O que acontece com os bebês e deficientes mentais que morreram antes da idade da razão? - O Peregrino

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sábado, 19 de setembro de 2020

O que acontece com os bebês e deficientes mentais que morreram antes da idade da razão?

Há poucos dias me perguntaram o que eu acho que acontece com os bebês e deficientes mentais que morrem antes da idade da razão. Embora a indagação pareça ter uma resposta simples, há no meio teológico uma infinidade de respostas. Resumidamente (mas longe de esgotar todas as respostas), há os que dizem que serão todos salvos, há os que dizem que irão todos pro inferno, há os que acham que vão para o limbo (um lugar “intermediário” entre o céu e o inferno), há os que dizem que só serão salvos os que puderam ser batizados antes de morrer, há os que dizem que só serão salvos os que foram predestinados à salvação, há os que dizem que a criança é salva ou condenada dependendo da fé dos pais, e também os que dizem que Deus em sua presciência olha para o futuro que a pessoa não teve e com base no que ela faria se continuasse viva (ou se não tivesse a deficiência) decide se ela será salva ou não.

Com tantas explicações diferentes, não é de se espantar que seja mesmo necessário escrever um artigo sobre isso. Desde já, quero deixar claro que eu repudio essas três ideias: (1) a que inventa um lugar intermediário que biblicamente não existe, só pra tentar resolver um problema aparente; (2) a que lança bebês no inferno, batizados ou não; (3) a que usa da presciência de Deus de uma forma indevida, como se Deus nos punisse por aquilo que não praticamos, só porque ele sabe que iríamos praticar (se fosse assim, Ele já teria criado todo mundo direto no céu ou no inferno, e evitaria tantos transtornos). A opção que sobra é a que eu defendo: serão todos salvos.

É claro que se a questão fosse tão simples assim, não haveria tanta polêmica. De fato, essa resposta dada por mim e por tantas outras pessoas esbarra em um problema sério: a doutrina do pecado original. De acordo com Agostinho, a fonte da qual o Ocidente mais bebeu, o pecado original consiste não em uma simples “inclinação” ao pecado (como entende a teologia oriental), mas em um pecado mesmo. Em outras palavras, nós herdamos não apenas as consequências da Queda de Adão, mas também sua culpa. E essa culpa seria transmitida automaticamente a cada pessoa de geração a geração, como se todos já nascessem condenados na condição de pecadores.

Por essa ótica, seria realmente impossível salvar bebês que morreram antes de serem batizados (para aqueles que creem na regeneração batismal, que é uma outra discussão), já que eles morreram no pecado, e ninguém que morre no pecado pode ser salvo. Em outras palavras: se todos já nascem condenados, então não poderia haver salvação para quem morreu antes de ter tido tempo de aceitar a Cristo ou de receber o batismo. Como resolver este problema?

Na verdade, o “problema” só existe para quem tem esse conceito específico a respeito do pecado original. Biblicamente falando, não há razão alguma para pensar que o pecado original consiste em um pecado transmitido de pai pra filho, como na teologia agostiniana adotada pelos católicos e mais tarde por muitos protestantes (que vieram desse contexto católico ocidental). Pelo contrário: a Bíblia é clara ao dizer que “o que condena o justo é abominável ao Senhor” (Pv 17:15), e que ninguém carrega a culpa de outro:

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este” (Ezequiel 18:20)

Muitos usam o texto de Êxodo 20:5 («visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração») para justificar o ensino de “maldição hereditária”, mas se esquecem que o verso seguinte diz que “trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6). O objetivo não é dizer que Deus literalmente amaldiçoa a quarta geração de alguém que pecou e que abençoa literalmente até a milésima geração de um justo (se fosse assim, todos nós estaríamos sob bênção e maldição ao mesmo tempo por causa de algum antepassado remoto, o que seria um tanto paradoxal), mas era uma hipérbole usada para nos dizer o quanto Deus é muito mais inclinado a abençoar do que a amaldiçoar.

Sim, Adão desobedeceu a Deus e deixou que o pecado entrasse no mundo, corrompendo toda a criação e, por conseguinte, toda a posteridade. Mas isso não significa que Deus automaticamente transfere o pecado de Adão na conta de cada um de nós antes mesmo de cometermos pecados pessoais, o que seria uma injustiça incompatível com o caráter de um Deus justo. Significa que nós sofremos as consequências do pecado, mesmo que não herdemos a culpa em si.

Cada pessoa é responsável por sua própria culpa. Isso não anula, porém, as consequências de ações para terceiros. Por exemplo, uma mãe fumante que engravida pode passar ao seu filho uma doença respiratória, um motorista que dirige bêbado pode levar à morte pedestres ou outros motoristas que não beberam, um jogador que perde um pênalti decisivo numa final de Copa do Mundo compromete toda a equipe e decepciona milhões de torcedores (Baggio que o diga), e um presidente incompetente pode levar à ruína a economia de um país inteiro. Em todos esses exemplos e muitos outros, o culpado é um só, mas as consequências do erro incidem de uma forma ou de outra na vida de outras pessoas.

Seria injusto punir a esposa pelos crimes do marido, mas se o marido for punido e preso, isso inevitavelmente irá piorar a vida da esposa de alguma forma, seja pelo vínculo emocional com ele, seja pela ausência paterna na criação dos filhos, seja por possíveis dificuldades econômicas. O mesmo ocorre com o pecado de Adão: embora apenas Adão seja culpado pelo seu próprio pecado, o que ele fez trouxe consequências para toda a posteridade, porque as vidas humanas não estão desconectadas umas das outras. Tanto o bem como o mal que fazemos impacta outras vidas, e isso é particularmente verdadeiro para o primeiro homem, que de certa forma representava toda a humanidade.

Graças ao pecado de Adão, nós nascemos não com o pecado em si, mas com uma natureza inclinada para o pecado – aquilo que a Bíblia costumeiramente chama de “carne”, e que está sempre desejando coisas contrárias à vontade de Deus (coisas que prejudicam a nós mesmos e ao próximo). Isso significa que em um momento ou outro iremos pecar, mas não que já nascemos “pecadores” por causa dos pecados de outro. Quando Davi diz que “em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5), o sentido não é que ele peca desde o ventre ou que os pecados de sua mãe lhe foram transmitidos, mas que sua natureza é voltada ao pecado desde o nascimento, desde que sua mãe o concebeu em pecado. Nós nascemos com a potência do pecado, não com o ato.

Em toda a Bíblia, ninguém é condenado pelo pecado de Adão ou de algum parente: todos pagam o preço pelo seu próprio pecado. É sempre pelo mal que a própria pessoa fez que ela é condenada: “...os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação” (Jo 5:29), nunca pelos pecados de um antepassado. É por isso que Paulo disse que “cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14:12), e não que prestará contas do pecado de Adão. E logo após dizer que o pecado entrou no mundo por um homem e pelo pecado a morte, ele completa que “a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram(Rm 5:12).

A morte passou a todos os homens porque todos os homens pecaram, e não porque Adão pecou. O pecado de Adão não foi automaticamente colocado na conta de cada criatura antes mesmo de nascer, mas propiciou que outras criaturas pudessem vir a pecar e receber também elas o seu próprio julgamento. Quando Paulo diz que “muitos morreram por causa da transgressão de um só” (Rm 5:15), não é porque toda a humanidade foi condenada à morte pelos erros de Adão, mas porque o erro de Adão abriu as portas para a humanidade toda ser condenada pelos seus próprios pecados.

Note com atenção o verso 19, onde Paulo conclui seu raciocínio dizendo:

“Assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19)

Obviamente, ninguém diria que a obediência de Jesus por si só tornou muitos homens justos. Todos sabemos que é preciso crer em Jesus para que essa fé lhe seja imputada como justiça (Rm 4:5). Se nós não o aceitarmos, o ato de Jesus por si só não nos valerá nada. Se isso é verdade em relação à segunda metade do verso, então também é verdadeiro para a primeira parte: a desobediência de Adão não nos torna pecadores por automático, mas propicia que sejamos pecadores caso sigamos o caminho que ele abriu.

Observe que Paulo não diz que “todos foram feitos pecadores”, assim como não diz que “todos serão feitos justos”, porque a desobediência de Adão não é imputada automaticamente a todos os homens, assim como a obediência de Cristo (se fosse assim, toda a humanidade seria condenada por causa de Adão e toda a humanidade seria salva por causa de Cristo, o que nos levaria ao universalismo, a crença na salvação universal até dos ímpios). Em vez disso, o ato de Adão tornou possível que muitos fossem condenados por seus próprios pecados, e o ato de Jesus tornou possível que muitos fossem salvos pela fé nEle.

A ideia de condenar alguém pelos pecados de outra pessoa não é diferente de alguém te multar porque o seu pai dirigiu bêbado, com a diferença de que no caso do pecado original o seu pai paga a multa, você paga a multa, seus filhos pagam a multa e todos pagam a multa pelos erros de um só. Isso não apenas ofende o bom senso cristão, como leva a absurdos teológicos do mais grotescos. Um deles é a ideia do limbo, que durante a Idade Média era tão popular no Ocidente quanto o purgatório. Sem saber o que fazer com os bebês pecadores que morreram sem receber o batismo, eles criaram um “meio-termo” que os livrava do tormento do inferno, ao mesmo tempo em que lhes fechava as portas do Paraíso.

Se por um lado a doutrina do pecado original exigia uma forma de punição pós-morte pelos pecados não purgados em vida, por outro lado pensava-se ser desumano demais dizer que os bebês vão para o fogo do inferno, ainda mais nessa época, quando já acreditavam em um tormento eterno. A “solução” foi criar um lugar onde os infantes não podem ver a face de Deus ou estar em comunhão com seus entes queridos, mas também não estão amargando um terrível sofrimento sem fim. Este lugar passou a ser chamado de “limbo”, e com o tempo quem não cresse nele estava sujeito à Inquisição e a penas das mais diversas. Ironicamente, em pleno ano de 2007, a Comissão Teológica do Vaticano aprovada pelo papa Bento XVI “extinguiu” o limbo (embora não tenha dito para onde foram aqueles que se acreditou por tanto tempo estarem lá).

Entre os protestantes, o problema não foi menor. Herdando a princípio a mesma teologia agostiniana, os calvinistas se viram em um dilema onde o limbo não era uma solução, tendo em vista a completa ausência de textos bíblicos falando sobre esse tal lugar. Isso fez com que muitos chegassem à conclusão de que tais bebês vão simplesmente ao inferno (e pasme, alguns continuam defendendo isso em pleno século XXI), não obstante a maior parte dos evangélicos concordar que os bebês serão salvos, já que não cometeram pecados pessoais (até porque é difícil imaginar Jesus dizendo «vinde a mim as criancinhas porque o Reino dos céus pertence a quem é semelhante a elas», se elas na verdade vão para o fogo do inferno).

O limbo e os “bebês do inferno” são só um pequeno exemplo de como equívocos teológicos podem levar a outros equívocos teológicos ainda maiores para tentar explicar ou remediar seus evidentes problemas, que com o passar do tempo vão se tornando uma bola de neve: cada vez mais erros são inventados para dar sustentação aos anteriores, porque toda a base está contaminada. Isso explica em grande parte as doutrinas medievais criadas pela Igreja Romana ao longo dos séculos, quase todas elas frutos de conjectura teológica para tentar salvar uma crença notoriamente falsa.

Em suma, os bebês, assim como os deficientes mentais que morrem sem atingir a idade da consciência, são salvos porque não cometeram pecados pessoais. Eles têm uma natureza pecaminosa no sentido de uma inclinação ao pecado, mas não chegam a cometer pecado de fato porque não estão na condição de escolher desobedecer a Deus (e o pecado é sempre uma escolha, escolha essa que um bebê ou deficiente mental é incapaz de fazer). Tome como exemplo o texto de Isaías, que diz:

“Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel. Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo. Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta” (Isaías 7:14-16)

Como se vê, existe um período em que a criança não pode escolher entre o certo e o errado, que alguns chamam de “estado de inocência”, uma fase em que a criança é incapaz de fazer maldade de forma consciente e deliberada, porque não está em condições de fazer julgamentos morais. No caso do deficiente, ele se encontra nesse estado de inocência por toda a vida, pois seu cérebro não evoluiu da mesma forma como as demais pessoas, portanto o que é válido para as crianças pequenas é válido para o deficiente mental de qualquer idade (lógico que nos casos em que essa deficiência é bastante aguda, não em todos os casos).

É curioso notar a semelhança com Adão e Eva em seu estado antes da Queda. Eles não eram deficientes mentais (bem pelo contrário, o fato de Adão conseguir nomear e decorar o nome de todos os animais criados mostra que tinha uma capacidade mental bem maior que a nossa), nem nasceram bebês. No entanto, o relato bíblico indica claramente que antes deles comerem da árvore do conhecimento, eles estavam no mesmo “estado de inocência”, onde eram incapazes de escolher entre o bem e o mal:

“Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: ‘Foi isto mesmo que Deus disse: Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim?’. Respondeu a mulher à serpente: ‘Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’. Disse a serpente à mulher: ‘Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal’” (Gênesis 3:1-5)

É curioso notar que embora a serpente tenha mentido no que se refere a não morrer (porque a partir do momento em que eles comeram, se tornaram mortais), ela não mentiu sobre “ser como Deus”, no sentido de se tornarem conhecedores do bem e do mal. Tanto é que mais à frente é o próprio Deus que diz:

“Então disse o Senhor Deus: Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele também tome do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre” (Gênesis 3:22)

Em outras palavras, ao comerem da árvore do conhecimento, Adão e Eva saíram do estado de inocência (como as crianças pequenas) e se tornaram como Deus (no sentido de conhecer o bem e o mal). Por isso descobriram que estavam nus (um bebê não tem consciência de que está nu, ele não sente vergonha disso) e se cobriram. Ou seja, a partir daquele momento, a malícia começou a habitar no coração deles, e com ela toda sorte de maldades. A natureza do homem se tornou essencialmente má, e é neste sentido que podemos falar em um “pecado original” (não no sentido de transferência de culpa).

Quando um bebê nasce, ele se encontra no mesmo estado de inocência de Adão e Eva antes da Queda, ou seja, sem maldade, sem malícia, sem discernir entre o bem e o mal, um estado que Deus queria que se mantivesse para o próprio bem da humanidade. Mas na medida em que ele cresce, ele naturalmente vai ganhando uma consciência maior e com ela o discernimento entre o bem e o mal, o que faz com que muitas vezes escolha o mal. A diferença é que no nosso caso nós não temos a escolha que Adão e Eva tiveram: nós naturalmente atingimos essa consciência à medida em que crescemos, porque herdamos a mesma natureza corrompida do primeiro casal após a Queda. A escolha do primeiro casal foi definitiva, embora ela seja revertida na ressurreição dos justos.

Agora imagine se Adão e Eva tivessem morrido antes de comerem da árvore do conhecimento (o que certamente não aconteceria já que a morte estava condicionada a comer do fruto, mas imagine como uma mera hipótese): qual seria o seu destino? Certamente não seria o inferno, nem um limbo, nem qualquer uma das hipóteses estravagantes que alguns dão. Eles obviamente ressuscitariam no Paraíso, já que não tinham ainda pecado algum. Este é o caso dos que morrem na infância: embora eles herdem as consequências do pecado (o que inclui a morte e a tendência ao pecado ao atingir a idade da consciência), eles não herdam o pecado em si, ou seja, são tão inocentes e puros quanto Adão e Eva eram antes da Queda, e seu destino na ressurreição só pode ser o Paraíso.

É interessante como a criação do Gênesis nos faz compreender tanta coisa sobre o destino eterno, não apenas dos que morrem na infância, mas basicamente de todo mundo. Os primeiros capítulos do Gênesis nos falam de um homem criado do pó da terra com um fôlego que anima o corpo (Gn 2:7), diz que quando esse fôlego se vai o homem volta ao pó (Gn 3:19), e que isso não aconteceria se o homem não tivesse comido da árvore que Deus proibiu comer (Gn 2:17).

O Novo Testamento complementa essas verdades revelando o antídoto que Deus nos deu para a morte: a salvação e a ressurreição no último dia através de seu filho Jesus, que nos levará de volta ao mesmo Paraíso do qual o primeiro homem foi expulso, na “regeneração de todas as coisas” (Mt 19:28). Entender o começo é o caminho para entender o meio e o fim de todas as coisas que Deus planejou para nós, que não é simplesmente apagar tudo e fazer de novo, mas resgatar o plano e o propósito original de Deus para com a Sua criação.

Fonte: http://www.lucasbanzoli.com/

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