Eu
raramente peço isso, mas dessa vez é realmente importante: se você ainda não
leu os meus artigos sobre os irmãos de Jesus, volte e os leia antes de ler este
aqui, pois será de fundamental importância para compreender o artigo presente e
dispensará explicações adicionais que já foram feitas nesses artigos antigos. No
índice
de artigos sobre catolicismo há 13 artigos
sobre o tema, mas para não sobrecarregá-lo de artigos, confira principalmente este
aqui sobre por que os irmãos de Jesus
não podem ser seus primos. Feito isso, vamos ao artigo.
***
No artigo
anterior, sobre a ressurreição de Jesus,
nós falamos sobre as quatro(?) mulheres que foram ao sepulcro logo cedo na
manhã da ressurreição, sendo elas Salomé (Mc 16:1), Joana (Lc 24:10), Maria
Madalena (Mt 28:1) e alguém chamada Maria que é descrita como mãe de Tiago e de
José, segundo Mateus e Marcos (Mt 27:56; Mc 15:40), ou simplesmente a mãe de
Tiago, de acordo com o relato de Lucas (Lc 24:10). Se você leu o artigo
anterior, já sabe que isso não é nenhum problema em se tratando de “contradições”
bíblicas, uma vez que é comum a Bíblia se referir a um ou alguns indivíduos em
específico dentro de um grupo maior.
Se alguém
dissesse que minha mãe é mãe do Lucas, ninguém diria que isso é mentira, mesmo
que ela tenha outros filhos além de mim. Da mesma forma, o fato de Lucas se
referir a Maria somente como mãe de Tiago não significa necessariamente que só
Tiago era filho dela, e o fato de Mateus e Marcos a citarem somente como mãe de
Tiago e José não significa necessariamente que só Tiago e José eram seus
filhos. Significa apenas que Tiago e José eram filhos dessa Maria, da mesma
forma que podemos dizer que José e Benjamim eram filhos de Jacó, sem com isso
excluir a existência dos outros onze filhos.
Curiosamente,
a Bíblia menciona uma Maria que era mãe de um Tiago e um José. Trata-se dessa
aqui:
“Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago,
José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs? E ficavam
escandalizados por causa dele” (Marcos 6:3)
Sim,
Jesus era irmão (adelphos no grego, e não anepsios, primo) de um
Tiago e um José, e, é claro, era filho de Maria. Temos aqui, portanto, uma
Maria que era mãe de pelo menos sete filhos (incluindo Jesus e pelo menos duas
irmãs, já que são mencionadas no plural), seguindo à risca o costume judaico de
ter muitos filhos (o que era visto como uma bênção divina, talvez a maior que
uma mulher podia receber, a julgar pelos relatos do AT envolvendo Ana, Raquel e
etc).
Mas
os católicos, crentes no dogma da virgindade perpétua de Maria,
contestam essa ideia, alegando que Tiago e José eram primos de Jesus,
filhos da
irmã de Maria que por um acaso também se chamava Maria. Eles se apegam
ao
seguinte texto de João, que diz:
“E
junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de
Clopas, e Maria Madalena” (João 19:25)
Como eu
destaco no artigo
sobre esse texto, o grego apresenta uma
ambiguidade reconhecida por qualquer linguista: ele não deixa claro se «Maria
mulher de Clopas» era apenas uma especificação de quem era a irmã de Maria
(como argumentam os católicos), ou se era de fato uma outra pessoa citada na
sequência lógica do texto. Em outras palavras, na leitura católica nós temos
três mulheres ao pé da cruz: (1) a mãe de Jesus, (2) a irmã da mãe de Jesus, que
era Maria de Clopas, e (3) Maria Madalena. Já na leitura protestante,
nós temos quatro mulheres: (1) a mãe de Jesus, (2) a irmã da mãe de Jesus, (3)
Maria de Clopas, (4) Maria Madalena.
Note que
o fato da irmã da mãe de Jesus não ser citada nominalmente nesta ocasião não
significa que ela seja a Maria de Clopas mencionada em seguida, porque João
também não cita o nome da mãe de Jesus, diz apenas que “estava a sua mãe”,
assim como diz apenas que estava “a irmã de sua mãe”. Mas a razão pela qual
devemos definitivamente abandonar qualquer pretensão no sentido de enxergar as
duas como sendo irmãs é das mais óbvias: nenhum pai judeu daria o mesmo nome
para duas filhas. Um bom observador irá notar que a Bíblia toda menciona
milhares de irmãos e irmãs, mas nunca dois com o mesmo nome.
Para
piorar, naquela época não existiam sobrenomes, da forma que existem hoje. Por
isso, quase sempre que a Bíblia menciona alguém, o identifica a partir do grau
de parentesco com outra pessoa (principalmente o pai). Por exemplo, sabemos que
entre os doze apóstolos originais haviam dois Tiagos. Como diferenciá-los?
Simples: um era chamado de “Tiago de Zebedeu” (ιακωβον
τον του
ζεβεδαιου), e o outro de
“Tiago de Alfeu” (ιακωβον τοντου
αλφαιου). Na ausência
de sobrenomes, o pai era o referencial mais próximo.
Nas
poucas vezes que a Bíblia usa o termo “sobrenome”, não é no sentido usual
moderno de um nome composto (como “Lucas Banzoli”), mas sim uma referência ao
nome grego que a pessoa levava. Neste sentido, Pedro era Cefas, o nome
hebraico, e também Petrus, o nome grego. Eu seria Lucas, o nome
em português, e Luke, o nome em inglês (não conte pra ninguém, mas em
grego eu seria Loukas – graças a Deus existe a transliteração). Mas isso
não é o mesmo que dizer que eu tenho um “sobrenome” no sentido moderno do
termo. Cada um tinha um nome só, embora este único nome tivesse transliterações
diferentes dependendo de cada idioma.
Voltando
para o texto de João, se a irmã de Maria também se chamava Maria, temos aqui um
problema gravíssimo: um pai hebreu que teria dado o mesmo nome (Miriã, o nome hebraico, ou Maria, o nome grego) para duas de suas filhas, o que é um
completo absurdo. Isso, repito, não tem paralelo nem na Bíblia, nem na história
antiga, nem em lugar nenhum. Só um pai completamente lesado daria exatamente o
mesmo nome às suas duas filhas, ainda mais numa época em que não havia
sobrenomes. É o tipo de coisa que só a apologética católica é capaz de nos
proporcionar.
Para
piorar ainda mais as coisas, os papistas defendem que nunca existiu um terceiro
Tiago irmão de Jesus, mas apenas dois Tiagos (os dois que constam entre os doze
apóstolos), sendo um deles primo de Jesus (o Tiago filho de Alfeu). Só tem um
problema: se esse Tiago fosse mesmo o primo de Jesus, ele teria que ser filho
dessa suposta Maria irmã da mãe de Jesus. Só que o texto de João é claro em
dizer que ela era mulher de Clopas, não de Alfeu (Jo 19:25)! Todas as
vezes que esse Tiago é citado na Bíblia é como o filho de Alfeu, nunca como
filho de Clopas (Lc 6:15; Mt 10:3; Mc 3:18; At 1:13).
E como se
pudesse piorar mais, o mesmo evangelista Lucas que chamou Tiago de filho de
Alfeu nas duas ocasiões em que se referiu a ele (Lc 6:15; At 1:13) chama o
marido dessa outra Maria de Cleopas (Lc 24:18), uma variante de Clopas. Nem
sequer podemos dizer que “Cleopas” ou “Clopas” é o mesmo nome de Alfeu só que
numa forma grega, já que a forma semítica mais próxima de “Clopas” seria “Qalouphai”,
que como você deve ter notado, não tem nada a ver com Alfeu. E, é claro, Lucas
não teria razão nenhuma para chamar esse homem de Alfeu e depois chamar o mesmo
indivíduo por outro nome totalmente diferente, como se estivesse se esforçando
em confundir seus leitores.
A
conclusão disso tudo é óbvia: a irmã de Maria não é Maria de Clopas, a
qual é uma personagem totalmente à parte (e também não é mãe do Tiago filho de
Alfeu; portanto, não era tia de Jesus e nem este era seu primo). Portanto, a
única Maria que pode ser a mãe de Tiago e José é a mãe de Jesus, sendo estes os
seus irmãos, exatamente conforme Marcos 6:3.
Uma
objeção frequente a essa conclusão é quando se questiona por que Mateus, Marcos
e Lucas a citariam nessas ocasiões apenas como a mãe de Tiago ou como a mãe de
Tiago e José, em vez de chamá-la de a mãe de Jesus, como geralmente ocorre na
Bíblia. Antes de responder a isso, eu tenho uma pergunta melhor: por que raios
esses mesmos evangelistas teriam omitido por completo o fato da mãe de Jesus
estar ao pé da cruz, como diz João? Leia os textos novamente. Se a Maria citada
nos sinópticos não é a mesma Maria mãe de Jesus, significa que os três
evangelistas simplesmente ignoraram a sua presença no Gólgota como se não
tivesse importância:
“E
junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de
Clopas, e Maria Madalena” (João 19:25)
“Muitas mulheres estavam ali, observando de longe. Elas haviam
seguido Jesus desde a Galileia, para o servir. Entre elas estavam Maria
Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu” (Mateus
27:55-56)
“Algumas mulheres estavam observando de longe. Entre elas
estavam Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, o mais jovem, e de
José. Na Galileia elas tinham seguido e servido a Jesus. Muitas outras
mulheres que tinham subido com ele para Jerusalém também estavam ali” (Marcos
15:40-41)
“As mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a
Galileia, seguiram José e viram o sepulcro, e como o corpo de Jesus fora
colocado nele. Então, foram para casa e prepararam perfumes e especiarias
aromáticas. E descansaram no sábado, em obediência ao mandamento” (Lucas
23:55-56)
“No primeiro dia da semana, de manhã bem cedo, as mulheres
tomaram as especiarias aromáticas que haviam preparado e foram ao sepulcro.
(...) Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e
a todos os outros. As que contaram estas coisas aos apóstolos foram Maria
Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas” (Lucas
24:1,9-10)
Lembre-se
que o original grego não tinha divisão por capítulos e versículos, o que
significa que Lucas 24:1 é a sequência imediata de Lucas 23:56, onde Lucas
explica que mulheres eram essas. Caso isso tenha ficado confuso, confira abaixo
cada uma das mencionadas ao pé da cruz em cada evangelho:
Mateus:
1. Maria
Madalena.
2. Maria
(mãe de Tiago e José).
3. A mãe
dos filhos de Zebedeu.
Marcos:
1. Maria
Madalena.
2.
Salomé.
3. Maria
(mãe de Tiago e José).
Lucas:
1. Maria
Madalena.
2. Joana.
3. Maria
(mãe de Tiago).
João:
1. Mãe de
Jesus.
2. Irmã
da mãe de Jesus.
3. Maria
de Clopas.
4. Maria
Madalena.
Sabemos
através de João que a mãe de Jesus estava ao pé da cruz, e também sabemos que
os outros evangelhos narram a presença de uma Maria ao pé da cruz (que
“coincidentemente” é mãe de dois que constam entre os irmãos de Jesus). Se a
narrativa da apologética católica estiver correta, significa simplesmente que Mateus,
Marcos e Lucas ignoraram solenemente a presença da mãe de Jesus, que seria
obviamente a presença mais importante. Quem em sã consciência iria deixar de
mencionar a presença da própria mãe de Jesus vendo o seu filho crucificado,
para em vez disso narrar apenas a presença da sua irmã, uma tia de Jesus que
não é mencionada mais nenhuma vez nos evangelhos? Seria cômico, se não fosse trágico.
Observe
que embora nem todos mencionem os mesmos nomes, todos eles mencionam os mais
importantes e omitem os menos importantes. É por isso que Maria Madalena, uma
das figuras femininas de maior destaque nos evangelhos, é mencionada em todos os
quatro, enquanto Joana, que só é mencionada de passagem duas vezes na Bíblia
(já incluindo essa citação de Lucas), é omitida em três evangelhos. Seguindo
essa lógica, seria um disparate que três evangelhos se “esquecessem” da própria
mãe de Jesus, que seria a presença mais importante, para mencionar a tia dele, sobre
quem não sabemos nada em todo o Novo Testamento, porque esses mesmos
evangelistas não tiveram qualquer interesse em escrever sobre ela.
É lógico
que esse problema não existe se assumirmos que a Maria citada como a mãe de
Tiago e José é justamente a mãe de Jesus (que também é mãe de Tiago e José).
Neste caso, todos os quatro evangelhos a citaram, com a diferença de que um
deles preferiu citá-la como a mãe de Jesus, outro como mãe de Tiago, e outros
dois como mãe de Tiago e José.
Agora
pare e pense: se você fosse a mãe de Jesus e o amasse muito, e depois de
presenciar sua morte soubesse que as mulheres que a acompanham vão para o
sepulcro ungir o corpo do seu filho, o que você faria? Ficaria em casa sem
fazer nada ou iria junto com elas? Lembre-se que a mãe de Jesus acompanhou seu
filho até o pé da cruz. Ela poderia ter dado as costas e ido embora se
quisesse, mas não iria fazer uma desfeita dessas. Mas para os apologistas
católicos, depois de ver seu filho morrer, Maria simplesmente foi embora e não
quis saber de ungir o corpo do seu filho falecido com as mulheres com quem
andava, e com quem certamente tinha contato.
Digo isso
porque, novamente, os relatos da ressurreição falam de uma Maria «mãe de Tiago»
que foi ver o sepulcro junto com as outras mulheres (note que são as mesmas que
acompanharam de perto a crucificação de Jesus):
“Depois do sábado, tendo começado o primeiro dia da semana, Maria
Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (Mateus
28:1)
“Quando terminou o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria,
mãe de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus”
(Marcos 16:1)
“No primeiro dia da semana, de manhã bem cedo, as mulheres
tomaram as especiarias aromáticas que haviam preparado e foram ao sepulcro.
(...) Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e
a todos os outros. As que contaram estas coisas aos apóstolos foram Maria
Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas”
(Lucas 24:1,9-10)
Vamos
recapitular: todas essas mulheres estavam junto com Maria (mãe de Jesus) ao pé
da cruz, por ocasião da sua morte. Então, chegado o terceiro dia, elas decidem
se reunir para ir ao sepulcro, com a finalidade nobre de ungir o corpo de Jesus.
Se essa Maria mãe de Tiago mencionada nos textos não for a mãe de Jesus,
significa que a mãe de Jesus se recusou a visitar o sepulcro para ungir o corpo
do próprio filho, apesar de continuar em Jerusalém (como está claro em Atos 1:14).
Ou então que ela fez isso, mas os evangelistas cometeram a gafe de preferir
ignorá-la por completo novamente, optando mais uma vez por narrar a presença de
pessoas menos relevantes para a história e ocultando as mais importantes. De um
jeito ou de outro, seria bizarro.
Tudo isso
nos leva a crer que a Maria mencionada nos sinópticos como a mãe de Tiago (e de
José) que esteve ao pé da cruz e depois foi ao sepulcro não pode ser outra
senão a mãe de Jesus. É isso o que todas as evidências indicam e qualquer pessoa
honesta e sóbria reconheceria. Mesmo que não tivéssemos nenhuma explicação para
o porquê que os sinópticos preferem se referir a ela como mãe de Tiago nessa
ocasião (e não diretamente como a mãe de Jesus), essa ainda seria a conclusão
óbvia e lógica. Mas quando entendemos que o filho primogênito de Maria estava
morrendo diante de seus olhos, compreendemos melhor por que os evangelistas
preferiram associá-la nesta ocasião à Tiago.
Tiago era
o filho mais velho de Maria depois de Jesus, como é indicado na própria ordem
de Marcos 6:3. E José é o segundo mais velho depois de Jesus, como sugerido
pelo mesmo texto. Como os filhos sobreviventes mais velhos de Maria, eram eles
que cuidariam dela depois da morte de Jesus (mas principalmente Tiago, o mais
velho, que por isso é mencionado sozinho em alguns textos). Ou seja, citá-la
como a mãe de Tiago, ou como a mãe de Tiago e José, era uma forma dos
evangelistas dizerem que a partir daquele momento eram eles que cuidariam dela,
agora que Jesus havia partido. Eram eles os remanescentes de Maria.
João
disse a mesma coisa, embora de outra maneira. Como eu já argumentei
exaustivamente em dois vídeos (veja aqui
e aqui)
e em uma série de artigos (veja aqui,
aqui,
aqui
e aqui),
João não era o discípulo amado de jeito nenhum, e todas as evidências apontam
unanimemente na direção de Tiago, o irmão de Jesus. O que é narrado nessa ocasião?
Vejamos:
“Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem
ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí
está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João
19:26-27)
“Aí
está o seu filho” é praticamente uma forma de dizer que ele não seria mais o
seu filho. Obviamente Maria continuou sendo conhecida como a mãe de Jesus
depois que ele morreu, mas como morto Jesus não poderia cumprir a
responsabilidade legal de um filho mais velho para com uma mãe viúva, que é a
de cuidar dela. Neste sentido, ele estava transferindo essa responsabilidade ao
segundo filho, Tiago: “Aí está a sua mãe”, que é mais do que uma verdade óbvia
em relação ao parentesco, é uma forma de dizer que quem cumpriria o papel de
filho a partir de agora seria ele – eis aí o seu filho, e eis aí a
sua mãe.
Fonte: http://www.lucasbanzoli.com


Nenhum comentário:
Postar um comentário