sábado, 14 de dezembro de 2013

Conversa dupla sobre o ódio

Por vezes as inconsistências e contradições na literatura da Torre de Vigia parecem quase inacreditáveis. A duplicidade de critérios dos escritores da Torre de Vigia parece não ter limites.
Uma das explicações para esse fato é que alguns artigos da Sentinela tratam de como as Testemunhas de Jeová querem ser vistas e como querem ser tratadas pela sociedade em geral, e os artigos contraditórios tratam de como as Testemunhas de Jeová “fiéis” e “leais” devem encarar os seus inimigos e pessoas de fora. Vejamos alguns exemplos desta tradição altamente contraditória.

A edição de 15 de junho de 1995 da revista A Sentinela fez a pergunta: “O ódio terá fim algum dia?” Entre outras coisas, a revista fez esta declaração:
“A tradição oral dos judeus sustentava que ‘odiar o inimigo’ era a coisa certa a fazer. Mas Jesus disse que nós temos de amar os inimigos, não apenas os amigos. Isso é difícil, mas não impossível.” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 5)
Quando examinamos a literatura da Torre de Vigia, vemos que esta “tradição oral dos judeus” está bem viva e recomenda-se, com a diferença de que na Sociedade Torre de Vigia essa é uma tradição escrita. Os judeus do tempo de Jesus tinham um objeto de ódio favorito — os samaritanos. As Testemunhas de Jeová têm um objeto de ódio similar: a “cristandade” e os “apóstatas”.
“Tão forte era o sentimento contra os samaritanos, que alguns judeus até amaldiçoavam publicamente os samaritanos nas sinagogas e oravam diariamente para que os samaritanos não ganhassem a vida eterna.” (A Sentinela, 15 de setembro de 1993, p. 4)
Sentinela menciona isso como um exemplo do preconceito e discriminação que os judeus mostravam em relação aos samaritanos. Claro que nenhuma Testemunha de Jeová hoje gostaria de encontrar tal atitude vinda de outros. Mas será que as Testemunhas de Jeová se importam em mostrar o mesmo tipo de atitude em relação aos “apóstatas”? Vejamos:
“A obrigação de odiar o que é contra a lei aplica-se também a todas as atividades dos apóstatas. Nossa atitude para com os apóstatas deve ser a de Davi, que declarou: “Acaso não odeio os que te odeiam intensamente, ó Jeová, e não tenho aversão aos que se revoltam contra ti? Odeio-os com ódio consumado. Tornaram-se para mim verdadeiros inimigos.” (Salmo 139:21, 22)” (A Sentinela, 15 de julho de 1992, p. 12, §19)

Como podemos ver, o ódio dos judeus pelos samaritanos é igualado pelo intenso ódio das Testemunhas de Jeová em relação aos “apóstatas”. Este ódio, como podemos ver, é uma “obrigação” para as Testemunhas de Jeová leais. Uma coisa muito estranha é que essa “obrigação” inclui “todas as atividades dos apóstatas”. Isso evidentemente significará que quando os apóstatas conduzem um automóvel, lavam a roupa, lavam os pratos, tomam um banho, etc., a Testemunha de Jeová “fiel” aparentemente tem de odiar essas “atividades”.
Geralmente a literatura da Torre de Vigia é rápida em dizer que o objeto do ódio não deve ser a pessoa, mas antes as ações da pessoa. Mas como podemos ver na próxima citação, o caso não é realmente esse. A obrigação das Testemunhas de odiar vai para além disso. Também inclui a pessoa:
“Depois há o sentido da palavra “odiar” que nos interessa especialmente aqui. Contém a ideia de ter um sentimento tão intenso de repugnância ou de forte aversão a alguém ou a alguma coisa, que evitamos por completo ter algo que ver com tal pessoa ou com tal coisa. No Salmo 139 chama-se a isso de “ódio consumado”. Davi disse ali: “Acaso não odeio os que te odeiam intensamente, ó Jeová, e não tenho aversão aos que se revoltam contra ti? Odeio-os com ódio consumado. Tornaram-se para mim verdadeiros inimigos.” — Salmo 139:21, 22.” (A Sentinela, 15 de julho de 1992, p. 9, §5)

Conforme podemos ver nessa citação, a velha tradição judaica de odiar tudo o que não é judeu, está bem viva e recomenda-se entre as Testemunhas de Jeová. Os líderes delas em Brooklyn consideram uma “obrigação” odiar “apóstatas”. Veja esta próxima citação da Sentinela e repare como assenta bem à Sociedade Torre de Vigia:
The International Standard Bible Encyclopaedia declara: “Encontramos, nos tempos do N[ovo] T[estamento], a mais extrema aversão, desprezo e ódio. Eles [os gentios] eram encarados como impuros, com quem era ilícito travar quaisquer relações amistosas. Eram inimigos de Deus e do Seu povo, a quem se negava o conhecimento sobre Deus, a menos que se tornassem prosélitos, e mesmo então não podiam, como nos tempos antigos, ser acolhidos para plena associação. Os judeus estavam proibidos de dar-lhes conselhos, e, caso perguntassem sobre coisas divinas, deviam ser amaldiçoados.”" (A Sentinela, 15 de setembro de 1993, p. 5)
Agora leia a próxima citação e compare com a anterior:
“Queremos ter a lealdade que o Rei Davi evidenciou ao dizer: “Acaso não odeio os que te odeiam intensamente, ó Jeová, e não tenho aversão aos que se revoltam contra ti? Odeio-os com ódio consumado. Tornaram-se para mim verdadeiros inimigos.” (Salmo 139:21, 22) Não queremos confraternizar com pecadores deliberados, porque não temos nada em comum com eles. Não deve a lealdade a Deus impedir que mantenhamos contatos sociais com tais inimigos de Jeová, quer em pessoa, quer por meio da televisão?” (A Sentinela, 15 de março de 1996, p. 16)

Claro que nenhuma Sentinela estaria completa se não lançasse algum desdém e condenação sobre a “concorrência”.

Veja como os católicos têm sido maus:
“O ódio terá fim algum dia?
Alguns líderes religiosos foram além de tolerar o ódio, eles o consagraram. Em 1936, com o irrompimento da Guerra Civil Espanhola, o Papa Pio XI condenou o ‘genuíno ódio satânico a Deus’, dos republicanos, embora houvesse sacerdotes católicos do lado republicano.” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 4)
Claro que a Torre de Vigia e as Testemunhas de Jeová nunca se envolveriam em tal atividade abominável. Elas nunca seriam como esses líderes religiosos detestáveis de “Babilônia”, certo? Elas nunca diriam que alguém tem um “ódio satânico a Deus” apenas porque esse alguém defende uma opinião diferente da Torre de Vigia, ou diriam? Bem, vejamos:

“À mesa de quem se está alimentando?
A Sentinela de 1.° de outubro de 1909 (em inglês) disse: “Todos os que se separam da Sociedade e da obra dela, em vez de prosperarem ou de edificarem outros na fé e nas graças do espírito, pelo visto fazem o contrário — procuram prejudicar a Causa a que antes serviam, e, com mais ou menos barulho, afundam aos poucos no esquecimento, prejudicando apenas a si mesmos e a outros possuídos por um espírito contencioso similar…. Parecem contaminados com demência, com hidrofobia [raiva] satânica. Alguns deles nos espancam e depois afirmam que nós o fizemos a eles. Estão prontos para dizer e escrever falsidades desprezíveis e se rebaixam a usar maldades.”" (A Sentinela, 1.º de julho de 1994, p. 12, §11)
“Esquadrinha-me, ó Deus”
“Sobre estes, o salmista disse: “Acaso não odeio os que te odeiam intensamente, ó Jeová, e não tenho aversão aos que se revoltam contra ti? Odeio-os com ódio consumado. Tornaram-se para mim verdadeiros inimigos.” (Salmo 139:21, 22) Foi por odiarem intensamente a Jeová que Davi os encarava com repugnância. Os apóstatas estão incluídos entre os que mostram seu ódio por Jeová por se revoltarem contra ele. A apostasia é, na realidade, uma rebelião contra Jeová. Alguns apóstatas professam conhecer e servir a Deus, mas rejeitam ensinos ou requisitos delineados na Sua Palavra. Outros afirmam crer na Bíblia, mas rejeitam a “organização” de Jeová e tentam ativamente obstaculizar a sua obra. Quando eles deliberadamente escolhem tal maldade depois de conhecerem o que é correto, quando o mal se torna tão entranhado que se torna parte inseparável de sua constituição, o cristão precisa odiar (no sentido bíblico da palavra) os que se agarraram inseparavelmente à maldade. Os cristãos verdadeiros compartilham dos sentimentos de Jeová para com tais apóstatas; não são curiosos a respeito das ideias dos apóstatas. Ao contrário, ‘sentem aversão’ para com os que se fazem inimigos de Deus, mas deixam que Jeová execute a vingança.” (A Sentinela, 1.º de outubro de 1993, p. 19, §15)
Não consegue sentir o ódio vitriólico que emana de cada uma das palavras dessas Sentinelas?
Portanto agora sabemos que os líderes da Sociedade Torre de Vigia também estão entre aqueles “líderes religiosos [que] foram além de tolerar o ódio, eles o consagraram”.
Todos sabemos como a Sociedade Torre de Vigia sempre aponta o exemplo dos “primitivos cristãos”. Como qualquer seita fundamentalista, eles gostariam muito de “congelar” a sociedade exatamente como ela era naqueles dias. Ora veja:
“O fim do ódio no mundo todo.
Apesar de serem alvo de ódio, os primitivos cristãos resistiram à tentação de vingar-se da injustiça. No famoso Sermão do Monte, Jesus Cristo disse: “Ouvistes que se disse: ‘Tens de amar o teu próximo e odiar o teu inimigo.’ No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem.” — Mateus 5:43, 44.” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 5)
Conforme documentado, é claro como água cristalina que a Sociedade Torre de Vigia prefere a atitude pré-cristã de odiar quando se trata de “inimigos” como os “apóstatas”. Conforme documentado, eles citam sempre o rei judeu Davi, que evidentemente estava a seguir a tradição judaica, bem viva nos dias de Jesus. Então por que é que a Torre de Vigia se dá ao trabalho de citar as palavras de Jesus? Bem, as Testemunhas de Jeová citam-nas quando acham oportuno, porque é desse modo que querem que todas as outras pessoas as tratem! Quando elas publicam os seus artigos raivosos de ódio contra os “apóstatas”, nunca encontramos qualquer referência às palavras de Jesus, nessas alturas o que conta são só as palavras e atitude de Davi. Quando mencionam como querem ser vistas e tratadas por outros, é isto que as Testemunhas de Jeová escrevem:

“Que excelente resultado por Jesus não estar preso à atitude que prevalecia entre seus contemporâneos judeus! — João 4:4-42.” (A Sentinela, 15 de setembro de 1993, p. 5)
“A palavra grega que aparece no relato de Mateus é derivada de a·gá·pe, que descreve o amor que age em harmonia com princípios. A pessoa que manifesta o amor a·gá·pe, que se baseia em princípios, faz o bem até a um inimigo que o odeia e maltrata. Por quê? Porque essa é a maneira de imitar a Cristo e de vencer o ódio.” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 5)
Conforme documentado, a Sociedade Torre de Vigia de fato está “pres[a] à atitude que prevalecia” entre os contemporâneos judeus de Jesus. Eles ainda estão “congelados” na atitude pré-cristã para com os “gentios”. Eles ainda estão aderindo ao velho costume judeu: ‘Deves amar o teu vizinho e odiar o teu inimigo’. Elas deixam para todos os outros a tarefa de seguir o exemplo de Jesus, e esperam que todas as outras pessoas “amem” as Testemunhas de Jeová.
A Sociedade Torre de Vigia realmente vive à altura disto:
“O ódio terá fim algum dia?
Há mais de dois séculos, o autor inglês Jonathan Swift observou: “Temos bastante religião para fazer-nos odiar uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”" (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 4)

Esta atitude hipócrita, muito óbvia, fica ainda mais clara quando lemos a próxima citação da Sentinela:

“Dito de outro modo, a eliminação do ódio requer a criação de uma sociedade em que as pessoas aprendam a se amar por se ajudarem mutuamente, uma sociedade em que as pessoas esqueçam toda a animosidade causada por preconceito, nacionalismo, racismo e tribalismo. Existe uma sociedade assim?” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 7)

Sim, quem julga o leitor que esta Sentinela vai nomear como a sociedade que baniu o ódio? Adivinhou corretamente! Veja:

“As Testemunhas de Jeová formam uma sociedade internacional e provam além de dúvida que o ódio pode ser eliminado. Não importa qual a formação que tenham tido, as Testemunhas se esforçam para trocar o preconceito pelo respeito mútuo e eliminar qualquer vestígio de tribalismo, racismo, ou nacionalismo. Um dos fundamentos de seu sucesso é a determinação de imitar a Jesus Cristo em demonstrar amor guiado por princípios.” (A Sentinela, 15 de junho de 1995, p. 8)

Sim, sim, com certeza. Conforme documentado, as Testemunhas de Jeová preferem imitar Davi, não Jesus. Elas preferem imitar a atitude judaica que prevalecia entre os contemporâneos de Jesus. Veja só a próxima citação da Sentinela e sinta o “amor” que emana tão ricamente dela:
“À mesa de quem se está alimentando?
Em breve irromperá a grande tribulação, chegando rapidamente ao clímax na “guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso”. (Revelação 16:14, 16) Atingirá o ponto alto quando Jeová destruir este sistema de coisas e a mesa figurativa à qual as nações do mundo se alimentam. Jeová derrubará também toda a organização invisível de Satanás, o Diabo, e suas hostes de demônios. Aqueles que tiverem continuado a se alimentar à mesa espiritual de Satanás, a mesa dos demônios, serão obrigados a tomar parte duma refeição literal, não, não como participantes, mas como prato principal — para a sua destruição! – Veja Ezequiel 39:4; Revelação 19:17, 18.” (A Sentinela, 1.º de julho de 1994, p. 13, §16)

Extraído do blog corior.blogspot.com/ em 02/12/2013

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