domingo, 4 de maio de 2008

Romanos 5:18

por

Dr. John Gill

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18).

Estas palavras permanecem como uma prova da redenção geral; e o sentido dado a elas é, [1] que Cristo morreu pela justificação de todos os homens; e que a justificação de vida foi proporcionada por Ele para, e é oferecida para, todos os homens; dizem que é evidente que o apóstolo está comparando a condenação que é proporcionada pelo pecado de Adão, com o dom gratuito da justificação proporcionado pelo segundo Adão, em relação à extensão das pessoas envolvidas em ambos; todos os homens, na primeira cláusula, deve ser tomando na latitude extrema, a mesma palavra na última cláusula deve ser tomada da mesma maneira, ou a graça da comparação está totalmente perdida. Ao qual tudo respondo:

1. Estas palavras não dizem nada sobre a morte de Cristo, ou de Seu morrer por algumas pessoas ou algumas coisas, mas fala de Sua justiça e da virtude dela, para a justificação de vida; pela qual justiça significa sua obediência ativa, como aparece desde o verso seguinte: nem as Escrituras dizem em qualquer lugar, que Cristo morreu para nossa justificação, mas que Ele morreu pelos nossos pecados, e ressurgiu novamente para nossa justificação. É sem dúvida verdade que a justificação é proporcionada pela morte, bem como pela obediência de Cristo; de forma que somos justificados pelo Seu sangue bem como por sua justiça; mas não pode ser dito, com qualquer propriedade, que a justificação de vida é oferecida a alguém; visto que a justificação é um termo forense, legal, e significa pronuncia ou declarar uma sentença, não oferecer. Um juiz, quando ele absolve ou condena, não oferece a sentença de justificação ou condenação, mas pronuncia uma ou outra: assim Deus, quando justifica, não oferece a justificação aos homens, mas pronuncia-os justos, através da justiça de Seu Filho; e quando Cristo proporcionou justificação, isto não foi uma oferta dela, mas a própria benção. Estas palavras, então, não devem ser entendidas como Cristo morrendo pela justificação de alguns, especialmente por cada homem individualmente; visto que todos os homens, neste largo sentido, não são justificados; muitos serão justamente condenados, e eternamente punidos; e conseqüentemente sua morte, com respeito a eles, deveria ser em vão, fosse este o caso; nem de proporcionamento de justificação, ainda menos de oferta dela, mas de aplicação dela às pessoas aqui mencionadas.

2. É aparente, que o apóstolo está aqui comparando o primeiro e o segundo Adão juntos, como cabeças e representantes de suas respectivas descendências, e os efeitos do pecado, para a condenação daqueles que nascem do primeiro, com a graça de Deus para a justificação daqueles que pertencem ao outro, e não o número de pessoas relacionadas nestas coisas. Seu claro significado é, que, como o primeiro Adão transmitiu pecado, condenação, e morte, para toda sua posteridade; assim o segundo Adão comunicou graça, justiça, e vida, para toda sua posteridade; e nisto o último tem a preferência ao anterior, e no qual repousa a abundância de graça aqui falada; que as coisas comunicadas por um são, em sua própria natureza, para ser preferida à outra; e particularmente, que a justiça, que Cristo dá para os Seus, não somente justifica do pecado do primeiro Adão, e assegura-lhes de toda condenação por ele, mas também de todas as outras ofensas quaisquer que sejam, e dá um direito à vida eterna, razão pela qual ela é chamada a justificação de vida, que o primeiro Adão nunca teve. Fosse a comparação entre os números daqueles que são condenados pelo pecado de um, e daqueles que são justificados pela justiça de outro, os números sendo o mesmo, a graça da comparação estaria totalmente perdida; porque onde estaria a exuberância quando há perfeita igualdade?

3. Admitindo que o apóstolo está comparando a condenação que, foi proporcionada pelo pecado de Adão com o dom gratuito da justificação proporcionado pelo segundo Adão, em relação à extensão das pessoas envolvidas em ambos; esta extensão não pode ser pensada alcançar mais do que aqueles que respectivamente nasceram deles, e pertencem a eles. Ninguém mais pode ser condenado pelo pecado de Adão além daqueles que naturalmente descendem dele por geração ordinária. Os anjos que caíram não são condenados pelo pecado de Adão, do qual eles não descendem, mas por suas próprias iniqüidades pessoais. Este pecado não alcança o homem Cristo Jesus, nem foi Ele condenado por ele em si mesmo, porque Ele não descendeu de Adão por geração ordinária; assim, ninguém mais pode ser justificado pela justiça de Cristo, nem esta alcança a justificação de mais do que aqueles que são de Cristo, que Lhe pertencem, e que são no tempo apropriado regenerados pelo Seu Espírito e graça, e mostram ser sua semente e descendência espiritual.

4. Todos os homens, na última cláusula do texto, nunca pode designar cada indivíduo da humanidade; porque se o dom gratuito veio sobre todos os homens, neste largo sentido, para a justificação de vida, cada homem teria uma justiça para ser justificado, para ser protegido da ira vindoura, teria um direito à vida eterna; e no final seria glorificado e eternamente salvo; porque os que são justificados pelo sangue de Cristo, serão salvos da ira vindoura por Ele (Romanos 5:9;8:30); e aqueles que Deus justifica, também glorifica. Agora está certo que todos os homens, na extrema latitude desta frase, não possuem uma justiça justificadora; há um grupo de homens não justificados que não herdarão o reino de Deus, nem serão justificados para sempre; mas a ira de Deus permanece sobre eles, e esta será a eterna porção deles: pudesse ser provado que a justiça de Cristo é imputada pelo Pai, e aplicada pelo Espírito, para a justificação de todo homem, e que todo homem será salvo, nós prontamente nos voltaríamos para a doutrina da redenção universal pela morte de Cristo. Mas,

5. O apóstolo é o melhor interprete de suas próprias palavras, podemos facilmente aprender, a partir de sua epístola, quem são os todos os homens, para os quais o dom gratuito vem pela justiça de Cristo, para a justificação de vida; eles são os eleitos que Deus justifica, através da justiça de Seu Filho, e protege da condenação pela Sua morte (Romanos 8:33,34); eles são todos a semente para quem a promessa de justiça e vida pertence, e é certa (Romanos 4:16); eles são os todos que crêem, sobre os quais e para os quais a justiça de Cristo é manifestada, revelada, e aplicada pelo Espírito de Deus (Romanos 3:22); e eles são aqueles que recebem abundância de graça e do dom de justiça (Romanos 5:17); e, em uma palavra, o dom vem sobre todos aqueles que são de Cristo, e Lhe pertencem para justificação, assim como o juízo veio sobre todos para condenação, através da ofensa de Adão, que lhe pertencem ou descendem dele. O texto tem 1 Coríntios 15:22, porque assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo, no qual a mesma comparação é feita entre as duas cabeças, Adão e Cristo, e seus diferentes efeitos, e que é algumas vezes usado, em favor da redenção geral, é alheio a este propósito, visto que ele não fala de redenção por Cristo, nem de vida espiritual e eterna através dEle, mas da ressurreição dos mortos, como é evidente a partir de todo o contexto; e esta não de cada homem individualmente, mas somente daqueles que são de Cristo, e que dormem nEle, dos quais Ele é as primícias, verso 20,23; os quais ressurgirão pela virtude da união com Ele, e sairão para a ressurreição da vida; para qual nem todos sairão, porque alguns acordarão para vergonha e eterno desprezo, sim, para a ressurreição da condenação, a qual, a propósito, é uma prova que a palavra todos nem sempre designa cada indivíduo da humanidade.


NOTAS FINAIS:

1] Whitby, p. 113, l17, 118; ed. 2. 111, 115, 116.


FONTE: Extraído e traduzido de The Cause of God and Truth [A Causa de Deus e a Verdade], Parte 1, Seção 34 – Romanos 5:18.


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
05 de Outubro de 2003.
Cuiabá-MT

0 comentários: