Na atual situação do mundo, é
impossível escrever sobre algo que não seja sobre a pandemia global. Pensando
nisso, eu me propus a escrever algo a respeito, mas não me veio nada além de
pensamentos desconexos e seriamente comprometidos pela minha severa ignorância
a respeito de biologia e medicina. Então me lembrei de um trecho de um livro
que li há poucos dias, “Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média” (de
Jeffrey Richards), que aborda como o mundo da época reagiu a uma situação similar
a atual: a Peste Negra. Embora a peste tenha se passado no século XIV e sido bem
mais letal que o coronavírus está sendo até o momento, você verá que muito do
que ocorreu na época lembra o sentimento atual, e que, se serve de esperança, o
mundo já passou e sobreviveu a coisas piores que o corona.
***
A difícil situação das minorias foi, na melhor das
hipóteses, exacerbada pelo segundo grande aspecto crucial da psicologia da
Idade Média, a Peste Negra. A Peste Negra (peste bubônica, pneumônica e
septicêmica) devastou a Europa durante o período 1347-9, dizimando, estima-se
hoje, cerca de um terço da população. “Tantos
morreram”, escreveu o cronista sienense Agnolo di Tura de Grasso, “que todos acreditaram tratar-se do fim do mundo”.
Mas esta não foi uma catástrofe isolada; foi parte de uma pandemia. Em 1361-2,
uma segunda peste (pestis secunda) atacou; entre 10 e 20% da população
pereceram. Ela matou tantos rapazes que ficou conhecida como “a Peste dos
Rapazes” (pestis puerorum).
Em 1369, a terceira peste (tertia pestis)
eliminou outros 10 ou 15% da população. A peste retornou ciclicamente a cada
cinco ou dez anos no decorrer de toda a Idade Média. A população enfraquecida
tombou presa da varíola, malária, disenteria e febre entérica, o que resultou
no fato de que a população europeia, em 1430, era entre 50 e 75% inferior ao
que havia sido em 1290. Ela só recobrou seu nível do século XIII em meados do
século XVI, depois de um lento crescimento a partir de 1450.
Esta catástrofe demográfica sobreveio em meio a
mudanças climáticas importantes. A grande expansão da população, das cidades e
do comércio nos séculos XI e XII se havia operado em condições de invernos
brandos, verões secos e excedentes de alimentos. Mas, entre 1250 e 1300, o
clima mudou, e anunciou-se uma “Pequena Era Glacial”, a qual ecoou numa oração
do século XIV que continha as agourentas palavras frigiscente mundo
(“com o mundo ficando frio”). O clima mais frio e úmido que foi uma
característica deste período teve um efeito desastroso sobre os suprimentos de
alimentos. Quebras sucessivas da safra somadas à exaustão do solo e ao cultivo
excessivo tornaram a fome uma realidade da vida.
A população era simplesmente excessiva para os
suprimentos existentes de comida. Num ano bom, as pessoas conseguiam apenas
sobreviver. Mas houve poucos anos bons, e a pestilência espreitava na esteira
da fome. Dos anos 1290 até a década de 1340, houve uma sucessão de invernos
úmidos, quebras de safras e doenças infecciosas de animais, e de epidemias de
tifo, disenteria e difteria. Houve, por exemplo, uma séria fome coletiva nos
anos 1315-17, a qual começou com uma chuva torrencial e prolongada que arruinou
a colheita em 1315. A fome e doenças graves que se seguiram reduziram as
pessoas a comerem cães e gatos, folhas e raízes, e, em alguns lugares, ao
canibalismo.
À medida que o povo foi levado a atitudes
desesperadas para obter comida, houve uma onda de crimes. Em seguida, uma
desastrosa morrinha dizimou boa parte do rebanho. O padrão se repetiu em 1316 e
1317. A fome e a peste na França, Inglaterra e Alemanha foram piores do que
quaisquer outras que as pessoas vivas na época pudessem lembrar. Os populosos
Países Baixos sofreram particularmente e, no auge da fome, em Ypres, cerca de
18% da população morreu. A peste pandêmica multiplicou consideravelmente a
miséria, e os séculos posteriores da Idade Média foram inundados pelo
pessimismo, pela melancolia e pela desesperança.
As reações das pessoas à peste são descritas por
Boccaccio em seu Decameron. Alguns retiraram-se no isolamento, esperando
assim escapar à praga. Outros embarcaram numa vida de devassidão desvairada,
segundo o princípio de “comer, beber e divertir-se, pois amanhã estaremos
mortos”. Houve explosões selvagens à caça de um bode expiatório que culminaram
em horríveis massacres de judeus, os quais eram acusados de disseminar a praga.
Quando a pandemia se instalou, a convicção sempre presente do fim iminente do
mundo se intensificou. Em face dessa perspectiva, deu-se uma vida de hedonismo,
as taxas de criminalidade cresceram e os contemporâneos perceberam e comentaram
um aumento da imoralidade.
Mas talvez o mais significativo fosse o surto de
atividade religiosa. Na sequência imediata da peste, procissões de flagelantes
tomaram as ruas, purgando a si próprios de maneira selvagem e esperando aplacar
a ira evidente de Deus, e houve irrupções de tarantismo, dança frenética e
compulsiva, uma grotesca “dança da morte”. Houve uma explosão de peregrinações,
e novos santos foram proclamados, como São Roque, um habitante de Montpellier
que se dedicou ao cuidado das vítimas da peste. Houve também um notável aumento
do número de doações e de fundações de caridade. Em Londres, o montante médio
de doações testamentárias de caridade aumentou 40% entre 1350 e 1369.
Mas, a longo prazo, houve um poderoso impulso em
direção ao ascetismo pessoal e, é claro, um quase inevitável retorno à heresia,
a qual, em seu caso mais famoso (hussismo), assumiu dimensão nacional. A Peste
Negra intensificou a preocupação medieval com as “quatro últimas coisas”,
morte, juízo, paraíso e inferno. Ela teve um efeito marcante sobre a arte e a
literatura, que se tornaram saturadas de imagens de dor e de morte. Peças de
mistério com temas religiosos tornaram-se comuns e geralmente falavam sobre a
decadência humana e os tormentos do inferno. Os funerais tornaram-se grandes
acontecimentos, marcados por cerimoniais profusos.
De maneira reveladora, enquanto os calendários
ilustrados dos séculos XIII e XIV haviam enfatizado a primavera e o verão, no
final do século XIV e no século XV eles sublinharam o outono e o inverno. Com a
morte e o fim aparentemente mais próximos do que nunca, a salvação tornou-se
cada vez mais importante. A Igreja estabelecida não conseguiu enfrentar o
desafio. Ela já havia sofrido uma perda de prestígio. O papado tinha perdido
credibilidade quando se mudou para Avignon em 1309, e era opinião geral que
havia caído sob a tutela do rei francês. Aos olhos de muitos, deixou de ser a
liderança moral e espiritual da cristandade e se tornou mais um outro Estado
burocrático, preocupado com finanças e leis.
Essa percepção foi reforçada pelo Grande Cisma
(1378-1415), durante o qual uma sucessão de papas rivais em Roma e Avignon,
divididos não por doutrina, mas por questões de poder político, disputou o
trono até que um concílio da Igreja em Constança (1414-17) resolveu a contenda,
depondo os pretendentes rivais e instalando um novo papa. A organização da
Igreja foi seriamente prejudicada pela destruição provocada pela Peste Negra.
Muitos de seus melhores intelectuais morreram, e um grande número de párocos
fugiu. Nessas circunstâncias, as pessoas buscavam em si mesmas a libertação
espiritual.
A ordem social foi seriamente afetada pela peste.
Mas os efeitos da pestilência eram agravados pelos efeitos da guerra. A Guerra
dos Cem Anos (que, embora intermitentemente, na realidade durou 116 anos)
submeteu a França e a Inglaterra a uma sucessão de campanhas militares entre
1337 e 1453, que foram ruinosamente caras em homens e dinheiro. A França, onde
se deram os combates, foi devastada por bandos de malfeitores armados e
dilacerada pela rivalidade homicida entre facções da aristocracia. A flor da
fidalguia francesa foi dizimada nas derrotas sucessivas de Crécy (1346),
Poitiers (1356) e Azincourt (1415).
Na Inglaterra, mal tinha terminado a Guerra dos Cem
Anos, quando a Guerra das Duas Rosas inundou o país com a guerra civil. Assim,
somando-se à morte por doença, houve morte em larga escala provocada pela mão
do homem. Entretanto, a morte disseminada deu a novos homens a oportunidade de
ascender e fazer fortuna. Os nouveaux riches, como os de la Pole na
Inglaterra e os Médicis florentinos, agarraram a oportunidade para ascender a
píncaros inimagináveis de poder e proeminência social. Ao mesmo tempo, uma
grave escassez de mão-de-obra implicou o aumento vertiginoso dos custos do
trabalho.
As sociedades pós-Peste Negra aprovaram uma
sucessão de leis suntuárias, regulamentando a indumentária das pessoas, de modo
a que não procurassem atingir uma posição superior à que ocupavam, e buscou
conter os salários por temer a falência da aristocracia. Mas essas estratégias
não funcionaram e, sem dúvida, exacerbaram a situação, a qual em algumas áreas
originou o nascimento de ideias revolucionárias milenaristas. Em outras,
mudança e crise levaram a revoltas importantes, notadamente dos camponeses na
Revolta da Jacquerie, na França em 1358, e na Inglaterra em 1381, e das camadas
pobres urbanas como na insurreição dos ciompi, os trabalhadores têxteis
florentinos, em 1378.
Enquanto poucas rebeliões tinham ocorrido até o
final do século XIII, muitas viriam a acontecer nos anos que se seguiram à
Peste Negra, à medida que se agudizava o conflito de classes. E não somente
isto, mas houve uma quebra generalizada da lei e da ordem. Por exemplo, a
incidência de homicídios na Inglaterra no período de 1349 a 1369 foi equivalente
ao dobro da que havia sido registrada no período entre 1320 e 1340, apesar da
perda de um terço da população. (...)
O despovoamento também acelerou a laicização da
sociedade, com as escolas seculares dando sua contribuição ao funcionamento da educação,
advogados e burocratas estreitando seu controle sobre os governos e teorias da
autoridade real que estavam sendo articuladas. Como qualquer outro aspecto da
existência, a vida intelectual sofreu com a devastação da peste. Vinte
universidades desapareceram entre 1350 e 1400. Muitas pessoas altamente
qualificadas e de alto nível educacional pereceram e não puderam ser
substituídas. (...)
Lynn White Jr. tinha descrito o período de 1300 a
1650 como “o mais perturbado psiquicamente da história europeia”, um tempo de
ansiedade exponenciada devido à rápida mudança cultural e à sucessão de
calamidades. Isto é certamente verdade para a última metade da Idade Média. Os
séculos XII e XIII, período que tinha assistido à construção das catedrais
góticas, à expansão das cidades, à ascensão das universidades, ao
desenvolvimento da literatura cortesã de amor e da poesia vernácula, à
revitalização do direito romano, à retomada da Terra Santa, à Reforma Medieval
e ao Renascimento Medieval, foram substituídos por uma era de dúvida, medo e
incerteza, guerra, destruição e despovoamento, doença, decadência e morte.
Fonte: lucasbanzoli.com


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