sexta-feira, 2 de maio de 2008

Flávio Josefo, Homem Singular em uma Sociedade Plural

Este artigo foi publicado em Cadernos de Teologia n. 5 (setembro de 1998), Campinas, ITCR da PUC-Campinas, pp. 29-51.

Meu pai chamava-se Matatias, meu nome é Josefo, sou hebreu de nascimento, sacrificador em Jerusalém” (Prefácio a Bellum Iudaicum).

Neste artigo, sem grandes pretensões de originalidade, mas que tem como objetivo estimular a leitura da obra de Flávio Josefo, importante historiador judeu do século I d.C., gostaria de destacar 6 momentos fundamentais:

1. A origem aristocrática de Josefo, sua ligação com os asmoneus, seus estudos e sua formação.

2. A experiência do deserto na adolescência e a opção religiosa. Casamento e reintegração na vida da família em Jerusalém.

3. A viagem a Roma: o aristocrata provinciano que vê a grandeza e o poderio do Império. A influência deste fato no seu confronto posterior com Roma.

4. O comando da Galiléia, a contemporização, a derrota, a suspeita sobrevivência, a “profecia” feita a Vespasiano.

5. De prisioneiro a amigo dos romanos no cerco de Jerusalém. Ao lado de Tito, sua teologia é: Deus abandonou os judeus e agora está com os romanos (traição teológica).

6. Sua condição privilegiada em Roma, as rivalidades e os ciúmes, a obra histórica: encomenda e defesa.

Procurarei sempre olhar Flávio Josefo como ator e intérprete: participa dos acontecimentos e depois os interpreta. Objetivamente Josefo é um traidor de seu povo: este é o nosso olhar crítico hoje. Entretanto, subjetivamente, ele não se vê como traidor, mas modelo: a visão de si mesmo que aparece na sua obra será destacada.

Os textos de Flávio Josefo citados neste artigo estão em JOSEFO, F., História dos Hebreus. Obra Completa, tradução do grego de Vicente Pedroso, Rio de Janeiro, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1992. Optei, para facilitar a consulta, por indicar apenas as páginas da referida obra e não, como classicamente se costuma, citar capítulos e parágrafos dos livros de Josefo. O leitor notará que o português desta tradução não é exatamente o que gostaríamos que fosse...

Alguns trechos de sua obra, em um português mais “amigável” podem ser lidos em AA.VV., Flávio Josefo: uma testemunha do tempo dos Apóstolos, São Paulo, Paulus, 1986.

Uma excelente edição das obras de Flávio Josefo, com o texto original, tradução inglesa e notas é a da Loeb Classsical Library: THACKERAY, H. St. J./MARCUS, R./WIKGREN, A.,/FELDMAN, L. H., Josephus I-X, Cambridge, Harvard University Press, 1926-1965.

1. Origem

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém, em 37 ou 38 d.C., de uma rica família da aristocracia sacerdotal asmonéia. Eis como descreve em sua Autobiografia, com orgulho, sua origem aristocrática, para "desmanchar as calúnias de meus inimigos”:

“Como eu tenho a minha origem numa longa série de antepassados de família sacerdotal, eu poderia vangloriar-me da nobreza do meu nascimento, pois cada nação, estabelecendo a grandeza de uma família, em certos sinais de honra que a acompanham, entre nós um das mais notáveis, é ter-se a administração das coisas santas. Mas eu não sou somente oriundo da família dos sacrificadores, eu sou também da primeira das vinte e quatro linhas que a compõem e cuja dignidade está acima de todas. A isso eu posso acrescentar que, do lado de minha mãe eu tenho reis, entre meus antepassados. O ramo dos asmoneus, de que ela é proveniente, possuiu durante um longo tempo, entre os hebreus, o reino e a suprema sacrificadura.

[Nasci de] Matias no primeiro ano do reinado do imperador Caio César [o imperador romano Calígula, que reinou de 37 a 41 d.C.]. Quanto a mim, tenho três filhos, o primeiro dos quais, chamado Hircano, nasceu no quarto ano do reinado de Vespasiano [imperador romano que governou de 69 a 79 d.C.]. O segundo chama-se Justo, nasceu no sétimo e o terceiro, de nome Agripa, no nono ano de reinado do mesmo imperador”[1].

Flávio Josefo recebe uma formação judaica sofisticada. Diz ele em sua Autobiografia:

“Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e mãe, que tinha como ele o nome de Matias. Deus deu-me bastante memória e inteligência e eu fiz tão grande progresso que tendo então só catorze anos, os sacrificadores e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis”[2].

Segundo Mireille Hadas-Lebel, “a natureza do ensino recebido [por Josefo] não deixa nenhuma dúvida: trata-se de um ensino puramente religioso, baseado na Torá. De fato, julga-se que os livros sagrados contêm o saber essencial ao homem para que conduza sua vida neste mundo. Neles, ele pode encontrar um código cultural, moral, social, político, assim como a história do universo e das gerações humanas, todas as coisas que ele sabe dever vincular a uma divindade única e onipresente”[3].

2. Formação

Aos 13 anos entra em contato com as três principais tendências do judaísmo do século I d.C., desenvolvidas pelos saduceus, fariseus e essênios, mas ainda não decide abraçar nenhuma delas.

“Quando fiz treze anos desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, dos saduceus e dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de, conhecendo-as, eu pudesse adotar a que melhor me parecesse. Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade”[4].

Observa João Batista Madeira que “num ambiente como o que se vivia então é de se esperar que houvesse uma preocupação muito grande com a espiritualidade. Ainda mais em se tratando de um povo cuja religião era determinante para os assuntos tanto sociais quanto individuais. A pluralidade de opções era outra característica marcante do povo judeu daquela época. Não havia autoridade suprema a nível de interpretação dos escritos sagrados, nem da tradição oral e nem com relação à moral (...) Para entender a pluralidade de escolas espirituais é preciso saber que cada uma reivindicava para si a autenticidade na vivência fiel da Lei. Numa religião sem uma autoridade central e legitimadora em si e sem dogmas fica uma certa amplitude de interpretação o que garante a grupos que podem até se opor, desfrutar da mesma herança religiosa”[5].

Mas, não satisfeito com esta experiência, Josefo vai viver três anos, dos 16 aos 19 anos de idade, junto a um asceta chamado Bano, que

“vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto banhava-se várias vezes por dia e de noite, na água fria; resolvi imitá-lo”[6].

Mireille Hadas-Lebel vê nesta temporada no deserto junto a Bano, uma “tentação essênia” no jovem Josefo e chega mesmo a dizer, creio que sem maior fundamentação, que “somente uma estada entre os essênios pode explicar a abundância dos detalhes que ele nos dá tanto sobre a doutrina quanto sobre o seu modo de vida”; além de acrescentar que, embora o anacoreta Bano não seja conhecido a não ser por esta menção de Josefo, ele nos “faz irresistivelmente pensar em João Batista, que também vivia no deserto, vestido com uma túnica de pêlo de camelo, um cinto de couro ao redor da cintura, e se alimentava de gafanhotos e mel selvagem”[7].

Após estes três anos no deserto, Josefo volta a Jerusalém, provavelmente para se casar, e opta pela linha teológica farisaica, como nos diz ele em sua Autobiografia:

“Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me então nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estóicos, entre os gregos”[8].

Apesar de dizer que optou pelos fariseus, alguns especialistas defendem que Josefo é, na verdade, um saduceu. Só que após a guerra judaica, já em Roma, vivendo à sombra do Imperador, e acusado por seu rival judeu Justo de Tiberíades de ser anti-romano, Josefo diz ser adepto dos moderados fariseus[9].

3. A Viagem a Roma

No ano 64 d.C., com 26 anos de idade, Josefo vai numa embaixada a Roma para interceder junto a Nero por alguns sacerdotes judeus ali retidos não se sabe bem por que, já que Josefo é muito sucinto na sua Autobiografia:

“Na idade de vinte e seis anos fiz uma viagem a Roma, por esta razão. Félix, governador da Judéia, mandou por um motivo qualquer alguns sacrificadores, homens de bem e meus amigos particulares, para se justificarem perante o imperador; eu desejei, com muito entusiasmo, ajudá-los, quando soube que sua infelicidade em nada havia diminuído sua piedade e eles se contentavam em viver com nozes e figos”. Através da imperatriz Popéia, esposa de Nero, Josefo obteve “sem dificuldade a absolvição e a liberdade daqueles sacrificadores por intermédio dessa princesa, que me deu grandes presentes, também, com os quais regressei ao meu país”[10]

O brilhante sucesso desta missão colocou Josefo em respeitável posição frente aos seus conterrâneos. Mas não é apenas este o efeito da viagem a Roma. O jovem aristocrata provinciano viu, pela primeira vez, a grandeza e o poderio de Roma, a maior e mais poderosa cidade do mundo de então. Isto vai influenciar sua avaliação da guerra que se seguirá. Diz o nosso personagem a propósito:

“Lá [em Roma] encontrei alguns espíritos inclinados às mudanças que começavam a lançar as raízes de uma revolta contra os romanos. Procurei dissuadir os sediciosos e lhes fiz ver, entre outras coisas, como tão poderosos inimigos lhes deviam ser temíveis, quer pela sua ciência na guerra, quer pela grande prosperidade e eles não deviam expor temerariamente a tão grande perigo suas mulheres, seus filhos e sua pátria”[11].

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[1]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 476. Cf. SCHÜRER, E., Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo (175 a.C. – 135 d.C.), vol. I, Brescia, Paideia, 1985, pp. 76-79.

[2]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 476.

[3]. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: o judeu de Roma, Rio de Janeiro, Imago, 1992, p. 25.

[4]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 476.

[5]. MADEIRA, J. B., Flávio Josefo, personagem e intérprete, Brodowski, Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, 1997, p. 18 (mimeografado).

[6]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 476.

[7]. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: o judeu de Roma., pp. 42;47-48. Sobre os essênios, cf. TYLOCH, W. J., O socialismo religioso dos essênios, São Paulo, Perspectiva, 1990.

[8]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, pp. 476-477.

[9]. Cf. SAULNIER, C., Histoire d’Israel III. De la conquête d’Alexandre à la destruction du temple (331 a.C. – 135 a. D.), Paris, Du Cerf, 1985, pp. 267 e 438.

[10]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 477. Em Antigüidades Judaicas há uma descrição bem mais detalhada dos motivos que teriam levado sacerdotes judeus à detenção em Roma, mas não se tem certeza se se trata do mesmo fato abordado na Autobiografia. Cf. o. c., p. 464.

[11]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 477.

4. O Comando da Galiléia

Quando explode o conflito com Roma, em 66 d.C., Josefo aceita, talvez por ambição, quem sabe por vaidade, o comando da Galiléia. Entretanto, mais do que preparar o território e a população para o enfrentamento inevitável com as legiões romanas de Vespasiano e Tito, Josefo preocupa-se em combater os conflitos internos provocados pelas várias facções judaicas em luta. Sua atitude é tão ambígua que ele é repetidamente acusado por vários grupos galileus de traição à causa judaica.

Mireille Hadas-Lebel faz uma observação interessante: Flávio Josefo “sentirá mais tarde tamanha necessidade de se justificar a respeito desse período de sua vida que, por isso mesmo, se torna suspeito. Nove décimos de sua Autobiografia são, com efeito, dedicados aos poucos meses em que ele exerceu as funções de general governador da Galiléia (...) A superabundância de detalhes relativos a esta época é muito enganadora, pois Josefo nos fornece, com vinte anos de distância, na Guerra e na Autobiografia, dois relatos paralelos, um na terceira pessoa, o outro na primeira pessoa, entre os quais subsistem divergências não desprezíveis. Onde ele diz a verdade? E se houvesse uma terceira verdade? Por ter querido demais justificar-se, Josefo abre a porta para o pior inimigo do historiador: a dúvida da posteridade”[12].

Martin Goodman, em obra sobre as origens da revolta judaica contra Roma, diz confiar intensamente na narrativa de Josefo, historiador que pode ser acusado de negligente, mas que se mostra impressionantemente preciso quando confrontado com outras evidências. Sendo assim, diz: “A minuciosa narrativa de Josefo foi, por isso, totalmente explorada neste livro”. Contudo, acrescenta: “Mas seus juízos de valor foram tratados como mais do que um pouco suspeitos. Quando não podem ser comprovados por sua minuciosa narrativa eles foram considerados como representativos da atitude apenas da classe dirigente à qual ele pertencia, e não de todos os judeus da Judéia”[13].

Os rebeldes de Jerusalém deram a Josefo os poderes que eram anteriormente atribuídos ao prefeito romano, já que sua tarefa é, ao mesmo tempo administrativa, judiciária e militar. Josefo tinha como função sublevar toda a população da Galiléia contra Roma e unificar todos as facções e comandos, pois graças à sua proximidade com a Síria, a região seria a primeira a ser atacada pelos romanos, como, de fato, o foi. Eis o relato de Josefo, em terceira pessoa, na Guerra Judaica, quando fala da distribuição dos comandos:

“Josefo, filho de Matias, [foi escolhido] para exercer um cargo semelhante na alta e na baixa Galiléia, acrescentando-se ao seu governo Gamal, que é a praça mais forte de todo o país (...). O primeiro cuidado de Josefo foi conquistar o afeto do povo, para tirar grandes vantagens e reparar assim as faltas que pudesse cometer. Para conquistar também os mais poderosos, dividindo com eles a sua autoridade, escolheu setenta dos mais sábios e dos mais hábeis, que constituiu administradores da província e deu assim àqueles povos a alegria de serem governados por pessoas do próprio país e conhecedores dos seus costumes. Além disso estabeleceu em cada cidade sete juízes, para julgar as pequenas causas, segundo a forma que ele lhes havia determinado. Quanto às grandes, reservou para si mesmo o julgamento”[14].

Josefo descreve, em seguida, como fortificou a Galiléia, construindo muralhas em cidades da baixa e da alta Galiléia, assim como recrutou um exército considerável de sessenta mil homens de infantaria, duzentos e cinqüenta cavaleiros, quatro mil e quinhentos mercenários e seiscentos guardas pessoais. Estabeleceu em seu exército, à maneira dos romanos, cuja estrutura militar demonstra conhecer bem, uma rígida hierarquia, para que a disciplina pudesse suprir a falta de armamento adequado e de treinamento militar que o curto tempo não permitia obter. É o que lemos em A Guerra Judaica:

“Como sabia que o que tornava os romanos maximamente invencíveis era a obediência e a disciplina, e via que o tempo não lhe permitia exercitar seus homens tanto quanto ele desejara , julgou dever pelo menos torná-los obedientes.Como para isso contribui eficazmente o número de comandantes, ele lhos deu, à imitação dos romanos, muitos oficiais e chefes”. Além do urgente (e precário) treinamento, “falava-lhes principalmente da disciplina dos romanos, que era rígida e extrema e que eles tinham que combater contra homens, cuja força corporal unida a uma invencível firmeza de alma, tinha conquistado quase todo o mundo”[15]

Entretanto, o comportamento de Josefo logo despertou suspeitas entre os galileus, pois em duas ocasiões ele se mostrou favorável a Agripa II, o último governante da família herodiana e aliado de Roma. Josefo precisou usar de toda a sua comprovada astúcia para sobreviver. Teve em João de Gíscala, um dos líderes da rebelião, seu pior inimigo. Este conseguiu que uma comissão viesse de Jerusalém para investigar as atividades de Josefo, acusado de não preparar a Galiléia para a resistência, mas a delegação tinha ordens de obter a demissão de Josefo e, em caso de resistência, de matá-lo sem hesitação.

Avaliando a missão de Josefo na Galiléia, diz Mireille Hadas-Lebel: “Apesar de todos os esforços de Josefo para fazer sua ação aparecer sob um luz favorável, o balanço desses poucos meses é totalmente negativo. Não só ele não conseguiu unificar a região sob seu comando, como nela provocou novas clivagens. Suscitou inimizades ferozes, escapou a várias tentativas de assassinato, e só se manteve em seu posto graças a apoios junto aos poderosos”[16].

De sua parte, Josefo interpreta sua missão como sendo a de manter a paz na Galiléia, ou seja, “primeiro a paz interna, impedindo os confrontos entre judeus e os ataques surpresa de bandos armados contra as populações pagãs, em suma tudo o que prejudica a ordem e a unidade; e igualmente abster-se, pelo máximo de tempo possível, de provocar a intervenção dos romanos ou de seus aliados”[17].

Vespasiano, enfim, ataca a Galiléia com um bem aparelhado exército de mais de 60 mil homens. Josefo, na Guerra Judaica, faz uma detalhada descrição do exército romano, com a finalidade, se justifica, de não

“tanto tecer elogios aos romanos, mas consolar àqueles que eles venceram e fazer os outros perder o desejo de se revoltar contra eles”[18].

Por outro lado, sobre o seu próprio exército, diz ele que

“somente a notícia de sua [Vespasiano] chegada, de tal modo assustou os judeus, que quantos se haviam reunido a Josefo e tinham acampado em Garis, perto de Séforis, fugiram, não somente antes do combate, mas mesmo sem ter visto o exército”[19].

A devastação da Galiléia pelos romanos é total. Os galileus não tinham com enfrentá-los em campo aberto e, sitiadas, as cidades foram caindo uma a uma. Bloqueado, por fim, em Jotapata, Josefo resiste, com extrema habilidade, a 47 dias de cerco.

Ocorre, então, na queda de Jotapata em 20 de julho de 67, um dos mais suspeitos episódios de toda a vida de Josefo. Vejamos sua descrição em A Guerra Judaica:

“Ele [Josefo] fora tão feliz, que depois da queda da cidade, fugindo pelo meio dos inimigos, desceu a um poço muito profundo, ao lado do qual havia uma caverna espaçosa, que não podia ser vista do alto. Lá encontrou quarenta dos mais valentes dos seus, que também ali se tinham refugiado e que tinham todo o necessário para vários dias (...) Dois dias assim se passaram; no terceiro, uma mulher o denunciou (...) Vespasiano mandou Paulino e Galicano, dois tribunos, garantir-lhe que o trataria bem, exortando-o a sair; ele não quis fazê-lo, porque, não estando persuadido da clemência dos romanos, e sabendo do seu ressentimento, pelo mal que lhes havia feito, temia que quando o tivessem em seu poder, procurassem vingar-se”[20].

Como não conseguiam convencê-lo a se entregar, os soldados romanos decidiram incendiar a caverna, só não o fazendo porque Vespasiano o queria vivo, garante Josefo. E prossegue:

“Josefo então lembrou-se dos sonhos que tivera, nos quais Deus lhe fizera ver as desgraças que sucederiam aos judeus e os felizes resultados obtidos pelos romanos, pois ele sabia explicar os sonhos e ver a verdade mesmo no meio das trevas, a qual Deus muitas vezes se compraz em esconder e como ele era sacrificador, também conhecia as profecias que estão nos livros santos. Como se, naquele momento, estivesse cheio do Espírito de Deus, tudo o que Ele lhe havia feito ver nos sonhos pareceu renovar-se, e ele dirigiu-lhe esta oração: ‘Grande Deus, Criador do universo, pois que resolvestes terminar a prosperidade dos judeus para aumentar a dos romanos e me escolhestes para lhes predizer o que está para acontecer, eu me submeto à vossa vontade, entrego-me aos romanos e consinto em continuar a viver. Mas, protesto diante de vossa eterna majestade, que, como um vosso ministro e não como um traidor, eu me entrego a eles’”[21].

E, então, o óbvio aconteceu: os que estavam com ele não concordaram com esta “brilhante” idéia! Depois de um discurso no qual denunciam sua decisão como traição às leis judaicas, eles puxaram das espadas para matá-lo. Seus companheiros estavam firmemente decididos a morrer ali por suas próprias mãos, mas jamais se entregariam aos romanos. Contudo, uma vez mais, prevaleceu a astúcia de Josefo:

“Josefo, por seu lado, não perdeu a calma, em tão grave perigo: confiando na proteção de Deus, assim lhes falou: ‘Pois que estais mesmo resolvidos a morrer, lancemos a sorte para ver quem deverá ser morto por primeiro por aquele que o seguirá; continuemos a fazer sempre do mesmo modo, a fim de que nenhum de nós se mate por si mesmo, mas receba a morte das mãos de um outro’ (...) Foi então lançada a sorte e o que era determinado apresentava o pescoço ao que o devia matar; isso continuou até que restavam somente Josefo e um outro; o que aconteceu, talvez, por uma especial proteção de Deus ou por casualidade. Josefo, vendo que se ele lançasse a sorte, ela, ou lhe custaria a vida ou ele teria que manchar suas mãos no sangue de um amigo, aconselhou-o a viver, dando-lhe garantia de salvá-lo”[22].

Feito prisioneiro, "prediz" a Vespasiano o Império e consegue sobreviver. Quando, em junho de 69 d.C., Vespasiano é feito imperador, Josefo passa da condição de prisioneiro a protegido dos romanos.

A “predição” feita a Vespasiano, como descrita em A Guerra Judaica, é peça para se admirar... e para se espantar com a capacidade de sobrevivência de Josefo:

“Vós julgais, sem dúvida, senhor, que tendes somente a Josefo, prisioneiro em vossas mãos. Mas eu venho por ordem de Deus comunicar-lhe uma coisa que muito vos interessa, e é muito mais importante. Eu bem sei de que modo os que têm a honra de comandar os exércitos dos judeus devem morrer, por terem caído vivos em vossos mãos. Quereis mandar-me a Nero. E por que mandar-me, pois que ele e os que lhe devem suceder até vós têm tão pouco tempo de vida? É somente a vós e a Tito, vosso filho, que eu considero imperadores; a este, depois de vós, porque ambos subireis ao trono. Fazei-me pois guardar quanto vos aprouver, mas como vosso prisioneiro, não de outro; somente vós vos tornastes, pelo direito da guerra, senhores da minha liberdade e de minha vida; mas sê-lo-eis dentro em breve de toda a terra e eu merecerei um tratamento muito mais severo do que a prisão, seu eu for tão mau e tão ousado, em abusar do nome de Deus, para vos obrigar a prestar fé a uma impostura”[23].

O que poderia ter acontecido de fato? Embora o relato traga as marcas de fatos já acontecidos quando narrados, certamente Josefo estava, no momento da prisão, ciente de muitas coisas, entre elas a da origem humilde de Vespasiano, sua dura ascensão ao comando, sua crendice em muitos presságios que pareciam apontar-lhe o caminho do sucesso e outras coisas do gênero. E, assim, sabendo que nas mãos de Nero seu destino não seria nada agradável - pois era um dos chefes da revolta e sua protetora Popéia já havia morrido - Josefo falou a Vespasiano exatamente o que ele queria ouvir[24].

Mas, enquanto Vespasiano, ainda não feito imperador, continua a conquista da Galiléia, Josefo permanece prisioneiro em Cesaréia. São dois anos e meio, de julho de 67 a dezembro de 69. E, observa Mireille Hadas-Lebel, “é neste ponto do relato de Josefo que sentimos mais claramente o quanto sua perspectiva sobre as operações militares se deslocou. Tudo é agora visto do campo do vencedor”[25].

De fato, a narrativa de A Guerra Judaica assume agora uma perspectiva que demonstra uma romanização crescente de Josefo. Das ações militares de Tito faz uma verdadeira hagiografia e as mais cruéis atitudes de Vespasiano são descritas como naturais, como quando, fingindo anistiá-los, reúne os estrangeiros sobreviventes do ataque a Tariquéia no estádio de Tiberíades e os massacra:

“Ali fez matar todos os velhos e os incapazes de pegar em armas, em número de mil e duzentos; mandou a Nero seis mil homens fortes e robustos para trabalhar no istmo de Moréia [em Corinto, onde Nero tentou abrir o canal, ação que só se concretizou em 1893]. O povo foi feito escravo; foram vendidos trinta mil e quatrocentos deles; o resto foi dado a Agripa, para fazer o que quisesse dos que eram do seu reino”[26].

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[12]. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: o judeu de Roma, p. 77.

[13]. GOODMAN, M., A classe dirigente da Judéia. As origens da revolta judaica contra Roma, 66-70 d.C., Rio de Janeiro, Imago, 1994, p. 35.

[14]. JOSEFO, F., História dos Hebreus, pp. 579-580. Para maior conhecimento da estrutura econômica, política e social da Galiléia desta época pode se ler FREYNE, S., A Galiléia, Jesus e os evangelhos. Enfoques literários e investigações históricas, São Paulo, Loyola, 1996, especialmente as pp. 121-153.

[15]. Idem, ibidem, p. 580.

[16]. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: o judeu de Roma, pp. 103-104.

[17]. Idem, ibidem, p. 104. Diz Josefo na Autobiografia: “Como eu nada mais tinha a peito do que manter a paz na Galiléia...”. Cf. JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 480.

[18]. Idem, ibidem, p. 589.

[19]. Idem, ibidem, p. 590.

[20]. Idem, ibidem, p. 599.

[21]. Idem, ibidem, p. 599.

[22]. Idem, ibidem, p. 601.

[23]. Idem, ibidem, p. 601.

[24]. Cf. SUETÔNIO, A vida dos Doze Césares, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d, pp. 315-330. Suetônio, historiador romano, viveu de ap. 70 a 160 d.C. A vida dos Doze Césares é a mais importante de suas obras conservadas. Contém as biografias de Júlio César e de onze imperadores, de Augusto a Domiciano. Suetônio recolhe um grande número de presságios que pareciam confirmar o futuro imperial de Vespasiano. Descreve também a “predição” de Josefo: “José, um dos mais nobres cativos, no instante em que o punham a ferros, não cessou de afirmar que cedo seria libertado pelo próprio Vespasiano, mas por Vespasiano feito imperador” (p. 320).

[25]. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: um judeu de Roma, p. 144.

[26]. JOSEFO, História dos Hebreus, p. 607.

5. No Cerco de Jerusalém

No cerco de Jerusalém ele está ao lado de Tito e tenta, repetidamente, convencer os sitiados a se renderem. Objetivamente, Josefo é um traidor, mas não é assim que ele se vê. Diz, por exemplo, aos sitiados que os romanos são os senhores do universo, que ninguém pode escapar deles, e, até mesmo, que Deus agora está é do lado deles e não com os judeus...

Disse Josefo

“Que, se é vergonhoso estar sujeito a um poder desprezível, não o é ter como senhores àqueles que reinam em toda a terra, pois, que país está isento do domínio dos romanos, senão aquele que um excessivo calor ou um frio insuportável o teria tornado inútil? Que se via que de todos os lados a fortuna lhes estendia os braços e que Deus, que tem em suas mãos o império do mundo, depois de tê-lo, no correr dos séculos, dado a diversas nações, tinha então estabelecido a sua sede na Itália?”[27].

Além desse argumento “teológico”, oferecido aos sitiados, Josefo fornece ao leitor outras razões para explicar a derrota de Jerusalém. Segundo ele, a cidade estava tão dividida em facções em luta que os próprios judeus foram os maiores responsáveis por sua derrota. Em suas palavras:

“Podemos dizer com verdade que uma guerra tão cruel em seu interior, não lhes era menos funesta que uma guerra externa e que Jerusalém não sofreu mais da parte dos romanos, do que o furor dessas infelizes divisões, que já lhe havia feito experimentar males ainda maiores. Assim não tenho receio de afirmar que é principalmente a esses inimigos de sua pátria e não aos romanos, que devemos atribuir a ruína dessa poderosa cidade e que a única glória que lhes pode caber é ter exterminado esses malfeitores, cuja impiedade unida a tantos outros crimes que nem poderíamos imaginar, lhe tinha destruído a união que lhe dava muito mais força que suas mesmas muralhas. Não podemos pois dizer, com razão, que os crimes dos judeus são a verdadeira causa de suas desgraças e que, o que os romanos lhes fizeram sofrer, não foi um justo castigo? Deixo, porém, a cada qual, que julgue como lhe aprouver”[28].

E o pior é que, em sua frase final, ele instala, no leitor, a dúvida: você deve decidir... Não terá sido merecido o “castigo” infligido aos judeus? E é preciso acrescentar o seguinte: em toda esta parte de A Guerra Judaica, Tito sempre aparece como bom e compassivo, enquanto os líderes da revolta são terríveis e sanguinários. Se no acampamento romano acontece algo de cruel com judeus desertores ou capturados – como o caso dos dois mil que tiveram suas barrigas abertas pelos soldados que procuravam o pretenso ouro que teriam engolido ao sair de Jerusalém – jamais é com a aprovação do “justo” Tito. São “excessos” cometidos por tropas auxiliares...[29].

Creio que aqui será o momento certo para colocarmos a dura avaliação que Giuseppe Ricciotti faz de Flávio Josefo em sua introdução à tradução para o italiano de A Guerra Judaica[30].

Diz Ricciotti na p. 6: “Josefo (...) tinha tanta ambição e tanto apego à sua carreira política que preferiu curvar-se, como um frágil caniço, em várias direções”. E na p. 12: “O fator político contava, para Josefo, apenas enquanto era um meio para triunfar, e qualquer ideologia abstrata era afirmada ou negada segundo as circunstâncias o exigiam”.

Ou na p. 34 da mesma obra: “Julgado como homem, Josefo aparece como um espírito mesquinho, sem caráter, disposto a fazer qualquer negocio desde que alcançasse seus objetivos”. E na p. 41: “Considerando o título Guerra judaica como original e autêntico, temos nele mesmo o ponto de vista a partir do qual fala o historiador: é o ponto de vista dos romanos, não o dos judeus...”.

Por sua vez, Emil Schürer diz que sobre o caráter de Josefo as opiniões expressas ao longo dos séculos são bastante contraditórias. Supervalorizado na Idade Média, ele tem sido mais duramente tratado pelos críticos modernos. E acrescenta: “Ninguém vai querer defender o seu caráter. As características básicas de sua personalidade foram vaidade e complacência. E mesmo que ele não tenha sido o infame traidor que a Autobiografia parece mostrar, a sua passagem para o lado dos romanos e sua íntima adesão à família imperial Flávia foram feitas com mais ingenuidade e indiferença do que se poderia esperar de alguém que lamentava a queda da própria nação” [31].

6. A Condição Privilegiada em Roma

Após a guerra, Flávio Josefo vai viver em Roma, recebendo de Vespasiano uma casa, pensão, propriedades e a cidadania romana. Casa-se 4 vezes, tem 3 filhos, como vimos, e morre em 102 ou 103 d.C., em Roma.

Nestes cerca de 30 anos morando em Roma, Josefo escreve extensa obra sobre os judeus e a guerra judaica contra Roma: Bellum Iudaicum (A Guerra Judaica) em 7 livros; Antiquitates Iudaicae (Antigüidades Judaicas) em 20 livros; Contra Apionem (Contra Apião) em 1 livro e Vita (Autobiografia) também em 1 livro.

A Guerra Judaica é escrita primeiramente em aramaico e, em seguida, entre 79 e 81 d.C., traduzida para o grego. Alguns acham que é por remorso - pelo modo suspeito como salva sua vida - que Flávio Josefo escreve esta obra. Mas é mais provável que A Guerra Judaica seja uma obra de encomenda. Sendo ainda numerosos os judeus tanto no Império Romano quanto nas regiões dos partos, babilônios e árabes, e esboçando-se possibilidades de novas revoltas, é preciso dissuadir qualquer nova tentativa de insurreição. E a melhor dissuasão é o relato da guerra na Judéia. E quem melhor do que Josefo para fazê-lo?[32]

Ao descrever o poderio do exército romano, como, aliás, já anotamos acima, Josefo diz:

“Meu fim, no que acabo de dizer, não é tanto tecer elogios aos romanos, mas consolar àqueles que eles venceram e fazer os outros perder o desejo de se revoltar contra eles” (sublinhado meu)[33].

Josefo não faz uma simples crônica dos acontecimentos da guerra. Ele dedica o primeiro livro inteiro às causas remotas da guerra, voltando no tempo até a revolta dos Macabeus no século II a.C.

Seus modelos são os gregos Tucídides e Políbio. Tucídides é um historiador ateniense que vive entre 460 e 400 a.C., aproximadamente. Escreve a história da guerra do Peloponeso, considerada uma das mais importantes obras históricas de todos os tempos por sua imparcialidade e seu método científico.

Políbio nasceu em Megalópolis, na Arcádia em 202 aproximadamente e morreu em 120 a.C. Escreveu, além de outras obras, a “História”, em 40 livros, dos quais somente os 5 primeiros sobreviveram na íntegra. A obra visa registrar a ascensão rápida e dramática de Roma à supremacia do Mediterrâneo. “Ele teve a percepção clara, notável num contemporâneo, do posição a que Roma havia chegado no mundo mediterrâneo. Políbio procura sistematicamente as causas dos eventos (‘nada, seja provável, seja improvável, pode acontecer sem uma causa’), seguindo a evolução das nações e seu declínio, e não se equivocou ao expor as causas da decadência da Grécia. Sua narrativa é clara e simples, sem artifícios de retórica, escrita no dialeto comum baseado no ático, predominante na Grécia a partir de 300 a.C.”, comenta Paul Harvey[34].

Mas, como bom judeu, Josefo sempre destaca, em sua história, além das causas humanas, a ação da providência divina que tudo dirige. No prefácio de A Guerra Judaica, o próprio Josefo explica a sua concepção de história:

"Indiscutivelmente, o historiador que merece elogios é aquele que consigna acontecimentos cuja história nunca foi escrita e que elabora a crônica de seu tempo, tendo em vista as gerações futuras"[35].

Antiguidades Judaicas, publicada em grego, é sua segunda obra e fica pronta em 93 d.C.

Josefo, como qualquer judeu da época, sofre muito com a ignorância do mundo greco-romano acerca dos judeus e de seus costumes, tradições e crenças. Os judeus são vistos e julgados a partir dos padrões culturais e civilizatórios gregos, transformando-se assim a sua história em uma história muitas vezes mítica e absurda porque a diferença cultural não é respeitada. Os costumes alimentares e cultuais judaicos, em geral causam profunda estranheza ao mundo grego. Além do que, as origens de Israel são freqüentemente desfiguradas por feroz anti-semitismo que tem sua origem nos conflitos da época, e que não deveria ser assim retroprojetado, pelos autores gregos que escrevem sobre os judeus, para o fim do II milênio.

Antiguidades Judaicas não tem, portanto, apenas o objetivo de informar, mas Josefo quer, através de uma história de milênios, defender seu povo e impressionar os romanos. Mostrar a antiguidade das origens é, na sua época, fundamental para qualquer povo que queira ser respeitado.

Para nós, Antiguidades Judaicas é importante, especialmente quando trata da história dos Macabeus e do governo de Herodes Magno.

Como dissemos acima, o anti-semitismo está em pleno florescimento no século I d.C. e se manifesta sobretudo entre escritores egípcios helenizados de Alexandria. É contra este anti-semitismo que Josefo escreve o Contra Apião em 95 d.C., contestando como falsas várias idéias bastante difundidas em Roma por esse popular autor[36].

Apião (Apíôn), que pode ser situado na primeira metade do século I d.C., "era um escritor e professor grego de origem egípcia, que exerceu um importante papel na vida cultural e política de seu tempo. Ele ficou famoso como um mestre em Homero e como autor de uma obra sobre a história do Egito"[37].

Apião não nasce em Alexandria, mas torna-se cidadão alexandrino. Representa os gregos contra os judeus de Alexandria diante de Calígula, enquanto Fílon de Alexandria representa os judeus, no ano 40 d.C., na questão dos direitos cívicos dos judeus alexandrinos.

Apião é o mais ferrenho dos anti-semitas do mundo helenístico e, como é um escritor muito popular, tem grande influência na formação da opinião pública culta de sua época, e, por isso, Flávio Josefo o escolhe como alvo entre todos os anti-semitas. Ele fala dos judeus nos livros 3 e 4 de sua Aegyptiaca.

A última obra de Josefo é a Autobiografia, escrita após 95 d.C., não se sabe exatamente em que ano. O livro é motivado por um relato da guerra escrito por seu velho inimigo Justo de Tiberíades.

Justo é um dos mais ardorosos líderes galileus na revolta contra Roma e confronta-se com o moderado Josefo nos meses que antecedem a chegada de Vespasiano. Em sua obra, infelizmente perdida, Justo, entretanto, descreve Josefo como um nacionalista judeu fanático e destaca o seu papel anti-romano na guerra, deixando o nosso autor em situação perigosa com essa inversão dos fatos.

Josefo critica violentamente a história escrita por Justo, chamando-o ironicamente de o mais genial dos escritores e perguntando-lhe porque não escreveu sua obra quando ainda estavam vivos Vespasiano e Tito, que conduziram as operações da guerra.

A Autobiografia não é uma grande obra: polêmica, pesada e confusa, deixa o leitor indiferente ou cansado. Mas, por outro lado, traz muitos dados sobre Josefo, transformando-o no escritor da antigüidade sobre quem mais informações possuímos.

Bibliografia

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FREYNE, S., A Galiléia, Jesus e os evangelhos. Enfoques literários e investigações históricas, tradução do inglês de Tim Noble, São Paulo, Loyola, 1996.

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HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo: o judeu de Roma, tradução do francês de Paula Rosas, Rio de Janeiro, Imago, 1992.

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SCHÜRER, E., Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo (175 a.C. – 135 d.C.), vol. I, tradução do inglês de Graziana Soffritti, Brescia, Paideia, 1985.

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SUETÔNIO, A vida dos Doze Césares, tradução do latim de Say-Garibaldi, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d

TYLOCH, W. J., O socialismo religioso dos essênios, tradução do polonês de Tereza Lenartowicz, São Paulo, Perspectiva, 1990.

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[27] . Idem, ibidem, p. 655.

[28] . Idem, ibidem, p. 649.

[29] . Cf. o episódio em Idem, ibidem, p. 664.

[30] . Cf. RICCIOTTI, G., La Guerra Giudaica, Torino, Società Editrice Internazionale, 19633 (1a edição: 1936),1015 pp.

[31] . SCHÜRER, E., Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo, p. 92.

[32] . Cf. HADAS-LEBEL, M., Flávio Josefo, o judeu de Roma, pp. 237-238.

[33] . JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 589.

[34]. HARVEY, P., Dicionário Oxford de Literatura Clássica Grega e Latina, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987, verbete Políbios.

[35] . JOSEFO, F., História dos Hebreus, p. 497.

[36] . Cf. FELDMAN, L. H. and LEVISON, J. R. (eds.), Josephus’ Contra Apionem: Studies in its Character and Context with a Latin Concordance to the Portion Missing in Greek, Leiden, Brill, 1996.

[37] . Cf. STERN, M., Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I, Jerusalem, The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1976, p. 389.

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