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quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Como o mundo reagiu a uma pandemia pior que o corona

Na atual situação do mundo, é impossível escrever sobre algo que não seja sobre a pandemia global. Pensando nisso, eu me propus a escrever algo a respeito, mas não me veio nada além de pensamentos desconexos e seriamente comprometidos pela minha severa ignorância a respeito de biologia e medicina. Então me lembrei de um trecho de um livro que li há poucos dias, “Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média” (de Jeffrey Richards), que aborda como o mundo da época reagiu a uma situação similar a atual: a Peste Negra. Embora a peste tenha se passado no século XIV e sido bem mais letal que o coronavírus está sendo até o momento, você verá que muito do que ocorreu na época lembra o sentimento atual, e que, se serve de esperança, o mundo já passou e sobreviveu a coisas piores que o corona.

***

A difícil situação das minorias foi, na melhor das hipóteses, exacerbada pelo segundo grande aspecto crucial da psicologia da Idade Média, a Peste Negra. A Peste Negra (peste bubônica, pneumônica e septicêmica) devastou a Europa durante o período 1347-9, dizimando, estima-se hoje, cerca de um terço da população. “Tantos morreram”, escreveu o cronista sienense Agnolo di Tura de Grasso, “que todos acreditaram tratar-se do fim do mundo”. Mas esta não foi uma catástrofe isolada; foi parte de uma pandemia. Em 1361-2, uma segunda peste (pestis secunda) atacou; entre 10 e 20% da população pereceram. Ela matou tantos rapazes que ficou conhecida como “a Peste dos Rapazes” (pestis puerorum).

Em 1369, a terceira peste (tertia pestis) eliminou outros 10 ou 15% da população. A peste retornou ciclicamente a cada cinco ou dez anos no decorrer de toda a Idade Média. A população enfraquecida tombou presa da varíola, malária, disenteria e febre entérica, o que resultou no fato de que a população europeia, em 1430, era entre 50 e 75% inferior ao que havia sido em 1290. Ela só recobrou seu nível do século XIII em meados do século XVI, depois de um lento crescimento a partir de 1450.

Esta catástrofe demográfica sobreveio em meio a mudanças climáticas importantes. A grande expansão da população, das cidades e do comércio nos séculos XI e XII se havia operado em condições de invernos brandos, verões secos e excedentes de alimentos. Mas, entre 1250 e 1300, o clima mudou, e anunciou-se uma “Pequena Era Glacial”, a qual ecoou numa oração do século XIV que continha as agourentas palavras frigiscente mundo (“com o mundo ficando frio”). O clima mais frio e úmido que foi uma característica deste período teve um efeito desastroso sobre os suprimentos de alimentos. Quebras sucessivas da safra somadas à exaustão do solo e ao cultivo excessivo tornaram a fome uma realidade da vida.

A população era simplesmente excessiva para os suprimentos existentes de comida. Num ano bom, as pessoas conseguiam apenas sobreviver. Mas houve poucos anos bons, e a pestilência espreitava na esteira da fome. Dos anos 1290 até a década de 1340, houve uma sucessão de invernos úmidos, quebras de safras e doenças infecciosas de animais, e de epidemias de tifo, disenteria e difteria. Houve, por exemplo, uma séria fome coletiva nos anos 1315-17, a qual começou com uma chuva torrencial e prolongada que arruinou a colheita em 1315. A fome e doenças graves que se seguiram reduziram as pessoas a comerem cães e gatos, folhas e raízes, e, em alguns lugares, ao canibalismo.

À medida que o povo foi levado a atitudes desesperadas para obter comida, houve uma onda de crimes. Em seguida, uma desastrosa morrinha dizimou boa parte do rebanho. O padrão se repetiu em 1316 e 1317. A fome e a peste na França, Inglaterra e Alemanha foram piores do que quaisquer outras que as pessoas vivas na época pudessem lembrar. Os populosos Países Baixos sofreram particularmente e, no auge da fome, em Ypres, cerca de 18% da população morreu. A peste pandêmica multiplicou consideravelmente a miséria, e os séculos posteriores da Idade Média foram inundados pelo pessimismo, pela melancolia e pela desesperança.

As reações das pessoas à peste são descritas por Boccaccio em seu Decameron. Alguns retiraram-se no isolamento, esperando assim escapar à praga. Outros embarcaram numa vida de devassidão desvairada, segundo o princípio de “comer, beber e divertir-se, pois amanhã estaremos mortos”. Houve explosões selvagens à caça de um bode expiatório que culminaram em horríveis massacres de judeus, os quais eram acusados de disseminar a praga. Quando a pandemia se instalou, a convicção sempre presente do fim iminente do mundo se intensificou. Em face dessa perspectiva, deu-se uma vida de hedonismo, as taxas de criminalidade cresceram e os contemporâneos perceberam e comentaram um aumento da imoralidade.

Mas talvez o mais significativo fosse o surto de atividade religiosa. Na sequência imediata da peste, procissões de flagelantes tomaram as ruas, purgando a si próprios de maneira selvagem e esperando aplacar a ira evidente de Deus, e houve irrupções de tarantismo, dança frenética e compulsiva, uma grotesca “dança da morte”. Houve uma explosão de peregrinações, e novos santos foram proclamados, como São Roque, um habitante de Montpellier que se dedicou ao cuidado das vítimas da peste. Houve também um notável aumento do número de doações e de fundações de caridade. Em Londres, o montante médio de doações testamentárias de caridade aumentou 40% entre 1350 e 1369.

Mas, a longo prazo, houve um poderoso impulso em direção ao ascetismo pessoal e, é claro, um quase inevitável retorno à heresia, a qual, em seu caso mais famoso (hussismo), assumiu dimensão nacional. A Peste Negra intensificou a preocupação medieval com as “quatro últimas coisas”, morte, juízo, paraíso e inferno. Ela teve um efeito marcante sobre a arte e a literatura, que se tornaram saturadas de imagens de dor e de morte. Peças de mistério com temas religiosos tornaram-se comuns e geralmente falavam sobre a decadência humana e os tormentos do inferno. Os funerais tornaram-se grandes acontecimentos, marcados por cerimoniais profusos.

De maneira reveladora, enquanto os calendários ilustrados dos séculos XIII e XIV haviam enfatizado a primavera e o verão, no final do século XIV e no século XV eles sublinharam o outono e o inverno. Com a morte e o fim aparentemente mais próximos do que nunca, a salvação tornou-se cada vez mais importante. A Igreja estabelecida não conseguiu enfrentar o desafio. Ela já havia sofrido uma perda de prestígio. O papado tinha perdido credibilidade quando se mudou para Avignon em 1309, e era opinião geral que havia caído sob a tutela do rei francês. Aos olhos de muitos, deixou de ser a liderança moral e espiritual da cristandade e se tornou mais um outro Estado burocrático, preocupado com finanças e leis.

Essa percepção foi reforçada pelo Grande Cisma (1378-1415), durante o qual uma sucessão de papas rivais em Roma e Avignon, divididos não por doutrina, mas por questões de poder político, disputou o trono até que um concílio da Igreja em Constança (1414-17) resolveu a contenda, depondo os pretendentes rivais e instalando um novo papa. A organização da Igreja foi seriamente prejudicada pela destruição provocada pela Peste Negra. Muitos de seus melhores intelectuais morreram, e um grande número de párocos fugiu. Nessas circunstâncias, as pessoas buscavam em si mesmas a libertação espiritual.

A ordem social foi seriamente afetada pela peste. Mas os efeitos da pestilência eram agravados pelos efeitos da guerra. A Guerra dos Cem Anos (que, embora intermitentemente, na realidade durou 116 anos) submeteu a França e a Inglaterra a uma sucessão de campanhas militares entre 1337 e 1453, que foram ruinosamente caras em homens e dinheiro. A França, onde se deram os combates, foi devastada por bandos de malfeitores armados e dilacerada pela rivalidade homicida entre facções da aristocracia. A flor da fidalguia francesa foi dizimada nas derrotas sucessivas de Crécy (1346), Poitiers (1356) e Azincourt (1415).

Na Inglaterra, mal tinha terminado a Guerra dos Cem Anos, quando a Guerra das Duas Rosas inundou o país com a guerra civil. Assim, somando-se à morte por doença, houve morte em larga escala provocada pela mão do homem. Entretanto, a morte disseminada deu a novos homens a oportunidade de ascender e fazer fortuna. Os nouveaux riches, como os de la Pole na Inglaterra e os Médicis florentinos, agarraram a oportunidade para ascender a píncaros inimagináveis de poder e proeminência social. Ao mesmo tempo, uma grave escassez de mão-de-obra implicou o aumento vertiginoso dos custos do trabalho.

As sociedades pós-Peste Negra aprovaram uma sucessão de leis suntuárias, regulamentando a indumentária das pessoas, de modo a que não procurassem atingir uma posição superior à que ocupavam, e buscou conter os salários por temer a falência da aristocracia. Mas essas estratégias não funcionaram e, sem dúvida, exacerbaram a situação, a qual em algumas áreas originou o nascimento de ideias revolucionárias milenaristas. Em outras, mudança e crise levaram a revoltas importantes, notadamente dos camponeses na Revolta da Jacquerie, na França em 1358, e na Inglaterra em 1381, e das camadas pobres urbanas como na insurreição dos ciompi, os trabalhadores têxteis florentinos, em 1378.

Enquanto poucas rebeliões tinham ocorrido até o final do século XIII, muitas viriam a acontecer nos anos que se seguiram à Peste Negra, à medida que se agudizava o conflito de classes. E não somente isto, mas houve uma quebra generalizada da lei e da ordem. Por exemplo, a incidência de homicídios na Inglaterra no período de 1349 a 1369 foi equivalente ao dobro da que havia sido registrada no período entre 1320 e 1340, apesar da perda de um terço da população. (...)

O despovoamento também acelerou a laicização da sociedade, com as escolas seculares dando sua contribuição ao funcionamento da educação, advogados e burocratas estreitando seu controle sobre os governos e teorias da autoridade real que estavam sendo articuladas. Como qualquer outro aspecto da existência, a vida intelectual sofreu com a devastação da peste. Vinte universidades desapareceram entre 1350 e 1400. Muitas pessoas altamente qualificadas e de alto nível educacional pereceram e não puderam ser substituídas. (...)

Lynn White Jr. tinha descrito o período de 1300 a 1650 como “o mais perturbado psiquicamente da história europeia”, um tempo de ansiedade exponenciada devido à rápida mudança cultural e à sucessão de calamidades. Isto é certamente verdade para a última metade da Idade Média. Os séculos XII e XIII, período que tinha assistido à construção das catedrais góticas, à expansão das cidades, à ascensão das universidades, ao desenvolvimento da literatura cortesã de amor e da poesia vernácula, à revitalização do direito romano, à retomada da Terra Santa, à Reforma Medieval e ao Renascimento Medieval, foram substituídos por uma era de dúvida, medo e incerteza, guerra, destruição e despovoamento, doença, decadência e morte.


Por: Jeffrey Richards.


Fonte: lucasbanzoli.com

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