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sábado, 22 de agosto de 2020

Por que as pessoas acreditam tão facilmente em fake news?

Há algumas semanas eu recebi um vídeo que mostrava imagens de chineses supostamente contaminando supermercados, elevadores e outros ambientes públicos de propósito, só pra disseminar o coronavírus ao redor do mundo. Eu não faço a menor ideia de quem estava narrando o vídeo, mas ele denunciava e esbravejava furiosamente contra isso que seria uma estratégia deliberada para quebrar a economia mundial, e dizia que cada chinês ao redor do planeta era um agente do governo chinês enviado para propagar o vírus em cada lugar. O vídeo (com milhares de visualizações) terminava com pedidos clamorosos por divulgação; afinal de contas, uma verdade tão bombástica e reveladora como essa – que a mídia tradicional esconde porque é comunista – merece chegar ao máximo de pessoas.

Todos os comentários do vídeo, sem exceção, eram de pessoas apavoradas com essa surpreendente revelação. “Isso a Globo não mostra” e “temos que expulsar esses chineses daqui” era o que mais se lia. O clima era de revolta, de pânico, de histeria. A prova cabal da conspiração chinesa estava ali, bem diante dos nossos olhos, com os quais podíamos ver os malditos chineses cuspindo nos produtos para espalhar o vírus de propósito. Após descobrir essa surpreendente verdade, eu tomei coragem para fazer uma coisa extraordinariamente complexa, que exige muita ousadia e experiência, e que aparentemente ninguém que assistiu ao vídeo ousou fazer: uma pesquisa rápida num site chamado “Google”.
Digitei as palavras-chave do vídeo (algo como “chineses cuspindo para espalhar o coronavírus pelo mundo!”), e descobri que o site “e-farsas” já havia feito todo o trabalho de checagem das fontes por mim (você pode ler o artigo em questão aqui). Depois pesquisei em outros sites de checagem de fatos (por exemplo, este aqui) e descobri que nenhum daqueles vídeos era de um chinês “espalhando o vírus de propósito ao redor do mundo”. Muitos eram de anos atrás (de antes da pandemia), alguns eram vídeos de pegadinha, outros nem de chineses eram, e a maioria não estava nos locais indicados no vídeo (alguns eram na própria China, e faria pouco sentido os chineses conspirarem contra si mesmos!).
Em outras palavras: os vídeos não passavam de um compilado de cuspes de gente com feição asiática que alguém encontrou na internet, juntou tudo e fez parecer que se tratava de um plano maquiavélico diabólico de conspiração chinesa pela dominação global. E o pior é que quase ninguém (talvez literalmente ninguém) se deu ao trabalho de pesquisar minimamente para saber se a informação tão “bombástica” que recebeu tinha mesmo alguma procedência. As pessoas podem passar horas assistindo aos vídeos conspiracionistas, mas não tem dois minutos pra se dar ao trabalho de checar as fontes.
Mas se você pensa que esse tipo de coisa só acontece com leigos e gente completamente ignorante, está enganado. Há alguns dias ninguém menos que o presidente da república postou uma fake news em um story no instagram, onde dizia que o número de mortes causadas por doenças respiratórias no Ceará neste ano havia sido menor do que no ano passado. O objetivo com isso era denunciar a “histeria” da mídia golpista, que fica aí dizendo que tem uma pandemia à solta quando é só uma gripezinha. O próprio instagram ocultou a publicação por se tratar de uma fake news escandalosa, já que os números do Ceará na verdade aumentaram de 1.976 mortes no ano passado para 2.639 neste ano (veja aqui).
E tem sido assim no país inteiro: o número de mortes por problemas respiratórios neste ano tem sido incrivelmente maior do que no ano passado, por uma diferença bem mais ampla que a quantidade oficial de mortes por coronavírus no Brasil (o que significa que o número real de mortes causadas pelo vírus é muito maior que o divulgado oficialmente, o qual está seriamente subnotificado, já que o Brasil é um dos países que menos testes realiza no mundo). Não satisfeito com isso, o presidente republicou a notícia falsa, mesmo já sabendo que é falsa. Ou seja, pouco importa se a notícia é verdadeira ou fake: o que importa é o que pode ser usado como arma política. Lembre-se: estamos falando do presidente da república, não de um zé ninguém que não tem assessoria de nada.
Não é brincadeira, mas desde o princípio da pandemia, quando gravei dois vídeos sobre isso, eu tenho recebido comentários de gente que literalmente diz que o vírus não existe, que é tudo conspiração da mídia, da Nova Ordem Mundial, do George Soros, dos globalistas, dos reptilianos e de sei lá mais quem. Um desses comentários foi de uma moça que disse morar na Itália e afirmou que o corona era uma farsa pois ela não conhecia ninguém do convívio dela que morreu por isso (eu também não conheço nenhum anão, então anões não existem).
Há pouco tempo um líder de seita que mora na Virgínia e vive de mendigar doações na internet gravou um vídeo onde reproduz a fake news de que não aumentou em nenhum caso o número habitual de mortes por doenças respiratórias no mundo, e que por isso o COVID-19 não existe e é “a mais vasta manipulação da opinião pública que já aconteceu na história humana, coisa de ficção científica” (veja entre o minuto 5:27 e 6:10 deste vídeo). É sinistro. E assustador.
Seguidores desse sujeito me mandaram até comentários dizendo que a quarentena havia sido exigida pela imprensa comunista para enfraquecer a economia do Brasil e assim prejudicar o governo. Sim, porque aparentemente não estão fazendo quarentena em mais país nenhum do mundo, é só aqui pra prejudicar o Bolsonaro (eu gostaria muito de saber se nos países de quarentena governados por esquerdistas tem gente maluca assim dizendo o mesmo).
É lógico que fake news não é só coisa de bolsolavista: na própria época das eleições o TSE multou a campanha do Haddad por impulsionar notícias falsas contra Bolsonaro na internet (veja aqui), quando ambas as chapas estavam numa verdadeira guerra virtual para ver quem disseminava mais fake news contra o outro, com a ajuda de um incansável exército virtual de robôs. Ninguém se esquece que nas eleições passadas o PT ganhou muito voto rotulando Aécio e Serra de “nazistas”, dizendo que se Marina Silva ganhasse ela acabaria com o Bolsa Família (quando a própria dizia o contrário) e usando dinheiro roubado para assassinar a reputação de seus oponentes com mentiras, que era uma estratégia declarada de campanha do marqueteiro João Santana (ele próprio preso mais tarde, assim como quase todos que integravam o governo).
As fake news não tem partido, não tem time, não tem lado, não vota 13 ou 17, não faz campanha. Desde que o mundo é mundo, pessoas ardilosas se aproveitam da ingenuidade do cidadão comum para convencê-lo com mentiras, sofismas, embustes e desinformação. Até mesmo as cruzadas começaram com uma grande fake news: o papa Urbano II dizia que os muçulmanos estavam destruindo os “lugares santos” de Jerusalém e com isso conseguiu instigar os ânimos de uma multidão de cruzados enraivecidos que atravessaram o mundo, mataram crianças, estupraram mulheres, queimaram bebês, conquistaram Jerusalém e adivinhe: os lugares santos estavam ali, intactos, da mesma forma que conheciam.
Dito isso, a problemática inicial do artigo permanece: por que as pessoas acreditam tão facilmente em fake news? Já houve um tempo que eu pensava que isso ocorria apenas porque as pessoas são muito ingênuas, muito simples, com pouca instrução e educação formal, então acreditam em qualquer coisa mesmo. Eu só percebi que meu palpite estava completamente errado depois de ver muita gente com formação, que falam bem, que escrevem bem, que raciocinam com clareza e são muito inteligentes em outras áreas, caindo nos mesmos contos da carochinha, como se fossem crianças de cinco anos ouvindo sobre o Papai Noel.
Mas como pode gente tão inteligente cair em fake news tão tacanhas (ou pior ainda, reproduzi-las e divulgá-las) sem sequer se dar ao trabalho de pesquisar o básico? Foi aí que eu me dei conta de um detalhe: essas pessoas não são tão ingênuas assim com tudo na vida, mas só com aquilo que lhes favorece. Quanto ao resto, elas são extremamente céticas. É por isso que um bolsonarista reproduz com tanta facilidade e sem nenhum critério uma fake news que favorece o governo, mas ele nem pensa em fazer o mesmo com uma fake news que o prejudica. Da mesma forma, você nunca vai ver um petista acreditando em fake news bolsonarista, mas verá muitos deles sendo extremamente crédulos em relação às fake news do próprio partido que defende.
A mesma coisa eu vejo no próprio mundo da apologética. Todo tipo de gente citando todo tipo de trecho de livro que nunca leu, só porque viu a referência em algum blog de quinta, desde que o blog em questão concorde com os seus pontos de vista, é claro. Na verdade, o que ocorre é que o ser humano é movido a um mecanismo que o torna extremamente cético em relação àquilo que discorda, ao mesmo tempo em que é extremamente crédulo em relação a tudo o que concorda com as suas convicções prévias. Quando falamos sobre honestidade intelectual, estamos falando justamente dessa difícil missão de ser tão rigoroso e criterioso com nossas próprias convicções quanto somos com aquilo que mais discordamos.
Pense por um momento: quantas vezes você já não compartilhou no facebook, encaminhou no whatsapp ou citou como “prova” pra alguém alguma matéria, informação ou dados que concordam com pontos de vista que você defendia, mas sem ter tido a preocupação de checar as fontes primeiro e confirmar que aquilo realmente procede? Se sim, por que você se choca e se revolta quando vê alguém que pensa diferente de você fazendo a mesma coisa, só que pro lado dele? Muitas vezes a fake news é divulgada só pelo prazer de se jogar na cara de quem pensa diferente, por isso damos tão pouca importância à autenticidade da informação em si.
   
Há também gente tão fanática e bitolada que vive em um mundo alternativo de fantasia e ainda pensa que tal pessoa jamais seria capaz de inventar uma notícia falsa, que tal grupo jamais mentiria pra você, que se tal pessoa “importante” postou no facebook então deve ser verdade, que o seu próprio grupo tem o monopólio das virtudes e a oposição o monopólio das maldades, numa guerra cósmica maniqueísta entre o bem e o mal absolutos. Muitos se metem em bolhas desse tipo e nunca mais saem delas. E como eles só escutam aqueles que concordam com os seus pensamentos, acabam por se escandalizar e se chocar quando ouvem uma opinião contrária de alguém, e reagem na base da ignorância e da intolerância. Por isso tanta gente não suporta ouvir uma opinião contrária.
Quantas vezes você já não viu um youtuber qualquer emitir uma opinião política sem ofender ninguém, e nos comentários um monte de gente escrever que está se desinscrevendo do canal? Aconteceu isso recentemente com o Canal do Barolo, a quem eu admiro muito. O canal é de notícias sobre futebol (mais especificamente sobre o único time brasileiro tricampeão mundial, você já sabe qual), mas em um vídeo recente ele fez algumas críticas ao modo como o atual presidente vem conduzindo o país nessa pandemia, e como resultado várias pessoas que o acompanhavam se desinscreveram.
Detalhe: o vídeo em si não era sobre política, sua crítica foi moderada e ele nem mesmo se declarou de esquerda ou de direita ou fez campanha política, apenas disse que discorda dessa questão pontual. Foi uma das críticas mais leves que eu já vi, pra falar a verdade, mas o suficiente para muitos “fãs” cancelarem sua inscrição no canal. Estamos falando de pessoas que literalmente não suportam ouvir uma mínima crítica por menor que seja, que acham que todos são obrigados a pensar exatamente da mesma forma que elas, que acham que qualquer um que critica o Bolsonaro é automaticamente um inimigo da nação, um traidor ou um comunista disfarçado (a mesma demonização que os fanáticos do outro extremo sempre fizeram com quem discorda deles, rotulando todo mundo de “fascista” e de “nazista”, indiscriminadamente).
As pessoas se tornam insuportáveis quando se metem em bolhas, e elas se metem em bolhas quando não suportam ouvir o contraditório. Todo o seu vocabulário se torna um amontoado de palavrões, toda a sua vida é dedicada a “combater o mal” (leia-se: todos os que discordam delas) e tudo o que servir para combater esse mal é bem-vindo, mesmo que sejam fake news, mesmo que falte com a verdade, mesmo que seja puro assassinato de reputação, mesmo que seja completamente antiético. É por causa disso que elas aceitam com tanta facilidade as fake news que lhes convém, já que vale tudo para destruir um adversário. Um adversário não: um inimigo.
Pessoas assim aceitam com toda a facilidade do mundo teorias conspiratórias que de algum modo favoreçam sua visão de mundo, uma ideologia ou crença, mas quando se trata de escutar quem pensa diferente com um caminhão de evidências sérias que contradizem suas convicções, repelem com furor e ódio. Repito: isso não é falta de escolaridade ou de estudo, mas de honestidade intelectual. E isso porque todos nós temos mecanismos de defesa no cérebro que nos tornam mais suscetíveis a comprar ideias que concordam conosco e a rejeitar o que discordamos.
Pense por exemplo em um ateu fanático que compartilha qualquer notícia sensacionalista do tipo que diz que “Jesus nunca existiu” ou que foi casado com Maria Madalena. Mesmo que isso tenha sido supostamente dito por um único suposto historiador que ele nem mesmo saiba quem é, prefere compartilhar a notícia e usá-la como “prova” mesmo que todos os historiadores sérios digam o contrário. Não importa a verdade histórica, importa o que concorda com as suas convicções. As revistas mais sensacionalistas e “superinteressantes” por aí usam e abusam disso para vender capas chamativas com “revelações” baseadas em pouco ou nada, já sabendo que vai ter trouxa pra ler.
Ou pense nessas teses famosas na apologética católica, tais como que “a Igreja Católica construiu a civilização ocidental” ou que “as cruzadas salvaram o Ocidente da invasão islâmica”, que são completamente desacreditadas academicamente e tratadas como piada, mas que são citadas à exaustão por proselitistas que não se importam com o consenso historiográfico, mas apenas com o que pode instrumentalizar a seu favor mediante a opinião de meia dúzia de “estudiosos” escolhidos a dedo. Dá até literalmente para contar nos dedos, e de uma mão só: Thomas Woods, Daniel-Rops, Régine Pernoud, Voegelin e acabou. O resto é tudo anticatólico e não pode ser lido (inclusive historiadores católicos sérios como Paul Johnson).
A mais nova moda do momento é a do “verdadeiro nome de Jesus”, que é tão difícil de ser decifrado que nem os próprios conspiracionistas concordam entre si: uns dizem que é Yehoshua, outros que é Yahoshua, outros que é Yaohushua, outros que é Yahoshuah, outros que é Yahoo (igual o do buscador de internet), outros que é Yahshua, e a lista vai longe. Cada um deles acredita que só eles creem no “Jesus verdadeiro” e que os demais creem num falso Cristo, um “deus cavalo” como eles chamam, porque falamos e escrevemos seu nome errado (Yeshua no hebraico, que em grego é Iesus e em português Jesus).
O curioso é que desses aí quase ninguém sabe uma única palavra de hebraico, nenhum deles cursou o idioma em lugar nenhum e a maioria não sabe escrever nem em português direito, mas mesmo assim querem palpitar sobre o “verdadeiro nome” de Jesus que todos os eruditos, linguistas, tradutores e estudiosos que passaram décadas estudando o idioma ao longo de milhares de anos erraram esse tempo todo. Mas se essas pessoas não sabem hebraico e nem estão apoiadas num consenso acadêmico, como elas sabem que o “verdadeiro nome” de Jesus é na verdade Yehoshua (ou Yahoshua, ou Yahshua, ou Yahoo, etc)? 
A verdade é que elas não sabem, mas creem nisso assim mesmo e com toda a firmeza, como se soubessem com perfeita clareza. E a razão pela qual elas pensam que sabem tão bem disso é porque já estavam predispostas a aceitar como verdade qualquer coisa que “refutasse” a ortodoxia cristã, porque são pessoas magoadas com igrejas, pastores, irmãos e templos (muitas vezes com certa razão). E como passaram a odiar tudo o que remonta ao Cristianismo “tradicional”, se tornaram extremamente suscetíveis a ideias escabrosas e inovações de deixar qualquer um de cabelo em pé. 
Tudo depende do quão condicionada a pessoa está para abraçar como verdade qualquer coisa que queira. Muitos tem convicções tão frágeis que precisam se apegar a qualquer coisa que sirva para fortalecer essas convicções – daí a tendência tão grande de se aceitar como verdade as fake news mais toscas que existem, ou os argumentos mais frágeis do mundo. Em apologética isso é totalmente comum. Este artigo a princípio se chamaria “Por que existem tantas interpretações diferentes da Bíblia”, mas pensei que uma abordagem mais geral responderia a isso com mais clareza, porque não se trata apenas da forma como a pessoa lê a Bíblia, mas como ela lê a vida. 
Nós interpretamos a Bíblia da mesma forma que interpretamos o mundo, por isso tanta gente aceita “fake news” em forma de versículos isolados, trechos truncados, passagens fora de contexto e interpretações bizarras, que resultam em malabarismos tão grotescos para tentar defender uma coisa que é de se perguntar seriamente se o próprio indivíduo acredita no que diz. E a julgar pelo modo como as pessoas agem na vida, é de se pensar que sim, não por falta de formação ou estudo, mas por esse inexplicável vício em se apegar aos velhos conceitos que aceitou como verdade absoluta.

Fonte: http://www.lucasbanzoli.com/

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