William Perkins e a Fé Justificadora – Parte II - O Peregrino

O Peregrino

Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade? Gálatas 4:16

test banner

Breaking

Post Top Ad

Minha Rádio

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Perkins e a Fé Justificadora – Parte II

A doutrina da justificação pela fé e a pregação da Palavra

RESUMO: Este artigo mostra como a fé justificadora, segundo William Perkins, é comunicada com poder por meio da pregação da Revelação Especial (as Escrituras). Em contraste com a ideia de justificação como processo — associada ao Concílio de Trento e ao ecumenismo que dilui diferenças — o texto reafirma a justificação como ato forense de Deus: o pecador é absolvido, declarado justo e aceito por causa de Cristo, e só então inicia a santificação como perseverança. Com base em Romanos 10.17 e nos catecismos reformados, o artigo destaca os benefícios pastorais dessa pregação: segurança do Evangelho, humildade, autoexame, fortalecimento da fé e vitalidade para a igreja contemporânea. Artigo escrito pelo pastor Paulo Corrêa, Pastor da Igreja Batista Reformada de Ceilândia/DF. Fundador e Editor do Ministério Justificação pela Fé. É formado em Teologia Livre pelo Seminário Martin Bucer/SP, pós-graduado em Pregação Expositiva pela FTRB/DF, e mestrando em Teologia Sistemática pelo Puritan Reformed Theological Seminary (PRTS.EDU).


Após estabelecermos a base da Revelação Especial e a natureza forense da justificação segundo William Perkins no primeiro artigo desta série (clique aqui para ler!), cabe agora compreendermos como essa realidade é comunicada com poder por meio da pregação das Escrituras.

 

A FÉ JUSTIFICADORA VEM DE DEUS

McGrath[1] afirma na sua teologia sistemática que “uma das principais influências da Reforma foi a substituição da linguagem da ‘salvação pela graça’ pela linguagem da ‘justificação pela fé’”. Para um estudo teológico mais consistente sobre o modo como Deus aceita pecadores como justos, essa mudança de linguagem colabora significativamente para a existência de pregações sólidas e não legalistas da doutrina da salvação.

 

Uma das consequências da falta desses sermões sobre a fé justificadora foi o surgimento, nos últimos anos, de muitos debates[2] ecumênicos entre católicos romanos e várias denominações protestantes para tentarem mostrar que suas perspectivas sobre a justificação, apesar de diferentes, na verdade seriam complementares, mas não excludentes.  Discordamos desse ecumenismo, uma vez que o quarto capítulo do decreto do Concílio de Trento[3] defende a justificação como um processo gradual e incompleto:

 

Em síntese, a justificação do pecador pode ser definida como a mudança daquele estado em que o ser humano nasce, como filho do primeiro Adão, para o estado de graça e de adoção como filhos de Deus, por meio do segundo Adão, Jesus Cristo, nosso salvador. De acordo com o Evangelho, essa mudança não seria possível senão por meio da purificação decorrente da regeneração, ou de um desejo nesse sentido, como está escrito, “ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito[4].

 

A FÉ JUSTIFICADORA DECLARA ALGUÉM “ACEITO PELA FÉ”

A ideia de “purificação decorrente da regeneração” de Trento mostra a crença da teologia católica romana de que a justificação acontece na medida que a santificação avança. Ou seja, a fé justificadora dependente, em última circunstância, das obras da lei e dos méritos de pecadores para a salvação ser possível. Nesse sentido, os cristãos e, principalmente, os pregadores entenderão a justificação biblicamente ao observarem os atos forenses de Deus Pai no pecador, a saber: Primeiro, Ele absorve pecadores da condenação: “E por ele [Jesus] todos os que creem são justificados de todas as coisas, das quais não podereis ser justificados pela lei de Moisés” (Atos 13.39). Os pecadores são absolvidos da condenação dos seus pecados somente pela fé em Jesus.

 

Segundo Perkins, Paulo explica a justificação como um ato oposto[5] à condenação, portanto, pecadores culpados pelos seus pecados são justificados pela fé, isto é, são declarados inocentes de todos os seus pecados, embora ainda tenham a capacidade de pecar e sofrer as consequências dos seus pecados no tempo presente. Eles passam a ter uma boa reputação diante de Deus, não porque foram transformados em justos, mas porque foram aceitos por Deus Pai como se fossem justos, sem pecado, unicamente por causa dos méritos de Cristo. Deus Pai muda o seu relacionamento com eles, então deixam de ser inimigos do Pai para adotá-los em Cristo.

 

A FÉ JUSTIFICADORA TORNA ALGUÉM “PERSEVERANTE NA FÉ”

A santificação só inicia após o pecador ser entregue à vida de justiça, como está escrito em Romanos 6.19: “No passado, vocês se deixaram escravizar pela impureza e pela maldade, o que os fez afundar ainda mais no pecado. Agora, devem se entregar como escravos à vida de justiça, para que se tornem santos”. Em Isaias 5.22-23, Perkins mostra que Deus não tolera o ímpio ser tornado justo “Ai dos … que justificam o ímpio”. Porque Deus não torna o culpado em inocente, mas Ele aceita o culpado como inocente, mediante a fé, para a vida eterna com Cristo, isto é, Deus Pai imputa no cristão a justiça de Cristo pela fé que justifica.

 

Lutero dizia que “a razão pela qual algumas pessoas não entendem porque somente a fé justifica é por não entender o que é fé”[6]. Essa dúvida foi esclarecida pelo apóstolo Pedro em sua primeira carta (1Pe 3.21), onde ele explica que o batismo nas águas serve como um sinal da salvação, não porque no batismo houve a remoção da sujeira do corpo, mas porque no batismo, os justificados pela fé, declaram ter boa consciência diante de Deus, isto é, reconhecem que são pecadores, da necessidade de arrependimento e fé em Deus. Essa fé é eficaz porque a Palavra Hipostática, Jesus Cristo, ressuscitou para sermos aceitos por Deus Pai como filhos (Rm 4.25).

 

Até ser recebida essa fé justificadora, pecadores são incapazes de crer em Jesus para serem justificados. Contudo, após receberem um novo coração acompanhado, necessariamente, da fé justificadora, somente após isso, inicia-se o processo de santificação que é o perseverar na fé em Cristo para ser como Ele através do agir do Espírito Santo e do Evangelho, embora ainda haja a capacidade de pecar até a volta de Jesus, onde os crentes que foram justificados serão incapazes de pecar para sempre.

 

BENEFÍCIOS DA PREGAÇÃO DA FÉ JUSTIFICADORA SEGUNDO PERKINS

Perkins na sua obra “O Fundamento da Religião Cristã” [7] ensinava que “a fé vem somente pela pregação da palavra e aumenta diariamente por ela”. Tal argumento é bíblico, uma vez que “a fé vem por ouvir” (Rm 10.17), isto é, por ouvir as boas-novas a respeito de Cristo. Portanto, através da pregação das Escrituras, uma grande obra é realizada nos corações dos eleitos e de maneiras diferentes. O Catecismo Maior de Westminster afirma que fé justificadora é “operada pelo Espírito e pela Palavra de Deus no coração do pecador, convencendo-os de suas misérias”[8].  Eles receberão a fé para serem salvos e crescerem na santificação de glória em glória. Sobre isso a Confissão de Fé Batista de 1689 no capítulo 14 afirma:

 

A graça da fé é uma obra do Espírito de Cristo nos corações, e por ela os eleitos são habilitados a crer para a salvação de suas almas. Normalmente essa obra é lavrada pelo ministério da Palavra de Deus. E com a Palavra, a administração do Batismo, a Ceia do Senhor, a oração e outros meios designados por Deus, a fé é aumentada e fortalecida.[9]

 

De acordo com Perkins, “a quem Cristo vivifica, ele os justifica. E a quem Ele não vivifica, ele não justifica”[10]. Como é possível perceber essa mudança de relacionamento com Deus após ouvir uma pregação? Pelo autoexame, dizia Perkins. Pois, a justificação se evidencia quando Cristo transforma o coração e leva a pessoa a rejeitar o pecado.

 

No processo de reforma, o ego diminui e a crença na autoridade da Palavra de Deus aumenta, pois a justificação humilha[11] nosso ego, ao invés de alimentá-lo. Essa doutrina enfatiza que os pecadores dependem inteiramente da fé justificadora para serem salvos por Cristo (Ef 2.8,9). Os méritos individuais são irrelevantes na salvação e isso fere o orgulho humano, por negar a suposta autonomia[12] tão defendida na renascença, depois pelos iluministas e, por fim, recentemente pela pós-modernidade. Assim, quando a Palavra Revelada é pregada, ela gera a fé nos eleitos na autoridade da Palavra de Deus ao ponto de não haver outra opção de crer em Cristo se não for pela fé na promessa de Deus de nossa justificação.  Sobre isso, Perkins afirma que a fé é o se apegar[13] a Cristo na promessa, crendo com todo nosso coração que de fato fomos salvos da condenação eterna inteiramente e definitivamente pela fé em Cristo e em suas obras.  Nosso Senhor Jesus almeja que tenhamos certeza dessa promessa, por isso Ele garantiu que todo aquele que o Pai lhe deu (Jo 6.37), esse irá até Ele e será salvo. Ele não lançará fora aqueles que forem conduzidos a Ele através do instrumento da fé justificadora.

 

CONCLUSÃO

Uma pregação baseada na Revelação Especial Escrita é necessária para a transmissão da fé justificadora aos eleitos de Deus, mudando a situação destes diante dele.  Segundo Carson, “a salvação que Deus fornece é mais do que justificação, pois tem a ver com nosso status diante de Deus”[14]. De fato, somente pela fé em Cristo é possível mudar nosso status de condenados ao inferno para inocentes de toda a culpa, isto é, justificados.

 

Segundo o Catecismo de Heidelberg[15] pelo poder do Espírito Santo, pecadores tornam-se capazes de serem santos, essa é a regeneração, o nascer de novo para “receber a fé justificadora”.  Após a regeneração, eles passam a ser incapazes de não crerem em Jesus e assim “entram pela fé” no reino de Deus para ficarem. Depois, e somente após isso, inicia a santificação que é o “perseverar pela fé” para ser santo como Deus Pai, embora ainda haja capacidade de pecar até a volta de Jesus. Mas um dia receberão um novo corpo incapaz de pecar para sempre. Essa será a glorificação, o “estar com Cristo face a face para sempre”.

 

Tempos se passaram e esse ensino ainda é poderoso para a “saúde e vitalidade da igreja”[16], apesar da confiança na Revelação Especial Escrita ser mais escassa em dias pós-modernos. Por isso, juntamente com William Perkins, acreditamos ainda ser fundamental para a igreja contemporânea explicar e ensinar as bases da fé justificadora transmitida pela Revelação Especial pregada para que haja salvação genuína e uma vida cristã mais comprometida para a glória de Deus.


[1] Alister McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica (Shedd, 2005), 581.

[2] Mark A. Seifrid, Justificado em Cristo (Hagnos, 2021), 197–99.

[3] J. M. (John Mockett) Cramp, The Council of Trent : Comprising an Account of the Proceedings of That Assembly; and Illustrating the Spirit and Tendency of Popery, with Trinity College – University of Toronto (London : Religious Tract Society, sold at the Depository, [etc.], 1839), 70, http://archive.org/details/counciloftrentco00cramuoft.

[4] Tradução do texto de Trento usada por McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, 525.

[5] Ballitch and Yuille, The Wholesome Doctrine of the Gospel, 1146.

[6] McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, 520.

[7] Perkins, The Works of William Perkins, Volume 5, 458.

[8] Johannes Geerhardus Vos, O Catecismo Maior de Westminster: Comentado por Johannes Geerhardus Vos (Independently published, 2007), 23.

[9] “The 1689 Baptist Confession | The Second London Baptist Confession of Faith,” accessed December 12, 2025, https://baptistconfession.org/.

[10] William Perkins, Commentary on Galatians (PDF, 1604), locs. 3782–3785.

[11] Myatt, Teologia Sistemática, 812–813.

[12] A renascença trouxe grande ênfase nos valores humanos manifestos nos escritos clássicos (Humanistas); em seguida os iluministas beberam das ideias da renascença, e por isso defenderam que a razão humana seria a única fonte de todo conhecimento; e por fim a pós-modernidade trouxe a valorização do relativismo, onde cada ser humano teria própria McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, 27–30.

[13] Perkins, Commentary on Galatians, loc. 6451.

[14] “TGC Course | Justification by Faith: A Biblical Theological Perspective,” accessed December 12, 2025, https://www.thegospelcoalition.org/course/justification-faith-biblical-theological-perspective/#course-introduction.

[15] Marcos Vasconcelos, As Três Formas de Unidade Das Igrejas Reformadas — A Confissão Belga, O Catecismo de Heidelberg e Os Cânones de Dort (Recife, PE: Editora CLIRE, 2009), 81.

[16] Albert Mohler, Ele não está em silêncio: a pregação da palavra em um mundo pós-moderno (Editora Fiel, 2011), 17.

 

Por: Paulo Corrêa, Pastor da Igreja Batista Reformada de Ceilândia/DF. Fundador e Editor do Ministério Justificação pela Fé. É formado em Teologia Livre pelo Seminário Martin Bucer/SP, pós-graduado em Pregação Expositiva pela FTRB/DF, e mestrando em Teologia Sistemática pelo Puritan Reformed Theological Seminary (PRTS.EDU). É Casado com Pâmela Corrêa, com quem tem uma filha, Ana Corrêa. 

Fonte: https://voltemosaoevangelho.com 

Nenhum comentário:


Campanha:

Leia um livro!

Ad Bottom