sexta-feira, 9 de junho de 2017

Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo

INTRODUÇÃO

“...o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos”.
Muitas matérias de revistas e artigos na internet trataram do que chamam o “Jesus histórico”. Isto é um termo para designar aquilo que se disse sobre o Cristo fora da fonte canônica. Logo, há disparates como o casamento de Jesus com Maria Madalena e sua viagem à Grécia, onde dialogou com os filósofos da época. Isso tudo não passa de invencionice, embora seja verdadeira a noção de que Cristo foi alguém que conviveu na História e se manifestou num espaço geográfico e cronológico no qual o apóstolo Paulo chama de “plenitude dos tempos” (Gálatas 4.4).

Nunca devemos esquecer que ao habitar entre nós, Jesus foi um homem judeu do século I, e por isso, partilhava da aparência e de muitos costumes do seu povo. Como personagem histórico, é mencionado por autores como o judeu Flávio Josefo e os romanos, Tácito e Plínio (o moço). Mas é na Escritura que temos a maior informação acerca do Cristo, sobretudo nos Evangelhos que relatam seu ministério terreno até a sua morte e ressurreição. No Evangelho escrito por Lucas, por exemplo, vemos que ele trata sua escrita como um trabalho historiográfico:
Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas”. - Lucas 1:1-4

Sua narrativa era endereçada a um homem chamado Teófilo, sobre o qual não temos muitas informações. Além do evangelho, o livro de Atos dá continuidade ao relato, objeto de uma acurada pesquisa. Lucas assim escreve ao seu destinatário:
Em meu livro anterior, Teófilo, escrevi a respeito de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar, até o dia em que foi elevado ao céu, depois de ter dado instruções por meio do Espírito Santo aos apóstolos que havia escolhido. Depois do seu sofrimento, Jesus apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas indiscutíveis de que estava vivo. Apareceu-lhes por um período de quarenta dias falando-lhes acerca do Reino de Deus”. - Atos 1:1-3

Como pudemos ler, os fatos narrados são comprovados por testemunhas oculares, e os relatos foram repassados via tradição oral. Assim concluímos que o Jesus da Escritura é o Jesus da História, que habitou entre nós, como um de nós.

O MILAGRE DA ENCARNAÇÃO

Jesus entra na História através de um milagre. Ao encarnar, sua concepção não se dá por meio natural. Maria, uma jovem judia tem em seu ventre um embrião que não é fruto de uma relação carnal. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo e com isso a profecia do Antigo Testamento se cumpre (Isaías 7.14).

Algumas pessoas caçoam desta informação bíblica e chegam a questionar a inteligência de quem crê na concepção virginal. Detratores do Evangelho já afirmaram que Maria engravidou de um soldado romano, o que seria ultrajante para ela e para José, seu noivo. Mas, a tentativa de macular o relato bíblico é fraca de evidências, ficando no campo da especulação barata. Outra impossibilidade dos zombadores é a de provar que a concepção sobrenatural não poderia ocorrer. Eles podem até alegar o que já sabemos: que bebês nascem através do ato sexual de um homem com uma mulher. Todavia, não podem provar a inexistência de um milagre.

Desde o Iluminismo, nossa sociedade foi bombardeada pela negação do sobrenatural. Aquilo que os nossos sentidos alcançam é o que existe - assim falam os naturalistas. Por Natureza, entende-se o mundo físico que conhecemos e interagimos. Todavia, nosso mundo criado foi feito por um ente criador, isto é, não criado. Isto quer dizer que a criação, por si só já é sobrenatural. Logo, não deve haver nenhum estranhamento quando lemos na Bíblia a intervenção divina no cosmos. Chamamos estas intervenções de milagres. Em ambos os testamentos, os milagres ocorrem e são registrados para que tenhamos a noção da grandeza e majestade do Criador. A concepção virginal é um grandiosíssimo milagre.

Os céticos dirão que as leis da Natureza são rígidas demais para serem quebradas. Pois bem, um cristão não negará que existam tais leis. Ninguém em sã consciência vai se atirar de um prédio de vinte andares para negar que a lei da gravidade está presente no cosmos. Porém, a existência das leis naturais que regulam o mundo criado não anula a possibilidade delas serem eventualmente desconsideradas quando o Criador deseja intervir no espaço e no tempo. Coisas estranhas acontecem com certa frequência e ferem o que parece ser o lógico para a Ciência. A essas coisas estranhas dar-se o nome de fenômenos não explicados. Nós, cristãos, preferimos o termo milagre - ou intervenção Divina.

Ademais, se Deus criou as coisas visíveis e invisíveis (o mundo Natural e o Sobrenatural) como diz Colossenses 1.16, logo um milagre não seria necessariamente violar a criação, mas sim uma interação entre as duas realidades existentes e pertencentes à mesma criação. Ambos os mundos, o visível e o não visível foram criados e são regidos pela Trindade. Esse argumento respalda a vivência dos milagres no intercurso da História.

AS DUAS NATUREZAS

A concepção virginal possibilitou Cristo a ter duas naturezas. Discorrer sobre as duas naturezas do Messias demonstra o quanto que esta doutrina é essencial para nossa compreensão do Evangelho. De fato, Jesus foi portador de uma natureza dupla e que não podia ser desassociada uma da outra. A Singularidade de Cristo está no fato dele ser totalmente homem e concomitantemente ser totalmente divino. Esse antinômio gerou uma série de questionamentos e desembocou em muitas heresias.

Em Colossenses 1.15-17, o apóstolo Paulo, contrariando os mestres heréticos que se infiltraram na igreja de Colossos, deixa claro o ensino de que Jesus é um ser divino e que não é mais uma criatura que o Deus-Pai trouxe a existência. Quando se é dito que Jesus é a imagem (Gr. eikõri) do Deus invisível, a ideia é a de que Cristo não é uma simples figura representativa. Ele é a manifestação que contém a mesma substância daquilo que revela. Deus é invisível, e isso é corroborado por outros autores neotestamentários, mas Cristo, num propósito revelacional é aquele que projeta Deus para que os homens possam vislumbrá-lo. Tudo que Deus é; igualmente Jesus é. Mas na frente, Paulo nos diz que “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Para que não haja dúvida de sua divindade, nos é dito que Jesus é “o primogênito de toda a criação”. O termo que foi traduzido por primogênito não tem relação temporal. Prototokos é, na verdade, um título honorífico, e ao decorrer do discurso paulino fica evidente a honra que ele concedeu a Cristo: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele”. Jesus é o artífice da criação, tudo partiu dele e foi feito para ele.

Já em Romanos 5.12-19, o apóstolo Paulo equipara Cristo a um segundo Adão. Enquanto que Adão pecou e, através da sua transgressão foram encerrados debaixo do pecado – que é mortal – todo o gênero humano. Da mesma forma, através da morte de Cristo na cruz, muitos obtiveram o seu resgate e receberam a vida por graça e não a morte por salário. Se Adão é o cabeça dos homens decaídos, Jesus é o cabeça dos homens redimidos. No versículo 15, é dito com todas as letras que Jesus Cristo é homem, e por meio dele, a graça superabundou o pecado. Usando um jogo de contrastes em sua argumentação, Paulo deixa claro que Jesus cumpriu aquilo que Adão tinha falhado. Essa é uma teologia pactual. Na medida que Adão desobedeceu a Deus e fez com que o pecado atingisse todo o cosmos, Jesus, como um servo totalmente obediente fez aquilo que era o dever do primeiro homem.

O fato de existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta ao mesmo tempo o status divino-humano é algo que não podemos explicar racionalmente. Mas lembremos que o inexplicável não significa impossível. Ademais, a crença na dupla natureza de Cristo nos dá segurança acerca da nossa fé, sabendo que a justificação é real, pois foi um homem que morreu pelos pecados dos homens, isto quer dizer, a substituição foi real. Ao mesmo tempo, tratando-se do Divino, a morte não pode deter o Cristo que foi morto. Ele ressuscitou por ser Senhor da vida e dos vivos. Porque ele ressuscitou, temos a garantia de que com ele, também triunfaremos sobre a morte.

CONCLUSÃO

O Credo nos remete a historicidade dos fatos ao mencionar o nome de Pôncio Pilatos. Esta menção pretende nos lembrar de que o Cristo que nasceu da virgem e que porta duas naturezas é um personagem real que apareceu no curso da História. Pilatos foi o quinto governador da Judéia romana. Foi sob o seu governo que Jesus foi crucificado (Mt 27.2). Ele foi nomeado pelo imperador Tibério e uma pedra, descoberta arqueológica de 1963, exposta hoje no Museu de Jerusalém trazia em escrito não apenas a comprovação da existência de Pilatos, mas clarifica o título que ele possuía, o de governador.

O que podemos tirar de proveito desta informação? Podemos estar cientes de que o nosso redentor esteve neste mundo e passou por experiências que nos são familiares. Ele apesar de não ter pecado, em tudo foi tentado e padeceu como o homem de dores profetizado pelo profeta (ler Isaías 53). Assim, ao nos dirigirmos ao nosso Redentor, precisamos lembrar que ele vivenciou nossos dilemas e esteve à mercê das mazelas deste mundo caído. Logo, nosso Salvador tem empatia com os que sofrem e entende perfeitamente o drama dos oprimidos.

Ter um redentor habitando no espaço-tempo nos possibilita uma maior identificação com Deus, pois, este Deus conheceu a fundo nossos temores e nossas dores. E a boa notícia é que ele levou sobre si todas as nossas aflições e nos legou a paz e a reconciliação com Deus por meio de sua morte e ressurreição.

Soli Deo Gloria



Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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