quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

As desculpas do homem natural

Se você pedisse ao seu filho que voasse o mais alto que puder e o mesmo não conseguisse, você puniria seu filho por não conseguir tal ato? Obviamente que não! Pois, não é justo exigir dos outros aquilo que eles são, total e inerentemente, incapazes de realizar. Nesta mesma perspectiva é que o 4º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg se inicia, como se fosse um homem natural querendo se defender daquilo que o 2º e o 3º Dia nos mostram (a sua corrupção moral).

Assim, o 4º Dia nos mostra:
Pergunta 9: Então, Deus exige do homem, em sua lei, o que este não pode cumprir. Isto não é injusto?
Resposta: Não, pois Deus criou o homem de tal maneira que este pudesse cumprir a lei. O homem, porém, sob instigação do diabo e por sua própria rebeldia, privou a si mesmo e a todos os seus descendentes destes dons.

Pergunta 10: Deus deixa sem castigo esta desobediência e rebeldia?
Resposta: Não, não deixa, porque Ele se ira terrivelmente tanto contra os pecados em que nascemos, como contra os que cometemos, e quer castigá-los por justo julgamento, agora, nesta vida, e na futura. Ele mesmo declarou: "Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gálatas 3.10).

Pergunta 11: Mas Deus não é também misericordioso?
Resposta: Deus na verdade é misericordioso, mas também e justo. Por isso, sua justiça exige que o pecado, cometido contra a suprema majestade de Deus, seja castigado também com a pena máxima, quer dizer, com o castigo eterno em corpo e alma.

Por que não é injusto?

O catecismo trabalha com a representatividade federal de Adão sobre a raça humana. Adão era o representante federal de toda a humanidade, e por esse motivo que Paulo nos diz que “portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). Quando Adão peca contra Deus, toda a humanidade peca juntamente com Adão. Por exemplo, quando o nosso time ganha nós falamos aos nossos amigos que torcem para o time adversário que “nós ganhamos”. Nós ganhamos? Estávamos confortavelmente sentados em nosso sofá assistindo o jogo sem mover nenhum músculo para ajudar os jogadores. Mas, mesmo assim, quando o nosso time ganha nós ganhamos o jogo ou o campeonato. Da mesma forma é a representatividade de Adão sobre a humanidade no Éden, Adão peca e toda a humanidade, juntamente com ele, se rebela contra Deus.

Por isso que Deus não deixará impune o pecador e tal justiça de Deus aplicada sobre o pecador não pode ser injusta. Tal senso de justiça está envolta no pecador, mas sua justiça é manchada pelo pecado, por isso o pecador acha a justiça de Deus injusta. É como um entregador dos Correios quando aparece todo machucado por causa de um acidente, impossibilitado de cumprir eficazmente o seu serviço, mas o chefe chega até ele e diz que há uma bolsa cheia de correspondências para serem entregues até o fim do dia. Isso parece injusto diante de um caso em que o entregador se mostra impossibilitado, mas, se o entregador ficou com a sua moto fazendo piruetas, negligencialmente causando o acidente, seria injusto o chefe pedir para que ele cumpra eficazmente todo o serviço? Não! Pois, foi negligência dele em não fazer fielmente aquilo que fora proposto. Da mesma forma, é a justiça de Deus aplicada sobre o faltoso.

E a misericórdia de Deus?

Essa resposta apelando para a misericórdia de Deus é universal. Todos recorrem a misericórdia de Deus quando falamos que Ele aplicará a sua justiça sobre o pecador, como mostra a resposta 10. Mas, sem a ira de Deus nós não compreenderemos a misericórdia d'Ele, e é assim que o escritor de Lamentações nos mostra, ele diz: “Disto me recordarei na minha mente; por isso esperarei. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.21,22). Do capitulo 2 ao capitulo 3, até o verso 20, o autor de Lamentações mostra a justiça de Deus aplicada sobre uma nação ímpia, a nação de Israel. Mas o escritor entende que Deus foi misericordioso em não aplicar realmente aquilo que eles mereciam. Portanto, viver em um mundo sem a aplicação da justiça de Deus não significa misericórdia, mas sim um mundo onde Deus teria que deixar as pessoas viverem sem regras e sem justiças a serem aplicadas.

Sendo assim, devemos entender que éramos inimigos de Deus, filhos da ira, estávamos condenados ao fogo eterno, mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus (Ef 2.4-6).

Na cruz, onde foi crucificado nosso Senhor vemos a justiça e a misericórdia estarem juntas. A punição por nossa rebeldia foi aplicada sobre Cristo e por causa da misericórdia de Deus a justiça de Cristo foi aplicada sobre os eleitos, nos reconciliando consigo mesmo. 



Fonte: Bereianos

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