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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Quatro Elementos Essenciais do Evangelismo que São Negligenciados

Os japoneses são o segundo maior grupo de pessoas não alcançadas pelo evangelho no mundo. Tóquio, onde sirvo como pastor associado, é a maior cidade da história da humanidade e, portanto, abriga a maior concentração de pessoas perdidas na terra.

 

Pelo tempo que passei nesse contexto não alcançado, notei que os cristãos frequentemente negligenciam quatro aspectos do evangelismo que a Bíblia e a história da igreja tratam como essenciais.

1. A Doutrina de Deus

“Você acredita em Deus?”, perguntei a uma mulher que visitou nossa igreja pela primeira vez naquela manhã. Ela respondeu entusiasticamente que sim. Mas, devido às ambiguidades entre singular e plural no japonês, esclareci, perguntando se ela acreditava no Único Deus Verdadeiro da Bíblia ou nos oito milhões de deuses do Xintoísmo. Ela respondeu que acreditava na segunda opção e ficou chocada ao saber que os cristãos acreditam em apenas um Deus.

 

O monoteísmo, tido como certo no Ocidente, historicamente tem sido tratado com confusão no Japão. Nos anos 1500, missionários jesuítas em Kyushu foram inicialmente confundidos com uma nova seita budista porque traduziram erroneamente “Deus” como Dainichi (uma divindade budista)¹. Francisco Xavier não percebeu o erro por dois anos.

 

Por mais sinceros que sejam, nossos ouvintes não podem ser salvos a menos que depositem sua fé no objeto apropriado. É por isso que Paulo, falando em um contexto pré-cristão, gasta quase 80 por cento de seu sermão no Areópago estabelecendo a doutrina de Deus (At 17:22–31). No Ocidente pós-cristão, tal abordagem pode ser igualmente necessária.

 

Seria um erro descartar a cristologia calcedoniana ou as relações eternas de origem como irrelevantes para o evangelismo. Recentemente, conversei com um não cristão que, apesar da pouca exposição ao cristianismo, perguntou: “Como pode Jesus ser tanto Deus quanto homem? Como podem Jesus e o Pai serem ambos Deus, e ainda assim haver apenas um Deus?”. O evangelho é irredutivelmente trinitário, e nosso evangelismo deve refletir isso. Poderia isso explicar o formato trinitário das passagens da Grande Comissão (Mt 28:18–20, Lc 24:44–49, Jo 20:21–23, At 1:6–8)?

2. A Realidade do Inferno

Como um cristão recém-convertido lutando com a ideia do inferno, senti uma profunda dissonância entre o que via na Bíblia e os clichês populares como “você não pode fazer as pessoas entrarem no céu por medo”, “o inferno é apenas a separação de Deus” e “as portas do inferno estão trancadas por dentro”. Isso me deixou com a sensação de que apelar para o inferno no evangelismo era, na melhor das hipóteses, uma motivação ilegítima e, na pior, manipuladora.

 

Tim Keller, citando D.A. Carson, argumenta que o medo do julgamento e da morte é um dos seis principais apelos que a Bíblia usa para que os não cristãos creiam no evangelho². Jesus faz esse apelo frequentemente. Como observa Joel Beeke, a Bíblia contém 245 advertências sobre o inferno³.

 

Estamos muito menos confortáveis em usar o inferno em nosso evangelismo do que nossos antepassados nas eras patrística, medieval, da Reforma e, especialmente, do Grande Despertar da igreja. Mas fazemos um grande bem espiritual às pessoas perdidas quando deixamos claro que é algo temível cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10:31).

 

Quando eu era um ateu convicto, há 12 anos, soube que uma colega de classe cristã cria na exclusividade de Cristo. Todos os eventos que levaram à minha conversão começaram quando lhe perguntei claramente: “Você acha que eu vou para o inferno?”. Ela respondeu de forma gentil, mas confiante: “Sim, a menos que você confie em Jesus”. Conhecendo o temor do Senhor, persuadamos os outros (2 Co 5:11).

3. O Chamado ao Arrependimento e à Fé

Certa vez, fiz uma matéria de missiologia no seminário, onde meu professor exigiu que eu descrevesse alguma vez em que compartilhei o evangelho com um amigo. Em resposta ao meu texto, meu professor deu este feedback crítico: “Em vez de dizer ao seu amigo que ele pode se arrepender e crer em Cristo, pergunte a ele se ele irá se arrepender e crer em Cristo”. O evangelho só beneficia aqueles que respondem com fé. Apenas transmitir os fatos do evangelho não é suficiente; devemos buscar persuadir os não cristãos a se arrependerem e crerem.

 

Lendo Atos, ficamos impressionados com a insistência sem constrangimento de Lucas de que, embora a conversão seja uma obra soberana de Deus (At 11:17–18, 13:48, 18:9–10), ela ocorre ordinariamente por meio da proclamação humana do evangelho (At 10:43, 13:39, 18:8). O Senhor abriu o coração de Lídia para que ela pudesse dar atenção ao que era dito por Paulo (At 16:14).

 

Esse equilíbrio bíblico entre a obra soberana de Deus e o uso de meios humanos na conversão reflete-se na posição histórica reformada, resumida nos Cânones de Dort, Capítulo 2, Artigo 5:

 

“A promessa do Evangelho é que todo aquele que crer no Cristo crucificado não pereça mas tenha vida eterna. Esta promessa deve ser anunciada e proclamada sem discriminação a todos os povos e a todos os homens, aos quais Deus em seu bom propósito envia o Evangelho, com a ordem de se arrepender e crer.”

 

É nossa responsabilidade exortar os não cristãos ao arrependimento e à fé. A recuperação dessa compreensão historicamente calvinista do evangelismo deu origem ao Movimento Missionário Moderno no final do século XVIII. Missionários como William Carey, Adoniram Judson e John G. Paton afirmavam fervorosamente a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas, ao mesmo tempo que se viam como instrumentos da providência de Deus.

 

Devemos reconhecer o perigo do semipelagianismo e do revivalismo de Charles Finney: falsos convertidos. Mas, ao fazê-lo, também não devemos ignorar o perigo de formas sutis de hipercalvinismo: nenhum convertido.

4. O Papel da Igreja

Com o cabelo ainda molhado do batistério, uma jovem que havia se tornado cristã recentemente pediu a vários de nossos membros que tirassem uma foto com ela após o culto. Ela queria se lembrar de todos os que a acolheram, responderam às suas perguntas e imploraram para que ela confiasse em Cristo.

 

Nossa equipe é frequentemente questionada: “Qual é a estratégia de vocês para alcançar os japoneses?”. Para a decepção daqueles que esperam algo mais emocionante, como uma apresentação do evangelho baseada em honra e vergonha ou a busca de analogias redentoras na cultura japonesa, respondemos: “a igreja”.

 

A igreja é o plano de evangelismo de Deus. É o seu meio ordenado para alcançar o mundo. Foi ideia de Deus criar um povo do nada, chamando pecadores das trevas para a sua maravilhosa luz, para que proclamassem as virtudes de Cristo (1 Pe 2:9–10). O poder salvador e transformador do evangelho exibido na igreja local é a esperança não apenas do Japão, mas do mundo.

 

Por: David Wissel, é pastor da igreja Mustard Seed em Fukuoka, no Japão. 

 

¹ Christians in Kyushu: A History https://www.tofugu.com/japan/history-of-christianity/

² Center Church, Timothy Keller, p. 114–15; “Motivations to Appeal to in Our Hearers When We Preach for Conversion”, D.A. Carson, Themelios

³ “Dr. Joel Beeke on Hell”: https://www.youtube.com/watch?v=0T-KbFjntoY

Traduzido por Rebeca Falavinha.

Artigo original:  https://www.9marks.org/article/four-neglected-essentials-of-evangelism/

 

Fonte: https://coalizaopeloevangelho.org 

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