sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sã Doutrina

Revelação

Deus, de um modo ou outro, se revela a todos os seres humanos. O conhecimento de Deus como Criador e Legislador do universo está disponível a todos através da criação e da consciência (Rm. 1:19-20).

Deus também se revela ao homem através da comunicação verbal direta (Gn. 1:29-30; 2:16-17). Entretanto, como o pecado cegou a raça humana espiritualmente (Rm. 1:18, 21-23; 3:10-18), temos agora absoluta necessidade da comunicação verbal de Deus.

A Palavra revelada de Deus que traz a redenção veio muitas vezes e de muitas maneiras pelos profetas (Hb. 1:1), e teve seu ápice na vinda do Filho de Deus, Jesus Cristo (Hb. 1:2), o qual é a Palavra em carne (Jo. 1:1, 14). Tanto antes quanto depois da vinda de Jesus Cristo, a Palavra de Deus foi escrita sob a supervisão do Espírito Santo (2 Tm. 3:16; 2 Pe. 1:20-21).

As Escrituras resultantes nos dão todo o conhecimento sobre o que é necessário para a salvação e para toda boa obra (2 Tm. 3:15-17). As Escrituras são absolutamente verdadeiras e sem erro (Mt. 5:17-18; Jo. 10:35).

Através dos apóstolos cristãos da primeira geração da Igreja, Cristo estabeleceu o fundamento para o ministério contínuo da Igreja, como um corpo no qual judeus e gentios estão unidos (Ef. 2:20; 3:5-6; 4:11-16).

Os ensinamentos dos profetas do Antigo Testamento e dos apóstolos do Novo Testamento, preservados para nós somente nas Escrituras, são o padrão pelo qual, desde a morte dos apóstolos, julgamos toda controvérsia (2 Pe. 1:19-21; 3:1-2; Jd. 17).

Assim sendo, não devemos esperar novas revelações ao nível das que foram concedidas aos profetas e apóstolos, até a volta de Cristo (cf. Hb. 2:2-4). Através da voz viva do Espírito Santo nas Escrituras (o mesmo Espírito que vive em todos os cristãos), Deus continua a se revelar a nós (Ef. 1:13-14, 17-18). Um dia conheceremos a Deus da mais perfeita maneira possível a suas criaturas (1 Co. 13:12).

Note que a essa altura já tivemos de mencionar a natureza de Deus, a criação, o homem, o pecado, Cristo, o Espírito, a salvação, a Igreja, e o futuro. Um bom entendimento das Escrituras não pode ser obtido sem um bom entendimento dos outros aspectos principais da doutrina cristã.

Não podemos subestimar a importância de um bom entendimento das Escrituras. Se, ao buscarmos a verdade sobre Deus e sua vontade, estivermos nos baseando em qualquer coisa menos confiável do que a sua Palavra, certamente não acharemos essa verdade.

Por outro lado, se buscarmos por essa verdade na Bíblia, mas de maneira incorreta (por exemplo, negando ou minimizando nossa necessidade de salvação, ou negando a confiabilidade da Bíblia), também dificilmente a acharemos.

Além da questão da salvação pessoal, um bom entendimento do que é revelado nas Escrituras é uma base indispensável para a vida cristã em todos os aspectos, incluindo a oração, o evangelismo, o discernimento, etc.

Deus

Há apenas um único Deus, e ele se revela no Antigo Testamento pelo nome Iavé, ou Jeová (Dt. 6:4; Is. 43:10; 45:5-7; 1 Co. 8:4-6; 1 Tm. 2:5; Tg. 2:19). Ele é um ser absolutamente único – nada, nem ninguém, é completamente igual a ele (1 Rs 8:23; Is. 40:18, 25; Jr. 10:6-7).

Assim sendo, ele está além da nossa absoluta e total compreensão, ainda que o possamos conhecer através de sua auto-revelação (Mt. 11:25-27; Jo. 1:18; 1 Co. 8:2-3).

Deus é um espírito auto-subsistente, totalmente distinto de toda a criação (Is. 40:22; 43:10; Jo. 4:24; At. 17:24). Ao mesmo tempo, ele está presente em toda parte, e está profundamente envolvido com sua criação (Sl. 139:7-10; Jr. 23:23-24; At. 17:27-28).

Ele é eterno e imutável (Sl. 90:2, 4; 102:26-27; Mal. 3:6; Ef. 3:21; Tg. 1:17; 2 Pe. 3:8). Deus é todo-poderoso – nada é muito difícil para ele (Gn. 18:14; Jr. 32:17, 27; Mt. 3:9), e todas as coisas são possíveis para ele (Jó 42:2; Sl. 115:3; Mt. 19:26; Lc. 1:37; Ef. 1:11).

Ele sabe todas as coisas (1 Sm. 16:7; 1 Chron. 28:9, 17; Jó 37:16; Sl. 139:1-4; Is. 41:22-23; 42:9). Ele é uma Pessoa, e não um ser impessoal (Ex. 3:14; Hb. 1:1-2).

Deus é moralmente perfeito; ele é inteiramente bom (Gn. 1:31; Dt. 8:16; Sl. 107:8; 118:1; Mc. 10:18; Rm. 8:28), santo (Lv. 19:2; Pss. 5:4-6; 99:5; Is. 6:3; Hc. 1:12-13; 1 Pe. 1:14-19), justo (Is. 45:21; Sf. 3:5; Rm. 8:26) e verdadeiro (Jo. 17:17; Tt. 1:2; Hb. 6:18).

Ele é o amor perfeito (Dt. 7:7-8; Jr. 31:3; Jo. 3:16; Hb. 12:6; 1 Jo. 4:7-8). Ao mesmo tempo, ele é justo ao executar julgamento contra aqueles que o rejeitam (Sl. 103:8-9; Rm. 2:5; 11:22; Hb. 10:31).

Foi justamente esse Deus incomparável e incompreensível (na sua totalidade) que criou o mundo e a nós (Gn. 1:1; Sl. 33:6; 102:25; Is. 44:24; Jo. 1:3; Rm. 11:36; Hb. 1:2; 11:3).

Ele é não só nosso Criador, mas também nosso Redentor (Is. 43:11; 45:21-22; 1 Tm. 4:10) e o Juiz da humanidade (Gn. 18:25; Hb. 12:23; Tg. 4:12).

Quando Jesus veio ao mundo (Jo. 1:14-18), bem como quando o Espírito Santo veio para habitar e dar poder à Igreja (Jo. 14-16), Deus se revelou como existindo em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt. 28:19; Rm. 8:9-11; 1 Co. 12:4-6; 2 Co. 13:14; Ef. 2:18; 4:4-6; 1 Pe. 1:2).

O Pai é Deus (Jo. 17:3; 1 Co. 8:6; 2 Co. 1:3); o Filho, Jesus Cristo, é Deus (Is. 9:6; Jo. 1:1; 20:28; Tt. 2:13; Hb. 1:8; 2 Pe. 1:1; 1 Jo. 5:20); o Espírito Santo é Deus (At. 5:3-4; 2 Co. 3:17-18).

Os três, ao mesmo tempo em que são o único Deus, são pessoalmente distintos um do outro (Mt. 11:27; 28:19; Jo. 3:16-17; 5:31-32; 8:16-18; 14:15-16; 15:26; 16:7, 13-14; 17:23-26; Rm. 8:26-27; 2 Jo. 3).

Mais uma vez, a interligação de toda doutrina cristã pode ser vista quando nos concentramos na doutrina de Deus. O que acreditamos sobre ele está obviamente ligado com o que pensamos sobre as Escrituras, sobre Cristo, e sobre o Espírito. Além disso, já vimos que nosso entendimento da criação, da salvação, da Igreja, e do julgamento final estão ligados com nosso entendimento de Deus.

O coração e a essência da doutrina cristã é o que ela diz sobre Deus – o que ela diz sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Se o nosso Deus for pequeno – se o entendermos como sendo algo menos que absolutamente perfeito, ou como sendo deficiente de algum modo em sua sabedoria, conhecimento, poder, presença, ou excelência moral – então não poderemos ter confiança absoluta nele.

Se entendermos Cristo ou o Espírito Santo como sendo algo menos do que Deus, certamente fracassaremos em a honrá-los da maneira devida – como sendo verdadeiramente e absolutamente Deus. Nada é mais importante do que nosso entendimento de Deus.

Cristo

Jesus Cristo é o centro do cristianismo. Todo o Antigo Testamento foi escrito a seu respeito (Lc. 24:25-27, 44). Todo o Novo Testamento é um “comentário” inspirado sobre o ápice da revelação de Deus na história – seu Filho (Hb. 1:1-2). Assim, toda a Bíblia é centrada em Jesus Cristo e o que ele realizou para a nossa salvação.

Jesus Cristo é o Filho de Deus; ele veio a este mundo como um ser humano para revelar o Pai e para nos reconciliar com ele (Jo. 1:14-18; 3:16; Rm. 5:1-10). Ele é o Deus eterno (Jo. 1:1) e o Criador (Jo. 1:3; Cl. 1:16).

Porém, por amor a nós, e pela glória de Deus, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, e se humilhou, tomando-se homem e sendo obediente até a morte na cruz (Fp. 2:6-8). Desta maneira, ele é ao mesmo tempo divino e humano, Deus e homem.

Ele foi concebido no ventre de Maria pela operação do Espírito Santo (Mt. 1:18-25; Lc. 1:35). Ainda que tenha sido sujeito a tentações, ele viveu uma vida perfeita, sem pecado (Jo. 5:19; Hb. 2:18; 4:15).

Ele morreu de forma real e agonizante na cruz, e ressuscitou corporalmente dos mortos (Rm. 5:6-10; 1 Co. 15:3-4). Ele foi assunto ao céu, enquanto retendo sua forma humana glorificada, e voltará dessa maneira para julgar a humanidade (At. 1:9-11; 10:42; 17:31; Cl. 2:9; 1 Tm. 2:5).

Ele enviou o Espírito Santo para construir e dar poder à Igreja (Jo. 14-16; At. 1:8). A ele deve ser dada a mesma glória, amor, fé e adoração que são devidas a Deus (Mt. 10:37; Jo. 5:23; 14:1; Hb. 1:6).

A essa altura se torna evidente como toda doutrina cristã está ligada com a doutrina sobre Cristo. Isso também salienta a razão pela qual aqueles que pensam que devemos apenas “acreditar em Jesus” e não nos importarmos com doutrinas estão enganados.O que pensamos sobre Deus, o homem, o pecado, o Espírito, a salvação e o futuro afetará o que pensamos sobre Cristo.

Da mesma forma, a importância dessas verdades doutrinárias sobre Cristo é que elas expressam o que ele realmente significa para o cristão. Não podemos compreender totalmente como Cristo pode ser ao mesmo tempo Deus e homem; mas podemos entender que faz uma grande diferença se assim acreditarmos ou não.

Se o entendermos como sendo algo menos do que Deus, não poderemos então nos relacionar com ele com o amor, a honra e a confiança incondicional que ele justamente exige.

Se, por outro lado, negarmos sua verdadeira humanidade, necessariamente negaremos também tudo que a Bíblia diz que ele fez para a nossa salvação – incluindo a sua verdadeira morte pelos nossos pecados.

Salvação

A raça humana tem uma necessidade desesperadora da salvação. O inimigo do qual temos de ser salvos é nada mais do que nós mesmos. Toda a humanidade caiu em pecado com nosso primeiro ancestral, Adão (Gn. 2:16-17; 3:1-24; Rm. 5:12-21; 1 Co. 15:22).

O resultado é que somos todos pecadores, escravizados pelo pecado; nenhum de nós é verdadeiramente bom (Rm. 3:9-23; 7:14-15, 18). Por isso, estamos espiritualmente mortos e merecemos nada menos do que a justa ira de Deus (Rm. 6:23; Ef. 2:1-3).

Isso porque o padrão pelo qual somos julgados é nada menos do que a santidade e o caráter perfeitos de Deus (Lv. 19:2). Essa verdade se aplica a nós tanto individualmente quanto coletivamente.

As instituições humanas, sejam elas famílias, escolas, empresas, religiões, nações, governos, sociedades, civilizações, culturas – todas elas, em sua essência, estão corrompidas pelo pecado e estão sob o julgamento de Deus.

Em tal condição, não há nada que possamos contribuir para a nossa salvação. Escravos não podem se libertar; mortos não podem ressuscitar a si mesmos.

Não é que estejamos dispostos a agir corretamente, e agradar e Deus, mas somos impedidos; ao contrário, não estamos nem mesmo dispostos a agradar a Deus (Rm. 8:6-8). A escuridão em nossas mentes é auto-imposta (Rm. 1:21-22; Ef. 4:17-19).

A tentativa de sermos bons pelos nossos próprios esforços, buscando nossa própria justificação, não é a solução (Rm. 9:30-10:3). Os nossos melhores esforços são totalmente insuficientes (Is. 64:6). Nossos corações são tão enganosos e desesperadamente corruptos que constantemente subestimamos o poder do pecado (Jr. 17:9).

Em meio a essa situação desesperadora, Deus agiu decisivamente para a nossa salvação. Para o nosso entendimento dos atos redentores de Deus e sua importância, somos completamente dependentes da revelação das Escrituras.

Começando com Abraão, Deus tem chamado um povo a si com o qual ele estabeleceu sua aliança e para o qual ele ofereceu salvação individual e coletiva (Gn. 12:1-3; 17:1-21; Ex. 19:5-6).

O sistema cerimonial e sacrificial da aliança que Deus fez com Israel foi figura e sombra da morte sacrificial de Jesus na cruz pelos nossos pecados; tal sistema, portanto, foi posto de lado porque foi cumprido em Jesus Cristo (Hb. 7:11-10:18).

Na nova aliança, as exigências morais da lei do Antigo Testamento são cumpridas pela obediência de Cristo e os cristãos assim recebem o poder do Espírito de Cristo para que obedeçam tais padrões em seus corações, e não somente de maneira externa (Rm. 5:19-21; 8:1-11; 13:8-10; Hb. 5:8-9; 1 Jo. 3:4-10).

Através de sua morte, Jesus Cristo proveu uma base justa para que Deus nos perdoasse os pecados e nos declarasse justos perante ele (Rm. 3:25-26; 1 Jo. 1:7, 9). Nossa justificação perante Deus é um dom inteiramente gratuito; ela não pode ser, de nenhum modo, conquistada, alcançada ou merecida por nós (Rm. 3:24; Ef. 2:8-9; Tt. 3:4-7).

Também não podemos mantê-la através de boas obras; ao contrário, as boas obras são o fruto da salvação e só ocorrem no contexto de um relacionamento com Deus mantido somente pela sua graça (Ef. 2:10; Tt. 3:8).

Deus salva indivíduos simplesmente ao levá-los ao arrependimento de seus pecados e à fé em Jesus Cristo (Jo. 1:12; 3:16-18; At. 2:38; 17:30-31; Rm. 3:19-28; 4:1-8; 5:1-2; Gl. 2:20). Da mesma forma, o progresso numa vida de obediência a Deus, a santificação, é resultado da operação dele, pela sua graça, na fé de seus filhos (Rm. 1:17; Gl. 5:6).

O chamado de Deus à salvação é ao mesmo tempo um chamado para que nos tornemos membros do corpo de Cristo, a Igreja. O batismo é requerido de todos os crentes (Mt. 28:19; At. 2:38; 1 Co. 12:13).

A salvação de Deus afeta todas as instituições humanas, principalmente a família (1 Co. 7:14; Ef. 5:22-6:4), quando seus participantes buscam obedecer a Cristo em suas atividades (Mt. 28:19-20; Cl. 3:17).

Ainda que a base da salvação tenha sido cumprida pela obra de Cristo, em sua morte e ressurreição dentre os mortos, a consumação completa ocorrerá no futuro. Pela graça de Deus, os cristãos vão perseverar até o fim de suas vidas na fé e por sua fé, eventualmente receberão a consumação de sua salvação (1 Pe. 1:3-9).

As dimensões coletivas da salvação, ainda que não estejam completamente ausentes no presente, não serão inteiramente cumpridas até o fim da história (Ap. 21-22).

A necessidade da humanidade de salvação, e sua provisão por Deus, são as razões mais fundamentais para a doutrina cristã. O aspecto mais importante da doutrina é proteger a integridade e fidelidade à verdade da obra de redenção que Deus opera através de Cristo.

Como ficou evidente no resumo acima, a doutrina da salvação incorpora aspectos de todas as outras doutrinas cristãs. Não podemos pregar fielmente o evangelho da salvação se não formos ao mesmo tempo fiéis à totalidade das doutrinas cristãs, encontradas na Bíblia, sobre Deus, Cristo, a Igreja e o futuro.

A Igreja

A Igreja é um povo formado pelo único e verdadeiro Deus vivo, para que se relacione com ele na salvação concedida em seu Filho, Jesus Cristo. A revelação de Deus nas Escrituras é a regra de vida da Igreja.

Seu propósito é amar, honrar, adorar e obedecer a Deus, e refletir seu caráter nas ações de seu povo. A base de sua existência é a salvação cumprida em Cristo e aplicada a ela pelo Espírito Santo. O seu futuro é a glória eterna na presença de Deus.

O Credo Niceno dá a descrição clássica da Igreja: ela é una, santa, universal e apostólica. Ela é una, porque é uma unidade orgânica e histórica (1 Co. 12:12-13; Ef. 2:14-16; 4:4-6, 13-16).

Ela foi fundada por Jesus Cristo no primeiro século e ele vai voltar para ela. A Igreja tem sofrido e continuará sofrendo divisões, apostasias, heresias e escândalos, e até mesmo algumas igrejas que eram verdadeiras não o são mais (At. 20:28-30; Rm. 16:17; 1 Co. 11:18-19; 2 Co. 11:4, 13-15; Gl. 1:6-8; 1 Tm. 4:1; Tt. 3:10-11; 1 Jo. 2:19; Jd. 17-19; Ap. 2-3).

Sempre haverá, porém, a Igreja verdadeira adorando ao Deus verdadeiro e mantendo, ainda que imperfeitamente, a fé verdadeira, até a volta de Cristo (Mt. 16:18; 28:18-20; Ef. 3:21; 4:11-16; Jd. 4).

Ela é santa, não no sentido de ser perfeita ou admirável em seu caráter, mas no sentido de ter sido consagrada a Deus, e por isso ser uma instituição única pela qual ele opera seu propósito de redenção na história humana.

Assim sendo, todos aqueles que se identificam como seus membros individuais têm a promessa de receber toda benção espiritual, se tiverem verdadeira fé (Ef. 1:3-14); se não, receberão o mais severo julgamento de Deus (Hb. 2:1-3; 4:1-2; 10:29-31).

A Igreja também é universal, no sentido de incluir todos os verdadeiros crentes em Jesus Cristo de todo o mundo e através da história. Isso nada mais é do que se afirmar que a Igreja é una.

Vale a pena fazer uma ressalva aqui que vai além da questão da ortodoxia doutrinária. Há dois aspectos da doutrina da universalidade.

Por um lado, já que a verdadeira Igreja inclui todas as igrejas cristãs, nenhuma instituição denominacional ou associação de igrejas pode se dizer a única Igreja verdadeira, ainda que essa seja uma alegação tradicionalmente feita pela Igreja Católica Romana e pela Igreja Ortodoxa Grega.

Embora essas igrejas sempre tenham qualificado suas alegações ao admitirem a existência de cristãos em outras igrejas, ainda assim tais alegações são incongruentes com o conceito bíblico de universalidade.

Por outro lado, as igrejas romana e grega têm razão em insistir que a unicidade da Igreja deveria ser refletida institucionalmente. Os protestantes, em seu zelo de defender a integridade de suas igrejas, muitas vezes negam isso.

As divisões denominacionais são sintomáticas da existência do pecado na Igreja. Podemos até discordar sobre onde o erro se encontra, mas devemos admitir o problema.

Tornar a congregação local completamente autônoma e evitar todo e qualquer tipo de denominação também não resolve o problema, porque nesse caso cada congregação se torna sua própria denominação.

O que defendo não é que devamos abandonar toda divisão denominacional de uma só vez, mas que devemos trabalhar para que possamos superar divisões desnecessárias na Igreja.

Por fim, a Igreja é apostólica. Isso é entendido de duas maneiras. Na visão dos católicos romanos, ortodoxos gregos e anglicanos (episcopais), isso significa que a Igreja foi estabelecida como uma instituição na qual os apóstolos apontam bispos, que por sua vez apontam a próxima geração de bispos, e assim sucessivamente através dos séculos.

De acordo com essa visão, somente as igrejas que têm bispos que possam traçar sua cadeia de ordenação até a origem apostólica, são parte da Igreja “apostólica”. Essa doutrina normalmente é chamada de sucessão apostólica, ainda que obviamente seus bispos não sejam considerados como apóstolos.

Na visão dos protestantes, por outro lado, a Igreja é apostólica na medida em que ela sustenta a doutrina dos apóstolos que foi preservada nas Escrituras. Isso significa que as igrejas que tenham bispos somente são apostólicas se aderirem às doutrinas dos apóstolos (o que algumas não fazem), ao passo que as igrejas sem bispos também são apostólicas se aderirem às doutrinas apostólicas (o que algumas fazem, e outras não).

Não é o meu propósito aqui elucidar essa questão extensamente. Obviamente, minha posição sobre o assunto me coloca no campo protestante. Entretanto, não considero a doutrina da sucessão apostólica inteiramente errônea.

Para que possamos manter a doutrina da unicidade da Igreja, concordo que deva haver alguma ligação entre as igrejas modernas e os apóstolos. Deve haver uma continuidade através da qual a mesma fé é transmitida de uma geração para outra.

Qualquer denominação, ou igreja em particular, deveria ser capaz de demonstrar que sua fé tem suas raízes no desenvolvimento histórico, desde os apóstolos até o presente.

Alguém pode (ou deve, se for protestante) concordar que esse desenvolvimento histórico requer, às vezes, reforma, confrontação da liderança, e até separação daqueles grupos que tenham trocado a fé pelo liberalismo ou por outras doutrinas apóstatas.

Porém, nenhum grupo pode dar as costas à Igreja, abandonar a fé por ela defendida através dos séculos e querer ser “apostólica”, adotando novas interpretações dos ensinamentos dos apóstolos no Novo Testamento.

Tais grupos não são apostólicos, porque ser apostólico significa não só aderir à doutrina apostólica, mas também ser parte da Igreja fundada pelos apóstolos. Isso, na minha opinião, é o que há de correto na visão não protestante da apostolicidade.

A diferença é que eu defendo, junto com os protestantes de uma maneira geral, que esta apostolicidade histórica não tem de ser limitada exclusivamente à sucessão de bispos.

Pode-se observar que a doutrina da Igreja é uma área de maior discordância entre cristãos do que qualquer outra. Ainda assim, sua importância para a ortodoxia é muito grande.

Visões equivocadas sobre a Igreja podem, nos piores casos, impossibilitar a salvação de alguém. Algumas pessoas desprezam a Igreja de tal maneira que acham que podem simplesmente abandonar a fé histórica e reinventar o cristianismo.

Outros, no extremo oposto da questão, têm uma visão tão elevada da Igreja enquanto instituição que imaginam que uma pessoa é salva meramente por fazer parte do seu quadro social ou por participar em suas atividades.

Ambos os erros são fatais à espiritualidade. Erros que não sejam extremos talvez não impeçam que alguém seja salvo, mas podem impedir que a pessoa tenha uma vida e experiência cristã plenas.

O Futuro

Não podemos permitir que as muito debatidas diferenças entre cristãos ortodoxos com relação ao futuro, ou os “últimos tempos”, ofusquem a concordância substancial que existe sobre os essenciais da fé.

Deus está guiando a história para um tempo de consumação, um tempo no qual todos os seus propósitos na criação e redenção da raça humana serão cumpridos (Ap. 21-22).

Quando esse objetivo for alcançado, o entendimento parcial que temos sobre a revelação de Deus na encarnação de Cristo e nas Escrituras dará lugar a um entendimento completo e perfeito, já que estaremos face a face com Deus em Cristo (1 Co. 13:9-12; 1 Jo. 3:1-2).

Quando tal consumação for alcançada, o reino de Deus sobre toda a criação será incontestável. Todas as criaturas conhecerão, amarão e obedecerão a Deus de maneira perfeita, em regozijo (Is. 11:9; Zc. 14:9; Mc. 12:28-34; Ef. 1:11).

O caráter de Deus será refletido perfeitamente pelos seres humanos, tanto individual quanto coletivamente (Ef. 4:24; Cl 3:10). A nova raça humana, redimida e aperfeiçoada, será perfeitamente conformada à imagem de Jesus Cristo (Rm. 8:29; 1 Co. 15:48-49; Fp. 3:21).

A salvação que foi obtida na morte e ressurreição de Cristo e selada em cada indivíduo pelo Espírito Santo, será finalmente consumada na redenção corporal e na glorificação do povo de Deus para a vida imortal e celestial (Rm. 8:18-30; 1 Co. 15:42-54; 2 Co. 5:1-5; Ef. 1:13-14; Cl. 3:1-4).

O resultado será uma sociedade gloriosa de criaturas perfeitas, prontas para a vida eterna nos novos céus e nova terra, nos quais somente a justiça habitará (2 Pe. 3:13; Ap. 21:1).

A entrada nesta eternidade gloriosa não é garantida a todos. Tanto os anjos caídos como todos os seres humanos (exceto por meio de Jesus Cristo) merecem punição eterna. Aqueles a quem Deus não há de salvar através de Jesus Cristo sofrerão tal punição (Mt. 25:46; 2 Ts. 1:7-9; Ap. 20:10-15).

Existe grande controvérsia entre os cristãos com relação ao que há de acontecer antes da consumação. O que sabemos é que a hora da volta de Cristo não nos foi revelada. Ele virá subitamente e sem anúncio prévio.

Sua volta surpreenderá os incrédulos porque eles não esperam que Jesus volte, enquanto que trará alegria e alívio aos cristãos que, ainda que não sabendo o dia e a hora, estavam sendo fiéis ao Senhor porque sabiam que ele voltaria (Mt. 24:36-51; 1 Ts. 5:1-11).

O significado do “milênio” (Ap. 20:1-6) é muito debatido entre os cristãos ortodoxos. Todos concordam nisto: que o milênio é um período (seja presente ou futuro, antes ou depois da volta de Cristo) que precede a consumação final.

Desta maneira, ele nos lembra que o reino de Cristo nos nossos corações, bem como sobre as instituições humanas, não será completo até que o pecado seja completamente erradicado pelo juízo final.

Nesse julgamento, Cristo trará, por um lado, punição eterna aos incrédulos e, por outro, a avaliação das obras de seu povo, em preparação para a vida eterna na nova criação de Deus (Rm. 14:10-12; 1 Co. 3:12-15; 2 Co. 5:10).

O significado e importância da doutrina dos propósitos de Deus para o futuro não devem ser negligenciadas. Não sabemos exatamente como as coisas serão na eternidade que Deus tem reservado para nós (1 Jo. 3:2), mas não ignoramos completamente o nosso destino.

Se discordarmos radicalmente sobre tal destino, tampouco concordaremos sobre como chegar lá. Entretanto, a doutrina bíblica do futuro deixa claro que a salvação é um resultado da graça de Deus em Jesus Cristo e que nós não temos nenhuma capacidade de efetuar tal consumação.

Ainda assim, Deus, pela sua graça, trabalha através de nós, movendo a história cada vez mais perto de seu objetivo (2 Pe. 3:11-12).

O estudo da sã doutrina é um meio pelo qual crescemos na graça e conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo, a quem damos glória, tanto agora como para todo o sempre (2 Pe. 3:18). Essa é a importância e o significado da sã doutrina.



Traduzido e adaptado do livro Orthodoxy and Heresy (Ortodoxia e Heresia) de Rob Bowman.
Todos os direitos reservados.
Tradução e adaptação: Marcelo Parga de Souza

0 comentários: