Uma reflexão bíblica, teológica e pastoral sobre identidade e eleição
Resumo: Em um cenário em que “evangélico” no Brasil muitas vezes funciona como rótulo sociológico, estatística censitária ou marca cultural, este texto recupera uma distinção bíblica e pastoral: nas Escrituras, o povo de Deus é identificado como cristão, isto é, pessoas unidas a Cristo e reconhecidas por uma vida conformada ao Senhor (Atos 11.26; Efésios 1.4; Romanos 8.29). Embora “evangélico” seja um termo legítimo por derivar de euangelion (boas-novas) e ter uso histórico relevante desde a Reforma, a Bíblia não o emprega como identidade primária; por isso, quando a igreja troca discipulado por mera afiliação, corre o risco de esvaziar o testemunho. Veja a conecção entre identidade cristã, eleição, frutos, arrependimento e santificação, afirmando que todo cristão vive do Evangelho e para o Evangelho, mas nem todo “evangélico” (no uso contemporâneo) vive como cristão. Devemos obedecer ao chamado de nos voltar ao Cristo das Escrituras (Gálatas 2:20). Texto escrito pelo pastor presbiteriano Francisco Jonatan Soares, que tem formação teológica pelo Seminário Teológico de Fortaleza, mestrado em Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior e exerce atualmente a vice-presidência do sínodo de Fortaleza e é também o Secretário Sinodal para o Trabalho Feminino.
Vivemos um tempo em que a identidade religiosa tem sido cada vez mais reduzida a rótulos sociológicos, estatísticas censitárias e marcas culturais. No Brasil, o termo “evangélico” tornou-se amplamente difundido, assumindo significados que vão muito além de sua origem bíblica e histórica. Diante desse cenário, torna-se necessário recuperar uma distinção essencial: biblicamente, os eleitos de Deus são chamados cristãos, não evangélicos.
O termo “cristão” nas Escrituras
O Novo Testamento registra que os discípulos foram, pela primeira vez, chamados cristãos em Antioquia (At 11.26). Esse dado não é meramente histórico, mas profundamente teológico. O termo christianós indica pertencimento, identificação e conformidade com Cristo. Não se trata de um título auto atribuído, mas de um reconhecimento público de que aqueles homens e mulheres viviam de tal modo que Cristo era visível em suas palavras, atitudes e testemunho.
Além disso, o termo “cristão” está intrinsecamente ligado à doutrina da eleição e da união com Cristo. Os eleitos são aqueles que o Pai escolheu “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4), para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29). Ser cristão, portanto, não é apenas professar uma fé, mas participar da vida de Cristo, pela obra regeneradora do Espírito Santo.
“Evangélico”: um termo legítimo, mas secundário
A palavra evangélico deriva do grego euangelion (boas-novas), termo central na fé cristã. O evangelho é o coração da mensagem bíblica, e anunciar o evangelho é missão irrenunciável da Igreja. Contudo, é importante reconhecer que a Bíblia nunca utiliza “evangélico” como identidade do povo de Deus.
Historicamente, o termo surge séculos depois, especialmente no contexto da Reforma Protestante, para designar cristãos comprometidos com a autoridade das Escrituras e a centralidade do evangelho da graça. No Brasil, passa a ser usado como categoria religiosa a partir do século XIX, e, mais recentemente, como marcador cultural, político e até mercadológico.
Aqui reside o problema: enquanto “cristão” aponta para uma realidade espiritual e ontológica, “evangélico”, no uso contemporâneo, frequentemente se limita a uma afiliação institucional ou sociológica, dissociada de arrependimento, santificação e discipulado.
Eleição, frutos e testemunho
A Escritura ensina que os eleitos de Deus são conhecidos pelos frutos (Mt 7.16), pela nova vida em Cristo (2Co 5.17) e pela transformação progressiva à imagem do Senhor (2Co 3.18). Essa realidade é melhor expressa pelo termo “cristão”, pois ele preserva o foco na pessoa de Cristo, não na tradição, na denominação ou na autodeclaração identitária.
Em termos simples, mas teologicamente precisos:
- Todo cristão vive do evangelho e para o evangelho.
- Nem todo “evangélico”, no sentido atual do termo, vive como cristão.
Quando a Igreja se acomoda ao rótulo e abandona o discipulado, corre o risco de trair sua vocação. O mundo não precisa de uma marca religiosa mais forte, mas de uma Igreja que apresente Cristo em carne viva, por meio de verdade, justiça, amor, santidade, arrependimento e serviço.
Recuperar o essencial
Resgatar o uso consciente do termo “cristão” não é um exercício meramente semântico, mas um chamado pastoral e profético. É lembrar que nossa identidade não está em sermos reconhecidos como um grupo religioso, mas em pertencermos a Cristo e vivermos como seus discípulos.
Num tempo de confusão teológica e banalização da fé, reafirmar essa distinção é uma forma de voltar ao Evangelho, ao Cristo das Escrituras e à identidade bíblica do povo eleito de Deus.
“Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).
Por: Francisco Jonatan Soares, Pastor Presbiteriano, Vice-Presidente do Sínodo do Ceará, Secretário Sinodal para o Trabalho Feminino. Formação ministerial pelo Seminário Teológico de Fortaleza, Mestre em Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior e Bacharel em Biblioteconomia, ambos pela Universidade Federal do Ceará. Casado com Clébia Soares, pai de Jonatan e Carolina e avô de Maria Isis.
Fonte: https://voltemosaoevangelho.com


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