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Há não muito tempo um jovem da
minha igreja se assustou ao me ouvir dizer que Jesus tinha irmãos. Ele nunca
tinha ouvido isso antes, apesar de ser evangélico. Se muitos já se surpreendem
ao saber que Jesus tinha irmãos, não posso imaginar como reagiriam se soubessem
toda a história que envolve um deles: Tiago. Ao que tudo indica, Tiago era o
filho mais velho de Maria e José depois de Jesus. Ele aparece à frente em todas
as menções dos irmãos de Jesus (Mt 13:55, 27:56; Mc 6:3, 15:40), o que
geralmente ocorre com os mais velhos, e é de longe o que assume maior
protagonismo.
Lucas nos dá indícios desse
protagonismo quando aponta Tiago como o líder do concílio de Jerusalém (At 15),
na presença de todos os apóstolos e cristãos de renome da Igreja primitiva. Em
meio a líderes de respeito da estatura de Paulo e Pedro, é Tiago quem dá a
palavra final, e é inteiramente baseada em suas palavras que a carta conciliar
é escrita, registrando as decisões do concílio (de fato, a carta dos versos
28-29 é praticamente uma transcrição ipsis litteris do discurso de Tiago
no verso 20).
Tiago era tão importante que
quando Pedro foi solto da prisão mandou avisar isso “a
Tiago e aos irmãos” (At 12:17), e em Antioquia ele censurou os gentios quando
chegaram “alguns da parte de Tiago” (Gl 2:12),
mudando de atitude de modo condenável por Paulo, que o enfrentou “face a face, porque era repreensível” (Gl 2:11).
Se Pedro agiu assim com receio dos enviados de Tiago, imagine a
autoridade que tinha o próprio Tiago. Paulo também sabia da proeminência
de Tiago, tanto que o menciona juntamente com Pedro e João como as “colunas” da
Igreja (Gl 2:9), ocasião na qual Tiago é mencionado primeiro.
É digno de nota que quando Paulo
chega em Jerusalém, a primeira coisa que faz é se encontrar com Tiago (At
21:18). Tiago era tão conhecido que Judas em sua carta se identifica apenas
como «irmão de Tiago» (Jd 1), mas o próprio Tiago em sua carta dispensa maiores
apresentações (Tg 1:1), e escreve com grande autoridade às doze tribos
dispersas de Israel. O próprio fato de Jesus ter aparecido particularmente a
Tiago após sua ressurreição reforça sua posição de destaque (1Co 15:7). Basicamente,
todas as vezes em que Tiago é mencionado de Atos em diante, é em um contexto
que demonstra autoridade e notoriedade.
Por muito tempo os teólogos se debruçaram
sobre quem seria esse Tiago tão imponente, que presidiu o primeiro concílio da
história da Igreja. O Tiago filho de Zebedeu (e irmão de João) não poderia ser,
pois morreu cedo, antes da realização do concílio – cf. At 12:2). Para aqueles
que negam que existiu um Tiago irmão do Senhor, resta como opção o outro Tiago
entre os doze apóstolos originais. O problema é que esse Tiago é raríssimas
vezes mencionado no Novo Testamento – três, para ser mais preciso (Lc 6:15; Mt
10:3; Mc 3:18) –, e todas elas apenas nas listas dos apóstolos (ou seja, quando
um evangelista citava nominalmente cada um dos doze de forma rápida e discreta).
Portanto, parece estar longe de ter tido a proeminência e o destaque que o
Tiago das epístolas possui.
Além disso, a sequência das
aparições do Cristo ressurreto mencionada por Paulo torna difícil acreditar que
esse Tiago era um dos doze, especialmente considerando que quando Jesus
apareceu a Tiago ele já tinha aparecido aos doze:
“Pois
o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos
nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro
dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois
disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais
ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago
e, então, a todos os apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um
que nasceu fora de tempo” (1ª Coríntios 15:3-8)
Note que primeiro Jesus aparece
a Pedro e aos doze, depois aparece a Tiago e a todos os apóstolos além dos doze.
Isso ajuda a explicar por que Tiago é chamado de apóstolo por Paulo (Gl 1:19),
que empregou o termo “apóstolo” em seu sentido mais amplo, no qual o próprio
Paulo e Barnabé estavam inclusos (At 14:14), assim como Silvano e Timóteo (1Ts
2:7 com 1Ts 1:1) e Andrônico e Júnias (Rm 16:7). Essa é a mesma interpretação de
Eusébio de Cesareia (263-339 d.C), historiador eclesiástico da Igreja antiga, que
escreveu:
“Paulo
diz que depois de sua ressurreição dentre os mortos apareceu primeiro a Cefas,
depois aos doze, e depois destes a mais de quinhentos irmãos juntos, sobre os
quais afirmava que alguns já tinham morrido, mas que a maior parte ainda vivia
no tempo em que ele escrevia estas coisas. Depois diz que apareceu a Tiago.
Pois bem, este era também um dos mencionados irmãos do Salvador.
Portanto, de qualquer forma, os apóstolos à imagem dos doze eram muitos mais
– o próprio Paulo o era –, prossegue dizendo: depois apareceu a todos os
apóstolos” (História Eclesiástica, Livro I, 12:4-5)
Podemos entender por que Jesus
apareceria particularmente a Pedro após sua ressurreição, tendo em vista suas
negações e o desânimo que abateu o principal dos doze discípulos, mas por que
precisaria aparecer particularmente a Tiago, se este Tiago era o filho de Alfeu
do qual os evangelhos se silenciam quase que por completo? E por que este Tiago
estaria vinculado aos apóstolos além dos doze, se ele próprio era um
dos doze? Tudo nos leva a concluir que esse Tiago não tinha qualquer
relação com o Tiago de Alfeu, mas era, de fato, o irmão do Senhor, como conclui
Eusébio.
Que o Tiago que a Bíblia
descreve como o irmão de Jesus não é o apóstolo filho de Alfeu, isso também
fica claro em ocasiões em que os irmãos de Jesus são citados à parte dos doze
discípulos. Isso acontece, por exemplo, em João 7, onde os irmãos de Jesus
pedem para ele “sair daqui e ir para a Judeia, para
que também os seus discípulos possam ver as obras que você faz” (Jo
7:3), pois “nem os seus irmãos criam nele” (v.
5). Em outra ocasião, Jesus está com os doze quando chegam Maria e os irmãos de
Jesus mandando trazê-lo à força, pois achavam que estava fora de si (Mc
3:20-35).
A incredulidade dos irmãos de
Jesus já havia sido profetizada séculos antes no salmo davídico-messiânico que
diz:
“Pois
por amor a ti suporto zombaria, e a vergonha cobre-me o rosto. Sou um
estrangeiro para os meus irmãos, um estranho até para os filhos da minha mãe;
pois o zelo pela tua casa me consome, e os insultos daqueles que te insultam
caem sobre mim” (Salmos 69:7-9)
Essas evidências bíblicas atestam
que os irmãos de Jesus não estavam entre os doze apóstolos, nem mesmo
acreditavam em Jesus no início do seu ministério.
Para além disso temos a evidência
histórica, que confirma que o irmão de Jesus chamado Tiago não era um dos doze.
No século III, um bispo de Tiro chamado Doroteu elaborou uma lista com os nomes
dos setenta discípulos de Lc 10, na qual «Tiago, irmão de Jesus, chamado de
Tiago, o Justo, autor da Epístola de Tiago e o primeiro bispo de Jerusalém»,
aparece em primeiro lugar. Uma vez que o texto bíblico diz que “o Senhor designou outros setenta discípulos” (Lc
10:1), é evidente que esse Tiago irmão de Jesus não podia ser um dos doze (além
de que nenhum dos outros 69 litados era dos doze).
Ademais, todas as três vezes que
o Tiago dos doze aparece nos evangelhos ele é descrito apenas como o «filho de
Alfeu», nunca como o irmão de Jesus, que seria a vinculação mais importante.
Por outro lado, um outro Tiago aparece nas listas dos irmãos de Jesus (Mt
13:55; Mc 6:3) e é mencionado por Paulo como «irmão do Senhor» (Gl 1:19). Some
a isso o fato de que o grego tinha uma palavra específica para irmão (adelphos)
e para primo (anepsios), mas em relação a Tiago e aos irmãos de Jesus é
sempre adelphos que aparece (Mt 12:46, 13:55; Lc 8:20; Jo 2:12, 7:3; At
1:14). O mesmo apóstolo Paulo que chama Marcos de primo-anepsios de
Barnabé (Cl 4:10) chama Tiago de irmão-adelphos de Jesus (Gl 1:19). Isso
compromete a tese de que os irmãos de Jesus eram primos, como defende a
teologia católica romana.
Se os irmãos de Jesus fossem
primos, seria muito mais fácil usar o termo mais amplo para “parente” (suggenes),
que é usado doze vezes no Novo Testamento, mas nenhuma para os irmãos de Jesus.
Só Lucas usou cinco vezes o termo em seu evangelho (por exemplo, para Isabel,
chamada de parente-suggenes de Maria, a quem acredita-se ter sido sua
prima – cf. Lc 1:36), mas quando se refere aos irmãos de Jesus usa sempre adelphos,
a palavra própria para irmão (Lc 8:20-21). Ou os autores bíblicos não se
preocupavam em criar uma confusão proposital e até se esforçavam para confundir
os leitores, ou eles sabiam que os irmãos de Jesus eram, de fato, irmãos
sanguíneos.
E não apenas os autores
bíblicos: os seculares também. A melhor prova da historicidade de Jesus é o
testemunho antigo de Flávio Josefo (37-100 d.C), que fala sobre ele em duas
oportunidades. O que poucos sabem é que uma dessas citações menciona também seu
irmão Tiago, e é na verdade focada nele e não em Jesus. A citação diz que Anano
“reuniu um conselho de juízes, perante o qual
trouxe Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, junto com alguns outros, e,
tendo-os acusado de infração à lei, entregou-os para serem apedrejados” (Antiguidades
Judaicas, Parte 1, Livro XX, 8). O detalhe é que aqui Josefo usa o termo adelphos
(irmão), mas ao longo de toda a obra ele usa a palavra anepsios sem
reservas para designar os primos de alguém. A conclusão é óbvia: para Josefo,
assim como para os escritores bíblicos, Tiago era irmão de Jesus.
A evidência bíblica e histórica
se soma à evidência arqueológica. Em 2002, foi encontrado em Jerusalém um
ossuário datado de aproximadamente 63 d.C (exatamente o ano em que Tiago
morreu!) com a inscrição em aramaico: Ya'akov bar Yosef achui d'Yeshua
(“Tiago, filho de José, irmão de Jesus”). A descoberta sacudiu a comunidade
acadêmica e suscitou longa disputa, principalmente devido à resistência de ateus
e secularistas. O ossuário foi submetido a vários testes pelo Geological
Survey of State of Israel e após longa investigação foi declarado autêntico
em tribunal. A não ser que tenha havido em Jerusalém um outro Tiago que também
era filho de José, que também era irmão de Jesus e que também morreu em 63 d.C
(que é quase a mesma chance do Palmeiras ganhar um mundial), ele é a evidência
mais antiga da historicidade de Cristo, e também prova que ele tinha um irmão
chamado Tiago.
Já vimos que os irmãos de Jesus,
incluindo Tiago, não acreditavam nele a princípio (Jo 7:3-5; Mc 3:20-35), mas vemos
eles reunidos com sua mãe e com os apóstolos por ocasião do Pentecoste (At 1:13-14),
o que significa que eles passaram a acreditar em Jesus em algum momento durante
o seu ministério ou ao final dele. Isso explica por que Tiago irmão de Jesus é
praticamente omitido nos evangelhos, mas aparece com tanta ênfase dali em
diante. Caso semelhante ocorre com Paulo, que também não era cristão na época
do ministério de Jesus e por isso é omitido nos evangelhos, mas depois se torna
o “principal cabeça da seita dos nazarenos” (At
24:5) e ganha uma ênfase indiscutível.
Mas como Tiago ocupou uma
posição de destaque tão rápido, e por que os demais irmãos de Jesus não recebem
a mesma atenção? Para responder essa questão precisamos recorrer às fontes antigas,
as quais atestam que Tiago não era uma pessoa comum, mas um vulto entre os
judeus desde antes de sua conversão. Hegésipo (110-180 d.C), um cronista
cristão do segundo século, garante que Tiago era tão célebre entre os judeus
que tinha permissão até para entrar no santuário, embora não fosse sumo
sacerdote (algo que as autoridades judaicas jamais permitiriam a um cristão).
Suas palavras foram preservadas por Eusébio de Cesareia, em sua História
Eclesiástica:
“Sucessor
na direção da Igreja é, junto com os apóstolos, Tiago, o irmão do Senhor. Todos
dão-lhe o sobrenome de ‘Justo’, desde os tempos do Senhor até os nossos, pois
eram muitos os que se chamavam Tiago. Mas somente este foi santo desde o ventre
de sua mãe. Não bebeu vinho nem bebida fermentada, não comeu carne; sobre sua
cabeça não passou tesoura nem navalha e tampouco ungiu-se com azeite nem usou
do banho. Somente a ele era permitido entrar no santuário, pois não vestia lã,
mas linho. E somente ele penetrava no templo, e ali se encontrava ajoelhado e
pedindo perdão por seu povo, tanto que seus joelhos ficaram calejados como os
de um camelo, por estar sempre de joelhos adorando a Deus e pedindo perdão para
o povo. Por sua eminente retidão era chamado ‘o Justo’ e ‘Oblías’, que em grego
quer dizer proteção do povo e justiça, como declaram os profetas acerca dele” (História Eclesiástica, Livro II, 23:4-7)
Quando Tiago se converteu, as
mesmas autoridades judaicas que o prestigiavam passaram a persegui-lo, literalmente,
até a morte. Tamanha era a eminência de Tiago que muitos judeus pensaram que a
destruição de Jerusalém em 70 d.C foi um castigo divino pela morte dele.
Eusébio escreve que “Tiago era um homem tão
admirável e tanto havia-se espalhado entre todos a fama de sua retidão, que até
os judeus sensatos pensavam que esta era a causa do assédio de Jerusalém, iniciado
imediatamente depois de seu martírio, e que por nenhum outro motivo estavam
eles sofrendo-o senão pelo crime sacrílego cometido contra ele” (HE,
Livro II, 23:19).
Isso explica a rápida ascensão
de Tiago como o líder da igreja de Jerusalém alguns anos após sua conversão:
ele não apenas era um irmão de Jesus, mas era reconhecido como um homem justo
por todos os judeus, respeitado e honrado por todo o povo. Ninguém melhor para
assumir o episcopado em Jerusalém do que alguém tão honrado e respeitado como ele.
Não à toa, sempre que a Bíblia menciona Tiago ele está em Jerusalém (At 12:17,
15:13, 21:18; Gl 1:19, 2:9) e é especificamente aos judeus que ele dirige sua
carta (Tg 1:1), enquanto os outros apóstolos viajavam o mundo todo e fundavam
igrejas por toda a parte. De acordo com o testemunho histórico, o ministério de
Tiago em Jerusalém foi fundamental para a conversão de uma multidão de judeus, a
partir dos quais o Cristianismo se espalhou por todo o mundo.
Fonte: http://www.lucasbanzoli.com


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