como pastores e membros podem acolher quem sofre deste mal?
Resumo: O divórcio dentro da igreja frequentemente deixa marcas silenciosas em muitos cristãos. Este artigo reflete, à luz das Escrituras e da teologia pastoral, sobre como a igreja deve acolher, cuidar e acompanhar aqueles que enfrentam essa crise. Em vez de isolamento e julgamento, o evangelho chama pastores e membros a oferecerem compaixão, discipulado e esperança aos que carregam as dores do divórcio. Escrito por Vaneetha Rendall Risner, autora de vários livros, incluindo ” This Was Never the Plan: Walking with God through the Heartache of Divorce” (Nunca Foi Esse o Plano: Caminhando com Deus através da Dor do Divórcio).
Todos os domingos, homens e mulheres sentam-se em nossos bancos, carregando as cicatrizes do divórcio. Eles podem aparentar estar bem e que nada está errado com eles, mas por dentro muitas vezes se sentem sozinhos, inseguros sobre se ainda pertencem àquele lugar. A igreja, que antes era acolhedora e encorajadora, agora parece estranha e intimidante.
O divórcio pode parecer a letra escarlate do cristianismo. O divórcio Nunca foi o plano. Para muitos cristãos, era impensável. Mas ainda assim acontece. Quando acontece, surgem dúvidas: O que eu fiz de errado? Será que todos estão me julgando, querendo saber o que aconteceu? Preciso explicar as circunstâncias? Qual é o meu lugar agora?
E perguntas não ditas se escondem por trás das outras: A igreja vai me ajudar — ou vai tornar tudo mais difícil? Será um refúgio onde poderei me curar e confiar em Deus durante esta crise, ou me sentirei uma pessoa vigiada, marginalizada e sozinha?
Muitas vezes, pastores e líderes religiosos não percebem essa turbulência, porque ela se desenrola silenciosamente. Muitos que passam pelo divórcio optam pelo silêncio, sabendo que compartilhar detalhes pode alimentar fofocas, desonrar o Senhor e potencialmente prejudicar seus filhos. Não há pedidos públicos de oração, nem atualizações nos boletins da igreja. Em vez disso, muitas vezes isso se manifesta como um sorriso forçado, uma saída rápida ou um desaparecimento gradual.
Diferentes experiências na igreja
Embora a maioria das histórias de divórcio sejam complexas, este artigo se concentra principalmente em membros da igreja cuja separação ou divórcio ocorreu após infidelidade, abandono ou abuso por parte do cônjuge.
Para alguns, a igreja se torna um refúgio seguro durante o divórcio. O pastor, os presbíteros e os outros membros se aproximam, oferecendo oração, aconselhamento e ajuda prática. Essa foi a minha experiência: as pessoas apareceram para orar, confortar e cuidar de mim de maneiras simples, até mesmo trocando lâmpadas quando eu estava exausta demais para realizar as tarefas diárias.
Mas para muitos outros, a experiência é dolorosamente diferente.
Uma amiga minha era membro ativa de uma grande igreja quando se separou do marido após anos de infidelidade e alcoolismo. Ela escreveu uma carta detalhada ao pastor e aos presbíteros, explicando a situação e pedindo orientação. Ninguém respondeu. Quando ela encontrou os líderes da igreja mais tarde, eles desviaram o olhar e não disseram nada.
Essa experiência pode não ser tão incomum quanto gostaríamos. As pessoas ficam em silêncio porque não sabem o que dizer, mas evitar a conversa pode comunicar apatia ou até mesmo julgamento. Quanto mais tempo o silêncio se prolonga, mais constrangedor se torna. As Escrituras nos chamam a “chorar com os que choram” e a não nos afastarmos das pessoas que estão sofrendo (Romanos 12.15). Quando os cristãos se retraem, aqueles que estão passando por um divórcio podem se afastar da comunhão da igreja, num período que deveria ser passageiro, mas que acaba se tornando um hábito.
Contudo, o isolamento tem um preço. No culto comunitário, unimos nossas vozes às de outros crentes e voltamos nossos corações para Deus. Quando fazemos isso, muitos descobrem, como eu descobri, que o Senhor nos encontra quando nos sentimos quebrantados. Percebi que os sermões frequentemente falavam diretamente comigo, dando-me a sabedoria e a esperança de que eu precisava naquele dia e naquela semana. E até mesmo breves conversas após o culto me ajudavam a me sentir conectada com o corpo de Cristo. Reunir-se para o culto nos inspira ao amor e às boas obras, oferecendo encorajamento quando nossa fé parece frágil (Hebreus 10.24-25). Mas quando as pessoas se afastam da comunhão presencial, esse meio vital de graça se esvai lentamente.
‘Querer ser mais bíblico que a própria Bíblia’
As igrejas, com razão, desejam defender uma visão elevada do casamento, mas, no receio de parecerem pró-divórcio, algumas hesitam em se manifestar. Brad Hambrick, pastor de aconselhamento da Summit Church em Raleigh, aconselha que “devemos ter cuidado para não sermos mais bíblicos do que a própria Bíblia”. As Escrituras defendem o casamento como sagrado, ao mesmo tempo que reconhecem que o pecado e a traição destroem casamentos em um mundo caído ( Mateus 19.8).
Algumas pessoas podem temer que acolher uma pessoa divorciada incentive outros a encarar o casamento com leviandade ou a quebrar seus próprios pactos matrimoniais. Mas apoiar alguém durante o processo e após o divórcio não é o mesmo que endossar o divórcio. Pelo contrário, é uma oportunidade dada por Deus de se aproximar com compaixão e esperança do Evangelho de alguém que está sofrendo e talvez passando pelas circunstâncias mais devastadoras de sua vida.
Pastoreio sábio
Algumas igrejas evitam as complicações que o divórcio traz; outras querem ajudar, mas não têm tempo ou experiência. Os pastores não podem acompanhar todos indefinidamente, e a maioria deles não vivenciou as terríveis realidades que envolvem o divórcio. Como Hambrick observou , os pastores às vezes enfrentam uma limitação de imaginação. Eles podem entender as palavras ditas — abuso, traição, medo — sem compreender totalmente o mundo que essas palavras descrevem. Podem entender o medo, mas não conseguem imaginar uma vida em que um comentário casual pode desencadear uma explosão violenta do cônjuge.
Quando as pessoas nessa situação finalmente revelam o que estão passando, muitas vezes estão condensando meses ou anos de turbulência em poucos minutos. Raramente estão em seu melhor estado cognitivo ou emocional. Seus pensamentos estão fragmentados; seus nervos à flor da pele. Enquanto isso, a resposta que recebem, às vezes em questão de instantes, pode fazê-las se sentirem valorizadas e acolhidas ou rejeitadas e indignas de confiança.
Muitos podem estar espiritualmente à beira do colapso. As crenças que tinham sobre Deus, casamento, oração e obediência podem parecer destruídas. Este é um momento em que um cristão fiel precisa ser lembrado de que Cristo está com ele, de que é amado por Deus e de que o Espírito Santo o guiará e confortará. Quando pastores e líderes da igreja se dedicam durante esse período, não estão simplesmente administrando uma crise; estão pastoreando almas que precisam desesperadamente saber que o Evangelho permanece verdadeiro mesmo quando a vida parece desmoronar.
Embora a necessidade de cuidado e discernimento seja real e imediata, os limites que os pastores enfrentam também o são. Os pastores são finitos. Eles precisam equilibrar o cuidado com cada ovelha individualmente com a responsabilidade por todo o rebanho.
Um pastor sábio reconhece essas limitações. Visto que os pastores não podem percorrer pessoalmente cada longo caminho, podem compartilhar o fardo desde o início. Carregar os fardos uns dos outros não é um chamado exclusivo dos pastores; é um chamado para todo o corpo de Cristo (Gálatas 6.2). Hambrick sugere que os pastores identifiquem presbíteros, diáconos ou membros maduros de confiança que possam acompanhar de perto outras pessoas em crise. Eles podem se envolver desde o princípio, oferecendo à pessoa que sofre um cuidado contínuo e evitando que ela tenha que recontar a história a cada vez que um novo líder é apresentado.
A acessibilidade muitas vezes importa mais do que a especialização. Mentores, casais mais velhos e sábios, e conselheiros leigos podem acompanhar os que sofrem e aprender a ministrar o Evangelho de maneiras novas. Com recursos estruturados e fundamentos bíblicos claros, os líderes leigos podem ser treinados para reconhecer padrões e aconselhar com sabedoria, sem exigir que o pastor carregue todo o fardo sozinho. Dessa forma, os membros podem cuidar uns dos outros com os dons que Deus lhes deu para servir ao corpo (1 Coríntios 12.7).
Aproxime-se dos divorciados intencionalmente
O divórcio costuma ser um dos períodos mais devastadores na vida de um crente, e é exatamente por isso que a presença da igreja é crucial. Este não é o momento de recuar até termos clareza ou pleno entendimento. Pelo contrário, é o momento de se aproximar, estender a mão e se comprometer a caminhar com os feridos.
Pastores e membros da igreja têm aqui uma oportunidade. Requer tempo, intencionalidade e sacrifício, mas podemos confiar que, quando fazemos a obra de Cristo, não será em vão (1 Coríntios 15.58). Quando o divórcio se manifesta na igreja, esta pode oferecer amor e cuidado, refletindo assim o coração do Deus que se aproxima dos que têm o coração quebrantado. Este momento é um convite — não para termos todas as respostas, mas para vivermos o Evangelho que proclamamos.
Fonte: https://voltemosaoevangelho.com



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