-se o futuro e a vida de um grande número de testemunhas de Jeová, que, por qualquer motivo, estejam sujeitas ao seu julgamento.
O KS (sigla do inglês Kingdom School - 1991), o Manual da Escola do Ministério do Reino, ministrado aos anciãos e livro de orientação para casos como o da formação de comissões judicativas e outros, trás algumas orientações bem interessantes sobre o tema. Na página 113, segundo tópico, diz-se:
“Nem a gravidade do erro nem a má publicidade determinam em última instância se a pessoa deve ser desassociada; em vez disso, o fator determinante é o arrependimento sincero, ou a ausência dele, da parte da pessoa”.
O texto é claro, mas queremos ressaltar que é dito que, “a gravidade” ou a “má publicidade”, ou seja, o fato de mais pessoas na congregação saberem do fato, é o que vai determinar se a pessoa será ou não desassociada. O fator determinante é o “arrependimento”.
Na página 114, o KS fornece mais orientações:
“Os anciãos devem ser capazes de discernir o genuíno arrependimento da parte do transgressor”.
Pergunta: Como poderá um homem, comum, imperfeito, reconhecer traços de arrependimento genuíno em outra pessoa?
Na seqüência, na própria página 114, o KS passa a fornecer orientações sobre como identificar um “genuíno” arrependimento, no sub-tópico “Como se pode reconhecer o verdadeiro arrependimento”, onde se diz:
“Tem a pessoa orado contritamente (de forma arrependida) a Jeová e procurado seu perdão e misericórdia?”
Porém, logo a seguir, o KS trás a seguinte palavra de cautela:
“Alguns transgressores, embora estejam arrependidos, acham difícil orar”.
Deveria ser uma regra de fácil aplicação, se a pessoa não está fazendo orações não há arrependimento, mas não é assim, admite-se que existem exceções, ela pode não estar orando apenas porque se sente imprópria para orar e, ao mesmo tempo, estar arrependida. Então, como pode um homem ou um grupo de homens, chamados de anciãos, definirem com exatidão se o arrependimento é genuíno ou não? E se não conseguirem definir e cometerem uma injustiça, apenas uma que seja, já não seria algo condenável?
O KS prossegue com suas orientações:
“Admitiu sua transgressão, quer voluntariamente a alguns dos anciãos antes da audiência, quer quando confrontada com seus acusadores?”
Nova palavra de cautela:
“Algumas pessoas ficam tão profundamente envergonhadas que relutam em falar. Ou têm dificuldades em se expressar”.
Pois bem, confessar o erro e admiti-lo seria uma maneira de demonstrar arrependimento conforme o KS, porém, o mesmo reconhece que algumas pessoas podem sentir vergonha de admitir perante outros o seu pecado e, mesmo assim, estar profundamente arrependida no seu íntimo. Como poderiam alguns homens, apenas com olhos humanos, penetrar no íntimo de uma pessoa, vasculhar seu coração e obter a resposta?
Na página 115, o Manual trás uma pergunta que obriga a uma análise muito mais do que superficial do estado de uma pessoa quando sujeita a uma comissão judicativa:
“O que parece motivar a tristeza, o remorso e o pesar que demonstra? É a tristeza do mundo (pesar por ter sido apanhada) ou é a tristeza piedosa, sincera?”
Imaginemos a cena: A pessoa chora perante uma comissão judicativa, demonstrando tristeza e pesar. Como determinar se a tristeza é motivada pelo fato de ter sido descoberta no seu erro, ou se é devido a uma tristeza “piedosa e sincera”? É sem dúvida uma tarefa sobre-humana, inadequada para ser atribuída a simples homens, incapazes de identificar detalhes relacionados aos sentimentos íntimos de uma pessoa, que só poderiam ser avaliados por Deus, que, como mostra a Bíblia, conhece intimamente a cada um de nós.
Existem dois casos relatados na Bíblia, similares por se tratarem de desobediência aos princípios divinos, mas cujo tratamento dado por Deus foi diferente. Na realidade, poderíamos dizer que para nós, seres humanos, o julgamento de Deus nos dois casos é incompreensível, justamente por não termos a capacidade de avaliar os sentimentos íntimos de outro ser humano semelhante a nós.
O primeiro caso é o de Moisés, cuja obediência às ordens de Deus é plenamente comprovada pela sua atuação em vida. Abdicou de uma posição privilegiada na corte do faraó do Egito para liderar o povo de Israel rumo à terra prometida e era conhecido com “o mais manso dos homens sobre a face da terra”. Vez após vez, mesmo sob intensa pressão, Moisés defendeu os interesses do povo escolhido por Deus e por fim o próprio Deus, quando este povo foi relapso quanto a prestar a Ele a adoração devida. Vagou durante 40 anos no deserto, tendo atrás de si mais de três milhões de israelitas, com todos os problemas inerentes a um grupo tão grande de pessoas. Ele, no entanto, sempre foi fiel às orientações recebidas e conseguiu manter o povo organizado e com um objetivo definido. Porém, pouco antes de atingir este objetivo, Moisés cometeu um erro. Após enfrentar tantos reclamos e problemas ocasionados pelos israelitas, Moisés, ao providenciar água por bater com o seu cajado em um rochedo, não deu honra a Deus pelo jorro de água que brotou da rocha e acabou por atribuir, de forma intrínseca a si mesmo, o milagre.
O julgamento de Deus foi duro, duríssimo. Moisés, que tanto sofreu e lutou para retirar o povo de Deus do Egito, que foi exigido ao máximo por ficar tanto tempo no deserto, mantendo a união em torno do objetivo, iria, conforme a decisão de Deus, poder apenas olhar, mas não poderia entrar na terra prometida. Duro, mas foi assim que ocorreu. Moisés viu, de longe, mas ficou para trás enquanto os israelitas entravam na terra que por tanto tempo sonharam.
O segundo caso é o do rei Davi, cuja integridade é também igualmente conhecida. Davi foi escolhido diretamente por Deus para ser rei em Israel e sempre primou pela obediência às leis de Deus. Davi tinha muitas esposas, conforme permitido por Deus, porém um dia, ao observar de seu terraço, viu uma mulher de nome Bate-Seba, e ficou encantado com sua beleza. Ocorre que ela era esposa de um de seus generais que estava fora numa batalha, mas Davi estava totalmente envolvido pela paixão e não pensou nas conseqüências, terminando por ter relações sexuais com Bate-Seba e a engravidando. Desesperado, ele tomou providências para que o marido dela fosse colocado na linha de frente de batalha para que fosse morto e assim se deu. Caso resolvido, Davi tomou a mulher como sua esposa e esta teve seu filho, aparentemente nenhum arrependimento sincero se fazia notar no rei de Israel.
Apenas quando um profeta enviado por Deus lhe chamou a atenção é que Davi deu-se conta da grandeza do erro que havia cometido, vindo então a demonstrar arrependimento. A pena aplicada por Deus também foi dura, a morte do filho originado no relacionamento, mas não se compara ao julgamento de Moisés, já que Davi continuou vivo e pode continuar com Bate-Seba e ter outros filhos com ela.
Nesse ponto cabe a pergunta: Será que nós, com nossos olhos humanos, teríamos julgado ambos os casos da mesma forma que Deus? Não teríamos nós, simples homens, talvez aplicado uma pena mais pesada ao caso, aparentemente pior, de Davi, do que ao caso, aparentemente mais brando, de Moisés? Muito provavelmente a resposta é sim. Entretanto, o julgamento de Deus é baseado no conhecimento das motivações íntimas, nas motivações do coração, algo que para um ser humano é impossível.
Usando-se estes exemplos e aplicando-os nas atuações das comissões judicativas em casos comuns envolvendo testemunhas de Jeová, é justo perguntar: Não estariam, em muitos casos, agindo conforme o que os olhos humanos vêem e não conforme o conhecimento das motivações do coração? É provável que sim, mesmo porque as variáveis de cada caso, conforme as próprias orientações do KS, impedem a aplicação de regras claras e inequívocas, que são em última análise, a única maneira de homens julgar outros homens.
Trata-se claramente de uma usurpação. Homens que tomam para si mesmo algo que pertence apenas a Deus: O direito de julgar a justos e injustos.

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