segunda-feira, 6 de março de 2017

A Triunidade Intelectual de Deus

A doutrina da Trindade é essencial para a fé cristã ortodoxa. O pensamento trinitariano impregna todo o Novo Testamento e é pressuposto nas doutrinas centrais da encarnação (Lucas 1:35), expiação (Hebreus 9:14), ressurreição (Romanos 8:11) e salvação (1 Pedro 1:2), bem como nas práticas do batismo com água (Mateus 28:19) e oração (Efésios 2:18). Consequentemente, não pode haver nenhuma dúvida que a falha em aceitar a Trindade conduzirá a erros fatais no restante da teologia de uma pessoa. Contudo, a Trindade é frequentemente vista como um conceito difícil, se não contraditório. A Trindade é incoerente? O presente artigo procura responder essa pergunta com um enfático “Não”.

A Doutrina da Trindade
Em essência, a doutrina da Trindade pode ser esboçada pelas seguintes proposições:
1.  Há somente um Deus que é imutável e eternamente indivisível e simples (Deuteronômio 6:4; João 17:3; 1 Coríntios 8:6).
2.  O Pai, o Filho e o Espírito Santo são cada um plena e co-igualmente Deus (João 20:17; João 1:1; Atos 5:3-5).
3.  O Pai, o Filho e o Espírito Santo são distintos e não um e o mesmo (Marcos 1:10-11; João 15:26; Hebreus 9:14).

Agora, cada uma dessas afirmações é essencial para a doutrina de Deus. Negar (1) é cair no erro do triteísmo. Repudiar (2) é abraçar o subordinacionismo. Rejeitar (3) é concordar com o modalismo. O leitor pode observar que a personalidade dos Três não é explicitamente declarada. Isso ocorre porque a palavra “pessoa” não é um termo bíblico, mas um de conveniência na teologia. Contudo, a intenção por detrás da palavra “pessoa” está envolvida nessas três verdades. Chamemos do que quiser – pessoas, consciências ou egos – tudo o que o Pai é, o Filho e o Espírito também são.

A Alternativa Diante de Nós
O único problema é que essas três proposições parecem ser auto-contraditórias ou pelo menos muito embaraçosas. Como Deus pode ser três e, todavia, um? Ou, como pode um Deus ser três sem ser esquizofrênico? Parece que temos três alternativas diante de nós:
1.  Poderíamos negar uma ou mais das três preposições. Mas como já observamos, repudiar qualquer dessas afirmações leva à heresia do triteísmo, subordinacionismo ou modalismo, respectivamente. Por conseguinte, não podemos negar nenhuma dessas verdades sem cometer suicídio teológico.
2.  Poderíamos aceitar todas as três proposições como necessariamente paradoxais. Isto é, poderíamos manter que cada uma delas é individualmente verdadeira e, todavia, coletivamente contraditórias ao mesmo tempo. Mas isso não somente despreza as regras da lógica, mas é antibíblico também. A doutrina da inerrância bíblica impede a possibilidade de uma real contradição na Escritura, e a propriedade bíblica de perspicuidade ou clareza demove a possibilidade de dificuldades insuperáveis na Palavra de Deus. (veja o artigo de W. Gary Crampton, "A Bíblia Contém Paradoxo?" The Trinity Review Number 76). Portanto, deve ser possível reconciliar essas três verdades trinitarianas.
3.  Poderíamos reconhecer humildemente nossa presente falta de entendimento e procurar uma solução, o que permite que mantenhamos consistentemente todas as três verdades. Essa é a única abordagem aceitável e é a que empreenderemos. Assim, embora seja verdade que a realidade da Trindade é uma questão de fé, sua coerência está aberta à análise racional.

Encontrando uma Resposta
Agora, a resposta mais simplista para aqueles que afirmam que é uma contradição dizer que Deus é tanto três como um é esta: responder que ele é três num sentido diferente de que ele é um. Contudo, se desejamos ser convincentes, devemos tentar também definir os sentidos nos quais Deus é três e um e fazer isso de uma forma que preserve todas as três afirmações trinitarianas. Por exemplo, alguém poderia dizer que Deus é três Pessoas com uma natureza divina. Mas embora isso seja verdade, se não for explicado, implica no triteísmo. Três homens claramente compartilham uma natureza humana comum, mas não são indivisíveis. Um deles pode ser morto sem necessariamente arriscar a existência e identidade dos outros dois. Assim, deve haver algo único à natureza divina que impeça tal divisibilidade.

Talvez a melhor solução oferecida até hoje ao problema da Trindade seja aquela proposta pelo falecido Gordon H. Clark. Ele definiu uma pessoa como uma série de pensamentos. Isto é, “um homem é o que ele pensa” (The Incarnation, 1985, 54 e 64; The Trinity, 1985, 105 e 106). Há várias vantagens claras nessa definição. Positivamente, uma entidade pensante existe pessoalmente (“Penso, logo existo”). Ele pode ter relacionamentos pessoais. Ele tem uma vontade. Negativamente, uma entidade não pensante não é uma pessoa. Não nos dirigimos a um cadáver como a pessoa, mas como o corpo da pessoa. A personalidade sobrevive à morte física e é então separada do corpo (Tiago 2:26). Assim, claramente a personalidade está relacionada com a mente e não com o corpo.
Agora, eu modificaria ligeiramente a definição do Dr. Clark para dizer que uma pessoa é distinta por como ela pensa, e não por o que ela pensa. O motivo é que o conteúdo dos pensamentos humanos muda dia após dia sem destruir a personalidade. Eu não cesso de ser Joel Parkinson quando aprendo algo novo, nem me torno outro alguém quando minha memória falha. Todavia, concernente a Deus, tal sutileza é irrelevante. Seus pensamentos são todos abrangentes e imutáveis. Portanto, como Deus pensa e o que ele pensa são uma e a mesma coisa. Dessa forma, adotaremos a definição de Gordon Clark para os propósitos dessa proposta.
Clark continua para mostrar que as três Pessoas divinas são distintas devido aos seus pensamentos diferentes. “Visto que as três Pessoas também não têm precisamente a mesma série de pensamentos, elas não são uma Pessoa, mas três” (The Trinity, 106-107). Tal distinção pode parecer estranha superficialmente, visto que cada uma das Pessoas divinas conhece todas as verdades (1 João 3:20; Mateus 11:27; 1 Coríntios 2:11). Alguém poderia então ficar inclinado a concluir que as três Pessoas têm os mesmos pensamentos. Mas o Dr. Clark está se referindo ao que eu chamo de “conhecimento subjetivo” das Pessoas, enquanto a onisciência delas concerne ao “conhecimento objetivo”.

Agora, o “conhecimento subjetivo” consiste de fatos concernentes à experiência pessoal de uma pessoa, enquanto o “conhecimento objetivo” é a verdade com respeito à experiência. Dizer “eu estou escrevendo este artigo” é uma proposição subjetiva: somente eu posso dizê-la. Por outro lado, a declaração “Joel Parkinson escreveu este artigo” é objetiva, pois pode ser conhecida e dita por qualquer um. (Certamente, Deus não conhece algo por causa da sua experiência, visto que seu conhecimento é eterno e imutável. Mas isso não significa que ele não conheça suas obras terrenas. A terminologia usada aqui simplesmente tem o objetivo de distinguir concisamente entre proposições de primeira pessoa e de terceira pessoa).
Assim, os pensamentos subjetivos das três Pessoas divinas e seu conhecimento objetivo não são uma e a mesma coisa, embora ambos sejam todo abrangente. O Pai não pensa “eu morrerei ou morri numa cruz”, nem ele pensa “eu habitarei ou habito nos cristãos”. Somente o Filho pode pensar da primeira forma e a última é única ao Espírito Santo. Mas todos os três sabem que “o Filho morrerá ou morreu numa cruz” e “o Espírito Santo habitará ou habita nos cristãos”. Assim, os pensamentos subjetivos distinguem as Pessoas, embora o conhecimento objetivo delas seja compartilhado e completo.

Experiência


Aplicar essa definição de “pessoa” à Trindade leva-nos à noção da triunidade intelectual de Deus. Essa afirma que Deus tem três pensamentos subjetivos e um conhecimento objetivo. Tal visão de Deus mantém as distinções pessoais dentro da Deidade, evitando o erro do modalismo. Ela também evita o subordinacionismo, visto que cada um dos três permanece igualmente onisciente. Em adição, o conhecimento objetivo compartilhado e idêntico que os três possuem mantém uma unidade que é única dentro da Deidade e nega o triteísmo.
Contudo, há aqueles que discordam dessa avaliação. Cyril Richardson declarou que: “Se há três centros de consciência em Deus, há três deuses; e não importa o que possamos tentar declarar em favor da sua unidade… eles ainda são três” (The Doctrine of the Trinity, 94). Mais recentemente, John O’Donnell afirmou que se há três consciências em Deus, isso é “obviamente o mesmo que tristeísmo” (The Mystery of the Triune God, 103). Mas essas afirmações estão erradas. Triteísmo requer três deuses separáveis. Isto é, deve ser possível eliminar um enquanto deixando os dois restantes intactos, ou deve ser possível conceber um independente dos outros. Mas três Pessoas oniscientes não podem ser divididas ou separadas.
A indivisibilidade das três Pessoas oniscientes pode ser demonstrada da seguinte forma:
1.  Onisciência significa conhecimento de todas as verdades, sem exceção, quer passadas, presentes ou futuras. Isso é verdade por definição.
2.  Deus tem tal conhecimento universal e é onisciente (Isaías 46:10; Hebreus 4:13; 1 João 3:20). Há alguns que tentam limitar o conhecimento de Deus a todas as verdades do passado e do presente, mas nem todas as verdades futuras, em defesa do livre-arbítrio (por exemplo, veja Richard Rice, God’s Foreknowledge & Man’s Free Will, 39, 54). Mas tal tentativa fracassa em face das Escrituras que afirmam que Deus conhece as palavras de antemão (Salmo 139:4) e até mesmos os pecados (Deuteronômio 31:21; Jeremias 18:12) dos homens. Portanto, se aceitamos a Bíblia como verdade, somos forçados a admitir a onisciência total de Deus.
3.  Deus é imutável também (Salmos 102:27; Malaquias 3:6; Tiago 1:17; Hebreus 13:8). Esse é novamente o testemunho inescapável da Bíblia.
4.  Para Deus ser imutável e onisciente, ele deve também ser imutavelmente onisciente. Isso parte necessariamente das premissas 2 e 3. De outra forma, ele poderia aprender algo novo em violação de sua imutabilidade, e não teria conhecido previamente todas as coisas, contradizendo sua onisciência.
5.  Uma Pessoa onisciente que conhece todas as verdades também possui conhecimento abrangente dos pensamentos de outras Pessoas oniscientes. Se, por exemplo, o Filho não conhece os pensamentos do Pai em inteireza, ele não conheceria todas as coisas.
6.  Tal conhecimento penetrante interpessoal existe dentro da Deidade. Isso é necessariamente verdade, visto que as três Pessoas são Deus e Deus é onisciente. Mas ele é o ensino explícito da Escritura também: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27). Aqui, o conhecimento que o Filho tem do Pai é colocado no mesmo nível do conhecimento que o Pai tem do Filho. Essa paridade de conhecimento é demonstrada pela antítese entre o Pai conhecendo o Filho e o Filho conhecendo o Pai: (a) nenhum deles obtém esse conhecimento por revelação (como os homens), mas simplesmente conhecem inerentemente (b) cada um deles “conhece” (grego: “epignoski”, significando “conhecer plenamente”) o outro. Similarmente, o Espírito Santo conhece os pensamentos do Pai. “Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11). Novamente, esse conhecimento é intrínseco ao Espírito Santo, visto que é independente de qualquer revelação (1 Coríntios 2:10). Por conseguinte, cada uma das três Pessoas conhece eterna e imutavelmente o pensamento das outras duas completamente.
7.  Sendo esse o caso, a separabilidade entre os três é absolutamente impossível. Se houvesse uma fissura dentro da Deidade, então cada uma das Pessoas não mais poderia imediatamente conhecer os pensamentos das outras. Mas isso poderia ocorrer somente se esses pensamentos nunca tivessem sido conhecidos (negando que eles foram alguma vez oniscientes), ou se eles tivessem esquecido algo (negando a onisciência imutável deles). Assim, vemos que o caso único da onisciência divina é possível somente para as três Pessoas se elas forem totalmente inseparáveis. Ou, para colocar de outra forma, o fato da onisciência divina torna a divisibilidade entre as três Pessoas pensantes metafisicamente impossível.

Objeção


Nesse ponto alguém poderia perguntar por que ou como as três Pessoas divinas são oniscientes. Mas um cristão não está obrigado a explicar por que ou como Deus existe. Ele está obrigado somente a demonstrar a consistência interna do que é revelado sobre Deus na Bíblia. A natureza de Deus é simplesmente uma realidade eterna sem uma causa anterior. Não podemos apontar para alguma razão pela qual ele é e como é, pois fazer isso implicaria algo além de Deus e esvaziá-lo-ia de sua auto existência.

Alguém poderia objetar também que eles ainda não podem imaginar como pode haver três Pessoas em um Deus. Isso parece muito complexo e complicado para captar. Em resposta, precisamos simplesmente lembrar que foi a intenção desse artigo demonstrar a coerência lógica da triunidade intelectual de Deus, não imaginar essa triunidade. Pode ser mostrado matematicamente que um milhão vezes um milhão é igual a um trilhão. Mas quem pode imaginar um milhão, muito menos um trilhão? Deus é inimaginável. Esse é o porquê as imagens de Deus são proibidas pelo segundo mandamento. Contudo, podemos demonstrar que a Trindade é uma doutrina racional por uma examinação minuciosa das Escrituras.

Objeção Anulada

Portanto, concluímos que o conceito da triunidade intelectual de Deus ajuda a mostrar a coerência da Trindade. Por um lado, há três pensamentos subjetivos na Deidade que não podem ser reduzidos a uma personalidade. Por outro lado, há um corpo comum de conhecimento objetivo às três Pessoas. O conteúdo onisciente desse conhecimento compartilhado torna o Pai, o Filho e o Espírito Santo indivisíveis de modo único. Se eles são indivisíveis, então eles são um Deus. Mesmo assim, não confundimos as Pessoas.


Autor: Joel Parkinson
Fonte: The Trinity Foundation
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Fonte: bereianos.blogspot.com.br

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