quarta-feira, 4 de abril de 2007

Paulo Sávio

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Nasci numa família católica, estudei em colégio religioso marista - São José, no Rio de Janeiro - fiz catecismo e primeira comunhão. Na adolescência, comecei a ter indagações mais profundas e um crescente interesse por coisas espirituais, e logo percebi que a Igreja não poderia suprir minhas necessidades, dado um certo distanciamento entre seus membros e seus sacerdotes. Nessa época, devido a problemas familiares sérios (meu pai era alcoólatra), alguém sugeriu e toda minha família foi parar no espiritismo umbandista. Por algum tempo, senti-me melhor, visto que, aparentemente, havia um contato e "aconselhamento" mais achegado e pessoal. Mas eu tinha questões mais sérias e mais profundas, e vi certas incoerências que me perturbaram, p. ex., como era possível que, no mesmo lugar, houvesse, numa semana, "entidades de luz", e na outra, seres desprovidos de luz espiritual? Mesmo sem ter lido a Bíblia, tinha dentro de mim o princípio de que a luz não poderia conviver com a escuridão. Saí de lá, embora minha família tenha permanecido por mais tempo.
Empreendi, então, uma busca em algumas igrejas protestantes. Estive até na Universal, onde conheci pessoalmente aquele famoso pastor que chutou a santa na TV e sumiu. Tenho várias histórias interessantes para contar sobre essas experiências, mas agora não é o momento. O fato é que, após várias decepções, havia chegado à conclusão de que religião nenhuma prestava, e quis apenas manter uma relação pessoal com Deus.

ENCONTRO COM AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ
Foi nesse contexto que as testemunhas de Jeová entraram na minha vida. Certa manhã, estava à toa em meu consultório (sou dentista, e como era recém-formado, não tinha lá muitos clientes). Duas senhoras educadas tocaram a campainha e me fizeram uma apresentação. A princípio, não me empolguei, meu pensamento era refutá-las e me livrar do incômodo, mas a forma como abriam a Bíblia me chamou a atenção. Falei do meu desagrado com as religiões, e fiz várias perguntas embaraçosas no intuito de "destroçá-las", mas elas, por incrível que pareça, me davam razão, e abriam as Escrituras para cada questão levantada. O raciocínio parecia sempre lógico, tudo tinha uma resposta. Pensei: "vou anotar todos estes textos e conferí-los depois". Em resumo, assim começou o meu processo de convencimento e o que chamo hoje de "irresistível doutrinação".
Após alguns anos de estudo, casado há pouco mais de dois anos e pai de um bebê de apenas 1 ano, batizei-me em 1993. Enfrentei tudo pela minha fé! Minha esposa, a princípio, não compreendeu, e só não se separou de mim porque me amava muito. Hoje sei o que ela teve de aturar - vocês sabem, aniversários, festas, múltiplas restrições, além de divergências na criação de filhos -  e dou muito valor à mulher extraordinária que tenho. Na época, porém, estava absolutamente convicto de que aquela era a "verdade", inquestionável. Sentia pena da minha esposa e das outras pessoas, coitadas, pois eu era um privilegiado. O raciocínio pragmático entranhou-se em mim, gostava daquela coisa de "nós somos de Deus, eles são do diabo; nós estamos no paraíso espiritual, eles estão no mundo da escuridão; nós seremos salvos, eles serão destruídos". Passei a dar prioridade absoluta à congregação e aos irmãos que demonstravam o "verdadeiro amor cristão". Não investi na minha carreira, não fiz cursos de aprimoramento, muito menos especialização, e hoje sei que parte dos meus problemas financeiros deve-se a isso, mas não me queixo, eu optei por isso, afinal, "o mundo está no fim, pra quê investir em algo que logo vai acabar", não é mesmo?
Progredi na organização, tornei-me servo, depois ancião. Com muita dificuldade, levava meus filhos - tive mais um menino - às reuniões, e muitas vezes isso resultava em problemas familiares. Eu tinha pavor destas coisas, devido ao sofrimento da infância com meu pai bêbado. Lembro-me de um "amoroso" superintendente de circuito, que em todas as visitas me pressionava no sentido de conduzir meus filhos à organização. Eu chegava a chorar, dizia que tinha de ir com calma, com cuidado, por causa da minha esposa, mas ele respondia que eu era o "cabeça", tinha de ter autoridade, essa era a vontade de Jeová! Vocês podem fazer idéia do verdadeiro pânico que eu ficava quando as tais visitas se aproximavam. Era um verdadeiro suplício mental e emocional!
Mesmo assim, continuei lutando, tudo seria recompensado no novo mundo! Sem me aperceber, estava cada vez mais desconectado da vida real, o presente nada mais era do que o passaporte para o futuro glorioso. Trabalhava com afinco e zelo pela congregação, jamais neguei uma designação. O presidente da congregação me tinha como um filho, dizia que estava ficando velho e queria me passar o cargo, mas eu declinava, dizia não ser talhado para essa função.
Com o tempo, tornei-me um dos irmãos mais queridos de todos, perdi a conta de quantas vezes fui solicitado para "apagar incêndios" na casa dos outros. Teve uma vez que uma irmã pioneira estava decidida a se separar do marido (que era co-ancião), ficamos eu e outro irmão na casa deles até 1:30 da madrugada, num dia de semana. Conseguimos contornar a crise - depois ela teve outras, era recorrente, e o marido também não ajudava - mas quando cheguei na minha casa enfrentei a pior crise no meu casamento. Minha mulher pediu separação, não aguentava mais as demandas da congregação. Falei com os irmãos, mas não obtive a ajuda que esperava, ninguém apareceu para apagar o incêndio na minha casa. Graças a Deus, depois de vários dias sem me dirigir a palavra, ela retrocedeu e disse que me amava apesar de tudo.

MINUCIOSA PESQUISA
Para chegar ao fim desta história, devo dizer que, depois de mais de 10 anos como ancião, preocupado com o sofrimento e os inúmeros problemas emocionais e psicológicos que observava, e que não poderiam ser compatíveis com o "povo escolhido de Jeová", resolvi fazer uma minuciosa pesquisa no intuito de descobrir as causas do que, para mim, era inexplicável.
Alistei muitos tópicos e saí lendo tudo que a organização tinha publicado sobre cada um deles. Tinha alguns livros mais antigos, fruto da doação de uma irmã idosa que faleceu e gostava muito de mim. Usei também exaustivamente o cd-rom, fazia anotações, comparava citações, conferia todos os textos e, acima de tudo, lia a Bíblia com interesse e atenção redobrados.
Infelizmente, o quadro que foi gradativamente se descortinando diante de mim era assustador! Primeiro, como o que eu  queria era entender de que modo os irmãos se viam dentro da organização e como a organização os via, observei uma exagerada glorificação e enaltecimento da mesma, em contraste com o indivíduo, absolutamente incapaz de qualquer realização individual. Isto pareceu explicar-me porque tantos se sentiam tão infelizes e inadequados, embora com um zelo inquebrantável.
Na sequência, comecei a deparar-me com desenvolvimentos doutrinais um tanto confusos. Tinha dificuldades sérias para observar biblicamente a base para alguns ensinos, e isso foi muito perturbador. Lembro-me de me trancar na sala de casa altas horas da madrugada para ler e pesquisar tópicos previamente selecionados. Comecei a ter insônia, tal a minha ansiedade. Minha esposa certa vez chegou a perguntar se eu tinha outra mulher, pois o meu comportamento mudou, mas eu não podia dizer ainda o que era, visto que faltava muito para chegar a todas as conclusões.
Foi somente nesse momento que eu percebi que precisava de ajuda, mas essa não poderia vir dos irmãos. A gota d'água foi quando um grupo de irmãs me procurou meio sem jeito no salão para me pedir que as ajudasse numa dúvida sobre questões sexuais. Elas queriam saber de forma clara se era certo ou errado o sexo oral dentro do arranjo marital. Disse que pesquisaria o assunto. Pois bem, ao reunir alguns artigos escritos entre as décadas de 70 e 80, deparei-me com algo estranhíssimo: um artigo, de 1973, se não me engano, tinha uma visão absolutamente radical sobre o assunto. O sexo oral era uma perversão, passível de ação judicativa. Depois, um outro, de 1978, tinha uma visão a meu ver bem mais sensata e equilibrada sobre o assunto. Dizia que era uma responsabilidade do casal, na sua intimidade, não dizia respeito a mais ninguém nem aos anciãos, e apenas destacou alguns princípios bíblicos. Um terceiro artigo, de 1983, voltava a ser dogmático, retroagindo ao ponto de vista do primeiro, com a diferença de que só levaria a uma comissão se o casal apregoasse ou defendesse tal prática na congregação (???)
Não me senti em condições de ajudar aquelas irmãs. Entreguei a pesquisa e disse que elas lessem e tirassem suas conclusões. Lembro-me de uma ter comentado depois: "Irmão, se a última fala assim, então é assim que devemos fazer. Esta é a verdade atual!" Embora já conhecesse esta expressão, ouvi-la agora tornou-se uma agressão aos meus ouvidos. Afinal, o que é "verdade atual"? É o que era mentira ontem, tornou-se verdade hoje e poderá ser novamente mentira amanhã?
Diante de tais constatações, consegui, não sem culpa e medo, remover pela primeira vez o pesado véu da doutrinação, e me permiti investigar em outras fontes além da organização.  Foi aí que tomei conhecimento da existência do livro "Crise de Consciência". Como tratava-se de um ex- membro do Corpo Governante, achei que poderia ser esclarecedor. Logo de cara, percebi que o escritor não manifestava nenhum traço de revolta ou rancor. Ele era sóbrio, equilibrado. Envolvi-me com a leitura, e fiquei surpreso e até emocionado quando descobri, ainda numa das partes iniciais, que ele era o autor daquele artigo de 1978, justamente o que achei mais imparcial e ponderado na pesquisa que fiz para as irmãs.
"Devorei" o livro em poucos dias, e comecei a procurar matéria pertinente na internet. Foi aí que me deparei com este site e outros que se preocupam em informar de forma responsável. Ao todo, foi 1 ano inteiro de pesquisas, no qual acumulei 4 pastas lotadas de informações factuais e bem documentadas. Ao final do processo, cheguei eu mesmo à minha crise particular de consciência. Decidi que não poderia mais compactuar com tantas coisas erradas - algumas até repugnantes - e comecei a planejar minha saída.

SAÍDA DA TORRE
Estou dissociado desde janeiro, e mesmo me dissociando enfrentei uma comissão de 5 anciãos, visto que, nos últimos dias de congregação, cometi um erro de avaliação e me abri com uma pessoa, a qual fingiu me entender e foi direto me delatar. Mas não tem problema, eu estava muito seguro e eles é que demonstraram claramente estarem com medo, afinal sua única preocupação era calar a minha boca. Tenho toda a reunião gravada. Fiz também cartas para um total de 15 irmãos, dos quais 3 continuam tendo contato comigo. Os demais, faço esforços para compreender, afinal, o poder de doutrinação mental da Torre não pode ser desprezado.
Estou produzindo vários vídeos para colocar na internet, quero fazer a minha parte, ajudar outros a fugirem do engano e da hipocrisia religiosa. Em breve, se vocês me permitirem, avisarei quando tudo estiver pronto. Quero divulgar em sites o quanto puder, lamento que há 20 anos atrás não tínhamos esses recursos.
Obrigado por tudo, que Deus abençoe muito o trabalho de vocês. Este ano, farei a refeição noturna do Senhor na minha própria casa, com minha família e um irmão TJ afastado com o qual me comuniquei. Depois de tantos anos, comerei e beberei, sem nenhum problema de consciência, sem rejeitar por imposição de homens o benefício que Jesus Cristo estendeu a todos.

"Acho sinceramente que não posso me omitir. É um dever alertar aqueles que ainda podem escapar da fortíssima programação mental da Torre de Vigia, mesmo que sejam uma minoria, afinal, são vidas humanas preciosas sendo desperdiçadas no cárcere do legalismo e do farisaísmo moderno. Sei que serei criticado, talvez ofendido, mas alguns verão a sinceridade do meu trabalho, e isso faz tudo valer a pena."
Paulo Sávio

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