quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vivendo no Fundo de um Poço

Por: Carl Henry

A onda contracultural da droga representa um esforço ainda mais conspícuo para impulsionar a individualidade humana à transcendência. Rejeitando o cientificismo tecnológico como chave do sentido da vida, ela busca significação pessoal mediante a experiência íntima que explode a consciência. Contornando os baluartes do empirismo científico, promove o que considera o sacramento recreador “fora do corpo” do acontecimento intensamente pessoal, semirreligioso, da espécie antimaterialista.

Alguns viciados descrevem a experiência nos termos do renascimento interno. O número estimado de americanos que usam drogas ilegalmente, de forma casual e como vício, é de aproximadamente 60 milhões; alguns observadores acreditam que uns 40 milhões continuam envolvidos, estando mais de um milhão viciados em cocaína ou crack. Pensa-se que os cristãos evangélicos nos EUA que alegam ter “nascido de novo” espiritualmente ora atinjam o número superior a 60 milhões.

Muito antes do recente movimento contracultural, os evangélicos enfatizavam que a experiência consciente de todo dia da espécie humana é, em certos aspectos, anormal; que a individualidade presente da humanidade está enviesada e requer um novo tipo de vida; e que nenhuma alternativa gratificante existe à parte do elo vital com o reino transcendente por meio da experiência interna dinâmica da regeneração espiritual. A ênfase no novo nascimento espiritual e na vida eterna é um elemento essencial no ensino de Jesus e nos escritos do Novo Testamento. Contudo, as modernas denominações centradas na experiência, mais notavelmente o movimento pentecostal, tendem a isolar essa ênfase da herança orientada de forma confessional e são teologicamente menos precisas que as igrejas do tronco histórico principal. Mesmo que o pentecostalismo esteja, com certeza, afastado de qualquer busca de uma “vida melhor” por meio da química, certos aspectos do pentecostalismo são muito similares aos fenômenos psicodélicos, visto que a ênfase recai sobre a experiência pessoal intensa, independente da comunidade orientada em sentido confessional, ocorrendo em um contexto teologicamente impreciso.

As características experimentais do pentecostalismo, além disso, são usufruídas para destroçar a linguística universal e os limites conceituais. No entanto, uma diferença admirável distancia a experiência pentecostal dos eventos “semirreligiosos” da cultura da droga; do corrente movimento desconstrucionista na filosofia, que rejeita de modo deliberado o teísmo metafísico e toda existência estruturada no logos; e dos pretensos marxistas cristãos que abandonam o sobrenatural. Ainda que ao pentecostalismo falte uma teologia sistemática e suas crenças não estejam estruturadas de modo confessional, ele insiste, porém, na existência objetiva do Deus trino, no senhorio de Jesus Cristo, o Deus-homem, na realidade pessoal do Espírito Santo e na autoridade da Bíblia. Em suma, a oferta pentecostal do modo alternativo de vida promove um contra-argumento à cultura secular da droga. O desconstrucionismo, entrementes, na rejeição do logos e da racionalidade, bem como do Deus de existência objetiva, ontologicamente estende, por assim dizer, implicações extrarracionais específicas ao fenômeno psicodélico.

Em contraste com a precisão confessional do sobrenaturalismo cristão histórico, a exploração psicodélica envolve o relacionamento cognitivamente amorfo com o transcendente; ela produz o misticismo induzido pelas drogas em que a autotranscendência com certeza não está em contato com a realidade além da própria individualidade de alguém. O mundo supostamente mais elevado, em que o eu está imerso, não tem caráter e é indefinível; é transracional ou super-racional, fora do domínio da formulação propositiva. O que constitui a autorrealização de quem passa pela experiência é tão obscuro quanto o que constitui a autotranscendência.

Por conseguinte, defrontamo-nos com abordagens diametralmente opostas à transcendência: seja a experiência psicodélica expandidora da consciência ou a revelação divina propositiva. Muitos, como alguns praticantes, retratam o prazer das drogas alucinógenas como uma espécie de experiência religiosa, pervertendo, na verdade, a psiquê humana e fazendo pouco caso da imagem de Deus à qual os seres humanos são criados. A experiência é separada não só dos critérios racionais, mas também das preocupações morais pelo relaxamento dos imperativos éticos universais há muito reverenciados.

Ela não manifesta ao Transcendente nenhuma resposta inteligivelmente fundada e é destituída de sentido, virtude e dever compartilháveis com o público. O êxtase induzido por meio da química é a volta à mágica; as vibrações substituem os silogismos e a farmacologia substitui a teologia como contexto. Dizer que a experiência psicodélica é análoga ao sacramento espiritual apenas aumenta a ambiguidade contemporânea concernente à definição da religião e da experiência religiosa. O atual enaltecimento da experiência interna como dimensão definitiva não se dá sem estar relacionada à ignorância cultural e teológica dos dias atuais.

No ponto em que vai de encontro à cultura da droga, o cristianismo subteológico, todavia, na maior parte oferece uma contraexperiência elementar demais para registrar consequências profundas na sociedade. Há o risco adicional de que a geração de viciados em drogas repute a conversão ao cristianismo apenas como uma troca de um conjunto de sentimentos por outro. Uma quantidade demasiadamente grande de americanos crê, como observa Russell Hittinger, “que a experiência religiosa a contento pode ser tida sem se preocupar com verdades proposicionais”.[25]

Esse contraste ampliador entre a experiência espiritual privada e a verdade compartilhável em público, ampliador até o ponto de ambiguidade quando diz respeito a um objeto religioso transcendente, junto com a ênfase na criatividade pessoal em relação à metafísica, tem implicações de longo alcance.

O conhecimento revelacional mediado é desvalorizado; além disso, o termo revelação é aproveitado no caso de alguém, pela mera ingestão de algum composto químico em particular, buscar por relacionamentos internos imediatos com o mundo supremo e por alguma coisa sentida de forma direta e divina (em sentido místico). Semelhante procedimento não é diferente do empenho de mergulhar a si mesmo em um mundo novo e diferente mudando para os canais de televisão eróticos em busca de orgasmo psíquico.

Na ausência de controles epistêmicos e éticos fixados, a geração delirante e dependente de drogas está fadada à existência sem direção. Desprendida da racionalidade e da moralidade, sua chamada experiência religiosa logo desmorona para o sub-racional e subético. Submergir Deus em dados inexprimíveis é o primeiro passo para levar a deidade à morte. Tão logo Deus é empurrado para a beira da linguagem, o cristianismo será criticado, e não surpreendentemente, por tentar defini-lo.[26]

O que está em jogo aqui não é só o valor e o sentido individuais, bem como o propósito do universo, mas também alguma compreensão da existência de Deus, o Criador e Preservador transcendental da vida, da própria natureza e do destino da humanidade. Por repudiarem de forma deliberada os últimos traços de transcendência compostos mesmo que em termos subcristãos, os filósofos desconstrucionistas nos fazem mergulhar em direção ao fundo do poço teológico. Ao passo que a experiência psicodélica sonda a perspectiva da realidade sobrerracional transcendente, a perspectiva que desvaloriza o cognitivo universal e as categorias éticas, e ao passo que o diálogo cristão-marxista radical pressupõe uma ontologia de um nível só e, dentro dela, explora possibilidades de transcendência histórica além do determinismo cósmico, o ateísmo pós-teísta, ou desconstrucionismo, tenta subverter toda a história do pensamento ocidental tornando-o desatado de Deus e da lógica, de critérios verificadores e de significação verbal partilhada.

O desconstrucionismo rejeita qualquer resto de transcendência que se derive genética e logicamente da herança judaico-cristã. Ao expressar o desejo de uma era pós-metafísica, ele luta pelo fim do teísmo e da metafísica. Os desconstrucionistas querem eliminar do pensamento ocidental qualquer ênfase em uma deidade existente de modo objetivo.

Um comentarista descreve o movimento como a “dança da morte sobre a tumba de Deus”. O ateísmo pós-teísta sem dúvida tem uma queixa legítima contra a longa sucessão de concepções de deidade conflitantes e rivais que abarrotaram o pensamento ocidental do tempo de Platão até o dos filósofos do processo de hoje. Propostos como alternativas ao Deus autorrevelador da Bíblia, tal panorama de deuses conjecturais há muito apresenta uma desanimadora crise de identidade.

Logo, não surpreende que a filosofia do século XX feche o segundo milênio cristão culminando na admissão de que a alternativa durável não é o Deus de Platão, de Aristóteles, dos estoicos, de Descartes, de Leibniz, de Kant, de Hegel, de Whitehead ou de uma centena de outros. Embora os desconstrucionistas filosóficos juntem-se na tentativa de tirar tais divindades doentes da miséria, ao mesmo tempo são em especial hostis para com o ponto de vista da revelação judaico-cristã, considerando-o irretratável ou irrecuperável.

Sua intensa animosidade para com o teísmo bíblico, entretanto, inconscientemente reconhece o incomparável domínio da ortodoxia cristã sobre as massas. A redução desconstrucionista do cristianismo é ousada no interesse da reconstrução filosófica com ênfase na contribuição criativa[27] do conhecedor humano para o conteúdo de conhecimento, e propõe o regresso aos antigos filósofos cósmicos gregos para um novo começo na história das ideias.

Os marxistas aplaudem essa desconstrução da filosofia ocidental com o objetivo de promover sua teoria socialista que liga o naturalismo contemporâneo ao materialismo pré-cristão, pré-socrático e rebaixador do teísmo a mito. Por essa colossal inversão os modernos eruditos têm que culpar a si mesmos. A progressiva diluição dos pontos essenciais do teísmo bíblico, mediante concessões a uma e depois outra neotérica teoria especulativa, prejudicou com seriedade as crenças nucleares judaico-cristãs.

Os acadêmicos da universidade avidamente truncaram o Deus vivo da Bíblia, separando-o da natureza e da história e dando só tributo temporário e de má vontade a esse ou aquele bocado sobrevivente da herança cristã ocidental. Repetida deferência às novidades, às quais os conceitos escriturísticos eram rotineiramente ajustados, fizeram a iniciativa cognitiva perder seu direito para as contemporâneas alternativas conjecturais à visão bíblica.

Durante a primeira metade do século XX, o anti-intelectualismo inundou a teologia que se professava cristã, de maneira mais notável nas concepções religiosas de Rudolf Bultmann e de Karl Barth no início. Mesmo que Barth por fim rejeitasse a redução existencial das crenças cristãs por Bultmann, os desconstrucionistas acolheram de Barth a elevação da realidade de Deus acima da lei lógica da contradição; eles a veem como uma contribuição inconsciente à afirmação deles de que o Deus objetivamente existente é apenas um subproduto da imaginação humana.

Em particular nas universidades seculares do Ocidente pouca atenção foi prestada às concepções religiosas mediadoras. Os meio-deuses de uma geração logo passam a ser o objeto do ridículo da geração seguinte. O Logos miniaturizado cedeu ao humanismo secular como a metafísica mascarada da modernidade. Agora a maré está mudando para o paganismo puro.

O termo deus está despido de significação metafísica; não se reconhece nenhum critério objetivo para distinguir o certo do errado ou a verdade do erro. No fundo do poço os últimos lampejos de luz estão diminuindo. Todavia, até os conhecedores intelectualmente inventivos da modernidade, obsedados com o mito da ilimitada criatividade, hesitam em ver a si próprios como meros eventos quânticos e como dentes de engrenagem em uma rede de processos impessoais.

A consciência continua a aclamar seus objetos diante da realidade transcendental e nutre a inquieta suspeita de que no final de seu limite filosófico o Cão do Céu[28] a quem negaram pode, em vez disso, ter nos encurralado no próprio fundo do poço. Uma Presença invisível de modo esporádico rompe o silêncio; uma voz desconcertantemente reconhecível faz a mesma pergunta embaraçosa — que primeiro ressoou no Éden depois da queda: “Adão, onde tu estás?”. Alguém parece, afinal, conhecer onde estamos. Pelas profundezas acres da cadente cultura ecoa um lamento outrora ouvido por Jeremias: “Porque o meu povo cometeu dois delitos: eles me abandonaram, a fonte de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas furadas, que não retêm água” (Jr 2.13).

Carl Henry - O Resgate da Fé Cristã.


Fonte: http://defesaapologetica.blogspot.com

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