sábado, 26 de setembro de 2015

O fogo estranho do movimento carismático

Salmo 69:9 - "Pois o zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias que te ultrajam caem sobre mim".

Davi consumia-se de tristeza e indignação diante da afronta à santidade de Deus. Jesus, como narrado em João 2:17, também sentiu o mesmo. Depois de o verem expulsar os mercadores a chicotadas, "seus discípulos se lembraram do que está escrito: O zelo de tua casa me consumirá". Cito duas breves passagens bíblicas que exemplificam fortemente o sentimento de indignação e ira de que deveria ser tomado todo cristão ante a profanação do culto a Deus em tempos atuais.

O sacrilégio e a ofensa a Deus tornaram-se normais em grande parte das igrejas, principalmente nas pentecostais e neopentecostais. Não desqualifico, todavia, a fé e a integridade dos meus irmãos que bebem da fonte carismática; apenas penso o movimento como aquilo que ele é, um movimento. Não há nenhum juízo de valor feito sobre indivíduos, mesmo porque não seria honesto imputar ao pentecostalismo e suas variações todos os males do evangelicalismo moderno. Visto que no meio tradicional também se espalham heresias, marcadamente associadas ao liberalismo teológico e ao que chamo de teologia da luta de classes (o falso e herético diálogo entre cristianismo e marxismo).

Entretanto, é sob a égide do movimento carismático que as maiores e mais bizarras heresias têm se manifestado. Mas, de qualquer maneira, não é minha intenção aprofundar um debate sobre dons espirituais e sua continuidade. Primeiro, não é o objetivo do texto; segundo, faltaria espaço. Não obstante, deixo claro que sou cessacionista, pois, para mim, alguns dons espirituais extinguiram-se após o período apostólico da Igreja. Isto posto, me atenho ao que julgo ser mais importante no momento, a saber, o apontamento do prejuízo causado pela perniciosa, irracional e autoindulgente "adoração" a Deus prestada pelo fenômeno carismático.

No século XVI, quando se levantou o estandarte da Reforma Protestante, o brado de “Sola Scriptura” e “Tota Scriptura” soavam na terra como um eco do brado de Deus exigindo sua primazia. Homens movidos pelo Espírito Santo reivindicaram a verdade, a suficiência e a inerrância da Palavra de Deus sob um custo de milhões de vidas. Deus, soberanamente, intervinha na História e recolocava no lugar a adoração que lhe era devida, da forma que lhe apraz.

O movimento carismático, inaugurado no início do século passado, a pretexto de ser escriturístico deslocou novamente, como já haviam feito os romanistas, o centro da verdadeira adoração. Sua ênfase no papel da terceira pessoa da trindade em detrimento das outras duas, de certa maneira, ataca a doutrina da Trindade ao sobrepor o Espírito Santo sobre Deus e Cristo Jesus. A fixação quase doentia nas "manifestações" do Espírito Santo o transformam em uma espécie de entidade que deve ser adorada à parte do Deus Triúno.

O movimento carismático ensejou outras implicações. Refiro-me, aqui, a ideia nociva de que avivamento espiritual significa estar "cheio" do Espírito Santo, isto é, quanto mais manifestações irracionais, emocionais e catárticas, mais poder tem o crente. Na verdade, tal visão é um complemento à desordem irracional do culto e a importância dada por eles a experiência em lugar da sã doutrina, ambas marcas do movimento carismático. Estar "cheio" do poder é uma obsessão pentecostal ocasionada pela confusão que fazem com o que é denominado de um segundo batismo, porém um batismo com o Espírito Santo; uma espécie de segunda benção que revestiria o crente de poder, cujo sinal seria a glossolalia (aliás, um fenômeno presente em cultos ocultistas das mais variadas épocas). Um pequeno esforço de exegese seria suficiente para entendermos que o homem, ao ser regenerado, recebe o Espírito de Deus que o capacita a observar as ordenanças divinas, como posto em Ezequiel 36:26. Não há dificuldade em compreender que todo crente, todo homem regenerado é batizado com o Espírito Santo. Não há necessidade de um segundo batismo, muito menos de estabelecer duas castas de crentes, os "super crentes" batizados no Espírito e os carnais que ainda "buscam" tal benção.

No entanto, a pior manifestação do movimento carismático é sua vertente mais "trash": o neopentecostalismo. Digo, sem receio, que é a forma mais nociva e perniciosa assumida pelo "evangelho" moderno. Esta aberração doutrinária não só carrega os vícios e heresias do pentecostalismo, mas as potencializa. Ao torná-las ativas, traz um enorme prejuízo à causa da Igreja. É do neopentecostalismo, que se alimenta e se robustece a famigerada Teologia da Prosperidade. Sua ação maligna se impregnou nas igrejas que confessam o neopentecostalismo. Líderes desonestos e abjetos são formados todos os dias. Estelionatários da fé com seus programas diários na TV enganam milhões em seus cultos caracterizados pela ganância, pela desordem, pela irracionalidade, pelo sincretismo, pela mistificação e pela experimentação catártica. Enganam deliberadamente as multidões que, carentes de tudo, procuram desesperadamente uma redenção de suas misérias materiais e emocionais.

Multidões seguiam Jesus atrás de solução para suas vidas. Porém, poucos eram os discípulos. Hoje, multidões se aglomeram nos cultos das "super-igrejas"; multidões ouvem e se jogam aos pés dos falsos pastores. O engano é patente. Um falso culto é prestado a um falso deus. Homens e mulheres, enlouquecidos, ousam levar ao Deus da Bíblia um fogo estranho. Por quanto tempo? Por outro lado, existem homens e mulheres que também ousam se levantar, contra tudo e contra todos, para corajosamente bradar: "O zelo de tua casa me consumirá"!

SOLI DEO GLORIA!



Por Davi Peixoto
Fonte: Bereianos

0 comentários: