Mas é por isso que capítulos como 2 Samuel 9 estão na Bíblia. Esta é uma história sobre a bondade de Davi. As palavras “mostrar… bondade” aparecem três vezes (vv. 1, 3, 7 – NVI), culminando com estas palavras reconfortantes: “Não tenha medo (…) pois é certo que eu o tratarei com bondade”.
Mas é mais do que apenas a bondade de Davi. As Escrituras nos dizem que Davi era “um homem segundo o coração [de Deus]” (1Sm 13.14). Esta história menciona explicitamente a conexão entre a bondade de Davi e a de Deus (2Sm 9.3). Então, vamos examinar quatro aspectos da bondade de Davi nesta história e, em seguida, considerar como eles refletem o coração de Deus em relação a nós.
1. Mefibosete: Objeto da Bondade de Davi
O objeto da bondade de Davi foi Mefibosete, um membro aleijado de uma casa rival. Como neto de Saul, não é de se admirar que Mefibosete temesse Davi (2Sm 9.7). Bondade da parte de Davi deve ter sido a última coisa que ele poderia esperar. Afinal de contas, era comum que um novo rei matasse os membros da dinastia anterior.
A deficiência física de Mefibosete foi causada por uma queda — sua ama o deixou cair quando ele tinha 5 anos. Ela estava fugindo ao saber que o pai de Mefibosete havia sido morto em batalha (2Sm 4.4; 9.3, 13). Portanto, esse jovem agora sofria uma dupla maldição: não só era inimigo do rei, como também tornou-se aleijado e totalmente incapaz de viver por conta própria.
Foi a esse tipo de pessoa que Davi escolheu mostrar bondade: um membro da casa de seu inimigo, incapacitado por uma queda.
2. Aliança: Origem da bondade de Davi
Surpreendentemente, talvez, não foi o amor ou a piedade de Davi por Mefibosete que despertou essa bondade — não inicialmente. Foi o seu amor por outra pessoa. Havia um homem na casa de Saul que tinha sido seu amigo leal. E esse homem era o pai de Mefibosete, Jônatas.
Davi disse: “Resta ainda alguém da família de Saul a quem eu possa mostrar bondade, por causa de minha amizade com Jônatas? ” (2Sm 9.1 – NVI).
Se quisermos encontrar a origem da bondade de Davi, temos que ir além de Mefibosete, voltando ao ato de amor que selou a aliança entre Davi e o pai de Mefibosete (1Sm 18.1-4). Embora Davi representasse uma ameaça ao seu próprio direito ao trono, Jônatas amava Davi “como à sua própria alma”, defendendo-o contra a fúria assassina de Saul e reconhecendo Davi como o herdeiro por direito. Por fim, ele pediu a Davi que mostrasse “amor leal” [em hebraico, chesed] à sua casa quando Davi finalmente se tornasse rei (20.13–17).
É esse pedido feito sob juramento que Davi está honrando agora quando pergunta: “Resta ainda alguém da família de Saul a quem eu possa mostrar bondade [chesed], por causa de minha amizade com Jônatas? ” (2Sm 9.1).
Essa é a origem da bondade de Davi. Não foi porque Mefibosete era digno, nem mesmo porque era miserável. Foi por causa do amor de Davi por Jônatas e da aliança que esse amor levara os dois a fazerem um com o outro. Mefibosete era simplesmente um indigno e desafortunado pecador que agora colhia as bênçãos de uma aliança de amor da qual ele nada tinha a ver.
3. Generosidade: Demonstração da Bondade de Davi
Davi demonstra bondade para com Mefibosete de três maneiras. Primeiro, ele o chama e o recebe em sua presença (vv. 5–7). Mefibosete não veio por iniciativa própria — Davi o procurou, mandou buscá-lo e então o recebeu com palavras de afirmação (v. 7).
Segundo, ele restitui a herança de Mefibosete (vv. 7, 9–10). Tudo o que seu pai havia perdido agora lhe é devolvido. A herança por si só já teria feito de Mefibosete um homem rico. Ele poderia ter se sentado à sua própria mesa e comido sua própria comida. Mas as coisas ficam ainda melhores.
Como um ato de suprema bondade, Davi dá a Mefibosete um lugar à mesa real. Isso se repete quatro vezes (vv. 7, 10, 11, 13). É um lugar permanente (três vezes ouvimos a palavra “sempre”; vv. 7, 10, 13). Não se trata de um período de experiência, mas representa a certeza de uma aliança. Além disso, é um assento da família. “Mefibosete passou a comer à mesa de Davi como se fosse um dos filhos do rei” (v. 11). Se alguém viesse a recriminá-lo por ser neto de Saul, Davi o protegeria. A vara e o cajado de Davi o confortariam, e ele moraria na casa de Davi para sempre.
4. Gratidão: Reação à Bondade de Davi
Resta apenas uma pergunta: como reagir perante tamanha bondade? “Mefibosete prostrou-se e disse: ‘Quem é teu servo, para que te preocupes com um cão morto como eu” (v. 8).
Que humildade! Ele poderia ter respondido com amargura: “Você roubou a coroa que pertencia ao meu pai!”, com orgulho: “Desculpe, mas não aceito caridade!”, ou com legitimidade: “É o mínimo que você pode fazer, pois, se não fosse por você, eu poderia ter sido rei em vez de um aleijado!”.
Em vez disso, ele recebe com alegria esse presente inefável, grato por um grande rei como Davi inclinar-se para mostrar bondade a um miserável como ele.
5. Evangelho: Contemplando a Bondade de Deus para Conosco
Se tudo isso soa estranhamente familiar, é porque você e eu somos Mefibosete. Esta é mais do que uma história da bondade de Davi para com Mefibosete. É a história da bondade de Deus para conosco no evangelho.
Se perguntarmos: “Quem são os objetos da bondade de Deus?”, não são seus amigos, mas seus inimigos. Não os saudáveis, mas os doentes (Mc 2.17). Não os fortes, mas aqueles aleijados pela queda e incapazes de se ajudar a si mesmos (Rm 5.6, 10).
Se perguntarmos: “De onde vem tamanha bondade?”, suas raízes não repousam em nós — elas provêm de algo muito mais profundo. Em última análise, Deus não nos demonstra bondade por nossa causa, mas por causa de Jesus e da aliança que eles firmaram muito antes de nascermos. É uma aliança eterna na qual o Pai concordou em enviar seu Filho, o Espírito concordou em ajudá-lo e o Filho concordou em vir e morrer por pecadores merecedores do inferno, como nós.
Se perguntarmos: “Como Deus demonstra sua bondade para conosco?”, o evangelho diz que, tendo entregado seu Filho por nós, ele agora nos chama e nos recepciona em sua presença, restaura nossa herança e nos dá um lugar à sua mesa familiar. Por causa de Jesus, agora podemos nos aproximar do trono da graça e esperar ouvir nosso Pai dizer: “Não temas, pois eu te mostrarei bondade” (veja Hb 4:16).
Se perguntarmos: “Como devemos responder?”, a resposta é simples. Devemos contemplar como Deus nos ama tanto de modo que não podemos deixar de clamar: “Quem sou eu para que um rei demonstre bondade para com um cão morto como eu?”. Sabemos que não somos dignos de nada disso. Nós nem mesmo O procuramos — Ele nos chamou. Mas quando o Rei quer mostrar-nos bondade, nós cães mortos não contestamos. Em vez disso, aceitamos nossa herança, agradecemos ao nosso novo Pai e puxamos uma cadeira à sua mesa, assim como Mefibosete fez.
Traduzido por Cynthia Costa.
Por: Justin Dillehay, é pastor da Grace Baptist Church [Igreja Batista da Graça] em Hartsville, Tennessee, onde ele reside com sua esposa, Tilly. Eles mantém um blog, While We Wait [Enquanto Aguardamos]. Ele é formado pelo The Southern Baptist Theological Seminary [Seminário Teológico Batista do Sul].
Fonte: https://coalizaopeloevangelho.org


Nenhum comentário:
Postar um comentário