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quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Sábado no Antigo Testamento: Tempo para o Senhor, Tempo para Alegria nEle (II)

por

Gerard Van Groningen

No presente artigo, damos prosseguimento à reflexão sobre o Sábado no Antigo Testamento iniciada no número anterior de Fides Reformata. Na primeira parte, vimos os seguintes pontos: o autor da carta aos Hebreus faz importantes afirmações sobre o repouso sabático oferecido por Deus ao seu povo (caps. 3-4). Esse repouso tem seu fundamento no próprio descanso usufruído por Deus ao término da sua criação, foi experimentado pelos primeiros seres humanos entre a criação e a queda e foi tipificado pela entrada dos israelitas na terra prometida. Jesus Cristo torna a realidade desse descanso acessível ao ser humano, mas o pleno descanso de Deus somente será desfrutado na consumação de todas as coisas. Embora toda a Escritura fale do descanso sabático de Deus, no presente estudo nos concentramos nos ensinos do Antigo Testamento acerca do assunto.

Em seguida, fizemos algumas considerações preliminares sobre o tema, destacando a unidade da mensagem bíblica, a necessidade de um conceito adequado de revelação e a importância de uma abordagem condizente com o caráter dessa revelação. No ponto seguinte, foram definidos alguns termos básicos como “sábado”, “repouso” e “sete,” discutindo-se a seguir a relação entre as festas judaicas e o sábado, a origem do sábado e o seu desenvolvimento histórico. O último tópico procurou mostrar a conexão existente entre a criação e o sábado, demonstrando que o repouso sabático é uma instituição permanente que visa propiciar ao ser humano uma ocasião especial e alegre de culto e comunhão com o seu Criador.

Em continuação, observemos ainda alguns pontos fundamentais para a nossa compreensão do sábado.

V. O Sábado e a Lei Moral

A lei freqüentemente é mencionada como a razão básica para a guarda do sábado cristão na era do Novo Testamento. Esse fato tem causado muitos conflitos e divisões. A culpa dessa situação não deve ser colocada na lei como tal. Antes, as dificuldades resultam de uma interpretação errônea da lei, de isolar-se essa lei dos pactos da criação e da graça, limitando-a exclusivamente ao pacto sinaítico (mosaico), e/ou de considerar-se a lei como absoluta em sua apresentação literal no Antigo Testamento.

Todos nós sabemos que, em sua essência, a lei de Deus é mais abrangente do que está descrito no Decálogo (“dez palavras”). Todavia, Jesus diz que a lei pode ser resumida em menos de dez expressões. Ele usou somente uma palavra: amor. Esse amor deve ser expresso de maneira adequada. Deus auxiliou graciosamente o ser humano pecador. Essa graça foi demonstrada de modo particular à nação teocrática de Israel. Algumas normas básicas para a vida de amor foram formuladas explicitamente, ou seja, no Decálogo. Isso não significa que essas normas tornaram-se a lei de Deus quando foram formuladas. De modo nenhum, pois a vontade de Deus já era conhecida antes disso. Somos informados que Abraão obedeceu a Deus pela guarda de seus mandados, preceitos, estatutos e leis (Gn 26.5). A desobediência à autoridade, o assassinato, o roubo e o adultério são mencionados como razões básicas para a necessidade do sangue. Tem havido tentativas de encontrar-se afirmações explícitas no Gênesis em que cada um dos Dez Mandamentos seja mencionado direta ou indiretamente. Essa busca não é frutífera, não mais que a busca da origem dos sacrifícios.

O propósito da promulgação da lei moral no Sinai não foi legalizar, regular de maneira estrita, amarrar e confinar a vida da nação teocrática. A sua própria essência, o amor, que Moisés acentuou repetidamente no livro do Deuteronômio, é uma prova concreta desse fato. A lei foi o gracioso auxílio de Deus ao ser humano. Israel teve o grande privilégio de contar com a assistência específica de Deus. Resgatada do Egito, tomada por Deus como sua noiva espiritual (Êx 19.3-6), a ser usada para a salvação de pessoas de todas as nações, a nação de Israel tinha grande necessidade de normas explicitamente reveladas sobre como relacionar-se com seu noivo santo e perfeito. Israel havia estado na escravidão, sob pesado jugo de trabalho opressor, e não tivera a liberdade de regular a sua própria vida. Israel havia testemunhado o desprezo dos egípcios para com Deus na forma do culto à lua e ao rio Nilo. Havia testemunhado trágicos abusos de autoridade, a morte gratuita de seus filhos (por exemplo, recém-nascidos e escravos espancados) e o adultério. Sem dúvida, a sensibilidade de Israel havia se embotado. A consciência moral tanto dos adultos quanto dos jovens fora maculada, distorcida e deformada pelo contexto em que haviam vivido.

Assim, quando repentina e miraculosamente foi redimido da escravidão, quando repentinamente tornou-se um povo livre, não mais sujeito aos açoites dos capatazes e aos guardas que o vigiavam a cada momento, Israel precisou muito de um auxílio gracioso. Como povo de Deus, Israel tinha de servir a Deus como seu parceiro. Assim sendo, Deus concedeu alguns elementos básicos e essenciais da sua vontade para regular e guiar a vida de Israel. Esses elementos da sua vontade não eram regras temporárias. Eles eram e são a expressão da vontade eterna de Deus para o ser humano. É importante repetir que foi um privilégio para Israel receber a expressão da vontade de Deus. Foi um verdadeiro privilégio espiritual amoldar-se à vontade de Deus. Todavia, não devemos esquecer que o privilégio trouxe consigo responsabilidades e obrigações. Isso Israel também precisava aprender.

A forma em que a lei foi dada reflete a situação histórica de Israel e também a sua situação moral. Um povo que havia estado debaixo da tirania, e agora via-se repentinamente livre, tinha de aprender a viver como um povo privilegiado. Daí a ênfase nas obrigações e responsabilidades. A forma negativa da maior parte dos mandamentos também se explica em parte pelas circunstâncias históricas, assim como pelas inclinações pecaminosas de toda a humanidade.

Os mandamentos foram dirigidos especificamente a Israel. Mas isso não limita a lei moral a Israel, como alegam alguns. Israel tinha um papel vicário; devia viver diante de Deus, porém como um transmissor de sua vontade e salvação a pessoas de todas as nações. A vontade de Deus é para todos os seres humanos. A lei moral, quer os homens a conheçam ou não, mesmo que tenham desenvolvido costumes contrários a ela (por exemplo, os caçadores de cabeças), não diminui a universalidade da lei.

Os mandamentos também foram formulados em termos da história de Israel. Considerem-se alguns exemplos. O segundo mandamento fala em imagens de coisas que estão acima da terra, na terra e debaixo da terra. Muitos estudiosos insistem que isso reflete uma cosmovisão antiga e primitiva. É possível. Um fato que podemos aceitar com naturalidade é que, se o segundo mandamento tivesse de ser promulgado nesta era de aviões supersônicos, naves espaciais e armas nucleares, certamente seriam empregados diferentes termos e referenciais. Considere-se o quinto mandamento. Nele encontramos referências à terra de Canaã que o Senhor iria dar em possessão a Israel. No décimo mandamento, as referências a cobiçar esposa e casa certamente são relevantes para os nossos dias. Porém, para quantos milhões de habitantes de cidades, assim como modernos fazendeiros que possuem frotas de tratores e caminhões, a referência ao boi e ao jumento, animais de carga e de viagem, tem qualquer relevância específica? Sim, na essência, na intenção, a realidade da lei não é alterada. A vontade de Deus permanece a mesma para todos os aspectos da sua criação.

Permitam-me fazer referência a um incidente ocorrido durante a minha adolescência, na década de 1930. Nosso vizinho, descendente de franceses e muito incrédulo, tinha quatro cavalos jovens, fortes e bonitos para preparar sua fazenda de 40 hectares para o plantio da primavera. Meu pai também tinha 40 hectares para preparar a cada primavera, mas somente dispunha de um precário conjunto de quatro cavalos mais velhos. Certo dia de primavera, depois que nossa fazenda estava toda plantada, conversamos com nosso vizinho francês, que ainda precisava de mais dois ou três dias de trabalho para terminar o seu plantio. Num tom queixoso, ele disse ao meu pai: “Você, holandês, sempre termina o plantio antes de mim. Eu tenho cavalos mais jovens e fortes e trabalho sete dias por semana. Explique-me por que você termina primeiro.” Meu pai sorriu e disse: “Nós trabalhamos cinco dias e meio por semana. Sábado à tarde limpamos e escovamos os cavalos velhos e no domingo os deixamos descansar. Eles sempre estão revigorados na segunda-feira. Os seus cavalos nunca estão descansados e revigorados.”

Esta foi uma introdução um tanto extensa ao quarto mandamento, que é a nossa principal preocupação. Sem dúvida, o contexto geral da lei explica certos elementos desse mandamento que têm causado dificuldades para muitas pessoas. As referências do mandamento a servos e servas, bois e jumentos podem não ser particularmente relevantes na vida moderna, não mais que no décimo mandamento. Mas a ênfase, a mensagem relativa à vontade de Deus, não é diferente!

Os dois principais problemas que o quarto mandamento nos apresenta hoje são a referência enfática ao sétimo dia e a forte proibição de todo trabalho. Quanto ao problema do sétimo dia, é importante lembrar os tempos do Antigo Testamento aos quais já nos referimos.1 O ciclo do tempo era visto em termos de seis dias de trabalho e um dia de culto, seguindo o padrão de regulamentação do tempo estabelecido por Deus na criação. A obra recriadora de Deus ainda não havia chegado àquele estágio em que o padrão de regulamentação deveria ser a ressurreição e o Pentecoste, os grandes eventos que assinalaram antecipadamente a perfeição da obra recriadora. Israel ainda tinha que aguardar o túmulo vazio e os céus abertos no Pentecoste. Ao atravessar o ciclo do tempo, Israel tinha somente o modelo criador original para seguir.

O fato importante é que a ênfase tanto de Êxodo 20.8 quanto de Deuteronômio 5.1-22 está posta no dia de Sábado, e não no sétimo. O sábado deve ser lembrado e adequadamente observado segundo a vontade de Deus. O dia santo, dia de Deus, deve ser uma pausa na seqüência das atividades diárias. Como povo escravo, Israel não tivera a oportunidade de fazer isso. No deserto, provavelmente era muito difícil fazê-lo, em todos os sentidos. Todavia, Deus insistiu em que Israel utilizasse esse privilégio e que o fizesse de acordo com a época pactual em que vivia e servia a Deus. A ordenança e o tema da criação estavam presentes de modo predominante. Assim, o fato de que o sétimo dia é mencionado como o dia do sábado não torna necessariamente o sétimo dia em um dia a ser observado por todas as pessoas de todas as épocas. Todavia, as referências à criação e ao ciclo estabelecido certamente mostram que o mínimo que se pode dizer é que Deus acentuou que um sétimo do tempo do homem é tempo de Deus. É um tempo para o culto, tempo para as pessoas terem comunhão com o seu Deus. Essa adesão ao padrão de tempo estabelecido por Deus estava no âmago da vida religiosa do ser humano. Deus exigiu que a humanidade expressasse de maneira específica o seu amor pelo Deus criador/redentor. O amor requer tempo para ser expresso adequadamente.

A ênfase positiva do quarto mandamento é que o ser humano deve lembrar e observar esse padrão definido estabelecido por Deus e usar o tempo para as finalidades que Deus mesmo determinou. O fato de que a ênfase não deve ser colocada no sétimo dia como tal é mostrado de modo especialmente claro no Novo Testamento, onde lemos de pessoas que observavam o ciclo e seguiam o padrão, guardando um dia em sete para terem comunhão com Deus. Todavia, elas o faziam no dia que assinalou os eventos do triunfo da obra recriadora de Deus.

Ainda precisamos mencionar o forte aspecto negativo deste mandamento. Há uma ênfase muito clara no fato de que o ser humano não devia realizar nenhum trabalho físico ou ocupar-se de suas atividades diárias. Ele devia afastar-se tanto do controle direto do seu trabalho quanto da participação no mesmo. Ele devia repousar dos seus labores e liberar-se dos mesmos. Estes não deviam embaraçá-lo, envolvê-lo, ser um fardo e um problema. Diz-se antropomorficamente que Deus descansou (nu’ach). O termo em si não significa ociosidade, inatividade completa. Significa parar de fazer alguma coisa, ficar livre da mesma. Humanamente falando, isso pode ser dito de Deus em relação à sua obra criadora.

Até que ponto o homem devia repousar dos seus labores? Ele não devia tornar-se indolente, ficar sem fazer absolutamente nada. Antes, devia ficar livre da rotina do seu trabalho diário em todos os seus diferentes aspectos. Além disso, quaisquer aspectos da vida diária ligados ao sábado deviam, se possível, ser tratados nos seis dias de trabalho. O Senhor foi enfático nesse ponto, no início da história do povo teocrático. Antes de o quarto mandamento ser promulgado formalmente, o Senhor instruiu o seu povo libertado a observar o padrão de tempo regulamentado. Ele os ajudou de modo muito específico. Ele reteve o maná no sábado (Êx 16). Israel não devia ocupar-se indevidamente com o problema do alimento quando tinha o privilégio de afastar-se do labor diário e ocupar-se de seus exercícios espirituais. Assim, o Senhor instruiu graciosamente o seu povo da maneira mais prática possível.

Em Números 15.32-36, lemos de um homem que saiu a apanhar lenha no sábado. Os líderes sabiam que o homem havia transgredido a vontade de Deus quanto ao sábado. Ele havia tido seis dias para apanhar lenha. Eles não sabiam o que fazer nesse caso. O homem tinha que morrer? (Ver Êx 31.14). O Senhor revelou a Moisés e a seus auxiliares que esse ato aparentemente sem importância — apanhar lenha —, foi todavia um desafio premeditado e calculado da vontade expressa de Deus. No mesmo capítulo, lemos sobre pecados praticados involuntariamente. Quanto a estes, podia-se oferecer sacrifícios e receber o perdão. Porém, para pecados graves, isto é, calculados, premeditados e planejados, não havia sacrifícios. O pecador tinha de fazer um sacrifício oferecendo a sua própria vida. Esse pecado deliberado é exemplificado pelo homem que apanhou lenha no dia de sábado.

Convém destacar aqui que, em todos os casos de pecado premeditado contra um dos Dez Mandamentos, sobre os quais lemos no Antigo Testamento, não se exigia que as pessoas dessem a sua vida. Davi planejou friamente e cuidadosamente o assassinato de Urias após ter conscientemente chamado Bate-Seba e cometido adultério com ela. No Salmo 51, Davi confessa o seu pecado de assassinato. Nos versículos 17 a 19, ele admite não ter sacrifícios que possam agradar a Deus. Mas ele não perde a sua vida física. Porém, mesmo assim ele faz um sacrifício verdadeiro, seu espírito quebrantado e coração contrito. Certamente esse foi um sacrifício aceitável. Assim, vemos a graça do Novo Testamento atuando claramente no Antigo Testamento. Vemos que na época do Antigo Testamento não havia um legalismo rígido. A essência da lei era o mais importante. Predominava a ênfase espiritual da lei. Todavia, o homem que apanhou lenha no dia de sábado, que foi aprisionado mas não parece ter demonstrado arrependimento, que viveu e deliberadamente pecou nos estágios iniciais da vida teocrática da nação, tinha de perder a sua vida por transgredir a lei. Ele recusou-se a experimentar os privilégios espirituais que era obrigado a aceitar.

Quando consultamos o Antigo Testamento, podemos compilar uma interessante lista de deveres praticados e de atividades proibidas. A propósito, não lemos sobre limitações definidas impostas a todos os tipos de viagens e ao socorro dos enfermos. Além dos incidentes do maná e da lenha, encontramos as seguintes proibições: trabalhar no dia de sábado na época da aradura e da colheita (Êx 34.21); acender fogo nas moradias (Êx 35.3); viajar ou cuidar dos próprios interesses no santo dia de Deus; seguir os próprios caminhos, fazer a própria vontade e falar palavras vãs (Is 58.13); transportar cargas a negócio ou para o sustento diário no sábado; introduzir cargas pelas portas de Jerusalém; tirar cargas da própria casa (Jr 17.21-22); e fazer quaisquer transações comerciais (Am 8.5). Em Neemias 13.15-22, lemos sobre as exortações gerais de Neemias no sentido de não permitir que os estrangeiros façam vinho, transportem produtos agrícolas e os vendam na cidade de Jerusalém.

As atividades ou deveres realizados no dia de sábado eram muito variados (o fato de serem mencionados não significa que eram permitidos, mas também não há o registro de objeções): (a) Sacrifícios eram trazidos no sábado, o que envolvia transportar, abater, acender o fogo (Nm 28.9-10; Ez 46.1-4). (b) Os pães da proposição eram trocados. Isto é particularmente interessante em vista da proibição de recolhimento do maná. (c) Os guardas do palácio estavam em serviço e eram mudados regularmente (2 Rs 11.5-8). (d) As pessoas viajavam para ouvir a Palavra da parte dos profetas (2 Rs 4.23) e viajavam ao templo para o culto (2 Rs 11.5-8; Ez 45.6ss).

O estudo cuidadoso da aplicação do quarto mandamento torna claro a todos que não havia uma aplicação rígida e legalista da lei. Ao mesmo tempo, o desprezo do mandamento ou, mais especificamente, do sábado, não era ignorado. Ezequiel lembra a Israel que a sua contínua transgressão do sábado no deserto foi um ato de profanação (Ez 20.13). Esse pecado é colocado em uma categoria especial em distinção a outras ordenanças. No capítulo 22.8, lemos sobre a queixa de Deus contra Israel no exílio: vocês desprezaram as minhas coisas santas e profanaram os meus sábados. Ezequiel afirma categoricamente que ao profanar o sábado de Deus Israel profanou a Deus entre as nações (22.26). Assim, a queixa de Deus contra Israel não foi pelo fato de que o povo transgrediu ocasionalmente um preceito, de que ele não observou rigidamente um detalhado sistema legal, mas pelo fato de que Israel recusou-se considerar como o Senhor havia se envolvido no ciclo do tempo de maneira que o seu povo pudesse ter comunhão com ele. Deus havia separado aquele tempo, santificando-o para o culto. Mas Israel transformou-o em um tempo comum, usou esse tempo para o seu proveito e prazer pessoal. Assim, Deus foi profanado.

Isaías é específico ao mostrar como Israel, ao observar a forma exterior do mandamento, todavia não satisfez o seu requisito espiritual. Ouçam como Deus rejeitou a guarda do sábado por parte de Israel, os seus sacrifícios e o seu culto: “Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs... as festas da lua nova, os sábados...; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene... a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer” (Is 1.12-14). As mãos de Israel estavam cheias de sangue. A opressão dos pobres e a exploração dos órfãos e das viúvas anulavam todos os atos externos e formais de observância do sábado, dos sacrifícios e das assembléias de culto. O que as pessoas haviam feito do sábado foi inteiramente rejeitado, sim, até mesmo o próprio sábado, por causa daqueles que se recusavam a honrar, amar e servir ao Senhor do sábado com amor verdadeiro e consagração espiritual.

Vemos que Deus sempre exigiu uma atitude profundamente espiritual em relação ao sábado, o tempo para o culto e a comunhão alegre. Essa era a ênfase da lei. Para ajudar Israel a alcançar a bênção desse grande privilégio, Deus insistiu que as pessoas o imitassem quanto ao ciclo do tempo e a distribuição do trabalho. Assim, os seres humanos realizariam o ideal de Deus. A glorificação do trabalho semanal por parte de Deus não seria vantajosa para a ênfase espiritual da vontade divina. Sim, o trabalho diário consagrado e santificado seria durante seis dias uma barreira entre o Criador e a sua criatura, quando fosse hora de comunhão espiritual pessoal e íntima. O ser humano devia desvencilhar-se tanto quanto possível daquilo que impedia uma comunhão verdadeiramente espiritual, um momento de culto realmente alegre.

Existe outro fator que devemos abordar rapidamente nesta seção sobre a lei e o sábado. Em Êxodo 20, há uma referência à criação ao se estabelecer o privilégio e a obrigação do culto. Recordemos que vimos como foi suprida a comunhão espiritual entre Deus e o ser humano. Isso propiciou o contexto salvífico depois que o pecado maculou a criação. Ao apresentar a lei a Israel, Deus colocou-a no contexto da libertação do Egito com sua escravidão, servidão e morte. Depois, toda a lei foi colocada em um contexto de redenção. O êxodo de Israel do Egito é o grande tipo do êxodo da humanidade para longe do pecado. A gratidão por essa libertação, tanto da parte de Israel quanto da humanidade em geral, deve motivar reverência pela vontade de Deus e obediência à mesma.

Em Deuteronômio 5 vemos reiterada essa referência à libertação, não somente no prólogo, mas substituindo a referência à criação no quarto mandamento. É verdade que essa referência deuteronômica contém um elemento humanitário e social, mas a ênfase, que muitos estudiosos ignoram, está em “o Senhor, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado” (5.15b). Você percebe a mudança que ocorreu aqui? A ênfase transferiu-se para a obra recriadora de Deus, parte da qual foi a libertação de Israel do Egito. O sábado de Israel deve tornar-se uma comemoração de sua libertação divina do cativeiro egípcio. Assim sendo, a guarda do sábado por Israel recebe uma nova perspectiva que irá tornar-se a ênfase do Novo Testamento.

Isso nos leva à terceira razão dada no Antigo Testamento para o sábado de Deus. Por uma questão de brevidade, utilizaremos a expressão encontrada em Êxodo 31 e Ezequiel 20 — o sinal da aliança.


VI. O Sinal da Aliança

Normalmente, quando lemos sobre os sinais da aliança, pensamos nos sacramentos. O sábado nunca foi um sacramento. Todavia, ele está relacionado mais intimamente com a aliança do que qualquer outro dos elementos enfatizados no Decálogo. Além disso, em Hebreus 3 e 4 o sábado está relacionado com a grande obra redentora de Deus, especialmente com o alvo e o resultado dessa obra, o repouso sabático de Deus.

Não podemos abordar aqui a idéia, a intenção, as partes e as condições da aliança, nem as distinções entre as alianças do Antigo e do Novo Testamento.3 Entendemos a aliança como sendo o ato divino e abrangente do Deus Soberano pelo qual ele estabeleceu unilateralmente um vínculo de amor e vida com o portador da sua imagem e com o ser humano pecador após a queda, no qual salvação, vida eterna e bênçãos gloriosas são prometidas e seladas para o ser humano que está no caminho da fé e da obediência. Esse pacto eterno e gracioso teve uma administração especificamente temporária no Antigo Testamento, que já se encerrou. No entanto, essa administração inicial encerrou-se quando os seus propósitos se cumpriram no desenvolvimento da aliança eterna.

Lemos em Êxodo 31.16-17 que o sábado deve ser uma aliança perpétua, por todas as gerações, entre Deus e Israel. Quando se afirma que ele é um sinal4 perpétuo entre Deus e Israel, as pessoas têm entendido isso como uma referência à administração mosaica da aliança. Ezequiel, ao recapitular a história de Israel, lembrou aos exilados da Babilônia que Deus havia poupado a Israel no deserto quando este profanou os seus sábados e o coração do povo voltou-se para os ídolos (20.16-17). O profeta continuou a narrativa referindo-se aos apelos de Deus no sentido de que Israel não se corrompesse, mas andasse nos seus estatutos, guardasse os seus juízos e santificasse os seus sábados, para que servissem de sinal entre ele e Israel, “para que saibais que eu sou o Senhor, vosso Deus” (20.18-20).

Sem dúvida, vemos uma referência ao relacionamento específico entre Deus e o Israel do Antigo Testamento. A guarda dos sábados era de suprema importância para a manutenção de relacionamentos espirituais adequados. Porém, o relacionamento aludido em ambos os exemplos é mais profundo e mais abrangente do que entendemos que o relacionamento nacional ou mesmo o teocrático-governamental deveria ser. O elemento predominante é o relacionamento espiritual profundamente duradouro, que é a essência da aliança eterna e é fundamental para a administração sinaítica da aliança. Esse é o único sentido possível da expressão enfática “eu sou o Senhor, vosso Deus” (20.20).

Vemos a mesma idéia expressa em Êxodo 31. Faz-se referência à guarda apropriada do sábado depois que Deus deu a Moisés instruções detalhadas acerca do tabernáculo, do sacerdócio e de outros elementos relacionados ao culto de Israel. Moisés devia dizer ao povo: “Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica” (31.13). Essa santificação tem a conotação espiritual de libertação, purificação e preservação do pecado. Esse não é simplesmente um conceito do pacto mosaico, e sim um elemento integral da aliança eterna.

Quando consideramos diferentes pontos discutidos em seções anteriores, como, por exemplo, a viva comunhão que devia ser desfrutada no sábado abençoado e santificado (Gn 2.3), e os aspectos recreativos que repetidamente vêm à tona no estabelecimento das leis relativas ao sábado, compreendemos que está inteiramente de acordo com a analogia da fé apresentada nas Escrituras ver o sábado como um sinal, uma evidência e uma prova da vinda de Deus ao ser humano para libertá-lo do seu pecado e para restabelecer a comunhão entre Deus e o homem. Também vale lembrar que é no sábado que esse companheirismo e essa viva comunhão entre Deus e o ser humano devem ser usufruídos de modo especial.

No contexto pactual da ordenança da criação que é o sábado e na inclusão do sábado na lei, vemos o significado profundo e duradouro do sábado, o dia do Senhor Deus, o dia estabelecido por ele para uma viva comunhão com o ser humano. Nesse contexto, tornam-se claras as palavras de Jeremias 17.19-27. Em uma leitura casual, Jeremias parece sugerir uma justiça derivada de obras, mais especificamente a salvação pela guarda do sábado. O profeta fala em termos comuns à sua situação histórica, mas isso não esconde a ameaça de destruição espiritual em meio à convulsão e à ruína nacional e social. Ele afirma que a salvação — física, nacional, social e espiritual — depende de se santificar “o dia de sábado, como ordenei a vossos pais” (v. 22), “se, deveras, me ouvirdes... e santificardes o dia de sábado” (v. 24), então haverá a garantia de vida, prosperidade e libertação. “Mas, se não me ouvirdes, e por isso não santificardes o dia de sábado, e carregardes alguma carga... então, acenderei fogo nas suas portas” (v. 27) e virá plena destruição.

Nesse texto, Jeremias simplesmente toma uma parte em lugar do todo. Ele não descreve cada etapa que o povo da aliança deve cumprir para alcançar as promessas da aliança eterna revelada a Adão, Noé, Abraão e patriarcas posteriores. Todavia, um dos mandamentos da lei moral é utilizado para indicar todo o modo de vida da aliança. Por que Deus usa o sábado dessa maneira, através de Jeremias? Porque o sábado está relacionado de modo muito profundo com o vínculo pactual vivo que existe entre Deus e o seu povo. Esperamos ter tornado isso claro anteriormente. Neste momento, basta acentuar enfaticamente que a melhor maneira pela qual Jeremias poderia apresentar a vida positiva e redimida de fé e obediência seria pela alusão à guarda do dia no qual a doce comunhão com Deus devia ser repetidamente experimentada e usufruída.

Concluindo esta seção, vemos como certos fatores específicos como o sábado são utilizados para apresentar os fatos eternos e assegurados da vida espiritual. Ninguém pode negar que o sábado, em sua forma veterotestamentária, desempenhou um papel primordial na aliança mosaica. Assim foi por causa da sua inclusão em todo o drama do relacionamento do ser humano com Deus, antes da queda e no contexto da aliança eterna. De fato, assim foi porque o sábado pode, melhor do que qualquer outra coisa, falar tão bem a um Israel imaturo e pecador acerca do repouso duradouro de Deus, o alvo e o resultado da eterna aliança, o refúgio para todos os pecadores aflitos e cansados.5

Assim sendo, como um sinal da aliança, o significado redentor que Deus atribuiu ao sábado torna-se mais claro. O sábado continuou a ser uma ordenança da criação, uma parte integral do padrão de tempo regulado, estabelecido para a comunhão entre Deus e o ser humano. O sábado continuou a ser um aspecto integral da lei moral, mas assim foi por causa do seu significado para a redenção eterna do ser humano caído que foi soberanamente escolhido para entrar no eterno repouso sabático de Deus.

VII. O Sábado, Um Dia Para o Culto

Temos acentuado o significado redentor do dia de sábado. Nesse contexto, podemos ver facilmente por que o sábado era um dia de culto. Todavia, não devemos esquecer que o sábado foi destinado para o culto desde o próprio início da história. Ele era o tempo de comunhão alegre e feliz. O pecado destruiu essa comunhão, mas Deus manteve o seu dia para o contentamento de sua obra criada e como um alvo colocado diante do ser humano decaído. Assim, o homem pode continuar a desfrutar do sábado. Ele falava da recriação, assim como da criação. Ele falava da vida, a vida de amor com Deus. Ele falava de alegria eterna e bendita paz.

Nas seções que tratam da criação, da lei e do sinal da aliança, apresentamos o contexto básico do sábado como dia de culto. Foi mostrado claramente que esse era o seu primeiro grande propósito, o descanso do trabalho sendo um meio para esse fim. O uso do sábado como um modo de provar a Israel encaixa-se nesse contexto. Resta-nos observar como as Escrituras do Antigo Testamento apresentam o propósito de adoração na instituição do sábado.

Em primeiro lugar, podemos considerar o fato de que os sacrifícios deviam ser trazidos no sábado. Quando estudamos Números 8 e Levítico 1–6, vemos que esses sacrifícios não foram enfatizados de maneira especial como símbolos e “meios” de confissão de pecados, mas foram concebidos para expressar consagração a Deus, bem como gratidão e alegria no Senhor. É verdade que os israelitas foram exortados a afligir as suas almas em um sábado solene (Lv 16.29,31), mas isso devia ser feito no Dia da Expiação. Israel foi exortado a confessar o seu pecado. A oferta pelo pecado e a oferta pela transgressão podiam ser trazidas em qualquer dia. Mas no sábado predominavam os sacrifícios de consagração, gratidão e comunhão alegre.

Lemos que Salomão prescreveu esses sacrifícios de gratidão e louvor quando o templo foi concluído e dedicado para o culto a Deus (1 Cr 23.31; 2 Cr 2.4). Vemos que a idéia de culto também estava presente quando Israel reunia-se no templo no sábado, na época dos reis (2 Rs 11.16).

Na história da mulher rica de Suném cujo filho morreu, observamos que o sábado era um dia no qual Israel buscava o profeta para ouvir a palavra do Senhor (2 Rs 4.23). Novamente, esse é um contexto geral de festividade e culto, pois o sábado está relacionado com a festa da lua nova, que certamente era um evento alegre e prazeroso, uma ocasião para banquetes e comunhão (1 Sm 20.18-29). De fato, é importante mencionar que a maior parte das referências ao sábado no Antigo Testamento ocorrem no contexto do culto, da comunhão de Deus com o ser humano e da resposta deste a Deus.

Esse dia de culto devia ser um dia de alegria e celebração. Os comentaristas e mestres judeus têm dado muita ênfase a esse fato. Em seu livro bastante informativo acerca do judaísmo, H. Wouk fez uma descrição muito detalhada do propósito alegre e do caráter festivo do sábado do Antigo Testamento. Joy Davidman, uma autora cristã-judia,6 discute o quarto mandamento sob o título “Dia de Regozijo.” Essa era a nota dominante que Deus pretendia para o dia de sábado. Ele devia ser um dia festivo. Devia ser um antegozo alegre e agradável da gloriosa festa do céu. Isaías exalta esse caráter festivo do sábado do Senhor dizendo que os estrangeiros que se chegam ao Senhor, o eunuco, todos os que guardam o sábado, não profanando o nome de Deus, e abraçam a sua aliança (observe-se a conexão entre sábado, nome e aliança), entrarão no santo monte de Deus e se alegrarão na casa de oração... a casa de oração para todos os povos (Is 56.1-12). Os elementos redentores da aliança eterna são apresentados de modo claro e direto. Todos os povos haverão de participar da alegria dessa redenção ao guardarem a aliança e o sábado do Senhor.

O elemento de alegria no contexto festivo é indicado por Oséias até mesmo no meio de sua advertência de destruição iminente, quando ele diz, como porta-voz de Deus: “Farei cessar todo o seu gozo, as suas festas de lua nova, os seus sábados” (Os 2.11). É evidente que todas as festas, aí incluídos os sábados, eram dias de regozijo.

Ezequiel descreve a gloriosa consumação e o eterno repouso de Deus ao falar palavras de consolo, ânimo, paz e alegria aos exilados da Babilônia que choravam a queda da sua cidade natal, Jerusalém (ver Ez 33.21-22 e Ez 47 – 48). Os capítulos 44 – 46 falam das festas preparadas pelos sacerdotes para serem celebradas nos dias de festas e nos sábados. De fato, Isaías admoesta o povo a tornar o sábado uma ocasião alegre e festiva; ele o conclama a tornar o sábado um dia mui prazeroso, mas na comunhão com o Senhor (Is 58.13).

O salmista entendeu a verdadeira intenção e o espírito do sábado do Senhor. O Salmo 92 é especificamente identificado como um “Cântico para o dia de sábado.” O cântico começa com uma nota de louvor: “Bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” (v. 1). O salmista canta como é bom declarar o amor e a fidelidade de Deus. Enquanto o salmista considera o Deus criador e restaurador (redentor, fiel, amoroso), ele canta no sábado: “Pois me alegraste, Senhor, com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos” (v. 4). Certamente é notável que neste salmo para o sábado, neste cântico de alegria e contentamento, tanto a obra criadora quanto a obra restauradora de Deus sejam exaltadas. Isso é feito no contexto de uma comunhão viva entre Deus e o pecador redimido. Outros salmos, embora não sejam identificados especificamente como salmos sabáticos, claramente indicam que são salmos de culto, salmos para o sábado. Vejam-se os salmos que encontramos no contexto do Salmo 92, por exemplo, os de nº 89, 90, 91, 93, 95 e 100.

Duas coisas precisam ser colocadas no seu contexto apropriado aqui. A proibição do trabalho visava fortalecer essa alegria no Senhor. As pessoas não podiam celebrar diante do Senhor enquanto estivessem ocupadas com o trabalho diário, que também o glorifica. Como acontece com as crianças nos nossos dias, Israel tinha de aprender como poderia alegrar-se no Senhor da melhor maneira possível. A ordem de repousar do trabalho era um chamado à alegria e ao contentamento. Todavia, é bom lembrar que o chamado para o repouso não significava que se devia negligenciar os animais e o próximo, ou mesmo o próprio corpo. Antes, esse chamado visava aprimorar o bem-estar físico de todos, assim como o seu bem-estar espiritual. Nós não vamos entrar na discussão do bem-estar físico como uma bênção adicional derivada da guarda de um sábado alegre e festivo. O que afirmamos é que essa bênção está disponível para aqueles que verdadeiramente guardam o sábado do Senhor. Nesse contexto, pode ser útil mencionar a distinção que os autores judeus fazem quanto ao trabalho no dia de sábado. O trabalho criador e produtivo deve ser evitado, mas as obras de manutenção e restauração (até certo ponto) nunca são proibidas pelo Senhor. Isto certamente pode ser um guia útil para os cristãos na sociedade contemporânea, que tanto carecem da alegria e contentamento da comunhão com Deus.

O segundo fator que devemos colocar numa perspectiva adequada são os aparentes apelos e exigências, particularmente de alguns profetas (por exemplo, Jeremias 17 e Neemias 9.14; 10.31-33; 13.15-22), no sentido de tornar o sábado um dia de restrições. Esses apelos e ordens devem ser vistos no contexto de suas circunstâncias históricas. Israel estava fingindo guardar o sábado ou simplesmente o estava ignorando. Isso exigiu advertências severas e algumas proibições estritas, que, em circunstâncias normais, poderiam ser consideradas como em desarmonia com o verdadeiro caráter e intenção do sábado. Assim, como lemos diversas vezes, o sábado também tornou-se um meio para testar Israel.

Essas sérias advertências possibilitaram que os líderes do povo judeu após a época de Malaquias, Esdras e Neemias tornassem cada vez mais estritas as regras referentes ao sábado. À medida que as regras tornaram-se mais rigorosas, a alegria diminuiu. À medida que as leis aumentaram, o verdadeiro descanso tornou-se impossível. Assim, certas circunstâncias trágicas da história de Israel resultaram em um trágico desdobramento na história do sábado.7 Quando Jesus entrou em cena, a verdadeira intenção e o caráter alegre da festa da criação e da redenção estavam suprimidos de modo tão pleno que ele desafiou abertamente os líderes de Israel com respeito à atitude dos mesmos quanto ao sábado. Jesus viveu e agiu segundo o verdadeiro espírito veterotestamentário do sábado. Ele afirmou o seu senhorio sobre o mesmo. Ele declarou que o sábado foi feito por causa do homem, sim, para o supremo bem do ser humano, para que este pudesse usufruir da comunhão e do repouso de Deus. Assim, quando Jesus viu o povo oprimido por leis humanas, ele bradou das profundezas do seu coração cheio de simpatia: “Vinde a mim... e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Desse modo, Jesus não estava ab-rogando o sábado, mas colocando-o novamente na perspectiva adequada. Da mesma maneira devem ser interpretados os escritos de Paulo aos gálatas (cap. 4) e aos colossenses (cap. 2).


VIII. O Sábado é Somente uma Instituição do Antigo Testamento?

R. de Vaux escreve: “Jesus reivindicou que ‘o Filho do homem é senhor também do sábado’ (Mc 2.28); portanto, ele podia abolir o sábado, e de fato o fez, pois a Nova Aliança que ele trouxe ab-rogou a Antiga Aliança, da qual o sábado era um sinal.”8

Certamente, existem muitos estudiosos que concordam com esse autor quando ele afirma: “O domingo cristão não é em nenhum sentido uma continuação do sábado judeu.” A mudança do dia, do sétimo para o primeiro, é a única evidência que ele apresenta. Enquanto isso, de Vaux ignora o aspecto criacional e o seu significado, e não faz qualquer referência à lei moral e à sua contínua autoridade. Além disso, ele traça uma forte distinção entre a Velha Aliança mosaica e a Nova Aliança. A cruz de Cristo é vista como algo que divide, não que une. Ele não vê a continuidade do pacto básico, eterno, da graça e da redenção, que se constitui no fundamento e fornece os elementos básicos de cada aliança. De Vaux não faz justiça ao verdadeiro caráter e ao espírito de alegria e prazer do sábado do Antigo Testamento como um dia de culto. Na seção de onde foram tiradas as citações acima, de Vaux trata, em grande parte, do que o povo judeu, especialmente os teólogos (escribas, fariseus e rabis), haviam feito do sábado, e certamente concordamos que todos os acréscimos, aplicações e transformações humanas do sábado foram anulados por nosso Senhor Jesus Cristo.

Na realidade, Jesus, se não em palavras, pelo menos em atos, tornou inúteis para a era do Novo Testamento as formas do sábado calcadas na Velha Aliança. Como dissemos, alguns elementos foram removidos. Os sacrifícios prescritos para o sábado foram ab-rogados. Não mais havia a necessidade de derramar o sangue de cordeiros. O sangue do Cordeiro havia sido derramado. Muitas das proibições restritivas foram despidas da sua autoridade mosaica. Assim, muitas coisas ditas acerca do sábado, as prescrições para o sábado que eram sombras e símbolos, foram deixadas sem efeito por Cristo. Porém, como o senhor do sábado, ele declarou que o mesmo foi feito por causa do homem. Ele próprio participou fielmente do culto no sábado; ele participou da comunhão dos santos. Pela pregação do evangelho, ele introduziu os elementos positivos de consolo, esperança, paz e alegria (ver Lc 4.14ss). Os cristãos do Novo Testamento, ao acharem esse consolo, esperança, paz e alegria no evangelho do Senhor Jesus, responderam espontaneamente buscando a comunhão do seu Senhor. Eles fizeram isso sem uma ordem direta (se o silêncio significa isso). Eles consideraram um privilégio buscar uma comunhão viva e íntima com o seu Senhor amoroso e redentor. E eles seguiram naturalmente o ciclo de tempo estabelecido por Deus, aderindo ao padrão do ordenamento divino do tempo. Eles não seguiram o padrão dos romanos. Ele não adotaram o primeiro dia do ciclo de nove dias dos romanos como o seu dia de alegre comunhão e culto. Não, eles aderiram ao padrão estabelecido por Deus. E provaram que eram seguidores do Senhor Jesus ao guardarem um dia dos sete como um santo dia de comunhão e culto, esse dia sendo o primeiro dos sete para comemorar especificamente os grandes eventos da obra restauradora de Deus.

Em contraste com o sábado, podemos apontar para os sacrifícios que foram ab-rogados pela morte de Cristo e por injunções específicas na Epístola aos Hebreus. Não há uma declaração específica quanto à origem dos sacrifícios e a lei moral não contém nenhuma referência a eles. Eles não foram postos como um sinal da aliança. Eles eram auxílios para o culto no período de sombras e símbolos. O relato bíblico acerca do sábado é inteiramente diferente. É verdade que, numa era de sombras e símbolos, alguns destes foram ligados ao sábado visando instruir, provar e transformar o povo escolhido de Deus em um instrumento apto para o serviço.

De Vaux prontamente declara: “No entanto, o domingo simboliza o cumprimento de promessas prefiguradas pelo sábado.” Isso é verdade, mas muito mais devia ser dito. De Vaux afirma que “as promessas de Deus são cumpridas na pessoa de Cristo, e não em uma instituição.” Isso também é muito correto. Todavia, o erro de de Vaux está em aceitar a idéia de que o sábado originou-se com os judeus e para os judeus, e terminou com a administração mosaica da aliança. Além disso, ele é confuso quanto à intenção e ao caráter concreto do sábado, como fica evidente ao colocar o sábado e Jesus Cristo como alternativas.

Não podemos aceitar a conclusão de de Vaux com respeito ao sábado porque o vemos como uma instituição divina sustentada pela lei moral e como um sinal, uma prova daquele pacto de redenção através do qual temos eterna paz e alegria na comunhão e culto ao nosso Senhor, que nos promete entrada no seu sábado eterno.

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* Gerard Van Groningen tem mestrado em Velho Testamento pelo Westminster Theological Seminary, em Filadélfia, e doutorado em Velho Testamento pela Universidade de Melbourne, Austrália. Durante 30 anos lecionou Velho Testamento em instituições teológicas ao redor do mundo. Escreveu vários livros, dos quais dois estão traduzidos para o português: Revelação Messiânica do Velho Testamento (Luz para o Caminho) e A Família da Aliança (Editora Cultura Cristã).

1 Ver a primeira parte deste artigo em Fides Reformata 3/2 (Jul-Dez 1998), 156-59.

2 Não iremos discutir a questão de qual dos dois relatos é anterior. A nossa convicção é que o relato do Deuteronômio é posterior. Em Deuteronômio 5.12, o uso do termo guardar, bem como a referência à ordem do Senhor Deus, acentuam o fato de que os israelitas tinham a lei diante de si.

3 G. Vos, em Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), apresenta ótimas reflexões sobre esses pontos. Ver também O. Palmer Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: Luz Para o Caminho, 1997); William J. Dumbrell, Covenant and Creation (Nova York: Thomas Nelson, 1984); G. Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas: Luz Para o Caminho, 1995) e From Creation to Consummation (Sioux Center: Dordt Press, 1997).

4 Recomendamos que os leitores consultem comentários confiáveis sobre as passagens aqui discutidas. Haverá diferentes opiniões e explicações sobre determinados pontos. Todavia, o que expomos neste ensaio está basicamente de acordo com a posição da maior parte dos comentaristas. Via de regra, os comentários são muito sucintos e não apresentam de modo completo a explanação e as implicações das passagens.

5 Kuyper, Tractaat van de Sabbat, 46ss, discute à sua própria maneira o sinal da Aliança. Ele tem muita coisa valiosa a oferecer-nos. Ver também Alfred Edersheim, Bible History, vol. I, 125.

6 Joy Davidman, Smoke on the Mountain (Filadélfia: Westminster, 1985).

7 Diversos autores tem apresentado a história do sábado e apontado o desdobramento ocorrido nos tempos neotestamentários.

8 de Vaux, Ancient Israel, 983.

English Abstract

This article continues the previous one with the same title, which appeared in last issue of Fides Reformata. Van Groningen starts by dealing with the relationship between the sabbath and the moral law. The main reason given for Christians to observe the sabbath in the New Testament, which is the moral Law, brings much conflict and tension because it results from a defective interpretation of the Law and a separation between the covenant of creation and grace from the Sinaitic covenant. Next, the author tackles the issue of the sabbath as a sign of the covenant and as the day for joyous fellowship with God and worship to him. Van Groningen concludes his article by addressing the question wether the sabbath is only an Old Testament institution. In this section, the author examines and refutes R. de Vaux’s concept that the Christian sabbath is in no way a continuation of the Jewish sabbath.

Fonte: www.monergismo.com

sábado, 24 de julho de 2010

O Sábado no Antigo Testamento: Tempo para o Senhor, Tempo para Alegria nEle.

por

Gerard Van Groningen


Atualmente estamos vivendo no período do Novo Testamento referido por Paulo como a era presente. A era anterior, o Antigo Testamento, terminou quando Jesus Cristo veio à terra como o Filho de Deus encarnado. A era vindoura, o período do Testamento Consumado, para o qual tanto o Antigo como o Novo Testamento apontam, e sobre o qual apresentam vários ensinos, ainda não chegou. Quando Jesus Cristo voltar em glória, a era vindoura terá seu início. E quando essa era final se consumar, o descanso de Deus será plenamente inaugurado outra vez, será plenamente restaurado. Este descanso é a herança gloriosa de todos os que crêem em Jesus Cristo.


I. O Descanso Sabático Apresentado em Hebreus 3 e 4


O autor da Epístola aos Hebreus, buscando admoestar os crentes da igreja cristã nascente a serem fiéis a Cristo, refere-se indiretamente às três épocas do desenvolvimento e realização do plano de Deus para restaurar o seu descanso ao homem caído. Dirigindo-se aos crentes que viviam na segunda época, a era do Novo Testamento, ele chama a sua atenção para as experiências de Israel no deserto. Ele lembra aos seus leitores que algumas pessoas do povo escolhido, vivendo na primeira era, não puderam entrar no descanso por causa da incredulidade (Hb 3.18-19). Esse descanso especificamente mencionado é a terra prometida, que era um tipo ou, se preferirmos, um símbolo do descanso de Deus pretendido para o ser humano. Compreendamos bem: o símbolo, a terra prometida, já estava lá e as pessoas não puderam entrar nela. Da mesma maneira, precisamos entender que o que foi tipificado também já estava lá. Todavia, o tipo e a coisa tipificada não devem ser confundidos.

Os crentes que vivem na segunda era enfrentam um perigo semelhante, a saber, o de terem diante de si o descanso prometido por Deus, mas, não obstante, não entrarem nele (Hebreus 4). A referência agora não é ao tipo do Antigo Testamento, a terra, mas àquilo que foi tipificado, que foi, é e estará presente em todas as eras. Observe cuidadosamente que o autor insiste em que o descanso de Deus é uma realidade para todos os tempos. Tem sido assim desde o princípio, pois foi preparado no momento da criação (Hb 4.3-5). Assim, o autor introduz outro período, uma época anterior ao Antigo Testamento, a época da criação, qualquer que tenha sido a sua duração, antes da queda do homem no pecado. Naquele período anterior ao Antigo Testamento, Deus preparou e entrou, ele mesmo, no seu descanso, que também haveria de ser usufruído pelo ser humano.

O homem entrou nesse descanso após a sua criação por Deus? Sim, no período entre a criação e a queda. O homem vivia no paraíso, o jardim palacial no qual ele provou um princípio do descanso que viria a ser ainda plenamente inaugurado. Entretanto, o ser humano não foi capaz de permanecer no descanso de Deus em virtude de sua queda no pecado. Mas o descanso de Deus continuou apesar do pecado. Ele permaneceu uma realidade, mas não uma realidade acessível para o homem pecador como tinha sido para o homem antes da sua queda. O descanso de Deus adentrou a época do Antigo Testamento. A terra prometida tornou-se um tipo definido do mesmo. Quando alguns homens entraram na terra prometida, foi-lhes assegurado que o descanso real e perfeito de Deus ainda era uma realidade para o ser humano.

Como então o ser humano poderia entrar nessa realidade inacessível? Jesus Cristo deu ao homem completa certeza quanto à sua acessibilidade ao descanso de Deus. Jesus Cristo não introduziu imediatamente o pleno descanso de Deus. Ele o fará na terceira era. Enquanto isto, o descanso de Deus permanece uma realidade durante toda a segunda era, a era do Novo Testamento. Aqueles que morrem em Cristo recebem um antegozo desse descanso. Esse descanso de Deus tem estado e sempre estará presente e é estabelecido por Deus para si mesmo e para aqueles que aceitam a Cristo Jesus com fé verdadeira. O autor da Epístola aos Hebreus dá ênfase a isto: "Portanto, resta um repouso para o povo de Deus" (4.9). [1] A seguir, o escritor continua a fazer referência à obra criadora de Deus e à cessação da mesma como um exemplo, tipo e/ou analogia do que os crentes devem fazer. Assim, vemos uma certa conexão do descanso de Deus com o término da sua criação, ao qual, por sua vez, o Antigo Testamento se refere repetidamente quando fala do sábado que Israel foi instruído a observar. [2]

Ora, para que tenhamos um entendimento apropriado do que o autor da Epístola aos Hebreus escreveu aos crentes da era do Novo Testamento, precisaremos ter uma clara compreensão do que o Antigo Testamento, assim como o Novo, ensinam acerca do descanso sabático de Deus. Teremos que concentrar a nossa atenção naquelas passagens onde Jesus fala do descanso que ele dá, nas suas referências ao sábado que foi dado para os seres humanos e sobre o qual ele reivindica o senhorio. Do mesmo modo, as passagens paulinas precisam ser adequadamente entendidas. Todavia, essas passagens do Novo Testamento estão fora do escopo deste ensaio.

A nossa atenção será dirigida ao material do Antigo Testamento a respeito do descanso sabático de Deus. Ele é mencionado pela primeira vez no relato da criação. Um grande problema diante de nós é determinar se o descanso sabático de Deus está refletido nos sábados que o povo do Antigo Testamento foi ordenado a observar. De fato, o problema é mais complexo. Os sábados do Antigo Testamento estavam de algum modo relacionados diretamente com o descanso sabático de Deus? Em outras palavras, o sábado do qual lemos em Êxodo 16 e repetidas vezes na literatura mosaica e nos escritos históricos, osábado ao qual vários profetas se referiram e sobre o qual os salmistas cantaram, era uma instituição judaica temporária? Eles eram meras sombras que seriam inteiramente dissipadas pelo brilho da cruz? Ou devemos considerar que o Antigo e o Novo Testamentos nos ensinam que na era do Antigo Testamento, bem como na do Novo, existe uma instituição permanente, um dia para o Senhor, que deve ser observado por todas as eras, até que, na época do Testamento Consumado, ele seja absorvido no grande repouso sabático de Deus? Devemos entender que essa instituição era observada de um modo que estava em consonância com a revelação do Antigo Testamento antes que Jesus Cristo viesse, e agora é observada de maneira diferente em consonância com a revelação do Novo Testamento, enquanto aguardamos a consumação do plano redentor de Deus? Além disso, devemos entender que a lei moral que exige a observância do dia do sábado é de validade e autoridade permanente durante toda a era do Antigo e a do Novo Testamento? Outras questões poderiam ser levantadas, mas passemos a considerar alguns do ensinos cardeais do Antigo Testamento acerca do sábado.


II. Considerações Básicas Subjacentes

A. A Unidade da Mensagem Bíblica

A unidade da mensagem bíblica é uma consideração básica e necessária para assegurar uma compreensão adequada de qualquer ensino escriturístico. É da maior importância enfatizarmos que existe um sistema orgânico desenvolvido progressivamente que une o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento introduz as verdades básicas; o Novo Testamento as expande todas e cumpre algumas delas em parte. Ele complementa e desenvolve as verdades reveladas no Antigo Testamento e, direta e indiretamente, dá indicações sobre certos aspectos do Antigo Testamento que foram de natureza temporária, ou que tiveram uma natureza permanente mas requerem uma alteração substancial na sua forma, e aqueles que receberam uma forma permanente já desde o princípio.

Também deve ficar muito claro para nós que o Novo Testamento, mesmo sendo a revelação escrita final, não pretende dar-nos a revelação consumada de todos os atos de Deus em Jesus Cristo. De fato, o Novo Testamento é muito claro ao mostrar que, quando Jesus voltar, ele irá consumar a grande obra redentora que iniciou nas eras do Antigo e do Novo Testamentos. Na verdade, a igreja do Novo Testamento aguarda a maior, a mais gloriosa e a mais magnificente revelação de Deus em Jesus Cristo. Este fato deve advertir a todos nós a não sermos absolutistas e dogmáticos em nossas interpretações dos ensinos bíblicos, tanto do Novo quanto do Antigo Testamento. Assim, devemos tomar cuidado para não considerarmos os atos redentores de Deus registrados no Novo Testamento como a consumação absoluta e final da sua revelação. Uma falta de consciência escatológica levou estudiosos do passado a darem a impressão de que cometeram esse erro.

Além disto, devemos evitar o erro de ver a era do Novo Testamento como um interlúdio entre a era do Antigo Testamento e a era vindoura. Isto resulta de se considerar os ensinos do Novo Testamento como instruções para um tipo de período intermediário. Aqueles que abordam dessa maneira as Escrituras cometem uma grave injustiça contra a unidade orgânica entre a revelação do Antigo e a do Novo Testamento. Isto tem grandes conseqüências para o tema abordado neste estudo. Considere-se, por exemplo, o livro escrito por N. C. Deck. Ele fez uma tentativa corajosa de contestar as afirmações dos que aderem aos princípios adventistas do sétimo dia. Ele propôs uma separação drástica entre as eras e as revelações do Antigo Testamento e do Novo Testamento e uma profunda distinção entre o pacto do Antigo Testamento e o do Novo Testamento. Ele escreveu que o primeiro foi o período da lei e o segundo o período da graça, no qual foram dadas "instruções sobre a graça." A lei moral era estritamente para o povo judeu que viveu na era do Antigo Testamento e que irá viver no milênio vindouro; portanto, o sábado, assim como outras instruções semelhantes do Antigo Testamento, é somente para os judeus nos dois períodos distintos. É interessante observar que as suas concepções acerca do Novo Testamento levam tais intérpretes a escusarem os judeus que vivem na era do Novo Testamento de observarem as leis e regulamentos do Antigo Testamento.

Mal precisamos dizer que, se um estudioso das Escrituras se aproxima das mesmas com tal propensão, toda a discussão do sábado é colocada num contexto muito desfavorável. De fato, a sua discussão e as conclusões obtidas serão viciadas e, portanto, inaceitáveis.

De igual modo, devemos evitar o erro de absolutizar a revelação primeira e inicial, tanto em sua forma como em seu conteúdo, e forçar a revelação do Novo Testamento e aquela ainda por vir a concordarem literalmente com a mesma. Esse é um dos erros dos adventistas do sétimo dia. Eles propuseram uma forma absoluta e final para certas partes da aliança mosaica. Isto explica o seu ensino enfático de que Jesus entrou literalmente no Santo dos Santos com o seu sacrifício, bem como a sua interpretação literal do decálogo e adesão ao mesmo. [3]


B. Um Conceito Apropriado de Revelação

Um apropriado conceito bíblico de revelação é essencial para o entendimento do que as Escrituras ensinam a respeito do sábado. O escopo deste ensaio não permitirá uma discussão do problema. Faríamos bem, no entanto, em dar atenção por um momento aos efeitos da abordagem da crítica da forma sobre o assunto em discussão. [4] J. H. Meesters dá um exemplo claro disto. Meesters propôs-se a tarefa de encontrar a origem do sábado. [5] Ele apresenta uma ótima síntese de muitas teorias críticas, apontando seus erros e, portanto, sua falta de fidedignidade. Porém, nas suas explicações ele aborda as Escrituras como uma compilação de escritos judaicos. Estes escritos são de caráter variado, alguns muito antigos, outros bastante velhos. Eles foram colecionados, editados, trabalhados e reescritos por diversos redatores. Assim, as Escrituras são basicamente uma produção humana, sim, uma produção judaica. Judeus religiosos de mentalidade teológica, que viveram após o exílio, colocaram o seu selo final sobre o Antigo Testamento. De fato, embora Meesters admita a presença do sábado em tempos antigos, ele diz que os judeus que viveram entre 400 e 500 AC deram-lhe a forma que todo o Antigo Testamento apresenta.

Pois bem, é preciso que fique claramente entendido que, se o Antigo Testamento é basicamente um registro de crenças judaicas e uma apresentação da teologia judaica, e se a apresentação do sábado no Antigo Testamento foi basicamente determinada por judeus que viveram após o exílio, então certamente o sábado é uma instituição judaica temporária. Sem dúvida, os estudos da crítica da forma têm dado muito apoio ao conceito de que o sábado é de origem judaica e é relevante somente para os judeus. Deve-se acrescentar que esse também é o caso de outros ensinos do Antigo Testamento.

Antes da ênfase na crítica da forma ter aparecido, havia estudiosos que consideravam o sábado do Antigo Testamento uma instituição judaica temporária. Parece-me que a falta de uma abordagem e de um entendimento abrangente e biblicamente teológico das Escrituras está por trás da maior parte dos esforços desses homens. Esses eruditos não viram a relação entre várias passagens que a própria Escritura indica. Além disto, as circunstâncias históricas dos eruditos também têm exercido forte influência sobre a sua interpretação do sábado. Por exemplo, os reformadores foram, sem dúvida, influenciados em grande medida pelas ênfases presentes na Igreja Católica dos seus dias.

Portanto, compete-nos enfatizar, ao estudarmos o assunto em questão, que devemos aderir a uma adequada abordagem exegética e bíblico-teológica de toda a Escritura. Estou certo de que cada estudioso deve começar com a pressuposição básica a priori de que Deus revelou, por palavras e atos, em forma embrionária, os elementos básicos da verdade divina através de escritores inspirados. O primeiro deles foi Moisés. [6] Essas verdades foram reveladas progressivamente à humanidade. Algumas foram reveladas antes do tempo de Moisés. Quando a comunidade de fiéis do Antigo Testamento foi organizada como nação, Deus, através de Moisés, deu o registro de suas revelações feitas anteriormente. Também lhe foram dados aspectos complementares, tanto explicativos como adicionais.

C. Uma Abordagem em Consonância com o Caráter da Revelação

Hoje, a nossa abordagem desse registro da revelação nas Escrituras deve estar inteiramente em consonância com o caráter dessa revelação. Nenhuma passagem pode ser isolada de seu contexto imediato, nem daquelas passagens do contexto mais amplo que estão relacionadas com ela na própria Escritura. A matriz histórica dessa revelação deve ser claramente vista. Com muita freqüência no passado, e também no presente, muitos estudiosos enfatizaram excessivamente o ambiente histórico, bem como suas influências e efeitos temporários sobre verdades permanentes. Muitos outros, por outro lado, ignoram essas coisas completamente. Acima de tudo, uma atitude profundamente espiritual deve ser evidenciada em nossa abordagem das Escrituras. Isto ajudará os estudiosos a não se tornarem excessivamente literalistas nem demasiadamente naturalístico-científicos.

Um exemplo para ilustrar o nosso estudo sobre o sábado pode ser encontrado em Atos 15. Os líderes da igreja, e provavelmente também os leigos, estavam particularmente divididos quanto ao ensino do Antigo Testamento a respeito da circuncisão. Os crentes gentios deveriam ser circuncidados? O concílio de Jerusalém julgou que isto não era necessário. Mas a assembléia determinou que os crentes gentios deviam abster-se da carne oferecida aos ídolos, do sangue, da carne de animais sufocados e da fornicação. Ora, é bastante óbvio que esses quatro itens que foram proibidos não estão na mesma categoria. O último certamente era de enorme importância moral para a santidade pessoal e familiar, mas não os três primeiros. Paulo, escrevendo mais tarde à igreja de Corinto, insiste no seu direito de comer carne oferecida aos ídolos; todavia, ele irá abster-se do exercício do seu direito por causa do irmão mais fraco. Mas Paulo de maneira nenhuma irá tolerar a fornicação. "Fugi da prostituição," ele ordena (1 Co 6.15).

Assim, vemos que, em uma determinada circunstância, foi necessário aplicar certas proibições cerimoniais do Antigo Testamento e colocá-las lado a lado com uma proibição moral. No entanto, os apóstolos fazem outras aplicações ao escreverem a igrejas específicas, que tinham problemas específicos nos seus contextos específicos. Podemos facilmente dar ênfase excessiva a uma determinada passagem, atribuindo-lhe autoridade final e absoluta, quando a mesma foi escrita de uma determinada forma como aplicação temporária de uma verdade moral permanente a uma igreja que estava numa situação histórica temporária específica. Isso deve estar claro em nossa mente quando tratamos de passagens do Novo Testamento que se referem a assuntos do Antigo Testamento. Tais passagens são encontradas nos escritos de Paulo às igrejas dos Coríntios, dos Gálatas e dos Colossenses, bem como na epístola aos Hebreus.

III. Termos e Distinções Importantes

Nesta seção os termos sábado, repouso e sete são definidos resumidamente e as respectivas distinções são apresentadas e discutidas de modo sucinto.

A. Três Termos Básicos

Antes de tudo, precisamos abordar o termo sábado. O escopo deste ensaio não permite uma exegese detalhada de aproximadamente 35 passagens do Antigo Testamento em que ocorre o substantivo e das numerosas passagens onde encontramos a forma verbal. [7] O verbo "descansar" (shabáth) nos leva a um problema complicado. O que significa exatamente? Um lexicógrafo menciona os seguintes sentidos: repousar, fazer cessar, descartar, fazer fracassar, celebrar, guardar o sábado, afastar-se, sofrer necessidade, guardar, tirar, acalmar ou aquietar. Os objetos do verbo, por exemplo, guerra, maná, a obra das estações, alegria, terra e negócios, são tão variados como os sujeitos, por exemplo, Deus, homem, nações, estações, sacrifícios e colheitas. Certamente não há um consenso quanto ao significado básico do termo. Todavia, a maioria dos estudiosos concorda que não é descanso, pois, como veremos, existem outros termos que são usados para expressar essa idéia. O peso da opinião favorece a idéia de cessar, parar, fazer uma pausa. Deve-se dizer, no entanto, que em alguns casos a idéia de descanso físico não está ausente. Todavia, quando usado com relação ao sábado, significa guardar, celebrar o dia.

Quando o substantivo é empregado, descobrimos que há uma pequena variedade de usos. Surge uma dificuldade quando verificamos que aparentemente o termo tem referências diferentes e distintas. Ele é usado para designar o sétimo dia, dias de festa, uma semana, anos e possivelmente a salvação e a eternidade. A nossa conclusão é que o termo deve ser entendido como tendo um sentido geral de intervalo, um tempo entre outros, separado para propósitos religiosos específicos. Em suma, sábado significa um dia santo. Antes de continuarmos a discutir este assunto, precisamos considerar outros fatores relevantes.

O termo repouso é empregado em português para traduzir alguns termos hebraicos dos quais (nûáh) é o mais comumente usado. Ele tem o sentido geral de repouso físico, sossego, dar descanso ao corpo e a oportunidade de recuperar a força e o vigor. Todavia, em alguns casos o termo também significa afastar-se, partir, abandonar e permitir. O termo tem um sentido predominantemente físico; no entanto, é usado para descrever o que o próprio Deus fez após a sua obra de criação (Ex 20.11).

A esta altura terá se tornado óbvio a todos que um estudo dos termos hebraicos não é muito útil para quem esperava encontrar respostas prontas para a questão do sábado através de um estudo filológico.

Existe também o termo (shévá’), sete, que certamente não significa sábado, cessar, repousar ou qualquer coisa relacionada com isto. O número sete é um dos numerais mais usados na Bíblia. Mais do que qualquer outro número (12, 40, etc.), ele indica plenitude, inteireza, totalidade abrangente. Em alguns casos, ele tem uma referência física e limitada definida; em outros casos, pode ter um sentido espiritual definido. [8] Alguns estudiosos são bastante dogmáticos em sua interpretação literalista do número sete. Outros, são vagos e indefinidos em sua interpretação espiritualista. Um estudo cuidadoso dos usos e referências do número sete deveria, temos certeza, fazer com que esses estudiosos se tornassem um pouco mais hesitantes quanto a essas abordagens das passagens onde o número ocorre. O contexto, passagens paralelas e o sentido geral da Escritura deve ser seriamente considerado em todas as ocasiões em que o termo for empregado.

Pensamos que esses três termos distintos, empregados de diversas formas e sujeitos a várias interpretações, são usados numa relação íntima em passagens que tratam de tempo e culto (a expressão do relacionamento do homem com Deus). Isso nos leva aos momentos especiais que foram separados para o culto, contrição, sacrifícios, festejos e alegria.


B. As Festas e o Sábado

O Antigo Testamento nos informa repetidas vezes quando e como Deus, o Senhor (Yahweh), desejava ser especificamente cultuado, a saber, no sábado e nas festas. Evidentemente, é preciso entender que Deus exigia uma vida inteira de adoração e serviço dos seus servos do Antigo Testamento, assim como dos da presente era. Entretanto, foi para tempos e atos específicos de adoração que as festas e o sábado foram prescritos. Agora, como as festas eram chamadas de dias sabáticos, [9] e como o sábado é diversas vezes referido no mesmo contexto ou até mencionado com as festas no mesmo versículo, [10]as pessoas acabaram estabelecendo uma relação profunda entre os dois. A dúvida era e continua sendo: não seria verdade que o sábado era originalmente nada mais que uma das festas determinadas pelo ciclo da lua? Se é verdade, o novo sábado não é apenas uma festa semanal da mesma ordem que as festas da lua nova e cheia, que são festas mensais, e a festa das primeiras colheitas (páscoa), primeiros frutos (pentecostes), colheitas (tabernáculos) e o dia da expiação (Yom Kippur), festas anuais? [11]

É muito importante entendermos claramente que não existiam métodos fixos de contagem do tempo em termos de meses e anos na época do Antigo Testamento. Cada nação possuía seu próprio tipo específico de calendário. O Antigo Testamento reflete dois ou mais desses tipos e isto freqüentemente causa confusão nos dias de hoje. Além disso, a lua freqüentemente era vista como um elemento de controle, mas também foi descoberto em tempos remotos que os doze ciclos lunares eram menores que um ano completo, determinado pelo sol.

Ora, as três festas fixas (hebraico mo’ed) e as festas especiais, como, por exemplo, a da expiação, apesar de serem festas anuais, eram fixadas em dias determinados por um cálculo que respeitava os ciclos da lua. Provavelmente o padrão seguido na determinação da ocasião das festas foi tomado por Moisés, sob a direção de Deus, das nações com as quais Israel tinha contato.

Além disso, as prescrições para os dias das festas variavam. Não podemos nos ater aqui a estes detalhes particulares. Muitos estudiosos já o fizeram e sugerimos que os interessados os leiam. É necessário realçar, porém, que muitos dos ritos, proibições e costumes estabelecidos para essas festas eram sombras do futuro e essas sombras foram cumpridas em Jesus Cristo. Mas uma questão que exige estudo posterior certamente é: por que o número sete e a ênfase na proibição do trabalho recebem tanta importância em relação àquelas festas? Alguns estudiosos sugerem que também eram sombras, elementos que passariam com o tempo, como outros elementos pertinentes às festas. Se eles passaram com o tempo quanto às festas, também passaram com o tempo em relação ao sábado. Porém, essa é uma questão crucial que não pode ser respondida definitivamente. O fator definitivo que deve ser enfatizado é que essas festas eram para o Senhor, eram tempos dedicados ao Senhor durante os quais os israelitas cultuavam e expressavam o seu relacionamento com Deus com gratidão e alegria. O fato de que a cessação do trabalho e o número sete, isto é, o ciclo de sete, desempenham um papel fundamental na determinação dessas ocasiões de culto, aponta para o profundo interesse e envolvimento do Senhor Deus nessas festas. Isto sugere que alguns motivos permanentes e duradouros eram fundamentais para as festas.

Como foi mostrado anteriormente, as festas como tais foram estabelecidas para Israel. Os dias festivos cristãos seguiram o seu rastro: a Sexta-Feira Santa e a Páscoa tomaram o lugar da Páscoa dos judeus (a festa do início das colheitas), o Pentecoste ocupa o lugar da festa das primícias e o costume de um dia de ação de graças está em consonância com a festa das colheitas, a festa dos tabernáculos. As festas cristãs, dias de celebração nos quais a gratidão e a alegria devem ser expressos de maneira especial, não são claramente prescritas pelas Escrituras. As ocasiões das festas certamente são os pontos importantes das atividades redentoras de Deus em Cristo Jesus, em favor de seu povo, comemoradas por este mesmo povo.

Agora, precisamos voltar nossa atenção para o dia do sábado. Ele estava no mesmo nível dessas festas? Era somente uma instituição judaica, nada mais do que uma das festas? Um estudo cuidadoso da história e particularmente das Escrituras, indica que, embora houvesse muitas semelhanças entre as festas e o sábado, as diferenças são fundamentais e colocam o sábado em uma categoria separada e distinta. De fato, o sábado é peculiar no sentido de não ser determinado de modo algum pelos sistemas lunar ou solar. É um dia que se repete regularmente, independente dos ciclos da lua ou do sol, independente de festas fixas ou especiais e independente de catástrofes nacionais ou naturais. O ciclo de seis dias de trabalho e um dia de culto festivo é permanente e continua sem interrupção. Se os dias de festa, as ocasiões determinadas pelo sistema lunar, coincidissem com o dia do sábado, as prescrições para o sábado tinham prioridade, sendo acrescidas as prescrições para as festas que fossem aplicáveis. Em outras ocasiões, o tempo exato do início de uma ocasião festiva, isto é, das festas semanais, era determinado com atenção específica em relação ao sábado (Lv 16, 23, 24, 25; Nm 28).

O sábado era o dia do ciclo de sete dias. Ele era preferido aos demais dias. Era o dia de Deus e para Deus. Era um dia separado para o culto, para a alegria, contentamento e confraternização. Deus insistia no fato de que era o "sábado do Senhor."

C. A Origem do Sábado

A singularidade do sábado é colocada numa perspectiva muito mais clara quando procuramos averiguar a sua origem. Os estudiosos que têm buscado descobrir essa origem concentrando seus estudos na história geral, na história da religião e na história dos rituais, têm proposto uma grande diversidade de teorias. Alguns têm enfatizado uma origem egípcia, outros uma origem babilônica e ainda outros uma fonte cananita para o "sábado judaico." Entretanto, através do estudo crítico e completo da história as pessoas não têm sido capazes de encontrar uma resposta. Meesters oferece um excelente retrospecto [12] e uma avaliação criteriosa de todas as teorias críticas e históricas, concluindo que todas as idéias de que os judeus tomaram o conceito emprestado de outras nações não são confirmadas por fatos. Meesters diz que o sábado é peculiar aos judeus, partindo da consideração de que a Bíblia é um livro judaico.

G. Mendenhall, o notável estudioso das civilizações antigas, seus tempos e costumes, afirma que o sábado mencionado no Antigo Testamento tem uma longa pré-história. De fato, ele está correto. A idéia do sábado estava presente muito antes de a nação judaica existir. Registros documentais de nações que já existiam antes do tempo de Moisés indicam que pessoas de todas as nações tinham a noção de um dia regularmente fixado que era dedicado a Deus (ou aos deuses). Quando comparamos esses dias pagãos com o sábado judaico, surgem variações e grandes diferenças. Mas essas diferenças não anulam a presença da idéia fundamental que está por trás dos "dias para os deuses." Alguns povos determinavam os dias pelo sistema lunar, possivelmente devido à sua veneração dos corpos celestes. Alguns povos consideravam o "dia para os deuses" como uma época terrível, um dia de medo e de miséria. Na realidade, essas concepções dos "dias para os deuses" são muito diferentes do sábado bíblico. Mas o mesmo acontece com as concepções acerca de Deus! Ainda hoje, a forma como o dia do Senhor é observado — seja como um dia sombrio e triste, ou como um dia festivo de confraternização e culto — é determinada em grande parte pela idéia que os crentes (e os não crentes) têm de Deus e do seu relacionamento com ele.

O ponto que desejo acentuar é o seguinte: todos os homens sabiam que um certo número de dias deviam ser separados como "dias para os deuses." Assim como as concepções acerca da divindade diferem entre si de forma radical e profunda, o mesmo acontece com as idéias concernentes aos dias e às maneiras como são guardados. Mas o fato que permanece é que a idéia estava presente. O sábado realmente tem uma longa pré-história.

Alguns estudiosos da Bíblia têm procurado bases bíblicas para provar as suas convicções de que o sábado do Antigo Testamento era uma instituição estritamente judaica. Utilizam o silêncio de alguns livros como argumento. Gênesis, por exemplo, não registra que o sábado era guardado pelos patriarcas, embora admita-se que estes adoravam a Deus de acordo com algum padrão. Certos estudiosos têm ficado um pouco desorientados com a expressão "Deus lhes fez conhecer o seu sábado," que ocorre em Neemias 9.6-15 e em Ezequiel 20.9-12. Eles interpretaram o termo "fazer conhecer" como "instituir." Outros ainda têm achado evidência para a institucionalização do sábado no episódio do maná no deserto, onde se faz uma referência passageira ao sábado (Ex 16.15-24). Entretanto, alguns comentaristas mais recentes têm acentuado que essas passagens não apresentam a instituição do sábado, e sim o sábado como uma instituição em vigor, embora desconhecida ou esquecida. Usá-las como evidência da instituição do sábado é não usá-las de modo apropriado.

D. O Desenvolvimento Histórico do Dia do Sábado

Parece que muitos estudiosos antigos e modernos perderam de vista as pressões, influências e alterações que o fenômeno histórico pode exercer e tem exercido sobre as instituições divinas e religiosas. Muitos estudiosos atentam apenas para o que o ser humano tem produzido e feito. A história humana é considerada a fonte e influência formadora de todos os fatores da vida religiosa. Mas, embora o homem tenha, no curso da história, reagido de formas diferentes a Deus, sua obra e suas instituições, ele não remove Deus, sua obra ou suas instituições. É à luz dessa realidade que devemos considerar todas as tentativas humanas de demarcar a origem do sábado. O fato de que o homem esqueceu, ignorou ou mudou uma "dádiva original de Deus," não é base suficiente para que se diga que uma nova instituição ou uma instituição temporária foi introduzida. Além disso, quando Deus estabeleceu sua dádiva universal e permanente, ele não estava introduzindo um fenômeno novo. Mas quando ele o fez, acrescentou e envolveu o presente com elementos temporários, com o objetivo de que o presente original fosse visto da perspectiva adequada no tempo hábil. É neste contexto que devemos compreender as proibições severas feitas a Israel como uma nação jovem, recém-saída da escravidão e não condicionada ou preparada para uma vida nacional livre, que deveria ser totalmente dedicada ao Senhor.

A história de Israel é uma história tragicamente triste de um povo abençoado por Deus, que se esquece do seu Deus. Enquanto o povo ignorava e esquecia o seu Deus, o mesmo acontecia com suas dádivas, prescrições e exigências. À medida que Deus repetidas vezes apresentou-se a si mesmo e as suas prescrições através da história, foram feitas referências às dádivas e obrigações dadas a Israel. Assim, a história do relacionamento de Israel com Deus é determinante para a compreensão do sábado do Antigo Testamento, pois o sábado era o tempo específico para cultuar a Deus, o tempo de expressar alegria numa comunhão viva e desimpedida com ele. Deus insistiu repetidamente em não apenas ter esse tempo de comunhão, mas graciosamente mostrou ao homem como este poderia melhor agradá-lo ao procurar e desenvolver tal comunhão. Isto era para ser feito no tempo determinado por Deus. Por isso a ênfase em "meus sábados" (ver Ex 31.13; Lv 19.3, 30; Is 56.4; Ez 20.12-24 [4 vezes]; Ez 22.8, 26; 23.38; 44.24).

Foi o próprio Deus quem estabeleceu o padrão a ser seguido quanto à distribuição dos dias, para que houvesse uma regularidade no tempo, uma regularidade mensurável, tempo para o trabalho e tempo para uma íntima comunhão expressa num culto alegre. Esse padrão foi estabelecido conforme o que o próprio Deus havia seguido na sua obra da criação. Esse modelo foi utilizado como critério na divisão do tempo, estabelecendo a regularidade do tempo para toda a criação, mas especialmente para o homem, a criatura, para que um relacionamento mais íntimo entre o criador e a criatura, tendo sido já estabelecido, pudesse ser assim mantido. [13]


IV. A CRIAÇÃO E O SÁBADO

A primeira coisa a fazer é abrir o Antigo Testamento em Gênesis 2.1-3 e ler cuidadosamente a passagem em todas as traduções disponíveis. Antes de mais nada, observe que: a) a passagem dá ênfase ao que Deus fez, ou seja, a sua obra (ver, por exemplo, Almeida Revista e Atualizada). Deus terminou a sua obra de criação, a totalidade bem como suas partes (2.1); b) há uma forte insistência no que foi realizado no sétimo dia, ou seja, Deus acabou sua obra, descansou, abençoou o dia de sábado e o santificou; c) o verso 3 termina com uma expressão fora do comum (isso fica mais evidente na Bíblia hebraica). Não precisamos nos ater a isso, pois o objetivo da expressão é enfatizar ainda mais que Deus havia feito a sua obra como criador e a havia concluído.

Existem ainda outros pontos da passagem que devemos destacar. Entretanto, uma exegese detalhada foge ao escopo deste artigo. Sugerimos que o leitor consulte os comentários para isso.[14]

Gênesis 2.1-3 é parte da revelação de Deus; é parte da narrativa da criação. Nenhum homem estava presente quando a obra foi feita; não havia nenhuma testemunha ocular. Dizer, como R. de Vaux, que a ênfase da expressão "Deus... descansou no sétimo dia de toda a sua obra que tinha feito" é uma idéia teológica, pode ser mal interpretado. Se com isso se quer dizer que a idéia do descanso de Deus é fruto da ponderação e reflexão do homem acerca da origem do universo, não se está fazendo justiça a essa parte das Escrituras. Por outro lado, é igualmente errôneo interpretar literalmente esta passagem, como se Deus houvesse soprado nos ouvidos de Moisés que, após seis dias de trabalho pesado, ele estava cansado, extenuado e com necessidade de relaxar e recuperar as forças. A forma exata pela qual o relato da criação foi revelado não nos é dada claramente. Mas, que Deus a revelou, nós afirmamos sem hesitação. Também afirmamos que o relato acerca do sétimo dia é uma revelação de Deus tão confiável quanto o que foi revelado sobre os seis primeiros dias.

Também queremos ressaltar que havia um propósito divino em incluir a revelação acerca do sétimo dia, isto é, não apenas a finalização da obra da criação, mas também o fato de que o sétimo dia foi um tempo de não criar. Por que isto foi incluído na introdução da grandiosa história da salvação? Por que existe uma ênfase no sétimo dia, na sétima porção de tempo, em que Deus não criou? Por que ele não criou no sétimo dia? Por que ele abençoou e santificou essa porção de tempo? Isto foi revelado só por causa de Deus? Por causa dos judeus? Por causa dos santos triunfantes na glória? Ou também por causa dos santos militantes na era do Novo Testamento?

Na realidade, isso foi dado a conhecer a todos os homens de todos os tempos. É uma mensagem universal sobre um grande fato do universo, dizendo respeito a todos os homens desse universo, não importa a época em que vivam. Sim, Deus fala aqui a homens de todas as eras acerca da sua obra criadora, a qual, temos certeza, tem profundos reflexos na grande obra de recriação na qual ele agora está envolvido, e da qual ainda não descansou e nem irá descansar até ser também completada. Deus está enfatizando nesta passagem que, sendo um Deus fiel, ele completa o que começa. Ele enfatiza isso para o bem daqueles que estão mais fortemente envolvidos na obra recriadora de Deus. Mas qual a importância do sétimo dia para o homem que está envolvido e grandemente necessitado da obra recriadora de Deus? Acreditamos que isso ficará mais claro à medida que prosseguirmos em nosso ensaio.

Ao lermos Gênesis 2.1-3, observamos que Deus finalizou e completou a sua obra. O texto traz um termo um tanto quanto incomum, que é traduzido como "terminado" (Gn 2.2); porém essa não é uma tradução exata. Basta que leiamos os comentários para saber quais os problemas envolvidos nessa tradução. É suficiente, no momento, dizer que Speiser (Anchor Bible, pp. 7-8), Heidel (em sua obra sobre os relatos babilônicos da criação) e Leupold (p. 102) têm boas razões para dizer que a melhor tradução é "Deus declarou terminado" no sétimo dia. De fato, Deus não criou nada no sétimo dia, ele simplesmente declarou sua obra finalizada. Quando lemos no hebraico que ele "descansou," encontramos, na verdade, que ele "sabateou" (wáyoshbot), isto é, que ele celebrou o término do que havia criado, tendo declarado sua obra como acabada. Ele escolheu aquele dia como um Dia Santo, no qual desfrutou o que era bom, perfeito e completo. Devíamos ainda acrescentar a ênfase de Keil (p. 62), de que o encerramento da obra criadora de Deus fazia parte da ordem e do padrão da criação. É a cessação da atividade que é destacada, não o descanso no sentido de ociosidade.

O próximo ponto que queremos ressaltar é que Deus criou um padrão no tempo e para o tempo. Esta é obviamente uma das razões para a inclusão dessa passagem na Bíblia. Mas não devemos ver as coisas unilateralmente e enfatizar o número sete como se este fosse separado do número seis. A ênfase aqui é no padrão estabelecido: seis dias – um dia. Nem devemos nos desviar do nosso propósito, como Deck e muitos outros têm feito, discutindo a duração dos dias da criação neste contexto. Não há consenso seguro acerca dos seis dias, mas isso não nos deve deter. A passagem destaca, como Buber apontou, que Deus é o Senhor do tempo. Ele estabeleceu um padrão para o tempo. Este é regular. É parte da vida. Tem um propósito no mundo criado, particularmente com referência ao relacionamento entre Deus e o ser humano. Então, sem enfatizar literalmente o número sete — mas considerando sua referência à perfeição, inteireza, totalidade — Deus nos mostra aqui que a sua obra de criação é perfeita, está consumada e que o seu ciclo temporal está estabelecido.

Esse ciclo pode não ter sido explicado explicitamente ao homem. Ao menos não lemos que foi. Mas o padrão do ciclo temporal era conhecido de toda a humanidade em geral. É verdade que alguns alteraram esse padrão em certa medida, seguindo a contagem do tempo dos sistemas lunar ou solar; outros, por uma suposta razão religiosa, adotaram o ciclo oito-um (os romanos). Porém, o fato mais importante a ser observado é que este ciclo temporal no qual o número sete aparece com tanto destaque, é visto na maioria das outras ocasiões especiais de culto que os judeus deveriam observar. Tatford faz referência a este fato e mostra como as festas foram marcadas de forma a enfatizar o ciclo de "sete." Um exemplo será suficiente. Era no sétimo mês, o mês de tishri, que uma quantidade de tempo maior que nos outros meses foi separada para o culto, as celebrações e a comunhão com Deus expressa em alegria e satisfação. [15]

A essa altura, podemos afirmar que está inevitavelmente diante de nós o fato de que existe um padrão ou ciclo instituído por Deus no tempo com o propósito de regularidade e controle do tempo. É uma ordenança da criação. Se tudo que a passagem ensinasse fosse isso, ainda assim seríamos fortemente pressionados a aceitar uma sétima porção de tempo como separada por Deus para o culto, durante a qual o homem deve cessar seus labores e preparar-se para cultuar a Deus como deve. A passagem nos informa que Deus instituiu este ciclo de tempo para um propósito definido. Nós lemos: "abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou" (Gn 2.3). Portanto, esse tempo foi declarado um canal, um verdadeiro meio potencial para um contato direto entre Deus e o homem. No termo "abençoou" vemos a ênfase no que Deus fará pela criação e, em particular, pelo ser humano, a coroa e agente responsável na criação. O homem, por sua vez, deve entender que Deus também santificou, ou seja, separou para si uma sétima parte do ciclo de tempo que se repete continuamente. O homem deve observar esta separação. Ele não é obrigado a considerar um dia em sete, como sendo, abstratamente, uma série de horas sagradas. Ao contrário, o homem é obrigado a considerar o tempo como o tem agora, como envolvido nele, vivendo no tempo e através do tempo. Como ser humano, uma personalidade completa no meio do cosmos, deve considerar-se em um relacionamento definido e particular com Deus.

Em resumo, esse é o tempo para o homem cultuar a Deus. Esse culto não deve ser aquele executado seis dias por semana, em atos do trabalho diário. Disso, o homem foi desencumbido por Deus nesse tempo especial. É tempo para fazer tudo o que pode para ter comunhão direta com Deus. No jardim, era um tempo para o homem guardar suas ferramentas, distanciar-se o máximo possível do jardim e dos animais e entrar em comunhão pessoal com Deus. Entenda-se bem, Adão e Eva não estavam deixando o Paraíso, deixando seus afazeres diários, mas no meio disso tudo eles paravam e, com os rostos e corações voltados para Deus, escutavam-no e dialogavam com seu Mestre e Senhor.

No sétimo dia da criação, Deus cessou o seu trabalho criador e declarou-o acabado. Entretanto, ele não abandonou a sua criação, mas entrou em uma comunhão específica com o ser humano. O homem, por sua vez, é chamado a imitar o seu Criador e prestar-lhe culto. Devemos ressaltar enfaticamente que esse é o ponto principal da passagem. Ou seja, dentro do ciclo regular do tempo existe uma determinada fração para a comunhão e o culto.

Mais um fator deve ser mencionado aqui. Quando Deus terminou a sua obra de criação, terminou de verdade. O cosmos estava completamente criado. Deus podia entrar e de fato entrou no seu sábado. O homem, porém, mesmo antes de sua queda, teve que obedecer ao mandato que recebera de Deus. Ele não havia entrado ainda nesse sábado permanente com Deus. Ele tinha que completar o seu trabalho, assim como Deus completara o dele. O homem, em obediência amorosa, devia trabalhar, desenvolver o mundo criado, não por sua própria força, mas com a ajuda de Deus e no poder constantemente recebido dele. Enquanto trabalhava seus seis dias, ele recebia forças de Deus e trabalhava para a honra e glória do seu Criador. Ele devia desfrutar seguidamente da chegada do sábado de Deus – de acordo com o padrão do ciclo temporal.

Então a tragédia aconteceu. O homem rompeu a sua relação com Deus. Isso teve efeitos trágicos no trabalho diário do homem, nas atividades realizadas nos seis dias. Afetou mais ainda o que era esperado dele no sétimo dia.

Quando o homem distanciou-se de Deus, tentou quebrar o ciclo do tempo estabelecido por Deus para ele. Tentou evitar a face de Deus, a comunhão direta, o culto. O tempo que havia sido separado para a comunhão face a face entre Deus e o homem foi usurpado por este para si mesmo.

Porém, Deus não aboliu a sua obra. Ele não alterou o ciclo temporal. Ele não removeu o seu sábado. Ele não fechou a porta para o culto que deveria ser prestado no seu santo dia de celebração. O homem não podia mais participar dele; o pecado era o grande obstáculo. Mas, Deus haveria de removê-lo — disso o homem podia ter certeza. O dia santo de Deus iria continuar. Deus restauraria esse cosmos, recriaria o homem para que este pudesse permanecer eternamente em comunhão e culto ininterrupto a Deus, no descanso eterno do Senhor. À medida que desenvolvia o plano da recriação, Deus relembrava ao homem o ciclo de tempo, convidando-o a ter comunhão regular com ele. O convite era para que o homem tivesse repetidas vezes um gosto do descanso eterno. Assim, o dia do sábado, abençoado e santificado, estabelecido antes de o homem pecar, permaneceu sem ser removido. Permaneceu como um meio concreto de graça para o homem, a fim de este compreender cada vez mais o que Deus tem separado para o ser humano recriado, regenerado, justificado e santificado que irá entrar na glória perfeita com o seu Criador.

Vemos, pois, que no próprio alvorecer da história, o dia do Senhor foi estabelecido pelo Deus criador, foi feito um aspecto integral do cosmos como parte do ciclo temporal e recebeu um propósito definido para o culto e a comunhão prazeirosa com Deus. Já que isto foi estabelecido antes da queda, quando o homem pecou esse dia foi imediatamente colocado no plano redentor (ou recriador). Isto também explica porque o dia da ressurreição (bem como o dia de Pentecoste, o dia do Espírito Santo) tornou-se o dia específico em que uma sétima parte do ciclo temporal foi chamada de Dia do Senhor. A ressurreição e o Pentecoste são os grandes eventos do programa recriador de Deus. Eles asseguram ao homem que a porta para o descanso de Deus está aberta. Portanto, nesse dia o homem faz como o seu Criador: celebra a vitória de Deus em Cristo, através da cessação de suas atividades diárias, para que, entrando desimpedidamente no culto e na comunhão pessoal com Deus, possa experimentar a maior alegria que o ser humano pode ter.

O Velho Testamento traz o registro da atividade inicial de Deus no seu programa recriador. Ele nos revela como o homem por natureza estava e ainda está tragicamente separado de Deus. Ele revela como o homem ignorou as dádivas de Deus e tentou destruir as próprias evidências de Deus na vida. O culto a Deus foi substituído pelo culto a si próprio. O homem buscou entronizar a si mesmo, engrandecendo-se; mostrou sua desconsideração para com o seu próximo, assassinando, difamando e dando falso testemunho contra ele; deixou evidente sua cobiça, apossando-se violentamente do que pertencia a outro homem; desprezou o casamento e o sexo e tratou de forma imprópria os pais e aqueles que estavam em autoridade; recusou-se a dar a Deus o tempo e o culto que lhe eram devidos. O homem tornou-se um rebelde, portador de uma imagem degradada de Deus, um deformador, um escravo destruidor do cosmos material, ao invés de ser um vice-regente construtor e desenvolvedor da criação.

Por outro lado, o Velho Testamento também revela quão terna e pacientemente o Senhor se relaciona com a humanidade rebelde. Lenta, gradual e progressivamente Deus trabalhou para restaurar a sua criação, resgatando e salvando o que era seu. Quanto mais ele se revelava, mais esperava de seu povo. Nos estágios iniciais, foram introduzidas algumas formas temporárias. O Velho Testamento menciona especificamente muitas dessas formas. Mas o coração da obra de Deus, a motivação central e os fatores dominantes não foram alterados. Certos degraus do Velho Testamento que conduziam ao Calvário tornaram-se desnecessários desde que a cruz foi ali levantada. Os sacrifícios com derramamento de sangue são notáveis exemplos disto. Mas o sábado, mesmo tendo alguns aspectos temporários, não foi um desses degraus provisórios, porque era uma parte do ciclo temporal da criação e também uma parte integral do culto do homem recriado. Esse é o contexto ao qual o autor de Hebreus se referiu quando escreveu os capítulos três e quatro da sua epístola.

Antes de nos voltarmos para a Lei, devemos nos assegurar de que Deus de fato revelou a origem do dia do sábado. Os estudiosos de história, religião e antropologia cada vez mais concordam que desde tempos bem remotos foi observado um dia para os deuses. Entretanto, até agora não puderam encontrar ou demarcar a origem desse dia. Nós, que aceitamos as Escrituras como revelação de Deus infalível e sem erros, não precisamos procurar pela origem do sábado, pois ela encontra-se claramente estampada nas Escrituras.

Todavia, identificar com precisão o desenvolvimento da observância do sábado pelo homem é realmente uma tarefa muito difícil para qualquer historiador. As Escrituras também não nos dão muitos detalhes. Porém, quando Israel foi formado como nação, quando a sua vida religiosa foi regulamentada nos aspectos civil e social, o sábado é mencionado como um fator presente. Ele não foi estabelecido quando Israel tornou-se uma teocracia, mas certamente foi trazido à atenção do povo judeu naquele período, de várias formas.

NOTAS

1 É lamentável que a maioria dos comentaristas da Epístola aos Hebreus (muitos comentários têm sido escritos, numerosos demais para serem mencionados aqui) revelem grande incerteza e divergência quanto à interpretação apropriada dos capítulos 3 e 4, particularmente dos versículos que tratam do repouso de Deus. A principal dificuldade é que grande parte deles não dá suficiente atenção a toda a revelação do Antigo Testamento, isto é, eles não colocam Hebreus 3 e 4 em um contexto bíblico-teológico global.

2 Nota do Editor: Preferimos manter o termo sábado em lugar de shabbath, empregado pelo autor, mas ressaltamos que o autor focaliza o sábado especialmente em seu aspecto teológico, e não como dia da semana.

3 N. C. Deck, The Lord’s Day or the Shabbath, Which?: A Reply to the Seventh-Day Adventist Propaganda (Sidney: Bridge Printery, s/d). Essa obra, uma resposta de Deck à visão dos adventistas sobre o sábado, não é baseada em fundamentos bíblicos consistentes. Ele apresenta uma descontinuidade entre o Velho e o Novo Testamento, a Antiga Aliança e a Nova. A dissertação de Niels Erick e Andreasen intitulada The Old Testament Shabbath: A Traditional Historical Investigation (Missoula: Universidade de Montana, 1972), é muito enfraquecida pela sua aceitação da abordagem literária liberal e histórico-crítica do Velho Testamento. Problemas semelhantes prejudicam o estudo do livro de Willy Rordorf, Sunday, trad. A.A.K. Graham (Chatham: SCM Press, 1968). Paul K. Jewett, The Lord’s Day (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), conhecido por muitos como professor de Teologia Sistemática durante muitos anos no Fuller Theological Seminary, também fez uma distinção radical entre o sábado e o domingo e deu a idéia de que Jesus apresentou como que uma ponte entre eles (p. 2). F.T. Wright, em seu livreto Living Righteousness and the Shabbath of God (Palmwoods: Judment Hour Publishing Co., 1969), adota a posição adventista de que o poder de Deus demonstrado na criação, no êxodo e na descida do Espírito Santo eram e são canalizados através do sábado. O estudo mais erudito dentro da estrutura bíblico-exegética e teológica dos adventistas do sétimo dia foi escrito por Samuel Bacchicchi, From Sabbath to Sunday (Roma: Pontifical Gregorian University Press, 1977). Essa obra parece considerar a sua própria apresentação como conclusiva. Bacchiacchi resumiu seu estudo escrevendo: "O sábado, então, no ensino e ministério de Cristo, não foi ‘colocado nos bastidores’ ou ‘simplesmente anulado’ para dar lugar a um novo dia de culto, mas sem dúvida foi feito pelo Salvador como um memorial adequado para que a salvação se tornasse disponível a todos os que vêm a ele com fé" (p.73). Numa declaração com a qual podemos concordar, ele afirma: "O papel que a Igreja de Roma desempenhou levando ao abandono do sábado e à adoção do domingo têm sido subestimado, se não totalmente negligenciado, nos estudos recentes" (p. 211). A 11ª edição desse livro foi publicada em 1989. Deve-se ainda tomar nota do fato de que no período de 1967 a 1975 um bom número de estudos e livros foram publicados sobre a questão do sábado e do domingo. Nos últimos vinte anos, entretanto, pouco tem sido publicado sobre esse assunto.

4 Nota do Editor: A crítica da forma é uma ferramenta de análise bíblica nascida com o método histórico-crítico. Ocupa-se com a pré-história das fontes que compuseram o texto, ou seja, o estágio oral pelo qual supostamente passaram. De acordo com a crítica da forma, boa parte dos livros que compõem o Velho e o Novo Testamentos são, em sua forma final, o resultado de um processo de coleção, edição e harmonização de tradições antigas, de fontes anteriores (escritas ou não), por parte de editores e escribas. Essas fontes adquiriram sua forma (ou gênero, como sagas, lendas, ditos dominicais, etc.) no processo de reflexão, evangelização e apologia por parte de Israel e da igreja, e refletem a teologia desses grupos.

5 J. H. Meesters, Op Zoek Naar de Oosrprong van de Sabbat (Assen: Van Gorcum, 1966). Esta obra é valiosa em dois aspectos: (1) a análise e avaliação das teorias críticas é concisa e assim a rejeição das mesmas por Meesters é bem fundamentada. (2) Meesters faz uma apresentação clara e definida da relação entre a hipótese documentária e/ou da abordagem crítica do Antigo Testamento e as conclusões não escriturísticas produzidas por esse método.

6 Moisés deve ser considerado o autor essencial do Pentateuco. Ele não escreveu cada palavra, expressão ou passagem, e sim o material básico essencial, e isto em grande parte na forma em que o temos diante de nós. Ver Introdução ao Velho Testamento, de E. J. Young, e a obra de R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1979).

7 Para a conveniência daqueles que desejarem estudar todas as passagens, eis a sua relação: Ex 16.23-29; 20.8-11; 31. 14-16; 35.2,3; Lv 16.27-34; 19.3,30; 23.3-39; 24.8; 25.2-8; 26.2-43; Nm 15.32; 28.9,10; Dt 5.12-15; 2 Rs 4.23; 11.5-9; 16.8 ss.; 1 Cr 9.32; 23.31; 2 Cr 2.4; 8.13; 23.1ss.; Ne 9.14; 10.31-34; 13.15-22; Is 1.13,14; 56.2-6; 58.13; 66.23; Jr 17.21-27; Lm 1.7; 2.6; Ez 20.12-24; 22.8-26; 23.38; 24.24; 45.17; 46.1-12; Os 2.11; Am 8.5.

8 E. Cassuto observou como o número sete é dominante em Gênesis 1-2.4 (E. Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis [Jerusalém: Magnes Press, 1961]). Ele ressalta a idéia de que o número sete é o número da perfeição; como tal, ele é fundamental para o tema básico de Gênesis 1-2.4 e serve para determinar muitos dos seus detalhes. "A obra do criador, que é caracterizada pela perfeição absoluta e por uma perfeita ordem sistemática, é distribuída ao longo de sete dias: seis dias de trabalho e um sétimo dia separado para o desfrute da tarefa concluída" (pp. 12-16). Abraão Kuyper (Tractaat van de Sabbat [Wormser, 1890]) também trata do uso do número sete (ver pp. 99, 125).

9 Ver Lv 16. 29-34; o Dia da Expiação era um sábado, Lv 23.1-44. Várias festas são referidas como sendo sábados. Em Números 28.1-31 são prescritas ofertas, assim como a proibição do trabalho, em dias de festas.

10 Ver Os 2.11; Ez 44.24; 45.17; 46. 1-12; Is 1.13, 14; 66.23; Lm 2.6; 2 Cr 2.4; 8.13; 2 Rs 4.23; etc.

11 Para maiores detalhes e discussões precisas das festas, consultar R. de Vaux, Ancient Israel (Nova York: McGraw-Hill, 1961), nos capítulos sobre festas, liturgia e sábado; a New Jewish Encyclopedia (Nova York: Behrman, 1961), para uma abordagem curta e precisa, e The Jewish Encyclopaedia, editada por Singer, para uma discussão longa e detalhada.

12 Meesters, Sabbat. Uma coletânea de teorias sobre a origem do dia do sábado pode ser encontrada nas enciclopédias mais comuns. O estudo do termo Sabbaton em Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament, ed. Gerhard Friendrich (Stuttgart: W. Kohlhammer, 1964), V. 7, pp. 4-35, é de leitura particularmente recomendável.

13 M. Buber, em vários de seus trabalhos, tem enfatizado a importância de considerar o tempo no contexto da relação Deus-homem, Criador-criatura, "Eu-Tu." Apesar de este filósofo judeu possuir uma visão bastante liberal de muitos ensinamentos do Antigo Testamento, seus pensamentos nessa questão do tempo, do relacionamento do homem com Deus e da expressão apropriada dessa relação em tempos regulares é muito profunda e está de acordo com a revelação do Antigo Testamento nestes pontos.

15 Comentários confiáveis que podem ser facilmente acessíveis aos estudiosos da Palavra de Deus são: J. Calvino, Genesis, Vol. 1; Leupold, Genesis, Vol. 1; Keil & Delitzsch, Commentaries on the Old Testament, Genesis, Vol. 1. Alguns comentários como os da série The Interpreter’s Bible, The Anchor Bible, etc., podem ser úteis mas são críticos demais para serem confiáveis. Isto também se aplica a alguns comentários mais antigos, como o escrito por J. Skinner em International Critical Commentary.

15 F. A. Tatford, The Message of Sinai (Londres: Victory Press, 1957), 37-40.

fonte: www.monergismo.com