Recordo uma ocasião em que fui ajudar meu filho a instalar armários em sua loja. Vesti-me de forma mais descontraída e fui à padaria tomar meu café matinal − antes disso, apenas minha devocional. No caminho, começou a chuviscar. Um chuvisco indeciso, é verdade. Após caminhar cerca de 150 metros, não hesitei: voltei ao Seminário, peguei o guarda-chuva, calcei uma bota própria até para neve e fui feliz tomar meu café. Fui e voltei sem abrir o guarda-chuva. Julguei mal. A única neve que vi foi a espuma do “lava a jato” perto do Seminário.
Embora esse erro de julgamento tenha sido inofensivo, sabemos que nem sempre é assim. As consequências de um juízo equivocado podem ser muito mais sérias − e, por vezes, irreversíveis.
Paixões interferem em nossos juízos
Nem todas as nossas escolhas dizem respeito a questões triviais. Além das paixões que frequentemente obscurecem nossa percepção da realidade − comprometendo nossos juízos − enfrentamos um agravante: mesmo quando desejamos sinceramente agir com justiça, carecemos de elementos essenciais. Não dispomos de todas as informações; somos enganados por impressões sutis e intensas; e não conseguimos alcançar uma visão mais ampla da realidade − ou, por vezes, sequer compreender claramente o que já está diante de nós.
Ilustro: em janeiro de 2010, assisti a uma reportagem sobre a prisão de uma gangue pela Polícia Civil de São Paulo. Eles iludiam pessoas com a promessa de ganho fácil: bastava localizar a bolinha escondida sob uma das três forminhas manipuladas por um “jogador” em um tabuleiro improvisado. Vi essa prática pela primeira vez no centro de São Paulo, ainda em 1985.
Durante a reportagem, um senhor preso foi entrevistado. Disse ser aposentado, que estava apenas de passagem e que havia saído para comprar remédio − segundo ele, tudo aquilo era um grande engano. Por alguns segundos, confesso que fiquei solidário. No entanto, logo em seguida, a reportagem exibiu uma gravação que o mostrava, por vários dias consecutivos, atuando como um dos agentes da própria gangue.
Percebi, então, meu equívoco − e como meu sentimento havia me enganado.
Mesmo desejando agir com justiça, frequentemente falhamos. Falta-nos discernimento, somos influenciados por emoções, e não conseguimos abarcar toda a complexidade da realidade.
Às vezes, cometemos injustiças por precipitação, por falta de informações ou − mesmo quando não nos faltam tais elementos − somos conduzidos por nossa passionalidade. É difícil reconhecer nossa condição de suspeição ao decidir certas questões. E quão árduo é ser justo quando nossos próprios interesses, ainda que não escusos, estão em jogo.[1]
Por outro lado, é surpreendentemente fácil atribuir motivações nobres aos nossos interesses, enquanto enxergamos − com olhos que julgamos perspicazes − as intenções dos outros como sempre contaminadas por desejos ocultos. Tendemos a condenar nos outros os mesmos anseios que habitam em nós, mas que não ousamos admitir. Nossos juízos podem ser projeções de nossas próprias falhas, valores distorcidos e intenções disfarçadas.
Como conhecemos a realidade?
Nossa perspectiva da realidade não é objetiva. No entanto, tendemos a pensar que o conhecimento que temos é natural − como se todos percebessem como nós percebemos. Daí a impressão equivocada de que nossa forma de ver e interpretar a realidade é a mais óbvia, comum e verdadeira.
Descobrimos a ilusão dessa percepção ao conversar com outras pessoas sobre temas que nos parecem evidentes. Não precisamos ir longe: basta dialogar com nossos filhos. Logo percebemos que nossa percepção estava equivocada − ou, ao menos, não era única nem necessariamente a mais completa.
A verdade é que nossa forma de conhecer o mundo é sempre mediada. Não acessamos a realidade de forma direta e pura − conhecemos por meio de filtros, interpretações, experiências e linguagens.
Por exemplo:
- A miopia embaça nossa visão; a surdez progressiva nos impede de identificar certos sons.
- O paladar muda conforme o que ingerimos antes.
- O aroma de pratos apreciados pode causar enjoo se estivermos com problemas hepáticos.
- A dormência nas mãos dificulta perceber texturas.
A conjugação dos sentidos amplia nossa compreensão − ainda que limitada. É mais fácil conversar pessoalmente do que por telefone ou e-mail. A visão pode ser confirmada pelo tato; a aparência pode ser contrastada com o aroma. Dizemos: “Meu filho come com os olhos”; “a comida está feia, mas está gostosa”; “o aroma não agrada, mas o sabor sim”.
Ao dirigir, usamos mãos e pés, mas também olhos e ouvidos. A visão é essencial, mas a audição complementa, especialmente para o que está fora do campo visual. Sensores visuais e auditivos em veículos reforçam essa percepção.
Esses exemplos destacam apenas as variáveis sensoriais. E quanto às visões mediadas pelo meio em que vivemos?
Não posso seguir aqui essa linha de argumentação, porém, é precisa a observação de Sowell
Seria bom poder dizer que poderíamos prescindir completamente de visões e lidar somente com a realidade. Porém essa pode ser a visão mais utópica entre todas. A realidade é muito complexa para ser compreendida por qualquer mente. Visões são como mapas que nos guiam através de um emaranhado de complexidades desconcertantes.[2]
A verdade e a sua essencialidade
A verdade é sempre essencial. O Cristianismo não se sustenta amparado em aparências, circunstâncias e ambiguidades, antes, ele acredita que sua fé é verdadeira, que proclama a verdade e se dispõe a ser examinado à luz da verdade.
A fé cristã se fundamenta na convicção de que sua mensagem é verdadeira − ou não há mensagem relevante a ser proclamada. O Cristianismo não se ocupa com conversas vazias ou jogos de cena para mascarar teses desgastadas e caducas.
Mohler resume:
Como sempre, verdade é a questão essencial. Onde uma noção clara da verdade está ausente, o cristianismo torna-se mais uma atitude do que um sistema de crenças. Contudo a crença sempre pressupõe uma verdade que pode e deve ser conhecida.[3]
Sem a historicidade dos fatos narrados nas Escrituras, não há verdade no Cristianismo.
A historicidade e veracidade do Cristianismo
A situação do homem alienado de Deus é grave demais para suportar paliativos, abstrações ou ficções. A Palavra de Deus é verdadeira em seu diagnóstico e tratamento.
O propósito eterno de Deus revela seu amor concreto, manifestado na morte e ressurreição de Cristo. Sem esses eventos históricos, permaneceríamos em nossos pecados, fadados à condenação eterna (Rm 6.23). Por isso, a mensagem cristã é verdadeira e urgente.
O Cristianismo demonstra sua coerência lógica e espiritual por seu compromisso com a verdade. Deus é verdadeiro e se revela pessoalmente. As Escrituras enfatizam essa realidade que dá sentido à existência − aqui e na eternidade.
A banalização da verdade
Bloom (1930-1998) em estudo que faz uma ressonância do ensino das Universidades americanas em meados dos anos de 1980, a certa altura, fala de forma irônica da certeza de que os professores universitários podem ter quanto aos seus alunos: “Quase todos os estudantes que entram na universidade acreditam, ou dizem acreditar, que a verdade é relativa”. Continua: “A verdade relativa não é uma concepção teórica, mas um postulado moral, uma condição para toda sociedade livre”.[4]
Na perspectiva “pós-moderna”, há uma crise epistemológica forjada − fruto da queda − que gera a ideia de que, se a verdade existe, é inacessível. Daí o abandono da busca pela verdade e a carência de ensino sobre valores verdadeiros.
Para evitar o agnosticismo absoluto − um suicídio intelectual − admite-se uma “verdade” singular, subjetiva e não universal. Cada um vive sua verdade, sem valor objetivo.
O educador Spears observa que “o treinamento de alunos sobre como chegar à verdade pela razão é algo que já foi abandonado porque, a ideia de que alguém pode ter realmente acesso à verdade absoluta parece tolice”.[5]
Nesse universo, o Cristianismo soa ofensivo por afirmar conhecer e sustentar a verdade. Essa atitude parece bastante ofensiva àqueles que entendem (verdadeiramente) que ninguém pode conhecer a verdade. (Esta verdade é solidamente defendida). Talvez por isso muitas igrejas ocultem suas doutrinas e se camuflem em experiências subjetivas − que nada provam. A Palavra, não a experiência, é o fundamento da verdade.[6]
No pensamento pós-moderno, a verdade é local e circunstancial: “minha verdade”, “sua verdade”, “verdade de cada um”, “verdade para aquela época”.
Já observaram como no campo das ciências sociais evita-se emitir juízo de valor? Fala-se de “fenômeno” − como se fosse possível descrever sem valores epistemológicos. Ingenuidade! Como se fosse possível ter percepção sem uma gama enorme de valores que a referenciam dentro de meu universo epistemológico.[7]
Partindo dessa perspectiva, a verdade passou a ser vista como uma construção. Nesse cenário, não há espaço para absolutos. Como observa Veith Jr.: “Os pós-modernistas rejeitam totalmente a verdade objetiva. A verdade não é uma descoberta feita a partir do mundo externo. Antes, a verdade é uma construção.” [8]
As Escrituras tratam de verdade absoluta
As Escrituras, no entanto, proclamam uma verdade absoluta − acessível, verificável e vivenciável. A Palavra de Deus nos desafia a conhecer essa verdade e a vivê-la como expressão de fé, certos de que o propósito divino para o ser humano é sempre perfeito. Sua vontade é boa, perfeita e agradável, como escreve o apóstolo Paulo: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
Devemos estar profundamente comprometidos com a verdade. Ela precisa ser defendida e proclamada com amor e humildade[9] − não apenas por meio de palavras, mas sobretudo por meio de uma cosmovisão que se concretize em nossas ações (Jd 3, 22-23).
Portanto, não podemos ignorar as influências do meio em que vivemos, como sabiamente nos adverte MacArthur:
A igreja jamais manifestará seu poder na sociedade, se não recuperar um amor ardente pela verdade e aversão à mentira. O verdadeiro crente não pode fechar os olhos ou negligenciar as influências anticristãs em seu meio, esperando desfrutar das bênçãos de Deus.[10]
Algumas considerações
Nestas anotações refletimos sobre os limites da nossa percepção, os equívocos de nossos juízos e a fragilidade de nossa compreensão diante da complexidade da realidade. Reconhecemos que, mesmo com sinceridade e boas intenções, somos frequentemente enganados por nossas paixões, condicionamentos e limitações sensoriais e cognitivas.
Essa constatação não deve nos conduzir ao ceticismo, mas à humildade epistemológica − à consciência de que precisamos de referenciais sólidos e confiáveis para conhecer e viver. É nesse ponto que a fé cristã se apresenta não como uma fuga da razão, mas como uma resposta fundamentada na verdade revelada por Deus.
O Cristianismo não se sustenta em construções subjetivas ou em experiências isoladas, mas na historicidade dos atos redentores de Deus, especialmente na morte e ressurreição de Cristo. A verdade, para o cristão, não é uma abstração filosófica, mas uma realidade encarnada, acessível e transformadora.
Em tempos de relativismo e desconstrução, reafirmar a centralidade da verdade é um ato de coragem e fidelidade. A igreja, para ser relevante, precisa recuperar seu compromisso ardente com a verdade − proclamando-a com amor, vivendo-a com integridade e defendendo-a com humildade.
Como discípulos de Cristo, somos chamados a discernir, julgar com justiça, resistir às tentações do engano e viver de modo coerente com a verdade que professamos. Que nossas palavras e ações reflitam essa convicção, e que nossa mente seja continuamente renovada pela Palavra, para que possamos experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Amém.
[1] “Não há nada mais difícil do que pronunciar juízo com total imparcialidade, de modo a evitar a demonstração de favoritismo injusto, ou dar margem a suspeitas, ou deixar-se influenciar por notícias desfavoráveis, ou ser excessivamente radical, e em toda causa nada considerar senão a matéria em mãos. Só quando fechamos nossos olhos a considerações pessoais é que podemos pronunciar um juízo equitativo” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 5.21), p. 153).
[2]Thomas Sowell, Conflito de visões: origens ideológicas das lutas políticas, São Paulo, É Realizações, 2012, p. 17.
[3]Albert Mohler, O desaparecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 11-12.
[4] Alan Bloom, O Declínio da Cultura Ocidental, 3. ed. São Paulo: Best Seller, 1989, p. 29.
[5]Paul Spears, Introdução à Filosofia. In: Paul Spears, et. al. Fundamentos Bíblicos e Filosóficos da Educação, São Paulo: Associação Internacional de Escolas Cristãs-Brasil, 2004, p. 13.* “Ao criar uma crise epistemológica, os questionamentos pós-modernistas rejeitam até a possibilidade da verdade, histórica ou qualquer outra” (Clyde P. Greer, Jr. Refletindo honestamente sobre a história: In: John F. MacArthur, Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, [p. 397-439], p. 411).
[6]Quanto a isso, veja o inquietante livro: David F. Wells, Coragem para ser Protestante, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. “Hoje vivemos numa igreja que se incomoda menos com a verdade que com qualquer artigo. O amor à verdade não é nem mesmo uma virtude: é um defeito, porque a verdade divide as pessoas. A verdade causa controvérsia. A verdade causa debate. A verdade causa transtorno aos relacionamentos. A verdade crucifica pessoas. Jesus afirmou: ‘Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz’ (Jo 18.37)” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, [p. 11-23], p. 19).
[7]Ver: Hermisten M.P. Costa, Raízes da teologia contemporânea, São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[8]Gene Edward Veith, Jr. De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 55-56. “Esta é a verdade que, brutal e insistentemente, é-nos lançada em rosto: “a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb.4.12). Poderia alguém argumentar realmente que essa verdade pode ser mantida longe de nós só porque somos pós-modernos?” (David F. Wells, Coragem para ser Protestante, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 81).
[9]Veja-se: Joshua Harris, Ortodoxia humilde: defendendo verdades bíblicas sem ferir as pessoas, São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 21.
[10]John F. MacArthur Jr. Introdução do Editor: In: John F. MacArthur Jr. ed. Ouro de Tolo? Discernindo a Verdade em uma Época de Erro, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2006, p. 11.
Referências Bibliográficas
- BLOOM, Alan. O declínio da cultura ocidental. ed. São Paulo: Best Seller, 1989.
- CALVINO, João. As Pastorais. São Paulo: Paracletos, 1998.
- COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
- GREER Jr., Clyde P. Refletindo honestamente sobre a história. In: MACARTHUR Jr., John F. (Ed.). Pense biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 397-439.
- HARRIS, Joshua. Ortodoxia humilde: defendendo verdades bíblicas sem ferir as pessoas. São Paulo: Vida Nova, 2013.
- KISTLER, Don (Org.). Crer e observar: o cristão e a obediência. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
- MACARTHUR Jr., John F. Introdução do editor. In: MACARTHUR Jr., John F. (Ed.). Ouro de tolo? Discernindo a verdade em uma época de erro. São José dos Campos, SP: Fiel, 2006. p. 9-11.
- MOHLER, Albert. O desaparecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
- SOWELL, Thomas. Conflito de visões: origens ideológicas das lutas políticas. São Paulo: É Realizações, 2012.
- SPEARS, Paul. Introdução à filosofia. In: SPEARS, Paul et al. Fundamentos bíblicos e filosóficos da educação. São Paulo: Associação Internacional de Escolas Cristãs – Brasil, 2004.
- SPROUL, R.C. Oh! Como amo a tua lei. In: KISTLER, Don (Org.). Crer e observar: o cristão e a obediência. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 11-23.
- VEITH Jr., Gene Edward. De todo o teu entendimento. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
- WELLS, David F. Coragem para ser protestante. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
Por: Hermisten Maia, é ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, integrando a Equipe de Pastores da Primeira IP de São Bernardo do Campo, SP. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino e Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada. Faz parte de diversos Conselhos Editoriais de Revistas de Teologia e de Ciências da Religião. Tem 40 livros escritos e mais de 1.500 artigos publicados. Leciona em diversas Instituições de Ensino Superior no Brasil. Publica diariamente em suas redes sociais um artigo e um vídeo.
Fonte: https://voltemosaoevangelho.com


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