domingo, 29 de julho de 2018

Jesus falou sobre a prática homossexual?

Uma das questões que tem provocado debates teológicos acalorados e até mesmo cismas denominacionais, tem sido a questão da prática homossexual.  De um lado temos conservadores que abraçam a visão majoritária de toda a cristandade (católicos romanos, ortodoxos, protestantes) de que as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são proibidas por Deus, portanto, quem incorre nessa prática comete pecado. De outro, revisionistas que tentam a todo custo mudar essa compreensão, apelando para diversos argumentos e utilizando-se de métodos de interpretação que desconsideram a inspiração e a autoridade das Escrituras.  Um dos argumentos mais utilizados é o de que Jesus nada teria dito sobre esse tema, por tanto não haveria qualquer pecado nessa prática, relegando a uma influência meramente cultural todos os textos bíblicos que reprovam esse tipo de relação sexual.

Primeiramente, é preciso ter em mente, que as Escrituras não são um amontoado de  opiniões pessoais condicionadas pela cultura da época. Todos os escritores bíblicos  escreveram por inspiração Divina. Nenhuma só palavra  foi escrita na Bíblia fora da direção de Deus.  É como John Wesley afirma sobre as Escrituras: 

Com referência às Escrituras em geral, pode-se observar que a palavra do Deus vivo que dirigiu também os primeiros patriarcas foi escrita no tempo de Moisés. Foram adicionados a esta os escritos dos outros profetas em várias gerações posteriores. Depois os apóstolos e os evangelistas escreveram o que o Filho de Deus pregou e o que o Espírito Santo falou através dos apóstolos. Isto é o que nós agora chamamos de Escritura Sagrada. Esta é a palavra de Deus que permanece para sempre; dessa palavra não passará um til, embora passem os céus e a terra. Portanto, a Escritura do Antigo e do Novo Testamentos é o mais sólido e precioso sistema de verdade divina. Todas as partes da mesma são dignas de Deus, e todas juntas constituem um corpo total, no qual não há defeito nem excesso”.[1][1]  

Ele resume muito bem o que é, e qual o propósito da  Bíblia.   Portanto, o primeiro grande erro desse argumento é ser seletivo sobre o que deve ou não ser aceito das Escrituras como palavra de Deus. O apóstolo Paulo enfatiza a seu discípulo Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2. Tm. 3.16-17 NAA – SBB) Portanto, não podemos pinçar partes das Escrituras para determinar o que deve ou não ser aceito como inspirado de acordo com o que julgarmos mais palatável aos nossos dias.

É verdade que  existem questões culturais e circunstanciais na bíblia, mas isso fica evidente em uma analise dos textos à luz de seus respectivos contextos. A Bíblia é a fiel interprete de si mesma! Quando tratamos daquilo que a Bíblia classifica como pecado, tratamos de princípios eternos que são normas de conduta para o ser humano em todos os tempos e lugares.

Estaria correta a afirmação de que Jesus nada teria dito sobre a prática homossexual? Uma leitura atenciosa dos Evangelhos nos mostra que não!  Jesus em diversos momentos se referiu aos princípios de santidade sexual estabelecidos no Antigo Testamento. Vejamos:

1.   Jesus e o cumprimento da Lei

O próprio Jesus declarou que não veio subverter a lei. Diferente do que algumas (re)leituras bíblicas propõe, ele não veio ser a antítese da lei, mas sua fiel expressão, tanto no obedecer, quanto no ensinar. Ele afirmou sua origem divina e seu propósito. Lemos em Mateus 5.17-19

Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Porque em verdade lhes digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado mínimo no Reino dos Céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.” (NAA – SBB)

Com essas Palavras Jesus confirma a procedência divina da Torah, a lei de Moisés. Ele, mesmo sendo o infinito Deus-homem se coloca como cumpridor da mesma. Esse cumprir tem diversas implicações. A lei mosaica (Torah) era composta por 613 mandamentos, dentre eles, mandamentos morais, civis e cerimoniais.

 Os mandamentos cerimoniais tratavam de tudo aquilo que estava ligado ao culto, suas simbologias sacrifícios e cerimonias. Incluem-se nisso os ofícios sacerdotais, os dias sagrados, os objetos do templo, as leis sobre pureza e impureza, etc.  Tudo isso apontava para Cristo, seu ministério e sacrifício. Na pessoa e obra de Cristo tudo isso foi cumprido e não mais é exigido do ser humano.  Eram sombras das coisas futuras. (Gl. 3.24-25, Cl.2.16-17, Hb.7.11-19).

        Os mandamentos civis tinham a função de regular a vida cotidiana na sociedade israelita. Israel era uma Teocracia e, portanto, Deus ditou as leis que regiam a nação. Isso incluía normas de higiene, segurança, punições especificas para diversos pecados e crimes, indenizações por prejuízos causados ao próximo etc. Essas leis vigoraram enquanto vigorou a Teocracia israelita. Com a vinda de Cristo,  veio também o Reino de Deus. Não um reino físico, mas espiritual, governado por princípios espirituais. Vivemos sob a ética do reino de Deus e sua abundante graça, onde o “olho por olho e dente por dente” deu lugar ao “se alguém e bater na face direita ofereça também a esquerda” (Mt.5.38,39)  O preceito de apedrejar quem adulterava deu lugar a: “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra!”(Jo.8.1-11) A lei condenava pecadores a morte, mas Cristo morreu nossa morte para que vivamos sua vida.  Ele veio para dar vida e vida em abundância! Esses mandamentos assim como os cerimoniais eram transitórios e não vigoram mais.

        Os mandamentos morais tratam daquilo que Deus estabelece e espera para a conduta humana. Estes tem seu cumprimento na pessoa perfeita de Cristo, o qual devemos imitar. A obra santificadora dos Espírito Santo em nossa vida nos torna conforme o caráter de Cristo, ao restaurar a imagem de Deus em nós.  Quando Deus anunciou por meio do profeta Jeremias, que renovaria sua aliança com seu povo, mas, sob uma nova forma, ele diz que suas leis (referindo-se aos seus princípios morais) seriam escritas nos corações das pessoas. Isso se refere à regeneração, ao novo nascimento que experimentamos quando entregamos nossa vida à Cristo: Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no seu coração as inscreverei; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. (Jr.31.33  NAA - SBB ) .

        Os princípios morais da lei podem ser sintetizados em dois: Amar à Deus e ao próximo (Mt.22.37-40 – Rm. 13.8-10). Esse amor (ágape) não é de sentimento, mas de entrega. É um amor de decisão e atitude. Se eu amo a Deus, o honro e busco não fazer nada que ofenda sua santidade. Se eu amo meu próximo, busco agir da melhor forma com ele. Todos os princípios morais estão incluídos nestes dois mandamentos. Por tanto, se sei que determinada prática é proibida por Deus e mesmo assim insisto nela, estaria amando a Deus?

        Jesus, portanto, não desprezou a lei, antes trouxe seu verdadeiro sentido. Dessa forma podemos compreender o que era transitório e o que permanece. Os céus e a terra passarão, mas os princípios morais estabelecidos por Deus jamais.  Os princípios morais da lei  dentre outras coisas, tratam de praticas sexuais as quais Deus proíbe, por exemplo: Ex.20.14, Lv.18.6-24. Jesus ao enfatizar o espirito da lei, ao invés de somente sua letra tratou o pecado de forma mais ampla e profunda: Mt.5.21-28 .                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    
2.    Falas de Jesus sobre Sodoma e Gomorra

Jesus diversas vezes se referiu a Sodoma e Gomorra como exemplo de impiedade e alvo do juízo divino: Mt.10.15, 11.24, Lc.17.28-29. Se o relato sobre Sodoma e Gomorra fosse apenas uma lenda ou mito judaico, Jesus não as citaria dessa forma. O juízo sobre essas cidades se deu por causa se seus pecados sexuais: “Igualmente Sodoma, Gomorra e as cidades vizinhas, que também se entregaram à imoralidade e adotaram práticas contrárias à natureza, foram postas como exemplo do castigo de um fogo eterno.” (Jd.1.7  NAA – SBB)

O pecado que mais se destacou de Sodoma e Gomorra foi justamente a prática homossexual: E chamaram Ló e lhe disseram: Onde estão os homens que, à noitinha, entraram na sua casa? Traga-os aqui fora para que abusemos deles. (Gn.19.5 NAA – SBB). Cada vez que Jesus se refere à condenação de Sodoma e Gomorra, ele está se referindo aos pecados sexuais predominantes nelas, como é bem enfatizado por Judas em sua epístola.


3.   O Ensino de Jesus sobre o Casamento

Ao tratar do casamento, quando foi questionado sobre a causa legitima para o divórcio, Jesus se remete à criação e diz: Vocês não leram que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: “Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”? ( Mt.19.4,5  NAA - SBB) Jesus afirmou categoricamente que casamento é a união entre um homem  e uma mulher. Não disse: duas pessoas! Disse que Deus fez “homem e mulher” e que o homem “se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”.

Jesus em sua fala, não deixa espaço para outra concepção de casamento. Ele descreve o casamento como sendo uma união heterossexual. Não há qualquer recurso interpretativo coerente que abra espaço para outra compreensão da fala do Mestre. Portanto, o ensino de Jesus sobre casamento é a união entre um homem e uma mulher.

4.   O uso bíblico da palavra porneia

Jesus diz em Mateus 15.19:  Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais[porneia], os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias. (NVI)  A palavra traduzida como imoralidade sexual  é a grega porneia, que é utilizada para se referir a todos os tipos de práticas sexuais proibidas na lei (Lv.18.6-24). O concilio de Jerusalém enfatiza a permanência dessa moralidade sexual (Atos. 15.29)

No capítulo 19 do Evangelho de Mateus,  Jesus afirma que  a  causa legitima para o divorcio e novo casamento seria a infidelidade: Eu, porém, lhes digo: quem repudiar a sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas[porneia], e casar com outra comete adultério. (Mt.19.9 NAA – SBB)  Aqui, porneia tem o contexto de infidelidade conjugal, mas é utilizada em diversas partes do Novo Testamento para se referir a outros pecados de natureza sexual, como podemos conferir em diversas outras passagens.

Paulo orienta a  igreja de Corinto  sobre disciplinar alguém que incorria em pecado de natureza sexual. Lv. 18. 8 diz: Não tenha relações com a mulher de seu pai; este é um direito que somente o seu pai tem.(NAA- SBB)  Em 1 Corintios 5.1 Ouve-se por aí que entre vocês existe imoralidade [porneia], e imoralidade [porneia] tal como não existe nem mesmo entre os gentios, isto é, que alguém se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. (NAA – SBB). Note-se que é chamado de porneia justamente a violação de um dos mandamentos de moralidade sexual do antigo testamento.

Hebreus 13.4 Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito conjugal sem mácula; porque Deus julgará os impuros [pornos] e os adúlteros. (NAA – SBB). Como pode alguém cometer porneia dentro do contexto do casamento? Aquelas relações sexuais proibidas poderiam acontecer no contexto de um casamento ilícito do ponto de vista da lei do Antigo Testamento.  O homem de Corinto a quem Paulo se refere, aparentemente tomou por esposa a própria madrasta! Esse leito conjugal estava maculado pela porneia. O mesmo principio podemos enxergar em uma união de pessoas do mesmo sexo (Lv.18.22) .

Judas usa a palavra porneia para se referir ao pecado de Sodoma e Gomorra: Igualmente Sodoma, Gomorra e as cidades vizinhas, que também se entregaram à imoralidade [porneia] e adotaram práticas contrárias à natureza, foram postas como exemplo do castigo de um fogo eterno. (Jd.1.7 NAA – SBB) Isso deixa claro que a prática homossexual é  uma forma de porneia. Portanto, Jesus ao falar sobre esse pecado ele esta incluindo esse tipo de relação sexual.

Conclusão

Podemos ver com muita clareza que o argumento de que Jesus nada teria dito sobre a prática homossexual não se sustenta. Mesmo que ele não tivesse falado nada que remetesse ao assunto, ainda assim, o Novo Testamento está cheio de referências que nos permitem compreender essa prática como contrária ao padrão sexual estabelecido por Deus.

 Não encontramos o Senhor tratando particularmente da prática homossexual, mas, falou varias coisas que remetem diretamente ao assunto em questão. Ele disse que não veio por fim a Lei. Também mencionou diversas vezes Sodoma e Gomorra como exemplo de cidades condenadas por seus pecados. Ao falar sobre o casamento, Jesus afirmou ser este uma união entre homem e mulher, não deixando margem para qualquer outra interpretação.   Ao listar diversos pecados que provém do coração humano, o Mestre cita a porneia que engloba todos tipos de relações  sexuais proibidas na Lei. Ou seja, Jesus de alguma forma tocou no assunto.
            
Meu desejo com esse artigo é desfazer essa concepção errônea, propagada por pessoas, muitas das quais desconsideram a autoridade das Escrituras, e que, tem sido abraçada como argumento válido por muita gente, que por desconhecer ou não se ater a certos detalhes bíblicos, acaba sendo facilmente influenciada.

            Cabe ressaltar que Jesus não veio chamar justos, mas pecadores ao arrependimento (Mt.9.13). A Escritura afirma que justo não há um sequer, todos dependemos da graça de Deus para alcançar gratuitamente por meio de Cristo o perdão e a salvação (Rm. 3.10-12, 22-24). Existe oportunidade de perdão e restauração para todos os que vierem com sinceridade buscar isso do Senhor.  Cristo continua sendo aquele que acolhe a todos os sinceros  e amorosamente diz “vá e não peques mais” (Jo.8.11),  Que o Senhor continue a iluminar cada um de nós para que não nos afastemos da verdade de sua palavra.



[1] Coletânea da Teologia de João Wesley. p.18
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
Autor: Rev. Francisco Belvedere Neto

FONTE: MCA
IMAGEM: Google





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