segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Dia do Senhor

Por Ludgero Braga

O sábado é o símbolo da Soberania de Deus sobre a Criação (Êx 20.8). Ele recorda a redenção de Israel (Dt 5.12) e representa a esperança de repouso eterno no final dos tempos (Hb 4.9). Como Senhor do sábado, Jesus cumpre todos os aspectos do significado que o sábado possuía (Cl 2.16,17). A Igreja Cristã, por isso, observa o Dia do Senhor.
A Bíblia apresenta o sábado inicialmente ligado à Criação porque em seis dias Deus criou o mundo e no sétimo dia descansou do seu trabalho criador. Por isso, abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera (Gn 2.3; Êx 20.8-11). Mas ela o apresenta também ligado à redenção. Quando a lei é repetida em Deuteronômio, o motivo dado para a guarda do sábado é a libertação do Egito (Dt 5.12-14). A partir desse princípio, a instituição do sábado foi uma demonstração de misericórdia divina para com o homem. Mas, especialmente nos séculos entre o Antigo e o Novo Testamentos, os escribas fizeram do sábado um peso para os judeus. É que o legalismo procurou definir com detalhes absurdos o que era trabalho e o que era descanso, a ponto de perder de vista a ideia original do sábado. Por exemplo, os fariseus, que se dedicavam a cumprir os regulamentos dos escribas, criticaram Jesus por seus discípulos colheram espigas num sábado (Mt 12.1-8). Mas a lei do sábado não os proibia disso. Proibia, isso sim, aos lavradores de fazerem sua colheita no sábado. Os discípulos não eram lavradores. Só haviam colhido o bastante para matar a fome no momento.
O Novo Testamento declara sem possibilidade de confusão que o sábado era um tipo de Cristo e que se cumpriu nele (Cl 2.16,17). Por isso, o sábado não é um dia que deva preocupar o cristão. Por isso, os crentes do Novo Testamento começaram a reunir-se no primeiro dia da semana, o dia da Ressurreição de Cristo. Por isso também o sábado não foi incluída na lista básica de exigências a serem feitas aos gentios que aceitassem a fé (At 15.20,29). No primeiro dia da semana, quando se reuniam (At 20.7), os crentes de Corinto deveriam separar ofertas aos irmãos de Jerusalém (1Co 16.2). Não é surpresa que em Apocalipse 1.8 o primeiro dia da semana seja chamado de Dia do Senhor.
A observância do domingo (Dia do Senhor) pode ser encontrada nos primeiros séculos da história da Igreja como uma característica dos cristãos. Pouco depois do ano 100, a obra Didaquê - O Ensino dos Doze Apóstolos exortava: "No dia do Senhor, reúnam-se, partam o pão, participem da Eucaristia" (Didaquê 14.1). Plínio, o governador da Bitínia, escreveu ao imperador Trajano em 111 d.C. relatando que os cristãos tinham o hábito de "se reunir num certo dia" (Plinio, Cartas, 10.96) e Justino Mártir (150 d.C.) registrou que "todos (os cristãos) se reúnem em um lugar no dia do Sol" (primeiro dia da semana) (1ª Apologia, 67). Que o domingo não era o sábado ficou bem claro. Em 360 d.C., Atanásio declarou que "não observamos o sábado: observamos o Dia do Senhor como um memorial do inicio da nova criação" (Do Sábado e da Circuncisão).
Só no século VII os cristãos começaram a ver o domingo como o "sábado cristão", chamando a não observância do domingo de "quebra do quarto mandamento". Essa posição ganhou força até hoje, mesmo (se não principalmente) no meio evangélico.
Os Reformadores, voltando à Bíblia, separaram o sábado do Dia do Senhor. Lutero insistiu que os trabalhadores devem ter um dia de repouso, quando podem então reunir-se para ouvir a Palavra, orar e louvar a Deus. Mas qual dia seja, não importa, pois todos os dias são iguais (Rm 14.5). Calvino, do mesmo modo, insiste que Cristo é o cumprimento do sábado, o que resultou na abolição desse dia: "Distante deve estar, portanto, dos cristãos a supersticiosa observância de dias" (Institutas II, VIII, 31). Segundo esse Reformador, o que permanece é a necessidade de um dia para o culto (por uma questão prática e para descanso). Pena que não possamos nos reunir todos os dias para isso (Institutas, II, VIII, 32). É preciso destacar, porém, que mesmo separando-se um dia, e mesmo sendo ele o Dia do Senhor, ou seja, o primeiro dia da semana, não o veremos como a lei via o sábado. Calvino diz que o domingo é apenas "um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja" (Institutas II, VIII, 33). Ninguém pode ser condenado pela sua não observância (Rm 14.5). Calvino encerra sua exposição sobre o quarto mandamento falando duramente contra os que mudaram o dia (do sétimo para o primeiro), mas conservam a santidade do dia (quando todos os dias são santos). Segundo Calvino, para essas pessoas valem as reprimendas de Isaías 1.13-15; 58.15.
Tendo sido essa a posição dos Reformadores, como foi que recebemos a tradição da sabatização do domingo? Ocorre que, no século XVII, especialmente na Inglaterra e Escócia, os crentes permitiram essa volta ao catolicismo, que não podemos aceitar por ir contra as Escrituras e contra o espirito da Reforma.
O que devemos aceitar?
1º) A necessidade de um dia semanal de repouso. Deus descansou no dia sétimo. Mas isso não é inativo. Ele apenas parou de fazer o que vinha fazendo até ali. Hoje notamos que quem executa trabalhos físicos precisa de um tipo de descanso. Quem leva vida sedentária precisa de outro tipo de descanso.
2º) A necessidade de um dia para as reuniões de igreja. Como a Igreja Primitiva, vamos nos reunir para estudar a Palavra, para orar, para desenvolver a comunhão cristã, para o exercício da caridade cristã, para louvar a Deus, para crescer espiritualmente nesse convívio adorando a Deus. Isso não quer dizer que nos outros dias não possamos (e devamos) fazer essas coisas. Mas apenas em um dia da semana previamente escolhido, nos reunimos com os crentes (Hb 10.25) para esse fim. Sem essa ordem a igreja enfraquecerá e os crestes desviarão.
Concluindo, nossa pergunta não deve ser "O que não posso fazer no domingo?" mas sim "O que devo fazer no domingo, para repousar e para adorar e louvar a Deus na companhia dos irmãos?" Ou melhor, ainda, "Como posso glorificar a Deus nesse dia?"



Fonte: Série Crescimento - Bases da fé cristã (Vol 3). A Vida do Crente, págs. 21-24. São Paulo. Editora Cultura Cristã.

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