Há poucos dias me perguntaram o que eu acho que
acontece com os bebês e deficientes mentais que morrem antes da idade da razão.
Embora a indagação pareça ter uma resposta simples, há no meio teológico uma
infinidade de respostas. Resumidamente (mas longe de esgotar todas as
respostas), há os que dizem que serão todos salvos, há os que dizem que irão
todos pro inferno, há os que acham que vão para o limbo (um lugar
“intermediário” entre o céu e o inferno), há os que dizem que só serão
salvos os que puderam ser batizados antes de morrer, há os que dizem que só
serão salvos os que foram predestinados à salvação, há os que dizem que a
criança é salva ou condenada dependendo da fé dos pais, e também os que
dizem que Deus em sua presciência olha para o futuro que a pessoa não teve e
com base no que ela faria se continuasse viva (ou se não tivesse a
deficiência) decide se ela será salva ou não.
Com tantas explicações diferentes, não é de se
espantar que seja mesmo necessário escrever um artigo sobre isso. Desde já,
quero deixar claro que eu repudio essas três ideias: (1) a que inventa um lugar
intermediário que biblicamente não existe, só pra tentar resolver um problema
aparente; (2) a que lança bebês no inferno, batizados ou não; (3) a que usa da
presciência de Deus de uma forma indevida, como se Deus nos punisse por aquilo
que não praticamos, só porque ele sabe que iríamos praticar (se fosse assim,
Ele já teria criado todo mundo direto no céu ou no inferno, e evitaria tantos
transtornos). A opção que sobra é a que eu defendo: serão todos salvos.
É claro que se a questão fosse tão simples assim,
não haveria tanta polêmica. De fato, essa resposta dada por mim e por tantas
outras pessoas esbarra em um problema sério: a doutrina do pecado original. De
acordo com Agostinho, a fonte da qual o Ocidente mais bebeu, o pecado original
consiste não em uma simples “inclinação” ao pecado (como entende a teologia
oriental), mas em um pecado mesmo. Em outras palavras, nós herdamos não apenas
as consequências da Queda de Adão, mas também sua culpa. E essa
culpa seria transmitida automaticamente a cada pessoa de geração a geração,
como se todos já nascessem condenados na condição de pecadores.
Por essa ótica, seria realmente impossível salvar
bebês que morreram antes de serem batizados (para aqueles que creem na
regeneração batismal, que é uma outra discussão), já que eles morreram no
pecado, e ninguém que morre no pecado pode ser salvo. Em outras palavras: se
todos já nascem condenados, então não poderia haver salvação para quem morreu
antes de ter tido tempo de aceitar a Cristo ou de receber o batismo. Como
resolver este problema?
Na verdade, o “problema” só existe para quem tem esse
conceito específico a respeito do pecado original. Biblicamente falando, não há
razão alguma para pensar que o pecado original consiste em um pecado
transmitido de pai pra filho, como na teologia agostiniana adotada pelos
católicos e mais tarde por muitos protestantes (que vieram desse contexto
católico ocidental). Pelo contrário: a Bíblia é clara ao dizer que “o que condena o justo é abominável ao Senhor” (Pv
17:15), e que ninguém carrega a culpa de outro:
“A alma que pecar, essa morrerá; o
filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a
justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre
este” (Ezequiel 18:20)
Muitos usam o texto de Êxodo 20:5 («visito a
iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração») para
justificar o ensino de “maldição hereditária”, mas se esquecem que o verso
seguinte diz que “trato com bondade até mil
gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6). O
objetivo não é dizer que Deus literalmente amaldiçoa a quarta geração de
alguém que pecou e que abençoa literalmente até a milésima geração de um
justo (se fosse assim, todos nós estaríamos sob bênção e maldição ao mesmo
tempo por causa de algum antepassado remoto, o que seria um tanto paradoxal), mas
era uma hipérbole usada para nos dizer o quanto Deus é muito mais
inclinado a abençoar do que a amaldiçoar.
Sim, Adão desobedeceu a Deus e deixou que o pecado
entrasse no mundo, corrompendo toda a criação e, por conseguinte, toda a
posteridade. Mas isso não significa que Deus automaticamente transfere o pecado
de Adão na conta de cada um de nós antes mesmo de cometermos pecados pessoais,
o que seria uma injustiça incompatível com o caráter de um Deus justo.
Significa que nós sofremos as consequências do pecado, mesmo que não
herdemos a culpa em si.
Cada pessoa é responsável por sua própria culpa.
Isso não anula, porém, as consequências de ações para terceiros. Por
exemplo, uma mãe fumante que engravida pode passar ao seu filho uma doença
respiratória, um motorista que dirige bêbado pode levar à morte pedestres ou
outros motoristas que não beberam, um jogador que perde um pênalti decisivo
numa final de Copa do Mundo compromete toda a equipe e decepciona milhões de
torcedores (Baggio que o diga), e um presidente incompetente pode levar à ruína
a economia de um país inteiro. Em todos esses exemplos e muitos outros, o
culpado é um só, mas as consequências do erro incidem de uma forma ou de outra
na vida de outras pessoas.
Seria injusto punir a esposa pelos crimes do
marido, mas se o marido for punido e preso, isso inevitavelmente irá piorar a
vida da esposa de alguma forma, seja pelo vínculo emocional com ele, seja pela
ausência paterna na criação dos filhos, seja por possíveis dificuldades
econômicas. O mesmo ocorre com o pecado de Adão: embora apenas Adão seja
culpado pelo seu próprio pecado, o que ele fez trouxe consequências para toda a
posteridade, porque as vidas humanas não estão desconectadas umas das outras.
Tanto o bem como o mal que fazemos impacta outras vidas, e isso é
particularmente verdadeiro para o primeiro homem, que de certa forma
representava toda a humanidade.
Graças ao pecado de Adão, nós nascemos não com o
pecado em si, mas com uma natureza inclinada para o pecado – aquilo que
a Bíblia costumeiramente chama de “carne”, e que está sempre desejando coisas
contrárias à vontade de Deus (coisas que prejudicam a nós mesmos e ao próximo).
Isso significa que em um momento ou outro iremos pecar, mas não que já nascemos
“pecadores” por causa dos pecados de outro. Quando Davi diz que “em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha
mãe” (Sl 51:5), o sentido não é que ele peca desde o ventre ou que os
pecados de sua mãe lhe foram transmitidos, mas que sua natureza é voltada ao
pecado desde o nascimento, desde que sua mãe o concebeu em pecado. Nós nascemos
com a potência do pecado, não com o ato.
Em toda a Bíblia, ninguém é condenado pelo pecado
de Adão ou de algum parente: todos pagam o preço pelo seu próprio pecado. É
sempre pelo mal que a própria pessoa fez que ela é condenada: “...os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da
vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação”
(Jo 5:29), nunca pelos pecados de um antepassado. É por isso que Paulo disse
que “cada um de nós prestará contas de si mesmo
a Deus” (Rm 14:12), e não que prestará contas do pecado de Adão. E logo
após dizer que o pecado entrou no mundo por um homem e pelo pecado a morte, ele
completa que “a morte passou a todos os homens, porque
todos pecaram” (Rm 5:12).
A morte passou a todos os homens porque todos os
homens pecaram, e não porque Adão pecou. O pecado de Adão não foi
automaticamente colocado na conta de cada criatura antes mesmo de nascer, mas
propiciou que outras criaturas pudessem vir a pecar e receber também elas o seu
próprio julgamento. Quando Paulo diz que “muitos
morreram por causa da transgressão de um só” (Rm 5:15), não é porque
toda a humanidade foi condenada à morte pelos erros de Adão, mas porque o erro
de Adão abriu as portas para a humanidade toda ser condenada pelos seus
próprios pecados.
Note com atenção o verso 19, onde Paulo conclui seu
raciocínio dizendo:
“Assim como por meio da desobediência
de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da
obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19)
Obviamente, ninguém diria que a obediência de Jesus
por si só tornou muitos homens justos. Todos sabemos que é preciso crer em
Jesus para que essa fé lhe seja imputada como justiça (Rm 4:5). Se nós não o
aceitarmos, o ato de Jesus por si só não nos valerá nada. Se isso é verdade em
relação à segunda metade do verso, então também é verdadeiro para a primeira
parte: a desobediência de Adão não nos torna pecadores por automático, mas
propicia que sejamos pecadores caso sigamos o caminho que ele abriu.
Observe que Paulo não diz que “todos foram
feitos pecadores”, assim como não diz que “todos serão feitos justos”,
porque a desobediência de Adão não é imputada automaticamente a todos os
homens, assim como a obediência de Cristo (se fosse assim, toda a humanidade
seria condenada por causa de Adão e toda a humanidade seria salva por causa de
Cristo, o que nos levaria ao universalismo, a crença na salvação universal até
dos ímpios). Em vez disso, o ato de Adão tornou possível que muitos fossem
condenados por seus próprios pecados, e o ato de Jesus tornou possível que
muitos fossem salvos pela fé nEle.
A ideia de condenar alguém pelos pecados de outra
pessoa não é diferente de alguém te multar porque o seu pai dirigiu bêbado, com
a diferença de que no caso do pecado original o seu pai paga a multa, você paga
a multa, seus filhos pagam a multa e todos pagam a multa pelos erros de um só.
Isso não apenas ofende o bom senso cristão, como leva a absurdos teológicos do
mais grotescos. Um deles é a ideia do limbo, que durante a Idade Média era tão
popular no Ocidente quanto o purgatório. Sem saber o que fazer com os bebês
pecadores que morreram sem receber o batismo, eles criaram um “meio-termo” que
os livrava do tormento do inferno, ao mesmo tempo em que lhes fechava as portas
do Paraíso.
Se por um lado a doutrina do pecado original exigia
uma forma de punição pós-morte pelos pecados não purgados em vida, por outro
lado pensava-se ser desumano demais dizer que os bebês vão para o fogo do
inferno, ainda mais nessa época, quando já acreditavam em um tormento eterno. A
“solução” foi criar um lugar onde os infantes não podem ver a face de Deus ou
estar em comunhão com seus entes queridos, mas também não estão amargando um
terrível sofrimento sem fim. Este lugar passou a ser chamado de “limbo”, e com
o tempo quem não cresse nele estava sujeito à Inquisição e a penas das mais
diversas. Ironicamente, em pleno ano de 2007, a Comissão Teológica do Vaticano
aprovada pelo papa Bento XVI “extinguiu” o limbo (embora não tenha dito para
onde foram aqueles que se acreditou por tanto tempo estarem lá).
Entre os protestantes, o problema não foi menor.
Herdando a princípio a mesma teologia agostiniana, os calvinistas se viram em
um dilema onde o limbo não era uma solução, tendo em vista a completa ausência
de textos bíblicos falando sobre esse tal lugar. Isso fez com que muitos
chegassem à conclusão de que tais bebês vão simplesmente ao inferno (e pasme,
alguns continuam defendendo isso em pleno século XXI), não obstante a maior
parte dos evangélicos concordar que os bebês serão salvos, já que não cometeram
pecados pessoais (até porque é difícil imaginar Jesus dizendo «vinde a mim as
criancinhas porque o Reino dos céus pertence a quem é semelhante a elas», se
elas na verdade vão para o fogo do inferno).
O limbo e os “bebês do inferno” são só um pequeno
exemplo de como equívocos teológicos podem levar a outros equívocos teológicos
ainda maiores para tentar explicar ou remediar seus evidentes problemas, que
com o passar do tempo vão se tornando uma bola de neve: cada vez mais erros são
inventados para dar sustentação aos anteriores, porque toda a base está
contaminada. Isso explica em grande parte as doutrinas medievais criadas pela
Igreja Romana ao longo dos séculos, quase todas elas frutos de conjectura
teológica para tentar salvar uma crença notoriamente falsa.
Em suma, os bebês, assim como os deficientes
mentais que morrem sem atingir a idade da consciência, são salvos porque não
cometeram pecados pessoais. Eles têm uma natureza pecaminosa no sentido
de uma inclinação ao pecado, mas não chegam a cometer pecado de fato
porque não estão na condição de escolher desobedecer a Deus (e o pecado é
sempre uma escolha, escolha essa que um bebê ou deficiente mental é incapaz de
fazer). Tome como exemplo o texto de Isaías, que diz:
“Por isso o Senhor mesmo lhes dará um
sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel. Ele
comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que
é certo. Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo,
a terra dos dois reis que você teme ficará deserta” (Isaías 7:14-16)
Como se vê, existe um período em que a criança não
pode escolher entre o certo e o errado, que alguns chamam de “estado de
inocência”, uma fase em que a criança é incapaz de fazer maldade de forma
consciente e deliberada, porque não está em condições de fazer julgamentos
morais. No caso do deficiente, ele se encontra nesse estado de inocência por
toda a vida, pois seu cérebro não evoluiu da mesma forma como as demais
pessoas, portanto o que é válido para as crianças pequenas é válido para o
deficiente mental de qualquer idade (lógico que nos casos em que essa
deficiência é bastante aguda, não em todos os casos).
É curioso notar a semelhança com Adão e Eva em seu
estado antes da Queda. Eles não eram deficientes mentais (bem pelo contrário, o
fato de Adão conseguir nomear e decorar o nome de todos os animais criados
mostra que tinha uma capacidade mental bem maior que a nossa), nem nasceram
bebês. No entanto, o relato bíblico indica claramente que antes deles comerem
da árvore do conhecimento, eles estavam no mesmo “estado de inocência”, onde
eram incapazes de escolher entre o bem e o mal:
“Ora, a serpente era o mais astuto de
todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à
mulher: ‘Foi isto mesmo que Deus disse: Não comam de nenhum fruto das árvores
do jardim?’. Respondeu a mulher à serpente: ‘Podemos comer do fruto das árvores
do jardim, mas Deus disse: Não comam do fruto da árvore que está no meio do
jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’. Disse a serpente à
mulher: ‘Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem,
seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal’” (Gênesis 3:1-5)
É curioso notar que embora a serpente tenha mentido
no que se refere a não morrer (porque a partir do momento em que eles comeram,
se tornaram mortais), ela não mentiu sobre “ser como Deus”, no sentido de se
tornarem conhecedores do bem e do mal. Tanto é que mais à frente é o próprio
Deus que diz:
“Então disse o Senhor Deus: Agora
o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve,
pois, permitir que ele também tome do fruto da árvore da vida e o coma, e viva
para sempre” (Gênesis 3:22)
Em outras palavras, ao comerem da árvore do
conhecimento, Adão e Eva saíram do estado de inocência (como as crianças
pequenas) e se tornaram como Deus (no sentido de conhecer o bem e o mal). Por
isso descobriram que estavam nus (um bebê não tem consciência de que está nu,
ele não sente vergonha disso) e se cobriram. Ou seja, a partir daquele momento,
a malícia começou a habitar no coração deles, e com ela toda sorte de maldades.
A natureza do homem se tornou essencialmente má, e é neste sentido que podemos
falar em um “pecado original” (não no sentido de transferência de culpa).
Quando um bebê nasce, ele se encontra no mesmo
estado de inocência de Adão e Eva antes da Queda, ou seja, sem maldade, sem
malícia, sem discernir entre o bem e o mal, um estado que Deus queria que se
mantivesse para o próprio bem da humanidade. Mas na medida em que ele cresce,
ele naturalmente vai ganhando uma consciência maior e com ela o discernimento
entre o bem e o mal, o que faz com que muitas vezes escolha o mal. A diferença
é que no nosso caso nós não temos a escolha que Adão e Eva tiveram: nós
naturalmente atingimos essa consciência à medida em que crescemos, porque
herdamos a mesma natureza corrompida do primeiro casal após a Queda. A escolha
do primeiro casal foi definitiva, embora ela seja revertida na ressurreição dos
justos.
Agora imagine se Adão e Eva tivessem morrido antes
de comerem da árvore do conhecimento (o que certamente não aconteceria já que a
morte estava condicionada a comer do fruto, mas imagine como uma mera
hipótese): qual seria o seu destino? Certamente não seria o inferno, nem um
limbo, nem qualquer uma das hipóteses estravagantes que alguns dão. Eles
obviamente ressuscitariam no Paraíso, já que não tinham ainda pecado algum.
Este é o caso dos que morrem na infância: embora eles herdem as consequências
do pecado (o que inclui a morte e a tendência ao pecado ao atingir a idade
da consciência), eles não herdam o pecado em si, ou seja, são tão
inocentes e puros quanto Adão e Eva eram antes da Queda, e seu destino na
ressurreição só pode ser o Paraíso.
É interessante como a criação do Gênesis nos faz
compreender tanta coisa sobre o destino eterno, não apenas dos que morrem na
infância, mas basicamente de todo mundo. Os primeiros capítulos do Gênesis nos
falam de um homem criado do pó da terra com um fôlego que anima o corpo (Gn
2:7), diz que quando esse fôlego se vai o homem volta ao pó (Gn 3:19), e que
isso não aconteceria se o homem não tivesse comido da árvore que Deus proibiu
comer (Gn 2:17).
O Novo Testamento complementa essas verdades
revelando o antídoto que Deus nos deu para a morte: a salvação e a ressurreição
no último dia através de seu filho Jesus, que nos levará de volta ao mesmo
Paraíso do qual o primeiro homem foi expulso, na “regeneração
de todas as coisas” (Mt 19:28). Entender o começo é o caminho para
entender o meio e o fim de todas as coisas que Deus planejou para nós, que não
é simplesmente apagar tudo e fazer de novo, mas resgatar o plano e o propósito
original de Deus para com a Sua criação.


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