quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Cuidado com o significado oculto da raiz de uma palavra

No meu seminário, eu frequentemente leciono o curso introdutório de grego. No primeiro ou no segundo dia de aula, eu e pelo menos um aluno temos a seguinte conversa típica durante um dos intervalos:

- Dr. Cara, é verdade que pecado no Novo Testamento significa “errar o alvo”?
- Bom, não exatamente. Na Bíblia, pecado significa violar a lei de Deus. Sim, é verdade que a palavra grega traduzida como “pecado”, hamartia, é uma combinação de “não” e “alvo”, mas esse não é seu significado na Bíblia.
- Estou confuso. Muitas pessoas já me disseram que o real significado é “errar o alvo”.

- Muitos séculos antes do Novo Testamento ter sido escrito, a palavra pode ter sido cunhada baseada em alguém atirando uma lança e “errando o alvo”. Mas isso não tem relação com o significado da palavra no Novo Testamento. De fato, enfatizar “errar o alvo” como o significado real pode induzir as pessoas a pensarem que pecado é apenas quando alguém tenta o seu melhor e falha - ela tentou acertar o alvo, mas errou. Se me permite dizer, você está confundindo a história de uma palavra e sua possível derivação original com o seu significado durante o período do Novo Testamento. Você está cometendo aquilo que se chama de “falácia etimológica”, sobre o qual falaremos mais tarde no curso.

- Ah... próxima pergunta: predicados nominais cairão no teste amanhã?

Etimologia

Antes de abordar algumas falácias etimológicas, um breve resumo de como as palavras “funcionam” é útil. Em geral, palavras individuais têm uma gama de significados ou significados sobrepostos (um “campo semântico”). Quando uma palavra é usada em um contexto, o orador/ouvinte normalmente sabe intuitivamente qual parte do campo de significado está sendo usada.

Vamos usar o português moderno como exemplo. Amor é uma palavra portuguesa com um campo bastante amplo de significados sobrepostos, mas uma vez analisada dentro do contexto, o significado específico é bastante óbvio. Consequentemente, a maioria das pessoas entendem a frase abaixo, mesmo a palavra  amor possuindo cinco significados sutilmente diferentes. “Eu amo Deus, minha esposa, minha filha, o Flamengo e Big Mac”. Outro exemplo: o substantivo chave possui diversos significados bem definidos; um deles se refere a um objeto físico (a chave na porta) e o outro é um uso metafórico comum (a chave para a vitória).

Portanto, um bom estudo das palavras avaliará muitos contextos para determinar a gama de significados e/ou significados sobrepostos disponíveis para o escritor/orador durante um período de tempo específico. Essa é a função do dicionário. Um bom intérprete então toma a gama disponível de significados para uma palavra e aplica isso ao contexto para conseguir o significado específico apropriado da palavra naquele contexto.

A falácia etimológica

Na linguística moderna, etimologia é o estudo da história da palavra com ênfase em sua origem. Esse estudo da história de uma palavra frequentemente remete a múltiplos idiomas. Isso é contrastado com o(s) “significado(s)” de uma palavra, que é (são) baseado(s) no uso corrente. Uma falácia etimológica é assumir que a origem de uma palavra é o seu real significado. Não, o verdadeiro significado de uma palavra é o seu uso atual. (A falácia etimológica às vezes é chamada de “falácia da raiz”, que diz que a raiz [origem] de uma palavra é o seu verdadeiro significado).

Considere a frase: “Eu vivo em Charlotte, Carolina do Norte, que fica no condado de Mecklenburg”. Virtualmente, todos que leem essa frase corretamente entendem a palavra condado mesmo que não conheçam sua etimologia. Parte da etimologia se refere aos nobres franceses, ou “condes”, e à terra que eles possuíam na Europa feudal. Saber isso é interessante, mas não ajuda um leitor moderno do português a entender melhor a palavra condado. De fato, a maioria dos oradores e leitores de qualquer idioma são capazes de se comunicar razoavelmente bem, muito embora raramente conheçam a etimologia de quaisquer palavras que usam.

No grego, mais do que no português, muitas palavras são uma combinação de duas outras palavras, mas geralmente o estudo etimológico do porquê e de quando essas palavras foram combinadas é completamente desconhecido pelo autor do Novo Testamento. A palavra grega ekklesia, que é geralmente traduzida por “igreja”, é uma combinação das palavras chamar e fora. Contudo, os dicionários gregos acadêmicos não dão a definição de “os chamados para fora” para a palavra ekklesia, porque ela não está sendo usada dessa maneira no Novo Testamento. Embora seja teologicamente verdadeiro que cristãos tenham sido chamados para fora do mundo pecaminoso para ser a igreja, essa verdade não é derivada da palavra ekklesia. Semelhantemente, no inglês moderno a palavra butterfly (borboleta) é claramente composta das palavras butter (manteiga) e fly (mosca), mas isso não nos ajuda a entender melhor o inseto.

A falácia etimológica reversa

A falácia etimológica reversa ocorre quando o uso histórico mais recente de uma palavra é considerado primário para determinar o significado inicial da palavra. É claro que isso não faz sentido logicamente, mas às vezes o jeito como um pastor explica uma palavra grega pode encorajar alguns na congregação a cair nessa armadilha.

Por exemplo, um pastor pode explicar que a palavra grega para poder no Novo Testamento é dynamis, e que na década de 1860, Alfred Nobel chamou sua invenção de “dinamite” baseado na palavra grega dynamis. Isso é verdade e é interessante. Contudo, isso não dá ao intérprete do Novo Testamento maior compreensão do significado de dynamis na Escritura. De fato, alguém pode assumir de maneira errada que o “poder do Espírito Santo” (Rm 15.13) deve ser um poder explosivo como a dinamite, em vez de um poder constante como a energia elétrica.

Utilidade ocasional das etimologias

As etimologias são ocasionalmente úteis. Às vezes, a combinação de duas palavras gregas se relaciona diretamente ao significado atual. A palavra grega ekball?, que é frequentemente traduzida por “expulsar” (por exemplo, Mt 9.33), é uma combinação de lançar e fora. Um exemplo paralelo no inglês pode ser grasslands (pastagens), cujo significado é óbvio por causa das duas palavras grass (grama) e lands (terras; terrenos). Por favor, observe que embora a etimologia e o significado usado atualmente se encaixem, e a etimologia seja útil, os significados de ekball? (“expulsar”) e grasslands, em última análise, não são baseados na etimologia, mas no uso corrente.

Etimologias também são úteis para as poucas situações, especialmente no Antigo Testamento, em que não há ocorrências suficientes de uma palavra para se ter certeza do seu significado. Os estudiosos procuram por palavras cognatas em outros idiomas (como o ugarítico, o acádio e o aramaico) durante vários períodos históricos para obterem suposições quanto ao significado de uma palavra hebraica. Isso frequentemente acontece com plantas ou animais desconhecidos. Por exemplo, a palavra hebraica tahash em Êxodo 25.5 é traduzida como “texugos” (ACF), “golfinhos” (AA) e “animais marinhos” (A21). Os argumentos técnicos aqui se relacionam à: (1) etimologia de cognatos semelhantes em árabe e idioma acádio e (2) tradução grega antiga, a Septuaginta, que interpreta tahash como a cor azul.

Falácia da transferência de totalidade

Uma falácia etimológica comum é assumir que a amplitude do campo semântico de uma palavra está sendo usada em cada caso específico daquela palavra. Ou seja, a totalidade do campo semântico é transferida ilegitimamente. Ou, simplificando em termos leigos, o mesmo autor nem sempre usa a mesma palavra da mesma forma. De certa maneira isso é óbvio, mas é bom lembrar.

Paulo usa muitas vezes a palavra carne (do grego sarx) de uma maneira negativa, dominada pelo pecado (por exemplo, Gl 5.17, Fp 3.4). Mas outras vezes, ele usa carne com um significado neutro, como em “carne e sangue” (Gl 1.16, 1Co 15.50) ou simplesmente para se referir ao corpo físico (2Co 7.5). O erro é assumir que toda vez que Paulo usa carne (sarx), ele está usando uma expressão negativa.

Os autores do Novo Testamento possuem um entendimento maravilhosamente desenvolvido da fé cristã que inclui a total confiança do cristão na pessoa e na obra de Cristo. Todavia, às vezes os apóstolos usam a palavrade uma maneira mais truncada para enfatizar o conjunto de doutrinas a respeito do cristianismo, como, por exemplo, em “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.5) e “exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 1.3). Esse significado de é muito semelhante à nossa expressão moderna “a fé cristã”. É claro, a fé cristã é mais do que um conjunto de doutrinas, mas conhecer algumas doutrinas básicas a respeito da Trindade, de Cristo, da salvação, do pecado e assim por diante é um aspecto obrigatório da fé cristã. A falácia da transferência de totalidade é assumir que tudo o que a Bíblia fala sobre a fé cristã está sendo igualmente enfatizado toda vez que a palavraestá sendo usada.

Conclusão

Com a iluminação do Espírito, a maioria dos cristãos lê e interpreta a Bíblia razoavelmente bem. Porém, cristãos podem cometer falácias etimológicas e outros erros. Se for da vontade do Senhor, todos nós nos esforçaremos para reduzir essa tendência.


Sobre o autor: Dr. Robert J. Cara é diretor acadêmico e professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary. Robert também é pastor na Associate Reformed Presbyterian Church.
Tradução: Alan Cristie
Revisão: Renata Cavalcanti

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