RESUMO: Os puritanos foram teólogos e curadores de almas tão capazes porque se dedicavam ao estudo cuidadoso das Escrituras, em profundo diálogo com o melhor da história da igreja. Aproveitar a riqueza de seus antepassados significava ler atentamente, sempre à luz da palavra de Deus, os primeiros Pais da igreja, os teólogos medievais, os reformadores e seus contemporâneos. Aqueles que desejam seguir os passos dos pastores-teólogos puritanos podem sentar-se em bibliotecas como as deles, lendo as obras que eles liam com o mesmo espírito de oração e humildade.
Toda biblioteca conta uma história. Os livros que ocupam suas prateleiras — se lidos e assimilados — provavelmente revelam o que chama sua atenção, desperta sua imaginação e influencia sua maneira de pensar sobre Deus, sobre você mesmo e sobre o mundo ao seu redor. Assim como você pode aprender mais sobre outras pessoas examinando suas bibliotecas, também pode conhecer melhor os puritanos descobrindo quais livros eles amavam. Os livros favoritos dos puritanos moldaram sua visão exaltada de Deus, suas profundas percepções sobre a condição humana, sua piedade calorosa e sua pregação vivificante e experiencial de Jesus Cristo.
Se lermos mais dos livros que influenciaram os puritanos, também poderemos experimentar maior profundidade, frescor e centralidade em Cristo em nossas próprias vidas e ministérios. Mas antes de examinarmos os livros que eles amavam, devemos primeiro saber um pouco sobre os próprios puritanos.
Quem eram os puritanos?
Os puritanos eram um grupo de pastores e leigos ingleses entre meados de 1500 e o início de 1700. Eles procuravam purificar a Igreja da Inglaterra das influências católicas romanas e promoviam a adoração, a doutrina, a pregação e a vida devocional reformadas (ou calvinistas). Eles levaram a Reforma Protestante à sua plena expressão, desenvolvendo a soteriologia trinitária, articulando ainda mais as doutrinas da graça, purificando a adoração de acordo com o padrão simples do Novo Testamento, traçando Cristo e o evangelho em todo o Antigo Testamento em uma teologia da aliança rica e rigorosa e cultivando a vida interior de comunhão com Deus por meio dos meios da graça.
Em essência, o puritanismo era a tradição reformada em seu estágio maduro de desenvolvimento — comunicada não em alemão, francês ou latim, mas em inglês. Em outras palavras, o puritanismo era o calvinismo com sotaque inglês. Os puritanos eram movidos por uma paixão avassaladora de glorificar a Deus em toda a vida (soli Deo gloria), viver diante da face de Deus em santidade cheia de alegria (coram Deo) e aplicar os princípios da Palavra de Deus a todas as áreas da vida (sola Scriptura) — seja no lar, na igreja ou na nação.
Os puritanos eram leitores ávidos. Eles liam ampla e profundamente a partir de uma variedade impressionante de fontes, extraindo de centenas de livros que nutriam a alma ao longo da história da igreja, bem como das artes liberais.[1] Acima de tudo, os puritanos foram moldados pela Bíblia. Para melhor compreender e aplicar a Bíblia, no entanto, eles se basearam em quatro outras fontes principais: os Pais da Igreja primitiva, os teólogos medievais, os reformadores protestantes e outros puritanos.
Fonte 1: A Bíblia
O ministro puritano John Rogers (ca. 1570–1636) disse certa vez: “Senhor, faça o que fizer conosco, não nos tire a Bíblia; mate nossos filhos, queime nossas casas, destrua nossos bens; apenas poupe-nos da Bíblia, apenas não nos tire a Bíblia”.[2]
Muitas pessoas se perguntam como os puritanos alcançaram tanta intimidade com Cristo, frescor de expressão e profunda espiritualidade em seus livros. Será que foi sua familiaridade com os reformadores, seu domínio do hebraico e do grego ou suas habilidades refinadas em lógica e retórica? Ou será que foi seu talento natural, sua experiência em aconselhamento ou a profundidade das provações que enfrentaram?
O “segredo” da espiritualidade puritana é surpreendentemente simples: eles liam a Bíblia, e o faziam com espírito de oração, meditação e consistência. Eles amavam a Bíblia, a liam, acreditavam nela, a viviam, a pregavam e escreviam sobre ela. Eles eram, acima de tudo, pessoas do Livro. Priorizavam a Palavra de Deus em suas vidas diárias. Joseph Alleine, por exemplo, dedicava o tempo entre 4h e 8h todas as manhãs à comunhão com Deus na leitura da Bíblia, na oração e na meditação. Quando era um jovem estudante no King’s College, em Cambridge, William Gouge lia quinze capítulos das Escrituras todos os dias.[3]
Os puritanos tinham o que John Winthrop chamava de “sede insaciável pela Palavra de Deus”.[4] Eles viam Deus falando com eles em cada linha das Escrituras.[5] Eles liam a Bíblia com diligência, sabedoria, preparação do coração, meditação, comunhão com outros crentes, fé, prática e oração. A leitura da Bíblia estava incorporada no DNA do ritmo diário dos puritanos — desde as devoções pessoais pela manhã, aos sermões no meio da semana, até ao culto familiar às refeições.
Acima de tudo, a piedade puritana era uma piedade baseada na Bíblia. Isaac Ambrose (1604–1664) escreveu que os meios de graça baseados na Palavra estão “repletos de um conforto raro e encantador”.
Ele então disse:
Os santos consideram os deveres (a Palavra, os sacramentos, as orações, etc.) como pontes que lhes dão passagem para Deus, como barcos que os levam ao seio de Cristo, como meios de levá-los a uma comunhão mais íntima com seu Pai celestial e, portanto, são tão atraídos por eles. … Aqueles que se encontram com Deus no cumprimento do dever, geralmente encontram seus corações docemente revigorados, como se o céu estivesse dentro deles.[6]
O foco na Palavra dos puritanos é evidente em seus sermões e livros, que eram uma densa colcha de retalhos de passagens bíblicas cuidadosamente selecionadas, interpretadas e aplicadas. Por exemplo, The Glory of Christ [A Glória de Cristo], de John Owen (1616–1683) — com cerca de 130 páginas — tem uma média de cerca de trinta referências bíblicas por capítulo e mais de quatrocentas no total.[7] Em sua exposição da Oração do Senhor (47 páginas), William Perkins (1558–1602) cita mais de duzentas referências bíblicas.[8] E Thomas Case (1598–1682) referenciou cerca de 150 passagens das Escrituras em um único sermão sobre 2 Timóteo 1.13.[9] Dado o grande volume de referências das Escrituras em seus escritos, os puritanos evidentemente memorizaram centenas de passagens. A partir desse reservatório de conhecimento bíblico e meditação, suas canetas e línguas transbordavam com as Escrituras.
Fonte 2: Pais da Igreja Primitiva
A fé reformada dos puritanos não foi uma novidade produzida no solo intelectual da Inglaterra elisabetana. Em vez disso, ela cresceu no solo fértil de séculos de reflexão teológica que remonta aos apóstolos. A partir dos Pais da Igreja primitiva, os puritanos cresceram em sua compreensão da pecaminosidade do homem, da graça de Deus e da soberania do Deus trino na salvação.
Os puritanos leram dezenas de Pais da Igreja primitiva, incluindo Irineu, Crisóstomo, Cipriano de Cartago, Tertuliano, Agostinho e muitos outros.[10] Embora os puritanos não lessem os Pais da Igreja primitiva sem crítica, eles ainda assim aprenderam com eles e os citaram enquanto testavam suas doutrinas à luz das Escrituras.[11]
Os puritanos leram Agostinho (354-430) mais do que qualquer outro teólogo na história da igreja. Eles foram particularmente influenciados por seus escritos sobre providência, soberania divina na salvação, eleição, predestinação, graça salvadora e a obra do Espírito Santo.[12] Na Assembleia de Westminster, Agostinho foi o pai da igreja primitiva mais citado. Ele ficou atrás apenas de Teodoro Beza como o teólogo mais citado de todos os tempos na Assembleia.[13]
Agostinho aparece com destaque em toda a obra coletada dos puritanos. Por exemplo, John Owen faz referência a Agostinho quase duzentas vezes na edição de Nichol de suas Works [Obras], enquanto William Perkins o cita mais de trezentas vezes em seu corpus de dez volumes.[14] No prefácio de sua exposição do Cântico de Salomão, John Collinges (1624–1691) indica que leu Agostinho quando era “muito jovem”.[15] Ao longo de seus sermões sobre o Cântico, ele faz referência a Agostinho dezoito vezes, muitas vezes em relação à soberania divina. Pois, escreve ele, “só queremos quando somos levados a querer, e agimos quando somos primeiro movidos e agidos”.[16]
Richard Sibbes (ca. 1577–1635) — carinhosamente conhecido como “o doutor celestial” — cita, parafraseia ou ecoa fortemente Agostinho mais de cinquenta vezes em seus escritos. Sibbes se baseia nas obras de Agostinho Confissões, A Cidade de Deus e O Dom da Perseverança, bem como em suas exposições das Escrituras.[17] Várias das referências de Sibbes se baseiam nos pensamentos de Agostinho sobre o pecado original, a depravação total e o cativeiro da vontade não regenerada, bem como na obra monergística de Deus na salvação.[18]
Em relação à soberania divina na salvação, por exemplo, Sibbes ecoa Agostinho: “Se dizemos a Deus: ‘Eu sou teu’, é porque ele primeiro nos disse: ‘Tu és meu’”.[19] Mais tarde, ele cita Agostinho dizendo: “Nós nos movemos, mas Deus nos move”.[20] Em outro lugar, Sibbes expande esse pensamento distintamente agostiniano: “Se mantivermos nossa vontade de nos movermos por nós mesmos, e não sermos movidos pelo Espírito, estaremos fazendo dela um deus, cuja propriedade é mover outras coisas, e não ser movido por nenhuma.”[21] Em sua exposição de 2 Coríntios 4, Sibbes descreve como Deus “vence toda rebelião e resistência naqueles que ele converte”. Em seguida, ele apresenta um pensamento que atribui a Agostinho, refletido em toda a obra Confissões: “Quando Deus quer salvar um homem, nenhuma teimosia de sua vontade resistirá… caso contrário, a vontade do homem seria mais forte do que a de Deus.”[22]
Agostinho também aparece em contextos pastorais ternos, como na última carta de Edward Pearse (ca. 1633–1673) à sua congregação antes de sua morte prematura aos quarenta anos: “Concluirei tudo com aquela profissão solene e cordial a vocês”, escreveu Pearse, “que Agostinho frequentemente fazia àqueles a quem costumava pregar: em outras palavras, que é o desejo da minha alma que, assim como muitas vezes nos reunimos para adorar a Deus em uma casa ou templo terreno, possamos todos adorá-Lo juntos para sempre na casa ou templo celestial”.[23]
Fonte 3: Teólogos medievais
Os puritanos não aceitaram a teologia medieval acriticamente, mas foram seletivos em sua apropriação dela.[24] Por exemplo, eles rejeitaram os erros medievais relativos à justificação, tradição, sacramentos, autoridade da igreja e mediação de Maria e dos santos. No entanto, eles ainda se basearam fortemente nos escolásticos medievais em sua articulação de uma doutrina robusta de Deus e no cultivo de suas vidas devocionais. Os puritanos leram amplamente os escolásticos medievais, como Tomás de Aquino, Duns Scotus, Boaventura, Pedro Lombardo e Guilherme de Ockham. Em grande parte, eles foram moldados pelas reflexões dos teólogos medievais sobre a natureza divina, o decreto de Deus, a providência, a causalidade, a predestinação, a natureza da graça e a pessoa de Jesus Cristo.[25]
Por exemplo, John Owen usou a articulação de Tomás de Aquino (ca. 1225–1274) de Deus como ato puro (actus purus) para defender a doutrina da soberania divina na salvação e na perseverança dos eleitos. Ao descrever Deus como “ato puro”, Tomás de Aquino quis dizer que Deus é pura atualidade. Em outras palavras, não há potencialidade (ou possibilidade latente) em Deus. Ele possui a perfeição suprema que é plenamente realizada e atualizada; ele não pode ser mais perfeito do que já é. Assim, seus decretos são inseparáveis de seu ser simples (ou não composto) e não podem ser frustrados, assim como ele não pode deixar de existir. Owen insistiu, então, que os eleitos certamente perseverarão na graça de Deus porque a realização de sua salvação é tão certa quanto a própria existência de Deus.[26]
Os puritanos também cultivavam uma piedade calorosa e experiencial lendo os escritos devocionais de teólogos medievais como Tomás de Kempis (ca. 1380–1471) e Jean Gerson (1363–1429). O movimento puritano estava bem dentro da corrente de piedade devocional que marcou o movimento tardomedieval dos Irmãos da Vida Comum (Devotio Moderna).[27] Em particular, os puritanos apreciavam Bernardo de Clairvaux (1090–1153). John Owen faz referência a Bernardo cerca de dezesseis vezes em suas Works, enquanto William Perkins o menciona cerca de trinta vezes.[28] Os puritanos liam as cartas, os sermões e o popular tratado On Loving God [Sobre Amar a Deus de Bernardo]. Mas, acima de tudo, eles apreciavam seus sermões sobre o Cântico de Salomão, que exaltam o casamento espiritual entre Cristo e a igreja.[29] Por exemplo, em seus próprios sermões sobre o Cântico de Salomão, John Collinges faz referência a Bernardo cerca de trinta vezes, às vezes citando-o de memória.[30]
Richard Sibbes chega a se referir ao abade cisterciense como “santo Bernardo”. Em um trecho, ele cita Bernardo dizendo: “Tu tratas docemente minha alma em relação a mim mesmo, mas com firmeza em relação a ti mesmo”. Sibbes então expande os pensamentos de Bernardo: “Ele [Deus] fala conosco como um homem em nossa própria língua, docemente; mas ele age em nós de maneira poderosa, como Deus”.[31]
Talvez mais do que qualquer outro puritano, Isaac Ambrose gostava particularmente do “devoto Bernardo”,[32] que aparece em todos os seus escritos.[33] Por exemplo, os sermões de Bernardo sobre o Cântico de Salomão moldaram a perspectiva de Ambrose sobre o valor da solidão espiritual para a meditação sustentada. Em sua anotação no diário de 16 de maio de 1648, Ambrose reflete sobre seu retiro mensal de primavera nas florestas de Lancashire: “Vim a Weddicre para renovar meus compromissos e meu amor com meu Senhor e meu Deus também nesta primavera”. Depois de justificar seu retiro anual com base no Cântico de Salomão — “Vem, ó amado meu, saiamos ao campo… ali te darei os meus amores.” (Cânticos 7.11-12 ACF) —, ele cita Bernardo: “O noivo de nossas almas é tímido e visita sua noiva com mais frequência em lugares solitários.”[34]
Fonte 4: Reformadores protestantes
Os puritanos adoravam ler os reformadores, vendo-os como instrumentos de Deus para libertar seu povo do que Martinho Lutero chamou de “cativeiro babilônico” da Igreja Católica Romana.[35] William Ames (1576–1633) chegou a escrever que, em termos gerais, os reformadores (como Wycliffe, Lutero e Zwingli) tinham alguma semelhança com os “ministros extraordinários” das Escrituras (os profetas e apóstolos), porque Deus lhes deu dons especiais para reformar a Igreja após um período de declínio acentuado.[36] A partir dos reformadores, os puritanos cresceram em sua compreensão da justificação pela fé, das doutrinas da graça e da unidade dos propósitos da aliança de Deus na história da redenção.
William Perkins, carinhosamente lembrado como “o pai do puritanismo”, foi influenciado por reformadores como Theodore Beza, Caspar Olevianus, Pedro Mártir Vermigli e Girolamo Zanchi, bem como Martinho Lutero, William Tyndale e João Calvino.[37] Perkins, por sua vez, “moldou a piedade de toda uma nação”[38] e tornou-se “o principal arquiteto do movimento puritano”.[39] Robert Hill (ca. 1565–1623), um puritano que compilou The Contents of Scripture (1596), baseou-se nas exposições bíblicas de vários reformadores proeminentes, incluindo João Calvino, Franciscus Junius e Johannes Piscator.[40] O comentário de Martinho Lutero sobre Gálatas foi fundamental para a conversão de John Bunyan.[41]
Os puritanos desenvolveram sua teologia distintamente reformada (ou calvinista) em grande parte a partir de Heinrich Bullinger (1504–1575), o pioneiro frequentemente esquecido do movimento reformado suíço, cujos cinquenta sermões doutrinários, as Decades, ajudaram a moldar o entendimento reformado clássico das Escrituras, da fé, da lei de Deus, da liberdade cristã, da providência, da predestinação, da Igreja e dos sacramentos. Os sermões de Bullinger foram tão influentes que, em 1586, o arcebispo John Whitgift instruiu os clérigos juniores e candidatos ao ministério na Inglaterra a estudar um sermão de Bullinger das Decades todas as semanas, a escrever suas reflexões sobre o sermão em um caderno e a discutir os sermões com um tutor quatro vezes por ano.[42]
Os puritanos herdaram sua visão de mundo reformada abrangente em grande parte de outro teólogo reformado suíço — João Calvino (1509–1564) — e, particularmente, de sua obra inovadora Institutas da Religião Cristã. Um puritano da Nova Inglaterra, John Cotton (1585–1652), gostava tanto de ler Calvino que certa vez escreveu: “Adoro adoçar minha boca com um pedaço de Calvino antes de dormir”.[43]
Durante a década de 1580, as obras de Calvino venderam mais do que todas as outras obras dos reformadores protestantes combinadas no mercado editorial inglês. Entre 1564 e 1600, 65 edições de suas obras completas estavam disponíveis na Inglaterra.[44] Foi nessa época — os anos de formação do movimento puritano incipiente durante a segunda metade do século XVI — que os membros da primeira geração puritana estavam no auge de seus ministérios, incluindo Thomas Cartwright, Richard Greenham, William Perkins, Richard Rogers e William Whitaker. Foi também durante esse período que vários puritanos proeminentes estavam sendo educados, incluindo William Ames, Robert Bolton, William Bradshaw, William Gouge, Joseph Hall, Arthur Hildersham e Henry Smith. Dado o alcance da influência de Calvino na Inglaterra elisabetana, é quase certo que a maioria desses primeiros puritanos leu seus escritos na universidade ou durante seus primeiros pastorados. Para os cristãos reformados na Inglaterra (incluindo os puritanos), a obra das Institutas de Calvino logo se tornou “a declaração definitiva da doutrina”.[45]
Embora os puritanos não citem Calvino diretamente com tanta frequência quanto se poderia esperar,[46] seus ensinamentos sobre soberania divina, providência e predestinação permeiam suas obras — mesmo que apenas indiretamente. Em outros lugares, porém, a influência de Calvino é mais direta. Por exemplo, em seu Beam of Divine Glory, Edward Pearse menciona a referência de João Calvino à “constância ou imutabilidade firme e estável” da eleição de Deus em seus comentários sobre 2 Timóteo 2.19. Pearse então expande o comentário de Calvino: “Deus terá seu próprio propósito eterno de acordo com sua eleição, e assim será, para sempre”.[47] Assim como Calvino, Pearse fundamenta a eleição na imutabilidade do conselho de Deus e, em última análise, de seu ser. Ao longo do tratado, Pearse cita Calvino diretamente sete vezes[48] e indiretamente três vezes.[49]
Fonte 5: Outros puritanos
Todo leitor teológico sábio “traz do seu tesouro o que é novo e o que é velho” (Mateus 13.52). Os puritanos não eram diferentes. Eles não apenas se inspiraram nas riquezas da história da igreja em suas leituras, mas também em seus contemporâneos — outros puritanos que ministravam em seu próprio tempo e lugar e que produziam novas meditações sobre as Escrituras que se baseavam (e muitas vezes superavam) seus antecessores em profundidade, rigor doutrinário e piedade experiencial. De seus irmãos não conformistas, os puritanos aprenderam muito sobre a vida de fé, a busca da santidade e o desejo de glorificar a Deus em todas as áreas da vida.
Como um jovem casado em seus vinte e poucos anos, por exemplo, John Bunyan (1628–1688) leu dois livros de puritanos — Plain Man’s Pathway to Heaven, de Arthur Dent, e Practice of Piety, de Lewis Bayly —, ambos fundamentais para sua conversão.[50] A biblioteca de William Ames na Holanda incluía títulos de Henry Ainsworth, Nicholas Byfield, Thomas Cartwright, Arthur Hildersham e William Perkins.[51]
Na Assembleia de Westminster, os teólogos de Westminster frequentemente citavam Thomas Cartwright (doze vezes), John Cotton (onze vezes), William Whitaker (onze vezes), William Ames (seis vezes) e John Robinson (seis vezes), bem como Henry Ainsworth, Tobias Crisp e William Perkins (três vezes cada).[52] Isaac Ambrose devorava os escritos de outros ministros da tradição puritana. Por exemplo, em seu livro sobre a vida cristã intitulado Media, ele recomenda uma lista de escritores experientes que inclui Richard Baxter, Robert Bolton, Jeremiah Burroughs, Anthony Burgess, Thomas Goodwin, William Gouge e Richard Rogers. Ele também se baseou fortemente em Joseph Hall para suas opiniões sobre a meditação cristã.[53]
Na Nova Inglaterra, The Marrow of Theology, de William Ames, tornou-se o principal livro didático de teologia da Universidade de Harvard, nutrindo as mentes de várias gerações de pastores e líderes puritanos nas colônias inglesas.[54] Em Marrow, Ames define a teologia de maneira puritana como “a doutrina ou o ensino de viver para Deus”.[55] Em outras palavras, a teologia deve levar a uma vida vivida na presença de Deus (coram Deo), que envolve não apenas a aprovação do intelecto, mas também a aceitação da vontade na fé e na obediência.
Uma lista de puritanos ingleses aparece no catálogo de livros de Jonathan Edwards (1703–1758), incluindo Joseph Alleine, Stephen Charnock, John Flavel, Thomas Manton, John Owen, William Perkins, George Swinnock e Thomas Watson.[56] Além de The Family Expositor, de Philip Doddridge (1702–1751), Edwards baseou-se principalmente nos comentários bíblicos escritos por dois puritanos ingleses — Matthew Poole e Matthew Henry. Na verdade, ele cita a compilação de comentários de Poole, a Synopsis Criticorum, quase oitocentas vezes em sua “Bíblia em branco”, uma Bíblia intercalada com páginas em branco que ele usava para fazer anotações extensas.[57]
A Biblioteca Puritana e você
Se a cosmovisão puritana fosse como um rio, ela seria alimentada por muitas correntes de pensamento que fluíam de várias fontes na história da igreja. Mas acima de cada corrente havia uma cachoeira estrondosa: a Palavra pura e poderosa de Deus. Para os puritanos, outros livros além da Bíblia ainda eram importantes — na medida em que esses livros os ajudavam a entender melhor as Escrituras, eram fiéis às Escrituras e eram interpretados através das lentes das Escrituras. Para estender a metáfora, a água da poderosa cascata das Escrituras se misturava com os riachos tributários da reflexão humana, mas, como a vara de Arão, engolia esses riachos com irresistível autoridade divina.
Em nossa leitura teológica, muitas vezes perdemos de vista uma das verdades mais elementares do discipulado cristão: a comunhão diária com Jesus Cristo em sua Palavra — lida, meditada, memorizada e orada — é o maná da vida cristã. Sem ela, murcharemos como arbustos secos, em vez de florescer como árvores bem hidratadas e floridas (Jeremias 17.5–8). As Escrituras são nosso oxigênio espiritual, nosso alimento espiritual e nossa água espiritual. Nossa leitura teológica nunca deve substituir nossa absorção da palavra de Deus. Essa é uma lição que os puritanos compreenderam bem. E, como resultado, suas vidas espirituais e seus livros floresceram. Quem pode dizer quão profunda, doce e plena seria nossa caminhada com Deus se simplesmente lêssemos a Bíblia, cressemos em suas promessas e aplicássemos suas verdades — e fizéssemos isso todos os dias de nossas vidas?
Oh, que o Espírito Santo nos ajude a viver vidas saturadas da Palavra!
Com a base da leitura diária da Bíblia, junte-se aos puritanos na construção de uma forte biblioteca teológica e na leitura ampla, profunda e consistente. Leia os Pais da Igreja primitiva para uma rica soteriologia trinitária e uma cristologia exaltada. Leia os teólogos medievais para um rigor escolástico e uma devoção calorosa e centrada em Cristo. Leia os reformadores para refletir sobre a justificação pela fé, a aliança da graça e a soberania divina na salvação. E leia os puritanos para obter maior profundidade na comunhão experiencial com Jesus Cristo, bem como para a articulação quintessencial da doutrina, prática e piedade extraídas das ricas correntes da história da igreja.
Voltar com prudência a muitas das mesmas fontes que os puritanos usavam com prudência — sempre comparando suas leituras com a norma das Escrituras (Isaías 8.20) — pode ser útil para nós hoje, a fim de reforçar nossa leitura dos próprios puritanos. De certa forma, compreender os puritanos sem ter algum conhecimento das fontes que eles leram, das quais se beneficiaram e nas quais se basearam é semelhante a tentar compreender o Novo Testamento sem aprofundar-se nas profundezas do Antigo Testamento. Além disso, nós mesmos devemos ler os puritanos hoje com o mesmo tipo de discernimento com que lemos livros histórico-teológicos de todas as épocas — assim como também estudamos escritores mais modernos de nossa própria geração, particularmente aqueles que são biblicamente sólidos e edificantes.
Toda biblioteca conta uma história sobre o que amamos, o que valorizamos e no que acreditamos. Para os puritanos, suas estantes de livros testemunhavam seu amor pela Bíblia e por aqueles que a ensinaram fielmente ao longo da história da igreja. Portanto, vamos encerrar com uma pergunta — uma pergunta que cada um de nós deve fazer em algum momento de nossa vida: se sua biblioteca pudesse falar, que história ela contaria sobre você?
[1] Por exemplo, em seu catálogo de livros (uma lista de livros que ele possuía ou desejava possuir), Jonathan Edwards listou 720 obras — não apenas dos primeiros Pais da Igreja, reformadores e puritanos, mas também de luteranos, pietistas alemães, teólogos da Reforma Holandesa, jornais contemporâneos, clássicos greco-romanos e romances de ficção, bem como livros de geografia, história, filosofia, matemática, educação, ciência e poesia. Ver Jonathan Edwards, Catalogues of Books, em The Works of Jonathan Edwards, ed. Harry S. Stout, vol. 26, ed. Peter J. Thuesen (Yale University Press, 2008), 117–318.
[2] Robert Halley, “Memoir of Thomas Goodwin,” em The Works of Thomas Goodwin (Tanski, 1996), 2:xviii.
[3] Joel R. Beeke, Randall J. Pederson, and Fraser E. Jones, Meet the Puritans: A Guide to Their Lives and Books, 2nd ed. (Reformation Heritage Books, 2025), 405.
[4] John Winthrop, citado em Leland Ryken, Worldly Saints: The Puritans as They Really Were (Zondervan, 1986), 139.
[5] Thomas Watson, A Body of Divinity (Banner of Truth, 2000), 34–35.
[6] Isaac Ambrose, Media, em The Compleat Works of That Eminent Minister of God’s Word Mr. Isaac Ambrose (London, 1688), 70.
[7] Veja John Owen, Meditations and Discourses on the Glory of Christ, in The Works of John Owen, ed. William H. Goold, vol. 1 (Banner of Truth, 1965), 285–415.
[8] Veja William Perkins, An Exposition of the Lord’s Prayer in the Way of Catechizing, in The Works of William Perkins, ed. Joel R. Beeke and Derek W.H. Thomas, vol. 5, ed. Ryan Hurd (Reformation Heritage Books, 2017), 417–69.
[9] Veja Thomas Case, “The Conclusion,” in Puritan Sermons: 1659–1689 (Richard Owen Roberts, 1981), 516–38.
[10] Na Assembleia de Westminster, os primeiros pais da Igreja mais frequentemente citados foram Agostinho (vinte e cinco vezes), João Crisóstomo (dezesseis vezes), Cipriano de Cartago (doze vezes) e Tertuliano (dez vezes). Veja “Registro de Citações”, em The Minutes and Papers of the Westminster Assembly: 1643–1652 , ed. Chad Van Dixhoorn (Oxford University Press, 2012), 1:148–61. Doravante, MPWA .
[11] William Perkins escreve: “Os pais da Igreja falaram de maneira muito inadequada em muitos pontos da teologia. […] Os pais da Igreja têm erros, sim, e às vezes erros muito grosseiros; eles mesmos o reconhecem claramente.” William Perkins, The Problem of Forged Catholicism , em The Works of William Perkins , ed. Joel R. Beeke e Derek W. H. Thomas, vol. 7, ed. Shawn D. Wright e Andrew S. Ballitch (Reformation Heritage Books, 2019), 174, 176. Em uma linha semelhante, Martinho Lutero escreveu: “Você não deve ir apenas a São Bernardo e Santo Ambrósio, mas é imprescindível levá-los consigo a Cristo e ver se eles concordam com Seus ensinamentos.” Martinho Lutero, Sermons on the Gospel of St. John: Capítulos 1–4, ed. Jaroslav Pelikan, em Luther’s Works (Concordia, 1957), 22:255.
[12] Aza Goudriaan, “Reformed Theology and the Church Fathers,” em The Oxford Handbook of Reformed Theology, ed. Michael Allen and Scott R. Swain (Oxford University Press, 2020), 15.
[13] Ver MPWA , 1:148–61. Teodoro Beza foi citado 29 vezes; Agostinho e João Calvino foram citados 25 vezes cada. Agostinho foi o pai da igreja mais frequentemente citado por João Calvino, Martin Bucer, Heinrich Bullinger e Francis Turretin, bem como nos anais do Sínodo de Dort. Ver Goudriaan, “Teologia Reformada e os Pais da Igreja”, 15.
[14] Ver “Índice de Referências a Autores, Opiniões, Conselhos e Ditos”, em As Obras de John Owen, ed. William H. Goold, vol. 16 (Banner of Truth, 1968), 608–16. Ver também os índices temáticos em cada volume de William Perkins, As Obras de William Perkins , 10 vols., ed. Joel R. Beeke e Derek W. H. Thomas (Reformation Heritage Books, 2014–2020).
[15] John Collinges, “To the Reader,” in The Intercourses of Divine Love Betwixt Christ and His Church (London, 1683), A4r.
[16] Collinges, Intercourses, 108.
[17] Veja “Names Quoted and Referenced To,” in Works of Richard Sibbes, ed. Alexander B. Grosart (Banner of Truth, 2001), 7:568.
[18] Para exemplo, veja Sibbes, Soul’s Conflict, in Works, 1:148, 174, 200; Sibbes, An Exposition of 2nd Corinthians Chapter One, in Works, 3:271; Sibbes, A Fountain Sealed, in Works, 5:428.
[19] Sibbes, Soul’s Conflict, in Works, 1:268. See also Sibbes, A Heavenly Conference, in Works, 6:423. Pontuação modernizada.
[20] Sibbes, The Saint’s Safety in Evil Times, in Works, 1:327.
[21] Sibbes, Soul’s Conflict, in Works, 1:197.
[22] Sibbes, Exposition of 2nd Corinthians Chapter IV, in Works, 4:385.
[23] Edward Pearse, “Mr. Pearse’s Last Letter,” in A Beam of Divine Glory (London, 1674), sig. A7r–A8v.
[24] Meus sinceros agradecimentos a Richard Muller e Tom Schwanda pela revisão desta seção sobre teologia medieval e pelas valiosas sugestões.
[25] Veja Christopher Cleveland, “Reformed Theology and Medieval Theology,” in Oxford Handbook of Reformed Theology, 31–36.
[26] Veja Cleveland, “Reformed Theology and Medieval Theology,” 30–32.
[27] Para mais sobre a Devotio Moderna movement, veja Albert Hyma, The Christian Renaissance: A History of the “Devotio Moderna” (Century, 1925); R.R. Post, The Modern Devotion: Confrontation with Reformation and Humanism (Brill, 1968)
[28] Veja “Index of References,” in Works of John Owen, ed. William H. Goold, vol. 16 (Banner of Truth, 1968), 608–16. See also the subject indices in each volume of The Works of William Perkins.
[29] Tom Schwanda, Soul Recreation: The Contemplative-Mystical Piety of Puritanism (Pickwick, 2012), 3, 74. Veja Bernard of Clairvaux, Song of Solomon, ed. and trans. Samuel J. Eales (Klock & Klock, 1984).
[30] Collinges, Intercourses, 194. Collinges tinha Bernard em alta estima. Quando discordava dele, escreveu: “Devo implorar permissão para discordar de uma pessoa tão importante” (251).
[31] Richard Sibbes, Bowels Opened (London, 1641), 142–43.
[32] Isaac Ambrose, War with Devils, in Compleat Works, 723.
[33] Por exemplo, veja Schwanda, Soul Recreation , 33, 65, 72–74, 84, 87–88, 122, 126–28, 134–36, 138, 143, 145, 152, 161, 167–68, 170, 175, 183, 191, 194, 196.
[34] Isaac Ambrose, citado em Schwanda, Soul Recreation, 87–88. Veja também Ambrose, Media, em Compleat Works, 89.
[35] Martin Luther, The Babylonian Captivity of the Church, 1520, trans. A.T.W. Steinhäuser, rev. Frederick C. Ahrens, and Abdel Ross Wentz, in Word and Sacrament II, ed. Abdel Ross Wentz, vol. 36, Luther’s Works, ed. Helmut T. Lehmann (Muhlenberg, 1959).
[36] Veja William Ames, The Marrow of Theology, edição e tradução por John D. Eusden (Baker, 1997), 185.
[37] O.A. Rattenbury, “Perkins, William (1558–1602),” rev. Clive D. Field, in Oxford Dictionary of National Biography, ed. H.C.G. Matthew and Brian Harrison (Oxford University Press, 2004), 43:782.
[38] H.C. Porter, Reformation and Reaction in Tudor Cambridge (Cambridge University Press, 1958), 260.
[39] Beeke et al., Meet the Puritans, liii.
[40] Beeke et al., Meet the Puritans, 476.
[41] Beeke et al., Meet the Puritans, 166.
[42] Joel R. Beeke com George Ella, “Henry Bullinger’s Decades,” em The Decades of Henry Bullinger, ed. Thomas Harding (Reformation Heritage Books, 2004), 1:xcix.
[43] John Cotton, citado em Bruce Gordon, John Calvin’s Institutes of the Christian Religion: A Biography (Princeton University Press, 2016), 64.
[44] Gordon, John Calvin’s Institutes, 57.
[45] Gordon, John Calvin’s Institutes, 58.
[46] Por exemplo, com base nos índices de suas obras completas, John Owen cita Calvino apenas vinte e sete vezes, William Perkins dez vezes e Richard Sibbes cinco vezes.
[47] Pearse, Beam of Divine Glory, 22.
[48] Pearse, Beam of Divine Glory, 22–23, 57–58, 151, 175, 178.
[49] Pearse, Beam of Divine Glory, 13, 24, 195.
[50] Veja John Bunyan, Grace Abounding to the Chief of Sinners, em The Works of John Bunyan, ed. George Offor (Glasgow, 1859), 1:7.
[51] John D. Eusden, “Introduction,” in Ames, Marrow, 17.
[52] Ver MPWA, 1:148–61.
[53] Schwanda, Soul Recreation, 82, 129.
[54] Beeke et al., Meet the Puritans, 86, 88.
[55] Ames, Marrow, 77.
[56] Ver Edwards, Catalogues, em Works , 26:117–356.
[57] Veja Peter J. Thuesen, “Editor’s Introduction,” em Edwards, Catalogues, in Works, 26:83.
Por: Joel Beeke, é presidente e professor de teologia sistemática no Puritan Reformed Theological Seminary (EUA) e pastor da Heritage Netherlands Reformed Congregation. Beeke é Ph.D. em teologia pelo Westminster Theological Seminary. Publicou 50 livros, dentre eles, “Vivendo para a Glória de Deus” e “Vencendo o Mundo” (Fiel).
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Fonte: https://voltemosaoevangelho.com


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