quarta-feira, 4 de julho de 2012

Quatro comparações interessantes sobre reencarnação e ressurreição.

Alan Kardec escreveu: “a reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição” (KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, p. 59, 1978).

Isso é verdade? Reencarnação e ressurreição significam a mesma coisa? Nem sequer no dicionário

Reencarnação: Tornar a encarnar-se. Uma alma em vários corpos distintos.
Ressurreição: Reviver.

Uma alma em um único e mesmo corpo (transformado).

Eis algumas diferenças.

Origem judaica versus origem pagã

A ressurreição, conforme crida pelos apóstolos, era uma exclusividade judaica e todas as vezes que foi apresentada ao povo de cultura helênica, foi recebida com grande estranheza.

Quando Paulo chega em Atenas e debate com os filósofos gregos, sua posição é primeiramente recebida com espanto: “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos. Porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18; grifo do autor). O apóstolo foi então levado ao Areópago, onde pôde fazer uma exposição maior acerca do cristianismo. Também nesta ocasião, a rejeição do conceito de ressurreição por parte de alguns ficou evidente: “E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez” (At 17.32). Para alguns a ressurreição era um absurdo, para outros, uma novidade. Não era de modo algum semelhante ao conceito de metempsicose que já fora ensinado pelos pensadores gregos, entre eles Platão.

Entre os gregos, a idéia de transmigração de almas estava ligada principalmente aos chamados cultos órficos, geralmente envoltos por uma espessa nuvem de mitologia. Platão tratou do assunto em diversos dos seus diálogos, como na “República”, no “Fedro”, no “Menon”, no “Timeu” e nas “Leis”. Mas foi principalmente no “Fédon” que ele se deteve para uma exposição mais minuciosa. Alguns são de opinião de que ele reinterpretou de seu próprio jeito os conceitos existentes no orfismo e em Pitágoras.

No oriente, a transmigração de almas tornou-se o ponto central do hinduísmo. Tudo para um hindu gira em torno da doutrina de vidas sucessivas. O ciclo de morte e reencarnação era o que eles chamavam de roda da vida, o samsara. A situação de uma pessoa era considerada o resultado da vida anterior e sua posição em outra vida seria o resultado de sua vida presente. É o seu carma.

A maneira pela qual judeus e não judeus chegaram às suas crenças, são também distintas. Os judeus acreditavam na ressurreição porque essa havia sido revelada por Deus a eles por meio de seus profetas: “E agora pela esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. À qual as nossas doze tribos esperam chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos? [...] Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer, isto é, que o Cristo devia padecer e, sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” (At 26.6-8, 22, 23 – grifo do autor).

Isto vem nos mostrar que a fé dos judeus recém convertidos ao cristianismo era uma fé bíblica, ou seja, fundamentava-se no fato de que havia um Deus nos céus que se revelou ao homem por meio de proclamações inspiradas.

Os gregos, todavia, baseavam sua crença no destino da alma humana em tradições antigas, conscientes de que isto era insuficiente para lhes dar verdadeira segurança. É interessante ver a colocação de Símias, um dos personagens do diálogo “Fédon”, de Platão. Assim disse ele: “É necessário pois, a este propósito fazer uma das coisas seguintes: não perder a ocasião de instruir-se, ou procurar aprender por si mesmo, ou então, se não for capaz nem de uma nem de outra dessas ações, ir buscar em uma de nossas antigas tradições humanas o que houver de melhor e menos contestável, deixando-se assim levar como sobre uma jangada, na qual nos arriscaremos a fazer a travessia da vida, uma vez que não a podemos percorrer, com mais segurança e com menos risco, sobre uma transporte mais sólido: quero dizer, uma revelação divina!” (grifo do autor).

Bênção redentora versus maldição eterna

Na verdade, o ocidente moderno tomou a doutrina da reencarnação dos povos orientais (hindus) e a trouxe para a outra metade do globo modificando o seu caráter. Deu a ela uma benevolência que não possuía a princípio. É engano pensar que os hindus viam bondade na quase infinita sucessão de renascimentos e mortes. Longe de ser fonte de esperança e alegria, o samsara era como uma roda maldita à qual o homem estava amarrado contra a sua vontade. Voltar para este mundo de dor e sofrimento não era visto de forma alguma como um privilégio e sim como uma punição.

Como escreveu Will Durant, “a transmigração da alma ocorre pela primeira vez nos Unipanishads Satapatha, onde se vêem repetidos nascimentos e mortes como um castigo infligidos pelos deuses a uma vida má” (grifo do autor). Nunca foi uma aspiração da alma humana, uma dádiva, um privilégio. Sempre foi uma maldição da qual os que nela criam procuravam desesperadamente escapar.

São de Gandhi as palavras “Eu não quero renascer”. A mais alta e derradeira aspiração do hindu é escapar da reencarnação, perder o calor do ego que revive com cada renascimento individual. A reencarnação não simbolizava de forma alguma a salvação em si e nem mesmo o caminho para ela. Era de certo modo “a situação de perdição” em que o hindu julgava-se encontrar e da qual precisava escapar. Como expressou o famoso poeta hindu Kalidasa em sua obra Shakuntala: E possa o purpúreo Ser Supremo cuja energia vital penetra todo o espaço. De futuras transmigrações salvar-me a alma!

Quanta diferença encontramos na Bíblia a propósito da ressurreição! Longe de ser um estado do qual o crente deseja fugir, é justamente aonde ele quer chegar. Ressuscitar é a doce esperança do cristão, que tem na ressurreição de Cristo a prova de que necessita para crer: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” (1Pe 1.3,4).

Muito diferente disto, a reencarnação nunca foi uma esperança e sim uma frustração, uma cadeia que precisa ser quebrada. O nirvana de Sidarta Gautama, o Buda, era a busca por uma aniquilação que libertaria o homem deste cativeiro.

Valorização da matéria versus rejeição da matéria

Estas duas crenças são também antagônicas em sua maneira de ver o mundo. Não precisamos nem mesmo explorar profundamente a crença hindu chamada maya, segundo a qual este mundo físico não existe, sendo apenas uma mera criação da mente. Em um sentido menos restrito, porém, a visão reencarnacionista tende a rejeitar a matéria como algo inerentemente mal. O mundo físico é sinônimo de imperfeição e, portanto, deve ser rejeitado, destruído, anulado ou no mínimo ser ignorado.

Podemos dizer que na visão reencarnacionista, jamais haverá salvação para a matéria. Esta deve sempre ser ignorada e negada de alguma forma ou deixada para trás por ser um mero estorvo para o progresso do ser humano. O gnosticismo, um movimento herético do início da Era Cristã, chegava ao ponto de dizer que Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, não era o mesmo Deus que havia criado o mundo. O Deus que criou o mundo era um demiurgo, um ser mal e perverso. Era inconcebível associar matéria com o bem. O docetismo chegou a negar que Jesus tivesse um corpo físico. Para eles, um Salvador não poderia ter qualquer associação com a matéria. Como disse o célebre erudito cristão C.S. Lewis: “Assim sendo, os cristãos crêem na ressurreição do corpo, enquanto os filósofos da antiguidade consideram o corpo uma simples inconveniência”. (Milagres).

Ou como diria Sócrates a Símias, “o filósofo é aquele que ao contrário de todos os outros homens, afasta tanto quanto pode a alma do contato com o corpo [...] porque enquanto tivermos corpo e nossa alma se encontrar atolada em sua corrupção, jamais podemos alcançar o que almejamos [...] E essa separação, como dissemos, os que mais se esforçam por alcançá-la e os únicos a consegui-la não são os que se dedicam verdadeiramente à Filosofia, e nisso consiste toda a atividade dos filósofos na libertação da alma e na sua separação do corpo?”.

O judaísmo, quando devidamente apoiado nas Escrituras, jamais teve esse tipo de aversão. A assertiva “no princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1) não oferecia a eles quaisquer dificuldade. Seu Deus era o Deus Criador e longe de ser um elemento negativo, a criação é o testemunho de Deus para todo homem, conforme testificou o apóstolo Paulo: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19,20). O mundo físico jamais foi um tropeço para o judeu e os cristãos. Sempre foi antes um testemunho.

Consumação dos séculos versus ciclo infindável

Ainda outra diferença entre ressurreição e reencarnação é como cada uma delas vê a história humana e individual. Podemos dizer que a reencarnação é representada por um círculo, enquanto a ressurreição é representada por uma linha reta.

Por tradição e por analogia os reencarnacionistas colocam o processo de vida e de morte como um ciclo interminável de renascimentos e mortes. A própria existência obedeceria tal percurso. O tempo é visto como circular. Tanto gregos quando hindus enxergavam as coisas deste modo, como escreveu Erich Kahler: “A mudança e a transformação eram vistas [pelos gregos] como um ciclo periódico que refletia ritmicamente a ordem circular do cosmos. E prossegue citando Platão no diálogo Timeu: “uma imagem dinâmica da eternidade [...] imagem a qual temos dado o nome de tempo” E o próprio Platão comenta ainda: “Os objetos móveis da percepção sensível não são mais do que formas do tempo que imita a eternidade em um movimento circular”.

Na Índia, o conceito não era diferente. O eterno retorno, o movimento cíclico do universo, o samsara, tudo isto demonstra sua visão do tempo, da vida e da história. Os Puranas, uma série de escritos hindus muito antigos, eram verdadeiros expoentes da teoria cíclica: “Não há criação no sentido do Gênesis; o mundo está continuamente evolvendo e se dissolvendo, crescendo e decrescendo em ciclos, da mesma forma que cada planta e cada organismo animal [...] Não há um propósito último rumo ao qual a totalidade da criação se mova. Não há progresso, mas eterna repetição”.

Quão diferente é a visão bíblica da vida e da história!! O tempo não é um círculo, mas uma linha reta. Tivemos um início e agora caminhamos para um fim. Saímos de um ponto e estamos nos dirigindo a outro. A expressão bíblica “últimos dias” aparece logo no primeiro livro da Bíblia, em Gênesis 49.1, aplicando desde então a idéia de que não estamos em um “carrossel cósmico”, mas em uma “espaçonave” rumo a algum lugar. O termo se repete continuamente, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, ensinando o crente a esperar por uma conclusão de tudo.

Quem crê na ressurreição não crê em um círculo que recomeça, mas em um processo que chega ao seu fim. Por meio da criação do povo de Israel, depositário inicial de suas revelações e promessas (Rm 3.1; 9.4,5); por meio da vinda do Messias, sua morte e ressurreição (1Co 15.3,4) e por fim, por meio do cumprimento da Grande Comissão outorgada à Igreja (Mt 28.18-20), o processo de redenção prossegue até o seu fim. “Até a consumação dos séculos” foi a expressão utilizada por Jesus para demonstrar que, diferente do que dizem os Puranas ou pensavam os gregos, há um propósito último, um rumo ao qual a totalidade da criação se dirige.

“Juízo final”, “fim dos tempos”, “consumação dos séculos”, “últimos dias” – são apenas alguns dos termos que são abundantemente bíblicos e servem para demonstrar de modo inequívoco que nenhuma teoria cíclica jamais fez parte do pensamento de Deus. Sua revelação não abre espaço para tais conceitos.

Por: Pr. Eguinaldo Hélio de Souza

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