quarta-feira, 9 de março de 2011

Mau uso do Grêgo pelas Testemunhas de Jeová

A chamada Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, da Sociedade Torre de Vigia, sabe e proclama que «é um assunto de muita responsabilidade traduzir as Escrituras Sagradas dos idiomas originais.»
Nos seus milhões de escritos, livros e revistas, as Testemunhas de Jeová afirmam os princípios: «Defendamos lealmente a Palavra Inspirada de Deus» (in Sentinela, 1\10\1997).
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Para essa alegada defesa editam livros tais como «O que a Bíblia realmente ensina?», «A Bíblia-Palavra de Deus ou de Homem?».
E vêm a terreiro apologistas como um ex pastor luterano alemão, Helmut-Dieter Hartmann, que escreveu o resultado de uma participação pessoal na Organização em várias cidades da Alemanha.
«Testemunhas de Jeová, um Desafio» é o livro, no qual assevera: «Fiquei impressionado por notar quão de perto as Testemunhas aderem à Bíblia como Palavra de Deus. Não têm a mínima dúvida que a Bíblia é inspirada por Deus».(via Internet)
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Esperaríamos que na sua praxe agissem em conformidade. Mas não, nem é esse o anelo vital da sua «evangelização», que é levada a cabo pelos institucionalmente chamados «publicadores de congregação».
Mulheres e homens que «evangelizam» e ensinam publicamente, porta a porta e nas ruas, o que designam como « Boas Novas do Reino». Entretanto, desenvolvem uma «pregação» determinada também pelo seu manual enciclopédico, o Estudo Perspicaz das Escrituras ( do inglês Insight on the Scriptures), editado em 1988, composto por vários volumes, que são a principal referência e objeto de consulta sobre as palavras bíblicas usadas como ajuda ao entendimento da Bíblia.

Daí que sem qualquer crítica moral aos membros da Organização (conheço bem alguns), e muito menos preconceito ético ad hominem, não podemos porém deixar de sublinhar que os 6.957,852 (1) membros ativos, envolvidos publicamente no trabalho das Testemunhas, cujos corações cheios de pensamentos sobre como lidar com Jeová estão todavia vazios do Deus revelado por Jesus Cristo, embora passem uma boa parte da vida alegadamente a «estudá-lO».
Esta é uma imagem que vem a propósito, parafraseada de um conto de Rainer Maria Rilke.

Escreve o poeta austríaco em «Histórias do Bom Deus», quando Este pousou docemente o seu olhar sobre a Terra:
«Então pela primeira vez Lhe ocorreu que as cabeças dos homens são luminosas, embora os corações cheios de escuridão (...) e acometeu-O uma saudade de viver nos corações deles e de já não passar através da insónia clara e fria dos seus pensamentos.» ( pág.64, Inova, 1973)

A frieza da obscuridade com que pensam os textos bíblicos que é preciso adulterar para estarem de acordo com as suas doutrinas, é, na verdade, impressionante.
No primeiro volume do Estudo Perspicaz... pode ler-se que a ajuda vem através de se «ajuntar de todas as partes da Bíblia os pormenores que se relacionam com os assuntos em consideração.»
E algo que, pedagogicamente seria útil se não fosse um dos fundamentos para o Erro, «trazer à atenção palavras das línguas originais e seu sentido literal ». Por isso, seria necessário passar agora à análise de algumas dessas palavras.

Veremos apenas duas, de extrema importância, porque a mudança que as Testemunhas de Jeová introduzem, muda todo o paradigma do significado do vocábulo conhecer, na frase absorver conhecimento de Deus.
Lê-se assim na versão da TNM (Tradução Novo Mundo) das Escrituras Sagradas, Evangelho de João, 17,3: «Isto significa vida eterna, que absorvam conhecimento de ti, o único Deus verdadeiro».
Nas mais variadas versões, revistas e corrigidas, da Bíblia Sagrada de Almeida e até da velhíssima versão da Vulgata do padre Figueiredo, lemos, respectivamente:
«E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro» ou E a vida eterna porém consiste em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti.

(2) Numa exegese gramatical e depois teológica do texto bíblico, como genuinamente se impõe, devem aplicar-se as regras todas que compõem a interpretação do significado verdadeiro desse mesmo texto, ou de uma palavra-chave.
Semanticamente o termo conhecer, na Bíblia Sagrada, tanto no Velho como no Novo Testamento, implica intimidade, profundidade na relação com alguém ou alguma coisa. Não meramente um conhecimento intelectual e frio. Naquele sentido, o Deus da Bíblia deu-se a conhecer através de Jesus Cristo.

A língua bíblica do Novo Testamento possui um vocábulo para conhecer, que é, no próprio texto citado, gínomai ou ginosco ( ou gignósko), que são, na sua forma, um verbo. Deste derivam conhecidas palavras: gnose, um substantivo de onde se parte para outro, gnóstico, que afirmava um conhecimento espiritual, superior e esotérico.
Já nesse tempo conhecer não era mero significado de conhecimento cultural, mas de conhecimento que dava sentido à vida humana.

O dicionarista bíblico W.E.Vine, em sua fundamental obra Vine’s Expository Dictionary (que as testemunhas de Jeová deturpam e usam no que lhes interessa), escreve que ginosko no NT significa «entender completamente».
Também indica frequentemente a relação entre duas pessoas e a aprovação nesse relacionamento, Deus é conhecido do crente, e este de Deus.(vd.I Jo 2, 3-4).

Ora apesar de todo o sentido alegado de procurar a Verdade, os «tradutores» da Novo Mundo das Escrituras Sagradas, não reduziram apenas o vocábulo a um significado que jamais teve - de aprendizagem intelectual de doutrina ainda que sobre Deus - , mas também o subverteram a uma simples absorção de conhecimentos. Ou será que com absorvam quiseram significar consumam, gastem, sorvam, etc.? Como se de um duvidoso percurso escolar em que não existem certezas se tratasse.

O termo que o nosso texto bíblico apresenta, gramaticalmente, é uma enfática forma verbal de gínomai, isto é, ginóskosin, verbo na terceira pessoa do presente ativo do plural.
A Tradução do Novo Mundo produz até o reducionismo da vida eterna, que segundo eles não É, apenas significa. Para as TJ significa uma tão só absorção de conhecimento intelectual, doutrinário até, de Deus, e do próprio Jesus Cristo, que Deus enviou - afirmação enfática de Cristo na Sua oração sacerdotal.

Há que lembrar aqui outra observação linguística sobre o que os tradutores russelistas omitem (intencionalmente ?) do próprio texto grego: o termo verbal apesteilas, de apostello, enviar, apostolos, enviado.
Jesus Cristo disse que a vida eterna é o conhecimento intimo dos atributos divinos ativos e morais, revelados pelo Espírito Santo, sobre Monon alethinon Theo (Único verdadeiro Deus), da relação filial do crente com Deus-Pai.
A comunhão com Deus através de Seu Filho. E não apenas um simples aprendizado doutrinário. Nenhum leitor assíduo e mesmo estudioso da Bíblia e conhecedor cultural da teologia será filho de Deus, terá comunhão íntima com Ele, só por isso. Infelizmente temos de pensar que as Testemunhas de Jeová estão neste barco.

João Tomaz Parreira

1 comentários:

Nuno disse...

"que as testemunhas de Jeová deturpam e usam no que lhes interessa"

Eu presenciei este acontecimento! É mesmo verdade, infelizmente e, confrontados com a verdade nem quiseram ouvir a opinião de quem sabia.