Se há um absurdo, esse é o de se transferir para Deus a
responsabilidade que nos pertence. Em nome de uma pretensa liberdade
humana, que nada mais é do que a liberdade de ser livre de Deus, ou
autonomia humana, ou a liberdade da indiferença, os proponentes dessa
idéia de liberdade, sem a qual não haveria responsabilidade, ao ver
deles, transferem-na para Deus quando confrontados com inúmeras
passagens bíblicas que afirmam a plena e completa soberania divina. Mais
que um disparate, fruto da incompreensão e distorção de conceitos
escriturísticos, essa tentativa de defesa é um ultraje.
O argumento é mais ou menos o seguinte: se Deus escolheu e
decidiu tudo, então não se é culpado de nada, logo não se é responsável,
e se houver culpa e culpados, Deus é injusto. Aparentemente
se tudo, inclusive a ação humana, é determinada pelo Todo-Poderoso,
então o homem não pode ser responsabilizado por nenhum dos seus atos,
estando desde já inocentado pelo que faz ou vier a fazer. Nesse molde, o argumentador conclui o mesmo que o interpelador de Paulo: “Por que se queixa ele [Deus] ainda? Porquanto quem tem resistido à sua vontade?” [Rm 9.19].
Se tudo foi decretado, até mesmo os mínimos detalhes, pensamentos e
desejos, como se pode ser responsabilizado pelo que se faz? Já que
ninguém pode resistir-lhe, por que ainda se queixa contra nós? Não seria
Deus injusto ao nos condenar por fazer aquilo que não temos como
evitar? Que nos é impossível resistir? E que não temos como não
realizar? Sem chance alguma de fugir da realidade pré-ordenada? Como ser
responsável se não há liberdade na escolha?
Há de se analisar alguns pontos:
1)Responsabilidade não pressupõe liberdade, de tal forma que ninguém pode ser livre de Deus simplesmente porque, como diz a Escritura, é ele quem opera em nós tanto o querer como o efetuar segundo a sua boa vontade [Fp 2.13]. Por querer, entende-se a vontade de, ter a intenção de, almejar, anelar, intentar algum ato. Por efetuar, levar a efeito, consumar, realizar ou fazer determinado ato. E o que significa isso? Deus, do alto de sua autoridade como único legislador e administrador do mundo, decretou, ordenou e exigiu que todas as coisas se cumprissem segundo a sua vontade; porque “fez tudo o que lhe agradou” [Sl 115.3].
É o que Jó também diz: “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o desviará? O que a sua alma quiser, isso fará. Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo. Por isso me perturbo perante ele, e quando isto considero temo-me dele. Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-Poderoso me perturbou” [23.13-16].
Jó não vê a chance de sequer argumentar com Deus; de tentar dissuadi-lo de abandonar o seu propósito eterno; até porque reconhece que o Senhor ordenou tudo a seu respeito, e de que tudo ordenado se cumprirá infalivelmente. E quando considera essa situação, ao invés de se revoltar ele teme e se perturba, porque tudo o que o Senhor quiser, assim fará, independente do homem ser livre ou não, porque como está escrito, não depende de quem quer ou quem corre, mas de Deus querer ou não [Rm 9.16]. Ao ponto em que Jó teme e se perturba, pois sabe impossível não acontecer o que Deus decidiu, e ele não arvora para si nenhuma inocência ou não-responsabilidade, e reconhece que Deus o macerou. Macerar aqui tem o significado de sujeitá-lo, de submetê-lo à vontade divina, colocando-o completamente sob o seu domínio. E mesmo se considerarmos o termo como sinônimo de dilacerar, afligir, não estaríamos errados, pois parece ser também esse o sentimento de Jó ao reconhecer-se perturbado.
2)O livre-arbítrio ou libertarismo propõe que os indivíduos escolhem, agem e são moralmente responsáveis pelas suas escolhas e ações, e para isso é necessário que ele possa escolher fazer “A”, mas também possa evitar e não escolher fazer “A”. Ele teria o que se chama de “controle duplo da vontade”, de se poder ir para uma decisão ou outra pela “liberdade da indiferença” ou seja, a capacidade de escolher entre duas alternativas sem inclinação ou tendência tanto para uma como para outra. Partir-se-ia da neutralidade, da isenção, sem qualquer coerção externa ou interna. Isso é simplesmente impossível, pois nenhuma decisão é neutra, e nem é possível sê-la [1]. Acontece que todos os homens, sem exceção, “se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” [Rm 3.12]. Ora, estando debaixo do pecado, como se pode ter a mesma capacidade de escolher entre o bem e o mal? Entre o certo e o errado?
3)A melhor definição para responsabilidade é a que define-a como a obrigação de responder pelas ações próprias; o dever de dar conta de alguma coisa que se fez ou mandou fazer. Em linhas gerais é imputar, atribuir acerto ou erro a alguém pelo que se faz, pelos atos que praticou. Não há implicação em se ser livre para se ser responsável. Ainda que os elementos objetivos ou subjetivos que o levaram a tomar a decisão estejam implícitos na decisão. Ela não aconteceu por si só, mas pela vontade do indivíduo. Mas essa vontade não é livre, nem livre de causação. De tal forma que a causação ou coerção sobre a vontade do homem não elimina a sua responsabilidade.
Com essas ideias em mente, por que o defensor da liberdade humana,
para se ser moralmente responsável, diz que não havendo liberdade o
homem não pode responder por seus atos? E se for, Deus é injusto?
De certa forma, esse advogado defende uma causa errada, porque Deus, e
não o homem, é quem estabeleceu o que é justo e injusto, o que é certo e
errado, o que é bom e mau, e assim todas as coisas são ordenadas
conforme a sua sabedoria, sem que nada possa escapar ao seu juízo. O que
acontece é que ele não está disposto ou inclinado a reconhecer a
verdade. Com isso não estou excluindo-o do rol dos santos. Não é isso.
Há equívocos, e mesmo os grandes heróis da fé os cometeram: Noé, Abraão,
Davi, Pedro, João, etc. E nem por isso foram eliminados da fé uma vez
dada aos santos [Jd 3]. O que estou a dizer é que, de alguma
maneira, a verdade é-lhe tão dura, inflexível, humilhante e dolorosa que
prefere se contentar com a mentira ou com uma falsa-verdade. E ele é
responsável por isso, não Deus; mesmo que esteja fazendo-o com a melhor
das intenções: absolvê-lo de ser o autor do mal.
Quando o determinismo bíblico é levantado, e a questão da liberdade versus
responsabilidade deixa de estar na esfera humana para se encontrar na
esfera divina, as coisas se tornam claras, e fica evidenciada a verdade
bíblica. O determinismo bíblico é comumente confundido com fatalismo,
que nada mais é do que “forças” indefinidas como o destino, o azar, a
sorte, o acaso, etc, agirem e determinarem todas as coisas. O fatalismo é
aleatório, injusto, imperfeito e não tem nenhum caráter onisciente e
providente. Já o determinismo estabelece que Deus é quem ordenou e
decretou todas as coisas no universo, de tal forma que elas acontecem
por sua sabedoria, santidade e perfeição, segundo a sua vontade, uma
vontade providente que levará a cabo o final decidido e fixado por ele
no transcorrer do tempo e da história. Enquanto o fatalismo é impessoal,
o determinismo é pessoal. Enquanto o fatalismo é imperfeito, o
determinismo é perfeito. Enquanto o fatalismo é indefinido, não tendo
uma causação delimitada, o determinismo tem como causa primeira o
próprio Deus, e por ele é posto em execução.
Mais do que buscar um sentido moral no homem, o sentido moral está
no Todo-Poderoso o qual estabeleceu o que venha a ser moral e imoral,
bem e mal, certo e errado, verdade e mentira... E isso tem-se de
entender: por mais que se queira proteger a Deus, não podemos ser tolos
ao ponto de considerar que alguma coisa pode ter sido criada alheia à
sua vontade, ou sem que quisesse. Se tal ocorresse, não estaríamos a
falar de Deus, mas de deuses. O fato de todas as coisas existirem, e
nelas incluídas o mal, o pecado, satanás e seus demônios, o inferno...
acontecem por deliberada resolução divina. Não passiva, mas ativamente.
Não que um problema tenha-lhe sido colocado nas mãos para resolver sem
que esperasse ter de resolvê-lo, mas todas as coisas existem por sua
vontade e estão postas diante de si mesmo antes de existirem; muito
antes de haver o problema, Deus já tem pronta a solução.
Então se Deus determinou tudo, como o homem pode ser considerado
responsável por aquilo que fez, mas que não poderia deixar de fazer?
Foi assim que um inquiridor cínico interpelou Paulo: “Por que se queixa ele[Deus] ainda? Porquanto quem tem resistido à sua vontade?”. Ao que Paulo respondeu: “Mas,
ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada
dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro
poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e
outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e
dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da
ira, preparados para a perdição. Para que também desse a conhecer as
riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já
dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou...?” [Rm
9.20-24].
Não há a menor chance de tentar fazê-lo responsável pelo que somos
ou realizamos. A alegação de que algo foi feito sob coerção impossível,
visto vir do decreto e da determinação de Deus em nada ajudará o
indivíduo, nem poderá absolvê-lo. Usar essa desculpa não o fará inocente
diante de Deus. A culpa está no ato praticado, e quer se queira ou não,
fazemos o que queremos, pois o fazemos. Se os nossos atos estão em
comunicação direta com a nossa vontade, a qual decidirá efetivamente o
que se tornará real, não importa se a vontade é dirigida ou não; importa
que o faremos por querer, e assim procedemos em cumprir a nossa
vontade. A coerção é um detalhe irrelevante, visto Deus condenar o homem
não por ser constrangido ou não, mas por praticar o mal. Se praticar o
mal, por coerção, o que determinará a condenação será o ato praticado.
Se praticar o mal, sem coerção, o que determinará a condenação será o
ato praticado. Seja um ou outro, o que definirá a culpa ou não será se o
homem transgrediu ou não transgrediu a Lei de Deus. Portanto os homens
ficarão sempre indescupáveis, pois tendo o conhecimento de Deus, “não
o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos
se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” [Rm 1.21].
Porém, há um agravante. Quando julgamos a Deus [“Por que se queixa ele ainda?], incorremos novamente na completa impossibilidade de nos tornarmos desculpáveis diante de dele, pois, “és
inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te
condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro, fazes o mesmo” [Rm
2.1]. Se Deus aqui julga os hipócritas, aqueles que condenam os que
fazem exatamente o que eles mesmos fazem sem que profiram condenação a
si mesmos, o que dirá daqueles que pretendem, ainda que
inconscientemente, julgar o Senhor? Se tornarão indesculpáveis,
condenados pelo próprio pecado, pelo ato de supor ou formar um conceito
errôneo a respeito de Deus, e de quererem enquadrá-lo em seu esquema
imperfeito e injusto. Acusar o Senhor disso ou daquilo em nada
facilitará as coisas para o homem, pois não somos responsáveis segundo o
nosso padrão, nem seremos julgados por ele, mas exclusivamente por
aquele que tem toda a autoridade e poder para julgar.
Deus pode condenar? Sim. Pode absorver? Sim. Criou as regras? Sim.
Há outro julgamento igual ou mais perfeito que o dele? Não. Há
possibilidade dele errar? Não. De ser injusto? Também, não. Então, por
que não se reconhece que, sendo Senhor e Criador de todas as coisas,
pode controlar nossas decisões? E de que, mesmo sob o seu controle,
continuamos responsáveis pelo que fazemos? O princípio da
responsabilidade está na autoridade divina e não na liberdade, porque o
homem jamais será livre de Deus, mas Deus sempre será autoridade sobre o
homem. E ninguém poderá alegar injustiça, porque Deus não é injusto [Rm 9.14], “de maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” [Rm 14.12].
Nota:
[*] Texto publicado originalmente em em 04.10.2010, aqui mesmo, o qual
reproduzo juntamente com os comentários à época, sempre mais
esclarecedores que o próprio texto. Como estou escrevendo outro que tem
semelhanças com este assunto, considerei a sua republicação, como uma
introdução.
[1] Para saber mais sobre a incoerência do livre-arbítrio, clique AQUI
[1] Para saber mais sobre a incoerência do livre-arbítrio, clique AQUI
Fonte: https://kalamo.blogspot.com/


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