segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Creio no Espírito Santo

Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.
Chegamos à parte final do Credo, que tem como “Creio” a terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo. O Credo, de forma lógica, após tratar da ascensão de Cristo, mostra agora a pessoa do Espírito Santo no estabelecimento da Igreja, a comunhão dos santos que estão espalhados pelo mundo entre povos, línguas e nações, a remissão de pecados, a nossa ressurreição no último dia e a entrada na vida eterna como parte de sua confissão. 
1. O Espírito Santo
O Credo é bem claro em não colocar toda a sua ênfase no Espírito Santo. Não que Ele seja menor, mas que suas funções são distintas. Algumas igrejas dão tanta ênfase ao Espírito Santo porque não conhecem o Seu trabalho no que chamamos “economia da Trindade”. Essas igrejas, possivelmente, não conseguem entender que a ênfase do culto não está sobre a pessoa do Espírito Santo, e sim, como o próprio Credo mostra, assim como o Novo Testamento, está sobre Cristo sendo o Senhor da Igreja. A nossa adoração é conduzida pelo Espírito Santo, nos levando a exaltar Cristo e sua obra de redenção feita na cruz por intermédio da Palavra para a glória de Deus Pai. Então, de forma breve e simples, duas grandes categorias sobre o Espírito Santo.

1.1. A pessoa do Espirito Santo
A resposta 53 do 20º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg nos diz, sobre o Espírito Santo:
Ele é verdadeiro e eterno Deus, juntamente com o Pai e o Filho. 

O Espírito Santo é uma pessoa porque ele tem funções de uma pessoa. Ele ensina (Lc 12.11-12), fala (At 13.2), intercede (Rm 8.26), se entristece (Ef 4.30). Ou seja, o Espírito Santo não é uma força ativa ou um modo de existência de Deus.

O Espírito Santo está em toda parte, não há nenhum lugar deste mundo que possamos nos esconder dele (Sl 139.7). Ele é eterno (Hb 9.14) e o único que conhece a mente de Deus (1Co 2.10-11). O Espírito Santo é plenamente Deus como esses textos mostram:
• Atos 5.3-4 mostra que mentir para Deus é mentir para o Espírito Santo;
• 1Co 3.16 e 6.19 mostram que Templo de Deus e Templo do Espírito Santo são usados como sinônimos; 
• Mt 28.19 (cf. 2Co 13.14) mostra que Jesus ordena aos seus discípulos que fossem batizados em nome (singular) de todas as três pessoas (plural) da Trindade. Mostrando a mesma igualdade em poder, posição e majestade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. 

1.2. A obra do Espírito Santo
O Catecismo de Heidelberg prossegue dizendo:
Que ele foi dado também a mim, para fazer de mim, por meio de fé verdadeira, um participante de Cristo e de todos os seus benefícios, para que ele possa me confortar e habitar comigo para sempre. 

O Espirito Santo, assim como Deus Pai, não é só transcendente, mas também, imanente. Ou seja, o Espírito Santo está conosco em todo lugar, por isso o catecismo diz que “ele foi dado também a mim”. E assim, a Bíblia diz que:
• O Espírito vive dentro de nós (1Co 6.19);
• O Espírito está em nosso coração para nos fazer clamar “Aba, Pai” (Gl 4.6; cf. 2Co 1.22);
• Temos comunhão com o Espírito Santo (2Co 13.14).

Essa vivencia que há do Espírito Santo em nosso coração não é que o nosso coração é um compartimento que guarda Ele. Mas que o Espírito Santo habita conosco nos animando, moldando o nosso caráter, renovando a nossa mente e agitando as nossas emoções. Ou seja, a Sua presença não é uma residência física, mas uma realidade vivida.

1.3. O Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento
Qual a diferença da atuação do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento?
No Antigo Testamento o Espírito Santo habitava entre os crentes, como mostra o profeta “segundo o pacto que fiz convosco, quando saístes do Egito, e o meu Espírito habita no meio de vós; não temais” (Ag 2.5). Então, a habitação do Espírito Santo sempre existiu mesmo quando Cristo estava na terra. O que diferencia o Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento é a sua atuação. O que havia na Antiga Aliança eram enchimentos a certos tipos de pessoas, pois na conversão quem sempre agiu foi o Espírito Santo (Zc 4.6). Algumas pessoas eram cheias do Espírito Santo para certos tipos de obras que deveriam fazer, por exemplo, em reis, profetas e sacerdotes.
Já na Nova Aliança, a atuação do Espírito Santo é diferente, começando com o cumprimento da profecia de Joel 2.28 (cf. At 2.17,18). O cumprimento da profecia de Joel é o que marca a distinção da atuação do Espírito Santo na Antiga Aliança e na Nova. A profecia diz que Deus derramaria o seu Espirito sobre toda carne, não mais só em profetas, reis e sacerdotes. Mas derramaria sobre filhos e filhas, jovens e velhos, e sobre servos e servas e que a cada um concederia dons. Ou seja, na Nova Aliança todos quantos participam do corpo de Cristo recebem a ordem de encherem do Espírito Santo.

1.4. O Espírito Santo e a Igreja
Algumas pessoas entendem que estamos na Era do Espírito Santo, fazendo essa distinção da antiga aliança. É bem verdade que algumas coisas da antiga aliança não são praticadas hoje, mas o Espírito Santo já habitava na igreja do Antigo Testamento, como mostrei acima. O que nós temos em Pentecostes (At 2) é o que Abraham Kuyper diz: “a Igreja para o mundo”.[1] Naquele momento em diante a Igreja avançaria o mundo mostrando que o Evangelho é para todas as nações, algo bem visto quando cento e vinte pessoas receberam o dom de línguas e falaram das maravilhas de Deus nos idiomas daqueles que vieram visitar a festa (At 2.11). Sendo assim, o Espirito Santo concede dons à igreja para que a obra de Deus prosseguisse avante. Deus concede a Igreja, por intermédio do Espírito Santo, dons para que esses dons auxiliasse toda a comunidade e não como algo de vanglória e títulos. Entendemos que os dons ditos revelacionais não são necessários para os dias de hoje, até porque o modo que interpretam esses dons, principalmente o de línguas, não pode ser comparado com os de Atos e de 1º Coríntios. Seja qual for o dom que Deus nos dê, devemos obedecer as regras: não são para o nosso próprio prazer ou beneficio, mas para equipar a nossa tarefa como povo missionário de Deus.

1.4.1. No ministério da Palavra 
Além de o Espírito Santo conceder dons, o Espirito Santo age no cuidado da Palavra: sela, a interpreta e aplica. Pelo o selo entendo como a sua autoridade divina, se não a Palavra não pode ser palavra de Deus para nós. Ela é a autoridade final para qualquer decisão que há e devemos nos submeter a ela. As nossas experiências não podem ser comparadas à autoridade que a Escritura nos passa. As nossas experiências passam, a Palavra de Deus é eterna.
A Escritura, sendo autoridade de Deus, deve ser interpretada. A interpretação da Palavra de Deus não pode ser baseada em achismos e/ ou experiências. Ela deve ser acompanhada de oração. Uma vida cristã piedosa e auxilio do Espírito Santo. Somente aquele que selou a sua autoridade é o que pode dar a interpretação.
Após a interpretação, há a aplicação. A Escritura Sagrada é um verdadeiro manual para a atual sociedade e de qualquer época, pois ela é eterna. Mas tal aplicação só pode ser feita pela obra do Espírito Santo. Sendo assim, há duas formas que o Espírito Santo aplica a Palavra: por intermédio da pregação, devocional e/ ou leitura diariamente.
1.4.2. No governo da Igreja
Assim como foi na eleição do sucessor de Judas (At 1.24-26), o traidor, cremos que o Espírito Santo escolhe os oficiais que guia a igreja. Cremos que os oficiais da igreja, os quais são eleitos pela igreja (At 6.5; 14.23; 15.22,25;) são também eleitos pelo Espírito Santo. Tais homens pecadores, por intermédio da Santa Palavra, agem segundo a vontade de Deus, tanto na pregação da Palavra, administração dos sacramentos bem como na disciplina (Mt 18.20).

2. A Igreja
Como assim crer na igreja? O Credo não está afirmando para nós crermos na Igreja da mesma forma que cremos em Deus, em Cristo e no Espírito Santo. Mas devemos crer na igreja por aquilo que ela mesma é: O Corpo de Cristo, a Noiva do Cordeiro.

Por questão lógica, depois de apresentar a obra da Trindade, o Credo mostra a igreja como uma constituição da Trindade. Então, veremos abaixo algumas características concernentes a igreja.
2.1. Igreja visível e invisível 
Segundo a Confissão de Fé de Westminster, a igreja é:
A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas. 

A Igreja Visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor Jesus, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação.
A esta Igreja Católica Visível Cristo deu o ministério, os oráculos e as ordenanças de Deus, para congregamento e aperfeiçoamento dos santos nesta vida, até o fim do mundo, e pela sua própria presença e pelo seu Espírito, os torna eficazes para esse fim, segundo a sua promessa. (Cap. XXV. I, II e III).
Segundo a Confissão de Fé de Westminster, a Igreja Invisível é constituída por todos os salvos, tanto da Antiga Aliança como aqueles que conhecemos que morreram no Senhor e aqueles que estão espalhados pelo mundo. Igreja visível e invisível não são duas igrejas, mas uma só Igreja porque Cristo só tem um Corpo e uma Noiva a qual, em sua totalidade, será revelada na eternidade, uma multidão que não se pode contar (Ap 7.9). Ou como mostra a CFW: consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça.

A Igreja visível é a igreja local, a qual é uma porção da Igreja invisível na qual consiste de crentes e não crentes. E mesmo com governantes crentes a sua natureza carnal ainda não está totalmente livre do pecado, por isso que a história mostra vários problemas e duras lutas. Mas, mesmo assim, com todas as suas imperfeições, nos é exigido que cumpramos com que a Escritura exige de sua igreja.

E assim, entendo que a definição dada pela CFW seja mais fácil de explicar a unidade[2] e sua universalidade (igreja católica). Os dois termos propostos pela Confissão trata sobre a unidade da igreja como a igreja que estará presente no céu com o nosso Senhor para todo sempre, mas também trata da unidade da igreja aqui na terra, a qual é o Corpo de Cristo onde deve haver edificação mútua até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, ao homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4.13).

A universalidade da Igreja pode ser descrita pela Igreja Invisível. Pois, se uma igreja advoga para si a catolicidade haverá alguns problemas, como o exclusivismo. Mas a Igreja Universal, assim como a Igreja Invisível, está em todos os lugares compostos por eleitos de todos os tempos, não como afirma o romanismo - que as igrejas locais não podem ser chamadas de igrejas, mas que todas fazem parte da Igreja como um todo.
Assim, também, o termo Visível e Invisível pode ser aplicado ao termo que a Segunda Confissão de Helvética (1566), que diz:
Uma é chamada a Igreja Militante e a outra a Igreja Triunfante. A primeira ainda milita na terra e luta contra a carne, o mundo e o Diabo, que é o príncipe deste mundo, e contra o pecado e a morte. A outra, já deu baixa e triunfa no céu depois de ter vencido esses inimigos, e exulta diante do Senhor. Entretanto, essas duas igrejas têm comunhão e união uma com a outra. (Cap. XVII).[3]

A Igreja Visível é a mesma que Militante, pois está nesta terra com pecadores dentro dela lutando contra as hostes espirituais.

A Igreja Invisível é a mesma que a Triunfante, que gloriosamente está com o nosso Senhor Jesus, longe da corrupção que há aqui na terra, composta por todos os eleitos de todas as épocas.
2.2. As marcas da Igreja
Por marca podemos definir o que se entende certos tipos de sinais externos. François Turretini diz que as marcas são para:
Distinguir o verdadeiro aprisco de Cristo das covas dos lobos e a genuína sociedade dos cristãos piedosos.[4] 

A Teologia Reformada define uma verdadeira igreja por três vieses, segundo a Confissão Belga:
As marcas para conhecer a verdadeira igreja são estas: ela mantém a pura pregação do Evangelho, a pura administração dos sacramentos como Cristo os instituiu, e o exercício da disciplina eclesiástica para castigar os pecados. Em resumo: ela se orienta segundo a pura Palavra de Deus, rejeitando todo o contrário a esta Palavra e reconhecendo Jesus Cristo como o único Cabeça. Assim, com certeza, se pode conhecer a verdadeira igreja; e a ninguém convém separar-se dela (artigo 29.2). 

2.2.1. Uma fiel pregação
Segundo a reforma protestante a pura pregação é uma das características de uma verdadeira igreja. Mas concernente à pregação há o ensino. Ou seja, uma fiel pregação e um fiel ensino da Escritura é a primeira marca que distingue a verdadeira da falsa igreja.
Cremos que uma fiel pregação faz com que se cumpra o que Jesus disse, que as ovelhas ouvem a voz de Cristo e o seguem (Jo 10.27). É por intermédio da pregação fiel que Deus concede fé ao pecador (Rm 10.17). Uma igreja que é fiel à Escritura é aquela que se mantém nas palavras de Cristo (Jo 8.31,32).

Assim como a pregação mostra a fidelidade da igreja, o ensino também. Um exemplo claro disso é o que relata Atos 2.42 onde que os cristãos perseveraram na doutrina dos apóstolos. Uma pregação e um ensino fiel da Escritura cumpre com o que Paulo diz aos Coríntios, em sua segunda carta: “Somos, portanto, embaixadores por Cristo, como se Deus exortasse por nós” (2Co 5.20 – Sociedade Bíblica Britânica).
É como ser a voz de Cristo na terra quando pregamos, pois “quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10.16).
2.2.2. Uma fiel administração dos sacramentos
A fiel administração dos sacramentos é consequência de uma fiel pregação da Palavra de Deus, pois os sacramentos administrados são como uma pregação. Pois, os sacramentos são sinais visíveis de uma graça invisível. Portanto, quando o ministro administra bem a Santa Ceia, conforme a fiel explicação da mesma, ele está pregando, por meio de sinais. Quando bem explicada, a igreja entende, a cada dia, de que Cristo lhes proporcionou tal benção de participar de seu Corpo por causa da Sua carne partida e Seu sangue derramado em favor de muitos. Da mesma forma, quando bem explicado, é o batismo. O batismo é uma forma de professar publicamente aquilo que foi feito sobrenaturalmente na vida deste pecador, os quais foram regenerados.

2.2.3. Uma fiel aplicação da disciplina
A necessidade da disciplina faz parte de toda sociedade ordenada e moral. Assim também é na Igreja de Cristo, para que aquele que está sofrendo a disciplina aprenda a não pecar mais e aqueles que estão presenciando a disciplina não pequem da mesma forma ou diferente. Uma igreja que não disciplina ela se torna imoral da mesma forma daquele que merece a disciplina. Portanto, com um faltoso dentro da igreja, este fermento faz com que levede toda a massa (1Co 5.6), levando outros consigo a praticar o mesmo erro.

Uma igreja que não luta contra o pecado não é fiel à pregação e nem aos sacramentos, pois se pregasse fielmente à Palavra de Deus notaria, com o testemunho dos dois Testamentos, que Deus sempre disciplinou os faltosos. Da mesma forma, não haverá uma boa administração dos sacramentos. Pois, todos quantos participam da Santa Ceia devem ter consciência do que está participando, caso contrário, se o mesmo come e bebe sem discernimento, come e bebe juízo para si (1Co 11.29).
2.3. Fora da igreja não há salvação? 
A Confissão de Fé de Westminster diz:
A Igreja Visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor Jesus, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação (XXV.II)

A confissão reformada diz que fora da igreja visível não há salvação, será que todos quantos estão desigrejados estão perdidos? A CFW não está dizendo que todos quantos, por algum motivo válido, estão sem congregar não estão salvos. Mas que não é habitual (ordinário) haver salvação fora da Igreja.

De uns tempos para cá algumas pessoas saíram de suas igrejas e começaram a congregar em seus lares. Não direi que é pecado a igreja iniciar os seus trabalhos nos lares, mas sim quando essas pessoas saíram de suas congregações e passaram a se reunir em lares sem um governo. Pois, cremos que para administrar os sacramentos devem ser pastores legalmente ordenados, como descrevem as confissões reformadas (CFW: XXVII.IV e Confissão de Fé Batista de Londres de 1689: XXVIII. II).
Mas no atual cenário dos desigrejados, o que vemos é a insubmissão aos lideres de suas igrejas e com algumas desculpas que não convém, por exemplo: Na igreja só há hipócritas, na igreja há injustiças, na igreja há erros e etc. Bom, infelizmente pecadores sempre haverão de compor a Igreja. Em Atos dos Apóstolos vemos uma má distribuição de benefícios às viúvas judias e gregas (At 6), onde as judias eram mais beneficiadas do que as gregas e vemos dois missionários entrando em conflito, Paulo e Barnabé (At 15.37-39). Portanto, a corrupção sempre haverá na igreja até Cristo voltar. A questão que envolve é “como resolvem o problema”. A Bíblia não mostra em lugar nenhum algum exemplo de “desigrejamento”, mas mostra que devemos lutar pela pureza da igreja identificando os hereges e admoestando-os (2Tm 2.25).
Alguns falam que no Novo testamento o local de congregar era em lares, ou seja, não houve nenhum outro lugar em que os membros se reuniam. É bem verdade, mas as igrejas que estavam em suas cidades, como mostra o caso de Priscila e Aquila, que possivelmente a Igreja de Éfeso era em sua casa (1Co 16.19; cf. At 18.19), eram fixas. A segunda questão a analisar é o modo que Tiago se dirige a igreja:
Porque, se entrar na vossa sinagoga algum homem com anel de ouro no dedo e com traje esplêndido, e entrar também algum pobre com traje sórdido. (Tiago 2.2).
Tiago, criticando o modo que alguns da igreja se comportavam fazendo acepção de pessoas, usa o termo sinagoga para se dirigir ao local que aqueles irmãos se reuniam. Veja que o autor do texto toma o sentido judaico de igreja para aplicar à igreja aonde é direcionada a carta. A palavra "sinagoga" tem como sentido construções, onde aquelas assembleias judaicas solenes eram organizadas. Ou seja, percebe-se que antes mesmo das perseguições se concretizarem, possivelmente já havia um lugar de reunião como descreve Tiago, irmão do Senhor. Em Hebreus 10.25 o autor usa o termo congregação[5] para se referir ao local onde os cristãos se reuniam.
3. A comunhão dos santos
A comunhão dos santos, segundo descreve a Confissão de Fé de Westminster (cap. XXVI), mostra que aquele que tem comunhão com Cristo tem comunhão com seus irmãos. Mas que essa comunhão não o torna o individuo divino como o Senhor Jesus.
A união com Cristo teve seu inicio com o próprio Cristo, o qual se fez carne, morreu em uma cruz, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Tal obra de salvação feita por Cristo foi para que tenhamos paz com Deus e tenhamos comunhão com ele mesmo. Pois, outrora estávamos unidos a Adão, por sua representação federal sob a aliança das obras, sendo essa a nossa comum natureza antes do nosso resgate, feita pelo ultimo Adão, a saber, Jesus Cristo (1Co 15.45; cf. Rm 5.12-19) o cabeça da nova humanidade. 
3.1. A natureza desta união
Como foi dito acima, tal união só pode ser obtida porque Cristo resgatou o seu povo para essa comunhão. E por isso rejeitamos a ideia de que Cristo morreu efetivamente por toda a humanidade, pois tal comunhão só pode ser feita com aqueles que foram dados a Cristo, como esses textos nos provam:
Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.” (Jo 17.9)
Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu. E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.” (Hb 2.13-15)

Estávamos sujeitos à morte eterna, mas Cristo nos resgatou nos abençoando em Cristo com “toda sorte de bênçãos espirituais” (Ef 1.3). E, como consequência, nós:
• Somos inseridos no Corpo de Cristo, onde que essa união é de Cristo com os crentes e dos crentes com os próprios crentes (Jo 15.5; 1Co 6.15-19; Ef 1.22,23; 4.15,16; 5.29,30);
• Temos uma união vital, a qual, por intermédio de Cristo, temos uma vida (Rm 8.10) que nos conduz rumo a Deus; 
• Temos uma união mediada pelo Espírito Santo, pois é por intermédio do Espírito Santo que temos comunhão com Cristo (1Co 6.17; 12.13; 2Co 3.17,18; Gl 3.2,3); 
• Uma união transformadora, pois a união com Cristo nos faz com que a cada dia sejamos mais à imagem de Cristo (Rm 8.29), segundo a nossa natureza humana. 

3.2. O reflexo desta união
A Confissão de Fé de Westminster, diz:
Os santos são, pela sua profissão, obrigados a manter uma santa sociedade e comunhão no culto de Deus e na observância de outros serviços espirituais, que tendam à sua mútua edificação, bem como a socorrer uns aos outros em coisas materiais, segundo as suas respectivas necessidades e meios; esta comunhão, conforme Deus oferecer a ocasião, deve estender-se a todos aqueles que em qualquer lugar invoquem o nome do Senhor Jesus (CFW XXVI.II) 

O reflexo desta união, segundo a Confissão, por ordem lógica, a nossa comunhão com Cristo deve ser refletida na sociedade, no cuidado da comunidade cristã. Sendo assim, por intermédio desta união com Cristo, o regenerado, o qual possui o Espírito, a mente, a semelhança e imagem de Cristo; isso deve ser refletida em suas atitudes (Rm 8.9; Fp 2.5; 1Jo 3.2).

Berkhof, diz sobre a união com Cristo e a união com a comunidade:
A união dos crentes com Cristo fornece a base para a unidade espiritual de todos os crentes, e, consequentemente, para a comunhão dos santos. Eles são animados pelo mesmo espírito, ficam cheio do mesmo amor, permanecem na mesma fé, empenham-se na mesma luta, e estão ligados pelo mesmo objetivo. Juntos estão interessados nas coisas de Cristo.[6] 

Sendo assim, a Igreja tem a responsabilidade de fazer Cristo aparecer em sua vida, cuidando dos necessitados da igreja, necessidade essa que não é só material, mas espiritual também. A igreja, como uma comunidade que tem comunhão com Cristo, é uma comunidade auxiliadora.
Pois o que fazemos aos nossos irmãos, fazemos a Cristo:
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt 25.34-40) 

Willian Hendriksen, comentando a passagem diz:
Aqui se revela a mais estreita conexão entre Cristo e seus genuínos seguidores [...]. Tudo o que se faz em prol dos discípulos de Cristo, por amor a ele, é considerado como feito a ele.[7]

3.3. O culto como comunhão dos santos
Assim como os anjos, os crentes aqui na terra adoram a Deus. O interessante é que quando a Bíblia mostra os anjos adorando a Deus, tal adoração é feita em conjunto (Sl 148.2,5; Is 6.3; Ap 4.8). Não estou dizendo que não podemos adorar a Deus em nosso lar sozinho, mas a questão é como a igreja se porta como uma comunidade, que está unida com Cristo, adorando a Deus.
3.3.1. O Dia do Senhor
Cremos que o Dia do Senhor, não mais o sábado, mas o domingo foi estabelecido por Deus como um dia de reunião para adorarem ao Deus que os libertou (Êx 20.2-11). Como o próprio salmista diz: “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele” (Sl 118.24). No Antigo Testamento é visto por duas vias para que o guardem. Primeiro, o Quarto Mandamento foi estabelecido para que o povo de Deus se alegre na criação de Deus, pois o dia de descanso foi estabelecido após o término da criação. Mas esse dia não é um dia de adoração à criação, mas ao Criador que criou todas as coisas (Êx 31.16).
O segundo motivo da observância deste mandamento é como começa a própria introdução aos dez mandamentos, feito pelo próprio Deus: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Êx 20.2). O motivo pelo qual se deve observar o quarto mandamento, mas não só o quarto como todo o resto, é por causa da ação libertadora de Deus.

Mas alguém poderá responder: “Ok, isso é no Antigo Testamento, não para o Novo Testamento, porque não temos nenhuma ordenança para guardamos esse dia na Nova Aliança”. Veremos.
Cremos, biblicamente e confessionalmente, de que o dia estabelecido na Antiga Aliança fora mudado na Nova Aliança. Primeiro, porque o próprio Cristo é o Senhor do sábado (Mt 12.8), logo, sendo ele mesmo o Senhor, ele tem toda a autoridade para mudar o dia.
Segundo, cremos que o dia estabelecido na Nova Aliança é por causa do dia em que foi consumado a nossa libertação e justificação – o domingo, baseando-se no dia de sua ressurreição (Mt 28.1; Mc 16.2,9; Lc 24.1 e Jo 20.1). Juntamente com a nossa libertação, na sua morte e ressurreição, na qual Cristo vence a morte e nos faz participantes desta vitória (Hb 2.13-15), Cristo faz uma nova humanidade, uma nova criatura nele, “porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

Terceiro, assim como os cultos na Antiga Aliança eram feitos aos sábados, na Nova Aliança os cultos eram feitos aos domingos.
• Começando pelo derramamento do Espírito Santo, como cumprimento da profecia, em um domingo (At 2.1ss; cf. Lv 23.15-21 – NVI).
• Em Atos 20.7 é dito que: “E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite” (ênfase acrescentada). Veja que no primeiro dia da semana eles tomaram a ceia.
• Em 1 Coríntios 16.1,2 é dito: “Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia.”  E, “no primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar”. As coletas ou recolhimento de ofertas eram feitas aos domingos, porque se entende que era o dia em que os cristãos se reuniam.
• E em Apocalipse 1.10: “Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta”. Simon Kistemaker comentando o versículo, diz: Essa é a única passagem do Novo Testamento em que esse dia é descrito dessa maneira, pois em outros lugares ele é chamado de primeiro dia da semana. É a ressurreição do Senhor, e no fim do 1º século os cristãos haviam começado a se referir a ele não como primeiro dia da semana, mas como dia do Senhor. É o dia dedicado ao Senhor.[8] Da mesma forma, documento o qual Kistemaker faz referência, a Didaquê dos apóstolos, nos diz que “reúna-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro”.[9] Ou seja, o termo Dia do Senhor, já no primeiro século era considerado um dia de culto a Deus. 

Vimos até agora as razões da mudança do sábado para o domingo, o qual foi mudado pelo próprio Senhor do sábado. É bem sabido que a ordenança de sua observância no Novo Testamento não há uma descrição direta. Mas cremos, pela validade dos Dez Mandamentos, que todos os mandamentos expressos em Êxodo 20 e Deuteronômio 5 estão válidos perpetuamente. Mas há uma passagem no Novo Testamento que nos mostra a ordenança da observância do sábado cristão (o domingo), quando Jesus disse: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). Alguns entendem que Jesus estava invalidando a observância do sábado cristão aqui pelo o fato deles entenderem que o sábado não é nada se não fosse o homem. J.C. Ryle, explica:
Nessas palavras de Jesus, há uma fonte de profunda sabedoria. Merecem toda a nossa atenção, tanto mais porque ficaram registradas exclusivamente no evangelho de marcos. Vejamos o que elas contêm.
O sábado foi estabelecido por causa do homem.” Deus estabeleceu o dia de descanso em favor de Adão, no paraíso; e renovou-o para Israel, no monte Sinai. O dia de descanso foi estabelecido em favor de toda a humanidade, não somente para os israelitas, mas antes, para toda a descendência de Adão. Foi estabelecido tendo em vista o benefício e a felicidade do homem. Visava o bem de seu corpo, de sua mente e de sua alma. Foi dado ao homem como uma benção e uma graça, não como um fardo. Assim foi sua instituição original.
Porém, o homem não foi criado “por causa do sábado”. A observância do dia do Senhor nunca teve a finalidade de ser imposta como algo injurioso à saúde do homem; nunca foi instituída para interferir nas necessidades humanas. O mandamento original: Lembra-te do dia de sábado, para o santificar" (Ex 20:8), não tinha o intuito de ser interpretado como prejudicial ao corpo do homem, ou como empecilho aos atos de misericórdia em favor do próximo. Esse era o ponto crucial que os fariseus tinham esquecido ou sepultado debaixo de suas tradições.
Em tudo isso, nada existe que apoie a precipitada afirmação de alguns, que nosso Senhor anulou o quarto mandamento. Pelo contrário, Jesus falou manifestadamente sobre o dia do descanso como um privilégio e uma dádiva, e regulamentou a extensão de sua observância. Cristo mostrou que obras necessárias e de misericórdias podem ser realizadas no dia do Senhor; mas não proferiu uma única palavra que justificasse a noção de que os crentes não precisam lembrar-se do dia de descanso, "do dia de sábado, para o santificar.
Sejamos zelosos em nossa própria conduta, quanto à observância do dia de descanso. Há bem pouco perigo de que ele esteja sendo observado muito estritamente em nossos dias. Há um perigo muito maior de que o dia do Senhor esteja sendo profanado e esquecido completamente.[10]

Da mesma forma comenta Hendriksen:
O homem foi criado antes do sábado (Gn 1.26- 2.3). O sábado foi instituído para ser benção para o homem: para mantê-lo saudável, útil, alegre e santo, dando-lhe condições de meditar calmamente nas obras do seu Criador, podendo deleitar-se em Jeová (Is 58.13,14), e olhar adiante, com grande expectativa, para o “repouso que resta para o povo de Deus” (Hb 4.9). [11] 

Portanto, vemos que observar o domingo não é algo penoso, mas para que reflitamos de nossas obras, principalmente da obra que Deus fez em nossas vidas nos libertando. E, por forma de gratidão e serviço, cultuando-o e adorando e prestando louvores. Isso foi estabelecido desde a Antiga Aliança.

No entanto, o autor de Hebreus nos dá outra razão pela qual devemos observar este dia de descanso enquanto estamos aqui. Ele diz: “Portanto, resta ainda um repouso [no grego 'descanso sabático'] para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4.9,10). Essa é a razão pela qual nós observamos o Quarto Mandamento, porque o descanso aqui é um emblema daquilo que será na eternidade, um verdadeiro descanso de nossas obras e um descanso de louvor a Deus.
3.3.2. A santa Ceia
Como forma de comunhão com os santos e com Cristo, o nosso Senhor instituiu a Santa Ceia para que isso fosse expresso nos cultos como forma de adoração, onde todos são beneficiados espiritualmente, nos alimentando e nos fazendo crescer. Todo e qualquer crente sincero deve participar da Ceia do Senhor, pois ela foi estabelecida pelo próprio Senhor (Mt 26.26-29) e confirmada por Paulo quando passa tal prescrição aos crentes de Corinto (1Co 11.23-25). Sendo assim, vemos que a Ceia do Senhor fazia e tem que fazer parte da vida da igreja, pois é uma atitude que deve ser contínua (1Co 11.24).
A Ceia do Senhor deve fazer com que nos lembremos do que Jesus fez por nós, obra essa que nos fez ter união com Ele. A Ceia nos serve de recordação. Nela nos recordamos do que Deus fez com Seu povo na saída do Egito, uma nova aliança (Êx 24.8); ela nos recorda da promessa da nova aliança profetizada por intermédio do profeta (Jr 31.31,33); ela nos recorda de que promessa foi cumprida com o “sangue da nova aliança” (Mt 26.28). Sangue este que foi derramado na cruz, pois “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” (Hb 9.22). A Ceia faz com que nós nos lembremos do pacto que Deus fez conosco, por sua grande misericórdia.

A Ceia do Senhor para a teologia reformada possui outros significados válidos, mas, em tese, quero destacar o fato de que a Ceia é uma manifestação de nossa comunhão. Pois, a Ceia do Senhor só pode ser celebrada por aqueles que foram redimidos e, por isso, fazem parte do Corpo de Cristo, sendo nossos irmãos. Dito isso, quando os redimidos participam da Ceia do Senhor, eles estão unidos na mesma fé, comendo do mesmo pão e bebendo do mesmo vinho, os quais simbolizam o sacrifício de Cristo.
Logo, a comunhão dos santos também o é retratada na participação da Ceia do Senhor, onde que, todos em um mesmo espírito, participam da mesa do nosso Senhor como uma preparação daquilo que vai ser na vinda de Jesus (Mt 26.29).

4. Remissão de pecados
Quem é Deus semelhante a ti, que perdoa a iniquidade, e que passa por cima da rebelião do restante da sua herança? Ele não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na sua benignidade. Tornará a apiedar-se de nós; sujeitará as nossas iniquidades, e tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar.” Mq 7.18,19 (cf. Is 43.25). 

A resposta 56 do Catecismo de Heidelberg se volta para essa passagem e mostra a grandeza do perdão de Deus:
Creio que Deus, por causa da expiação efetuada por Cristo, não mais se lembrará de meus pecados ou de minha natureza corrompida contra a qual tenho de lutar durante a vida terrena, mas que, graciosamente, me outorga a justiça de Cristo, para que jamais eu seja condenado. 

De forma interessante, o Credo coloca o tema “remissão de pecados” no mesmo assunto sobre o Espírito Santo. Seria válido se o Credo colocasse este tema no “Creio em Deus” ou “Creio em Jesus Cristo”. Mas, de forma lógica, o Credo coloca o assunto sobre o perdão de pecados após o Espírito Santo, pois somente o pecador, após ser regenerado, reconhece a necessidade do perdão Divino. Pois, a ordem natural do pecador não regenerado é a mesma de Adão, ou seja, se esconder. À luz de toda a Escritura, o perdão de Deus é incomparável, e mesmo assim a sua santa justiça não é afetada em perdoar o pecador, porque é em Cristo que nós somos perdoados. (Rm 3.21-26).
4.1. Coram Deo
Toda a humanidade está diante de Deus, e ficará no último dia. E é este o significado desta palavra em latim: Diante de Deus.

Aqueles que não têm os seus pecados perdoados, jamais entenderão o que isso significa. Pois, um não regenerado não poderá entender o tamanho do significado desta palavra. Estar diante de Deus nos faz ter em mente duas coisas:
• Para um ímpio estar diante da face de Deus pode não ser nada, mas para o salvo pode ser doloroso. Pois, sendo Deus onipresente, sabendo de tudo quanto fazemos e/ou pensamos, deve nos encorajar a viver uma vida santa e piedosa, porque Deus está vendo cada passo que eu dou e antes mesmo de fazer Deus já sabe. Ou seja, não tem como pegar Deus de surpresa ou tentar ludibria-lo com desculpas esfarrapadas. 
• Outro fato de entender o perdão de Deus e estar diante da face de Deus, tem de nos mover a uma integridade vocacional. Porque cremos que Deus criou todas as coisas e os meios de preservar e cultivar tais coisas, por exemplo, música, trabalho, arte, ciência e etc. Logo, estando diante da face de Deus e perdoados de nossa condenação, tudo quanto venhamos a fazer temos que fazer para Deus porque tais obras também são serviços para Deus, primeiramente obedecendo e agradando a Ele. Pois, viver de forma que agrade a Deus nesta integridade vocacional é tentar, com a ajuda do Espírito Santo, a viver e fazer aquilo que foi ordenado a Adão. 

O profeta Isaías esteve diante de Deus e entendeu: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6.5).
Viver Coram Deo é entender que, diante de um Deus santo, somos pecadores que necessitam a cada dia da misericórdia de Deus.
Viver Coram Deo é viver como um redimido por Deus em Cristo Jesus, pois tal vida que outrora era pecadora agora é regenerada pelo Santo Espírito. Portanto esta vida, agora não mais escrava do pecado, é uma nova vida diante de Deus, a qual nos deve mostrar a cada dia que, diante de Deus, não há disfarces e/ou mentiras. Mas essa vida Coram Deo envolve santidade, arrependimento, integridade, obediência, temor do Senhor e humildade.
5. A ressurreição e a vida eterna
O Credo, como já tem mostrado, trabalha de forma lógica. Vimos acima que a “remissão de pecados ou perdão” só é possível após o ato sobrenatural do Espírito Santo na vida deste pecador. Assim o é na ressurreição, a qual também será obra do Espírito Santo (Rm 8.11).
Aquilo que, por intermédio da Queda de nossos primeiros pais, ficou deformado, na ressurreição e na vida eterna serão aperfeiçoados. Ou seja, a nova criatura feita em Cristo, enquanto nesta vida, sofre por causa das consequências do pecado, estando esse pecador em um estado de aperfeiçoamento. Mas na ressurreição e na vida eterna essa vida será perfeita onde “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor e nem dor” (Ap 21.4).
5.1. A ética da ressurreição
Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez” (At 17.31-32).

A ressurreição final, em primeiro lugar, mostra que a ressurreição de Cristo foi real, como argumentei acima e como o próprio Paulo diz, “se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé” (1Co 15.14). Mas a ressurreição final tem o seu sentido moral ético, como o próprio texto de Atos 17.31,32 nos mostra, de que, por meio de Cristo, Deus julgará o mundo.

No último dia Deus vai julgar a todos quantos não se arrependeram, julgando as suas obras diante o tribunal (Rm 14.10). No último dia também, Deus sanará todas as nossas imperfeições, fazendo com que este corpo corruptível se torne incorruptível. No ultimo dia também Deus colocará um fim em todas as injustiças que aconteceu e todos os males, essa é a promessa desde o Antigo Testamento (cf. Ml 2.17 – 3.1-6). Esse é o nosso Bem Maior que sobrepõe o problema do mal, que um dia Deus porá um fim em toda a maldade, tanto a nossas quanto as daqueles que vivem impiamente.

Mas a ética da ressurreição não diz respeito só à questão da nova vida no futuro, mas diz respeito à nova vida aqui no presente:
De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6.4).

Por causa da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, Deus exige que vivamos não mais como antes, mas como se já fôssemos ressuscitados como Cristo o fora, pois quando nós formos ressuscitados, seremos como Cristo é (1Jo 3.2).

Sendo assim, quando nós pensamos ou falamos da nossa ressurreição futura, não devemos nos esquecer de que, aqui neste mundo, devemos viver como se já fôssemos ressuscitados, pois aquilo que será feito na eternidade é o que foi começado aqui, como diz John Murray:
A perspectiva escatológica deverá sempre caracterizar nossa atitude para com as coisas temporais e temporárias.[12]

6. Amém


Chegamos no final do Credo Apostólico, onde ele termina de forma afirmativa, confirmando ser verdadeiro aquilo que fora dito antes. A palavra amém é usada de diversas formas e nossos dias, mas a Bíblia mostra a forma de como devemos usá-la.

A palavra amém é uma palavra hebraica usada no Antigo Testamento e na adoração da sinagoga.[13] O amém não é uma frase que conclui somente uma oração como um desejo ardente, mas expressa uma aceitação de ordens e/ ou ameaças (Dt 27.17-26).

Amém não é uma pergunta, mas sempre é usada de forma afirmativa em todas as suas circunstâncias. O amém enfatiza a declaração como importante para aquele que fala e se identifica totalmente com ela. Sendo assim, segundo cada afirmação do Credo, nada mais justo terminar essa confissão de forma afirmativa e crendo ser verdadeiro tudo aquilo que o Credo disse.

Por isso, quando terminamos a nossa oração, uma leitura bíblica e/ou uma pregação com um amém, nós estamos confirmando que isso é verdadeiro e estamos aceitando o que fora dito. Sendo assim, terminamos este breve comentário com o amém, crendo serem verdadeiros e confiáveis cada parte deste Credo. Amém! 


Notas:
[01] KUYPER, Abraham. A obra do Espírito Santo. 1.ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 205
[02] O Credo dos apóstolos não trata sobre a unicidade da Igreja. Mas o termo “una” vem no Credo Niceno-Constantinopolitano de 381 d.C.
[03] BULLINGER, Heinrich.  Segunda Confissão de Helvética. 30 de Dezembro de 2014.
[04] TURRETINI, François. Compêndio de teologia apologética: volume 3 – São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 117.
[05] Em Tiago 2.2 o termo sinagoga é συναγωγν (sunagogén) e em Hebreus 10.25 o termo congregação é πισυναγωγν (episunagogé).
[06] BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. – 3ªed. Revisada_ São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 418.
[07] HENDRIKSEN, William. Comentário do NT – Mateus Vol. 02. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p.467. 
[08] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento – Apocalipse. 2ºed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p.128. 
[09] A Didaquê dos apóstolos –
[10] RYLE, J.C. Meditações no Evangelho de Marcos. 1ªed. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2011, p.29
[11] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Marcos – 1ªed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p 144
[12] Principles of Conducts, p. 72. Citado por George Ladd em: LADD, George. Escatologia e ética. In: HENRY, Carl F. H. et al (org.). Dicionário da ética cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
[13] Cf. PACKER, J.I. A oração do Senhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. P. 107



Fonte: Bereianos

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