10 apelos aos pregadores da prosperidade
Nas
últimas décadas, estudiosos e missiologistas observaram uma enorme e
contínua mudança no cristianismo global. Lamin Sanneh, o falecido
professor de história e cristianismo mundial, na Universidade de Yale,
usou a expressão “de tirar o fôlego”, para descrever a nova situação, em
seu livro de 2008, Disciples of All Nations.
“Entre os muitos desenvolvimentos de tirar o fôlego da Segunda Guerra Mundial e as eras coloniais subsequentes, poucos são mais impressionantes do que o ressurgimento do cristianismo mundial. Com uma inércia inabalável, o cristianismo se tornou, ou está se tornando, rapidamente, a principal religião dos povos do mundo. As sociedades primitivas, que antes estavam bem fora da órbita principal da fé, se tornaram grandes centros de impacto cristão, enquanto a Europa e a América do Norte, uma vez consideradas o coração da religião, estão em notável recessão. Parece que estamos no meio de grandes mudanças e realinhamentos culturais cujas implicações só agora começam a ficar claras.” (xix)
Europa
e América não são mais o centro de gravidade no cristianismo mundial. O
centro está mudando para o sul e leste. As igrejas da América Latina,
África e Ásia estão experimentando um crescimento fenomenal e estão se
tornando as grandes igrejas missionárias.
Apresentando o Sul Global
A
nova terminologia que foi introduzida em nosso vocabulário é o termo
Sul Global, uma referência ao surpreendente crescimento da igreja cristã
na África, América Latina e Ásia, enquanto os antigos centros
dominantes de influência cristã na Europa estão se enfraquecendo. Por
exemplo:
- “No início do século XX”, escreve a professora Dana Robert, “os europeus dominavam a igreja mundial, com aproximadamente 70,6% da população cristã do mundo. Em 1938, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o aparente domínio europeu do protestantismo e do catolicismo permaneceu forte. No entanto, no final do século XX, a porcentagem europeia do cristianismo mundial havia encolhido para 28% do total; A América Latina e a África combinadas compreendiam 43% dos cristãos do mundo.” (“Shifting Southward: Global Christianity Since 1945”, 50).
- O professor Philip Jenkins escreve que, “em 1900, a África tinha 10 milhões de cristãos, representando cerca de 10% da população; em 2000, esse número havia crescido para 360 milhões, representando cerca de metade da população. Quantitativamente, essa pode ser a maior mudança de afiliação religiosa que já ocorreu em qualquer lugar.” (“Believing in the Global South”, 13)
- “Até 2050, o cristianismo será a principal religião da África e da diáspora africana,” continua Jenkins. “Até lá, haverá cerca de três bilhões de cristãos no mundo, e a população daqueles que serão brancos e não latinos estará entre um quinto e um sexto do total.” (12)
Nas
palavras do historiador Mark Noll (escrevendo em 2013): “A igreja
cristã experimentou uma redistribuição geográfica maior nos últimos
cinquenta anos do que em qualquer outro período comparável em sua
história, com exceção dos primeiros anos da história da igreja.” (The New Shape of World Christianity, 21).
O Sul Global e o Evangelho da Prosperidade
Como
muitos tem reconhecido, no entanto, há uma grande ambiguidade na atual e
magnífica expansão do cristianismo: nem todas as formas dessa fé são
baseadas no que o apóstolo Paulo chama de “sã doutrina” (Tt 1. 9; 2. 1).
Michael Horton faz essa observação preocupante:
“A celebração da tão anunciada expansão do cristianismo em dois terços do mundo (mais notavelmente nos últimos anos, conforme The Next Christendom,
de Philip Jenkins) deve, pelo menos, ser “temperada” com o fato de que o
evangelho da prosperidade é a versão mais explosiva desse fenômeno.” (Christless Christianity, 45).
O
“evangelho da prosperidade” é um ensinamento que enfatiza o objetivo de
Deus de tornar os crentes saudáveis e ricos nesta vida, enquanto
negligencia, ou minimiza os perigos da riqueza, o chamado bíblico para
uma mentalidade de “tempos de guerra” e a necessidade e os propósitos do
sofrimento.”
O
evangelho da prosperidade seria representado por um dos principais
pregadores africanos da prosperidade, citado em um artigo de Isaac Phiri
e Joe Maxwell, que diz: “Muitos ignoram o fato de que Deus já fez com
que seus filhos fossem ricos aqui na terra. Quando digo rico, quero
dizer muito, muito rico. . .. Liberte-se! Não é pecado desejar ser rico”
(“Gospel Riches”, 23).
Fico
profundamente preocupado quando um pregador incentiva uma multidão a
doar US $ 200 para “se abrir à bênção” em uma cultura em que um
professor ganha US $ 150 por mês. No entanto, mais de 300 pessoas se
apresentam para receber o óleo do pregador e “em questão de minutos, a
igreja arrecada US $ 60.000 livre de impostos” (23).
A
extensão do ensino na África é notável. Em uma pesquisa de 2006, Pew
perguntou aos entrevistados se Deus “concederia prosperidade material a
todos os crentes que têm fé suficiente”. Cerca de 85% dos pentecostais
quenianos, 90% dos pentecostais sul-africanos e 95% dos pentecostais
nigerianos disseram que sim (24).
“A
pior marca do ensino da prosperidade africana é que ele, talvez seja,
sem surpresa, uma exportação americana”, escrevem Phiri e Maxwell (24). A
televisão tornou-se uma sala de ensino religioso para muitos na África.
“As pessoas ligam a TV e assumem que o TBN é o cristianismo americano, e
os americanos sabem tudo, então por que não ouvi-lo?” (25) E, claro, o
ensino da prosperidade não é exclusivo da América e da África. Tem suas
formas latinas e asiáticas e pode ser encontrado em todo o Sul global,
de Seul a São Paulo.
Dez Apelos aos Pregadores da Prosperidade
O
que dizer sobre o evangelho da prosperidade? A primeira coisa que
devemos dizer é que os ocidentais ricos provavelmente são tão culpados
por seus excessos quanto os pobres do Sul global. A diferença é que os
pobres não têm riqueza e a querem, enquanto os ricos a têm, esperam
mantê-la e ficam com raiva se Deus a toma. Ambos têm o coração voltado
para a prosperidade. É apenas mais sutil no Ocidente, porque podemos
considerar a prosperidade garantida. É por isso que, quando eu era
pastor, passei mais tempo chamando nossa igreja para viver de maneira
diferente do que chamando o Sul Global para pensar de maneira diferente.
Eu sou mais responsável pelos pecados em minha casa.
Mas
a forma como pensamos sobre dinheiro e posses é profundamente
importante para a maneira como realizamos missões e na maneira como
discipulamos. Então, eu gostaria de dar uma resposta bíblica ao
evangelho da prosperidade. Ao apontar algumas de suas fraquezas,
pretendo ter em mente meus próprios pecados, e espero lembrar que esse
não é um movimento monolítico, e que prosperidade é um termo relativo.
Prosperidade,
em uma parte do mundo significaria um teto sobre a sua cabeça, com
comida na mesa algumas vezes por dia e água potável. “Atualmente, cerca
de 315 milhões de africanos subsaarianos vivem com menos de um dólar por
dia” (“Gospel Riches”, 27). E o que chamaríamos de um estilo
de vida modesto nos Estados Unidos (com uma casa, um carro,
eletricidade, refrigeração, esgoto, água potável, aquecimento central,
um computador, um telefone, várias mudas de roupa e opções inéditas em
mantimentos) seria muita ostentação na maior parte do mundo. Essa é uma
das razões pelas quais as críticas aos pregadores da prosperidade devem
ser sutis e cautelosas.
Outra
cautela para os críticos é que existem diferentes maneiras de pensar
sobre como o cristianismo traz prosperidade. Poucos discordariam que um
movimento de honestidade, trabalho duro, paciência, generosidade,
perseverança e amor à excelência, impulsionado pelo evangelho, com o
tempo levantasse uma cultura da disfunção da corrupção e proporcionasse
tempos mais estáveis e prósperos. Se fosse isso que os pregadores da
prosperidade estivessem dizendo, haveria pouca controvérsia.
Mas,
devido à maneira pródiga que os pregadores da prosperidade costumam
viver, mesmo para os padrões ocidentais – voando em jatos pessoais,
vivendo em casas palacianas com oito banheiros e passando a noite em
suítes de US $ 5.000 – e considerando a maneira como vestem o evangelho
eterno de Cristo com as vestes do mundanismo, parece-me prudente dar uma
resposta bíblica planejada. Vou colocar esta resposta na forma de dez
apelos. Não estou ansioso para difamar, mas para redimir e transformar.
1. Não pregue um evangelho que coloque obstáculos desnecessários no caminho das pessoas para o céu
Jesus
disse: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm
riquezas!” Seus discípulos ficaram surpresos, como muitos no movimento
da prosperidade deveriam ficar. Por isso, Jesus aumentou ainda mais o
espanto ao dizer: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma
agulha do que uma pessoa rica entrar no reino de Deus”. Eles responderam
incrédulos: “Então quem pode ser salvo?” Jesus disse: “Para os homens é
impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.”
(Mc 10.23-27).
A
resposta de Jesus mostra que o espanto dos discípulos era justificável.
Um camelo não pode passar pelo fundo de uma agulha. Isso não é uma
metáfora para algo que exige grande esforço ou humilde sacrifício. Isso
não pode ser feito. Sabemos disso porque Jesus disse: Impossível! Essa é
a palavra dele, não a nossa. “Para o homem é impossível.” O ponto é que
a mudança necessária, do coração, é algo que o homem não pode fazer por
si mesmo. Deus deve fazer isso.
Nós
não podemos, por nós mesmos, parar de gostar de dinheiro mais do que de
Cristo. Mas Deus pode. São boas novas. E isso deve ser parte da
mensagem que os pregadores da prosperidade anunciam antes de atrair as
pessoas a se tornarem mais como camelos. Por que um pregador pregaria um
evangelho que incentive o desejo de ser rico e, assim, convencer as
pessoas de sua incapacidade natural para o reino de Deus?
2. Não pregue um evangelho que desperte desejos suicidas nas pessoas
O
apóstolo Paulo alertou contra o desejo de ser rico. E, por implicação,
ele alertou contra os pregadores que despertam o desejo de ser rico, em
vez de ajudar as pessoas a se livrarem dele. Ele avisou:
“Ora,
os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas
concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na
ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e
alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram
com muitas dores.” (1Tm 6.9-10).
Essas
são palavras muito sérias, mas elas não parecem ecoar na pregação do
evangelho da prosperidade. Não é errado que os pobres desejem, em alguma
medida, prosperidade para que tenham o que precisam e possam ser
generosos e dedicar tempo e energia a tarefas que exaltam a Cristo, além
de se esforçarem para sobreviver. Não é errado buscar a ajuda de Cristo
nesta procura. Ele se preocupa com as nossas necessidades (Mt 6.33).
Mas
todos nós – pobres e ricos – estamos constantemente em risco de colocar
nossas afeições (1Jo 2.15-16) e nossa esperança (1Tm 6.17) nas
riquezas, em vez de em Cristo. Esse desejo de ser rico é tão forte e tão
suicida que Paulo usa uma linguagem muito forte para nos alertar. Meu
apelo é que os pregadores da prosperidade façam o mesmo.
3. Não pregue um evangelho que incentive a vulnerabilidade à traça e à ferrugem
Jesus
adverte contra o esforço de acumular tesouros na terra; isto é, ele nos
diz para sermos doadores, não guardadores. “Não acumuleis para vós
outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde
ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu,
onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam;”
(Mt 6. 19-20).
Sim,
todos nós sempre mantemos algo. Jesus assume isso. Ele não espera,
exceto em casos extremos, que nossas doações signifiquem que não seremos
mais capazes de doar. Pode haver um momento em que daremos nossa vida
por alguém e, portanto, não poderemos mais dar. Mas, normalmente, Jesus
espera que vivamos de uma maneira que haja um padrão contínuo de
trabalho e ganho, de vida simples e doação contínua.
Mas,
dada a tendência interna à cobiça em todos nós, Jesus acha necessário
nos advertir contra o acúmulo de tesouros na terra. Parece ganho, mas
leva apenas à perda (“a traça e a ferrugem corroem e os ladrões escavam e
roubam”). Meu apelo é que a advertência de Jesus encontre um forte eco
na boca dos pregadores da prosperidade.
4. Não pregue um evangelho que faça do bom trabalho um meio de enriquecer
Ficar
rico não é a finalidade do trabalho. Em Efésios, Paulo diz que não
devemos roubar, mas trabalhar duro com nossas próprias mãos. Entretanto o
objetivo principal não é meramente acumular ou mesmo ter. O objetivo é
ter para dar.
“Aquele
que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias
mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.” (Ef
4.28). Essa não é uma justificativa para ser rico, a fim de dar mais. É
uma decisão de ganhar mais e manter menos, para que você possa dar mais.
Não há razão para que uma pessoa que prospera cada vez mais em seus
negócios aumente indefinidamente o luxo de seu estilo de vida. Paulo
diz: “Limite o suficiente para suas despesas e dê o restante”.
Não
consigo determinar seu limite. Mas em todos os textos que estamos vendo
neste artigo, há um impulso em direção à simplicidade e generosidade
ampla, não em relação a posses luxuosas. Por que os pregadores
incentivariam as pessoas a pensarem que deveriam possuir riqueza para
ser um doador pródigo? Por que não incentivá-los a manter suas vidas
mais simples e a ser um doador ainda mais pródigo? Isso não
acrescentaria à generosidade deles um forte testemunho de que Cristo, e
não suas posses, são o seu tesouro?
5. Não pregue um evangelho que contribua para que as pessoas sejam sufocadas até a morte
Jesus
adverte que a palavra de Deus, o evangelho, que se destina a nos dar
vida, pode ser sufocado até a morte pelas riquezas. Ele diz que isso é
como uma semente que cresce entre os espinhos: “são os que ouviram e, no
decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites
da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer. (Lc 8.14).
Os
pregadores da prosperidade deveriam alertar seus ouvintes de que existe
um tipo de prosperidade financeira que pode sufocá-los até a morte. Por
que incentivaríamos as pessoas a seguir exatamente o que Jesus adverte
que pode torná-las infrutíferas?
6. Não pregue um evangelho que retire o tempero do sal e coloque a luz sob um vaso
O
que há nos cristãos que os torna o sal da terra e a luz do mundo? Não é
riqueza. O desejo de riqueza e a busca pela riqueza têm o gosto do
mundo e se parecem com o mundo. Desejar ser rico nos faz gostar do
mundo, e não sermos diferentes. No exato momento em que devemos provar
aquilo que é diferente, temos a mesma cobiça que o mundo possui. Nesse
caso, não oferecemos ao mundo nada diferente do que ele já acredita.
A
grande tragédia da pregação da prosperidade é que uma pessoa não
precisa ser despertada espiritualmente para abraçá-la; é preciso apenas
ser gananciosa. Ficar rico no nome de Jesus não é o sal da terra ou a
luz do mundo. Nisso, o mundo simplesmente vê um reflexo de si mesmo. E
se eles são “convertidos” a isso, eles não foram verdadeiramente
convertidos, mas apenas deram um novo nome a uma vida antiga.
O
contexto da parábola de Jesus nos mostra o que são sal e luz. Eles são a
disposição alegre de sofrer por Cristo. Aqui está o que Jesus disse:
“Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Vós sois o sal da terra; … Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5.11-14).
O
que fará o mundo provar o sal e ver a luz de Cristo em nós não é
amarmos a riqueza da mesma maneira que eles. Pelo contrário, será a
vontade e a capacidade dos cristãos de amarem uns aos outros através do
sofrimento, alegrando-se o tempo todo porque sua recompensa está no céu
com Jesus. “Alegrem-se e sejam alegres [nas dificuldades] . . .. Vocês
são o sal da terra”. A salinidade é o gosto da alegria nas dificuldades.
Essa
vida é inexplicável em termos humanos. É sobrenatural. Mas atrair
pessoas com promessas de prosperidade é puramente natural. Não é a
mensagem de Jesus. Não é o que ele morreu para alcançar.
7. Não pregue um evangelho que oculte a necessidade de sofrimento na vida cristã
Falta,
na maioria das pregações da prosperidade, o fato de o Novo Testamento
enfatizar muito mais a necessidade de sofrer do que a noção de
prosperidade material.
Jesus
disse: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do
que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós
outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.” (Jo
15.20). Também disse: “Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais
aos seus domésticos?” (Mt 10.25).
Paulo
lembrou aos novos crentes, em suas jornadas missionárias: “através de
muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.” (At 14.22). E
ele disse aos crentes em Roma que seus sofrimentos eram uma parte
necessária do caminho para a herança eterna.
“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.” (Rm 8.16-18)
Os
pregadores da prosperidade deveriam incluir em suas mensagens
ensinamentos significativos sobre o que Jesus e os apóstolos disseram
sobre a necessidade de sofrer. As tribulações virão, disse Paulo (At
14.22), e prestamos um desserviço aos jovens discípulos em não lhes
contar isso o mais breve possível. Jesus até disse isso antes da
conversão para que os possíveis crentes considerassem o custo: “Assim,
pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode
ser meu discípulo.” (Lc 14.33).
8. Não pregue um evangelho que ignore a mudança de uma religião “venha para ver” no Antigo Testamento para uma religião “vá contar” no Novo Testamento
Uma
mudança fundamental aconteceu com a vinda de Cristo ao mundo. Até
aquele momento, Deus havia concentrado sua obra redentora em Israel com
obras ocasionais entre as nações. Paulo disse: “nas gerações passadas,
[Deus] permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos;”
(At 14.16; ver também At 17.30). Agora o foco mudou de Israel para as
nações. Jesus disse: “Portanto, vos digo [Israel] que o reino de Deus
vos será tirado e será entregue a um povo [discípulos de Cristo] que lhe
produza os respectivos frutos.” (Mt 21.43). “… veio endurecimento em
parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios”. (Rm
11.25).
Uma
das principais diferenças entre essas duas épocas é que, no Antigo
Testamento, Deus se glorificou amplamente abençoando Israel para que as
nações pudessem ver e saber que o Senhor é Deus. “… para que faça ele [o
SENHOR] justiça ao seu servo e ao seu povo de Israel, segundo cada dia o
exigir, para que todos os povos da terra saibam que o SENHOR é Deus e
que não há outro.” (1Rs 8. 59-60). Israel ainda não havia sido enviado
em uma Grande Comissão para reunir as nações; antes, ele foi glorificado
para que as nações vissem sua grandeza e se achegassem a ele.
Assim,
quando Salomão construiu o templo do Senhor, ele era espetacularmente e
luxuosamente recoberto com ouro e, quando ele o mobiliou, o ouro voltou
a ser igualmente abundante (1Rs 6. 20-22; 7. 48-50). Salomão levou sete
anos para construir a casa do Senhor. Depois, levou treze anos para
construir sua própria casa (1Rs 6. 38−7. 1). Que também era luxuosa com
ouro e pedras caras.
Então,
quando tudo estava construído, o ápice dessa opulência é visto em 1Rs
10, quando a rainha de Sabá, representando as nações gentias, vem ver a
glória da casa de Deus e de Salomão. Quando ela viu, “ficou com fora de
si” (1Rs 10. 5). Ela disse: “Bendito seja o SENHOR, teu Deus, que se
agradou de ti para te colocar no trono de Israel; é porque o SENHOR ama a
Israel para sempre, que te constituiu rei,” (1Rs 10. 9).
Em
outras palavras, o padrão no Antigo Testamento é uma religião de “venha
para ver”. Existe um centro geográfico do povo de Deus. Existe um
templo físico, um rei terreno, um regime político, uma identidade
étnica, um exército para combater as batalhas terrenas de Deus e um
bando de sacerdotes para fazer sacrifícios de animais pelos pecados.
Com
a vinda de Cristo, tudo isso mudou. Não há centro geográfico para o
cristianismo (Jo 4.20-24); Jesus substituiu o templo, os sacerdotes e os
sacrifícios (Jo 2.19; Hb 9. 25-26); não há regime político cristão
porque o reino de Cristo não é deste mundo (Jo 18.36); e não lutamos
batalhas terrenas com carros e cavalos ou bombas e balas, mas
espirituais com a Palavra e o Espírito (Ef 6.12-18; 2Co 10.3-5).
Tudo
isso apoia a grande mudança na missão. O Novo Testamento não apresenta
uma religião do “venha para ver”, mas uma religião do “vá contar”.
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi
dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que
estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt
28.18-20).
As
implicações disso são enormes para a maneira como vivemos e a maneira
como pensamos sobre dinheiro e estilo de vida. Uma das principais
implicações é que somos “peregrinos e forasteiros” (1Pe 2.11) na terra.
Não usamos este mundo como se fosse nosso lar principal. “Nossa
cidadania está no céu, e dele aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus
Cristo” (Fp 3.20).
Isso
leva a um estilo de vida de tempos de guerra. Isso significa que não
acumulamos riqueza para mostrar ao mundo o quão rico nosso Deus pode nos
tornar. Trabalhamos duro e buscamos a austeridade de tempo de guerra
pela causa de espalhar o evangelho até os confins da terra. Maximizamos a
doação ao esforço de guerra, sem aumentar o conforto em casa. Criamos
nossos filhos com o objetivo de ajudá-los a abraçar o sofrimento que
lhes custará para terminar a missão.
Portanto,
se um pregador da prosperidade me perguntar sobre todas as promessas de
riqueza para as pessoas fiéis no Antigo Testamento, eu diria: “Leia seu
Novo Testamento com atenção e veja se você vê a mesma ênfase.” Você não
a encontrará. E a razão é que as coisas mudaram dramaticamente.
“Porque
nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.
Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.7-8).
Por quê? Porque o chamado a Cristo é um chamado para “participar do
sofrimento como um bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2.3). A ênfase do
Novo Testamento não é riqueza para atrair-nos ao pecado, mas sacrifício
para nos afastarmos dele.
9. Não pregue um evangelho que minimize o pecado de fazer da piedade um meio de ganho.
O
apóstolo Paulo nos deu exemplo de quão vigilante ele se mantinha para
não dar a impressão de que estava no ministério por dinheiro. Ele disse
que os ministros do mundo têm o direito de ganhar a vida com o
ministério (1Co 9.9-10). Mas então, para nos mostrar o perigo disso, ele
se recusa a usar plenamente esse direito.
“Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais? Se outros participam desse direito sobre vós, não o temos nós em maior medida? Entretanto, não usamos desse direito; antes, suportamos tudo, para não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo.” (1Co 9.11-12)
Em
outras palavras, ele renunciou a um direito legítimo para não dar, a
ninguém, a impressão de que o dinheiro era a motivação de seu
ministério. Ele não queria o dinheiro de seus convertidos: “A verdade é
que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos
gananciosos. Deus disto é testemunha.” (1Ts 2.5).
Ele
preferia trabalhar com as mãos do que dar a impressão de que estava
vendendo o evangelho: “De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes;
vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a
mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que,
trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as
palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que
receber.” (At 20.33-35).
Ele
sabia que havia mercadores ambulantes da Palavra de Deus que pensavam
que “a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5-6). Mas ele recusou-se a fazer
qualquer coisa que o colocasse nessa categoria: “Porque nós não
estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em
Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do
próprio Deus.” (2Co 2.17).
Muitos
pregadores da prosperidade não apenas dão a impressão de que vendem a
palavra de Deus e fazem da piedade um meio de ganho, como também
desenvolvem uma teologia falsa para justificar suas demonstrações
extravagantes de riqueza. Paulo fez exatamente o oposto.
10. Não pregue um evangelho que oculte a verdade bíblica de que o próprio Deus é o maior tesouro.
Minha
maior preocupação com o movimento da prosperidade é que ele diminui
Cristo, tornando-o menos central e menos satisfatório do que seus dons.
Cristo não é mais glorificado por ser o doador de riquezas. Ele é mais
glorificado ao satisfazer as almas daqueles que se sacrificam para amar
os outros no ministério do evangelho.
Quando
glorificamos a Cristo como aquele que nos enriquece, glorificamos as
riquezas, e Cristo se torna um meio para o fim do que realmente queremos
– a saber, saúde, riqueza e prosperidade. Mas quando glorificamos a
Cristo como aquele que satisfaz nossa alma para sempre – mesmo quando
não há saúde, riqueza e prosperidade, Cristo é glorificado como mais
precioso do que todos esses dons.
Vemos
isso em Filipenses 1.20-21. Onde Paulo diz: “segundo a minha ardente
expectativa e esperança…, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer
pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o
morrer é lucro.” (Fp 1.23).
Esta
é a nota que falta na pregação da prosperidade. O Novo Testamento visa a
glória de Cristo, não a glória de seus dons. Para deixar isso claro,
ele coloca toda a vida cristã sob a bandeira da alegre abnegação. “Se
alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e
siga-me.” (Mc 8.34). “Estou crucificado com Cristo” (Gl 2.20).
Mas
mesmo que a abnegação seja o caminho difícil que leva à vida (Mt 7.14),
é o mais alegre de todos os caminhos. “O reino dos céus é semelhante a
um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado,
escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e
compra aquele campo.” (Mt 13.44). Jesus diz que encontrar Cristo como
nosso tesouro torna todos os outros bens alegremente dispensáveis.
“transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele
campo.”
Não
quero que os pregadores da prosperidade parem de chamar as pessoas para
a alegria máxima. Pelo contrário, apelo para que parem de incentivar as
pessoas a buscar sua alegria nas coisas materiais. A alegria que Cristo
oferece é tão grande e tão durável que nos permite perder a
prosperidade e ainda nos alegrar. “… aceitastes com alegria o espólio
dos vossos bens, tendo ciência de possuirdes vós mesmos patrimônio
superior e durável.” (Hb 10.34). A graça de ser alegre na perda de
prosperidade – esse é o milagre que os pregadores de prosperidade devem
buscar. Seria o sal da terra e a luz do mundo. Isso exaltaria a Cristo
como extremamente valioso.
Jesus edificará sua igreja
Deus
é soberano sobre o mundo e sobre a missão de sua igreja. Toda
autoridade pertence a ele no céu e na terra (Mt 28.18). A nova
configuração do cristianismo mundial é obra dele. Ele está construindo
sua igreja (Mt 16.18). Suas bênçãos e deformidades estão sob seu domínio
soberano. O evangelho do reino será pregado como testemunho a todos os
povos não alcançados do mundo (Mt 24.14). O Senhor da colheita cuidará
para que os trabalhadores sejam enviados e que a colheita seja feita (Mt
9.38). O bom pastor tem outras ovelhas fora do aprisco, e ele deve
trazê-las também. Elas ouvirão a sua voz, e haverá um só rebanho e um só
pastor (Jo 10.16).
O
preço de terminar esta missão será muito sacrifício e muitas vidas (Cl
1.24; Ap 6.11). O combustível desse sacrifício não será o amor ao
dinheiro ou a paixão pela prosperidade; será o amor por Cristo e uma
paixão por sua glória. Que o Senhor purifique sua igreja. Que ele refine
como ouro a crescente fé do Sul Global. E que ele se lembre da
misericórdia e conceda à Europa e à América um grande despertar para a
glória de seu nome e a alegria das nações.
Por: John Pipper
é
doutor em Teologia pela Universidade de Munique e fundador do
desiringGod.org e chanceler no Bethlehem College & Seminary. Ele
serviu por 33 anos como pastor principal da Bethlehem Baptist Church em
Minneapolis, Minnesota. Piper é autor de diversos livros, incluindo.
Fonte: cristaoreformado.com.br


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