sábado, 19 de abril de 2008

Conforto Diante da Idéia que Partiremos Daqui

P. B. Power

O título deste capítulo diz: “partiremos daqui”: Eu poderia ter preferido o titulo “Conforto Diante da Idéia que Morreremos”. Porém, o vocábulo “morrer” está envolvido em uma tão densa nuvem de terrores, e com tantas idéias falsas, que preferi usar a palavra “partir” em lugar de “morrer”.
Quando pensamos em partir deste mundo, é natural que nos subam à mente todas as formas de pensamentos melancólicos. Com a morte associamos a dor, a angústia, a separação, a solidão, a alienação e o temor do desconhecido.
Muitos, até mesmo dentre os filhos de Deus, precisam ser consolados pelo fato de terem de partir deste mundo. Um grande conforto quanto a isso consiste em crermos que Deus fez o melhor arranjo possível, no tocante a todos os aspectos dessa partida. Não se trata de algum arranjo feito por nós mesmos, ou por algum parente ou pessoa querida; mas de um arranjo providenciado por Aquele que, desde o princípio, planejou todas as coisas. Aquele que determinou os movimentos de todos oscorpos celestes, e os relacionamentos entre todas as coisas que há no mundo
— tempos e estações; verão e inverno, nuvens e luz solar — Aquele que continua ativo em todas as coisas pertinentes à vida, mostra-se ativo também em todas as coisas vinculadas àquilo que denominamos “morte”.
Meu primeiro grande conforto, pois, deriva-se da idéia de que foram feitos os melhores arranjos possíveis para tudo quanto está ligado à minha partida deste mundo.
Muitas poderão ser as necessidades daquela ocasião, que só são realmente conhecidas por Um, que é Deus. Ora, Aquele que sabe quais serão essas necessidades também á Aquele que proverá o suprimento para essas necessidades.
A pequenina criança que é enviada a este mundo, tão estranho para ela, é precedida pelas provisões divinas dAquele que a enviou. E aqueles que são enviados pelo mesmo Deus, para um outro mundo, não recebem cuidados inferiores aos daquela criança.
Ora, se Deus é quem está ordenando todas as coisas, então bem poderíamos deixar tudo aos Seus cuidados. É Ele quem conhece as necessidades na estrada pela qual teremos de caminhar. Assim, ao deixarmos tudo aos Seus cuidados, isso nos serve de plena garantia. Grande parte das dificuldades que temos de enfrentar nesta vida deriva-se das manifestações da nossaincredulidade, as quais nos levam a tentar fazer tudo por nós mesmos, ao invés de permitirmos que nosso Deus cuide de todas as coisas. Porém, sob nenhuma circunstância cabe-nos fazer qualquer coisa. Por esse motivo, preocupar-nos com tal realização é uma demonstração de insensatez.
Tranqüilize-se, pois, tendo consciência de que tudo já foi arranjado a seu favor. Não se perturbe nem com as coisas primárias e nem com as coisas secundárias da jornada. Seu Pai celeste já providenciou tudo que é necessário.
Esse Pai é o próprio Deus. Todo o Seu poder, bondade, sabedoria e amor atuam em nosso benefício. Ele opera por meio de Cristo. E Cristo, que partiu pessoalmente deste mundo, sabe tudo a respeito de partidas. Assim sendo, podemos dizer com o salmista: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam” (Salmos 23:4).
É privilégio do crente recusar-se a pensar sobre qualquer coisa ligada à morte, desvinculando-se de tudo, mantendo-se tranqüilo, crendo que Deus se mostrará à altura da tarefa de conduzi-lo através dessa experiência, confiando que não haverá nenhum erro ou fracasso em Seus propósitos devido ao Seu amor. Por certo, isso não envolve um conforto de segunda categoria.
Consideraremos agora as nossas idéias sobre o tema.
Por muitas vezes, as coisas tornam-se importantes para nós, devido à maneira como pensamos sobre elas, ou ao muito pensar que lhes dedicamos.
É por isso que a maneira dos homens pensarem na morte a torna tão melancólica. Eles ligam a morte à dor, à separação entre a alma e o corpo, à solidão, à frieza, à vida que continua fora do sepulcro, e a muitas outras idéias tão lúgubres quanto essas.
Ao invés disso, devemos treinar nossas mentes para idéias bem diferentes.
Contrário ao que muitos supõem, a alma não é rasgada para fora do corpo. Quantas mortes ocorrem sem dor! Quantas mortes se parecem com o sono! E por quantas vezes, conforme temos podido observar, ao chegar o momento da partida, desce sobre a pessoa um estranho senso de resignação, de tranqüilidade, um sereno encanto, que parece apossar-se de quem está prestes a sair do mundo!
Também há muitas mortes que as pessoas costumam descrever como “mortes violentas”. Antes de tudo, porém, os médicos afiançam que aquilo que parece um tão intenso sofrimento, não é nada disso para o próprio paciente. Mesmo que assim não fosse, o mais provável é que a dor não seja mais intensa do que as dores comuns da vida diária.
Tenha a esperança de que dormiremos em Jesus, de que partiremos daqui em paz, à parte dessas considerações. Não sabemos em qual momento exato, durante o sono, abandonaremos a realidade terrena. Mas é ali que praticamente morremos para a realidade. Não sentiremos o momento da partida.
Algumas vezes penso que a partida da alma para fora do corpo será mais gradual do que supomos — talvez seja um processo mais fugidio do que costumamos imaginar.
Velejando, de certa feita, para um lugar distante, enquanto as praias de minha terra gradualmente sumiam no horizonte, lembro-me que me pus a meditar: “Talvez assim me sucederá também, quando eu estiver morrendo!”.
A alma talvez vá se libertando pouco a pouco de sua tenda terrestre, antes do instante fatal. Chegado aquele instante, talvez haja apenas um tênue fio a ser rompido — sim, talvez nada haja que possa ser corretamente descrito pela palavra “romper”. Ao contrário, talvez a praia deste mundo vá retrocedendo lentamente, em que os objetos deste mundo vão se tornando gradualmente indistintos, ao passo que os objetos do outro mundo se vão tornando cada vez mais claros. Raramente cruzo até à ilha de Wight, sem que essa idéia me suba à mente. Vejo que a praia que deixei para trás se vai tornando mais e mais indistinta, ao mesmo tempo que a margem para a qual me dirijo vai ficando cada vez mais clara diante de meus olhos. E então digo para mim mesmo: “Talvez suceda algo similar a isso, quando eu tiver de partir daqui”.
Portanto, digamos: “Eu dormirei em Jesus”.
Nem ao menos precisamos temer o estranho e o desconhecido. O bebezinho que chega a este mundo, inteiramente novo para ele, não tem medo — tudo lhe é estranho e desconhecido; mas nem por isso nasce aterrorizado.
Procuremos conceber o tempo de nossa partida deste mundo com noções assim. Estaremos indo para a companhia de nosso Pai celeste. Tudo foi providenciado para nós por nosso Pai. Nosso Pai está em tudo. Estamos nos dirigindo para um lugar determinado, para a companhia de pessoas amigas, para a vida real. Um lar, e não uma sepultura, é o fim da nossa vida terrestre. Partiremos daqui não para estarmos “mortos”, segundo alguns equivocadamente dizem, e, sim, para realmente começarmos a viver.

Fonte: Conforto em Tempos de Enfermidade, P. B. Power, Editora

Fiel, p. 69-72.

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