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quarta-feira, 31 de março de 2010

Juízo Investigativo - É Condizente Com a Bíblia?

O adventistas do sétimo dia (ASD) ensinam que em 22 de outubro de 1844, Jesus Cristo saiu do lugar santo do "Templo Celestial" e entrou no lugar santíssimo, onde passou a fazer uma obra que denominam "juízo investigativo", que consiste em remover dos livros no céu os pecados ali registrados de cada ser humano que se arrependeu e creu em Cristo.

O problema maior deste ensino está no fato de que se Cristo está agora, no céu, removendo o pecado, o que Ele fez na cruz? Será que foi apenas parcial o sacrifício do calvário?

Para os adventistas do sétimo dia o calvário foi apenas uma etapa. Vejamos seu ensino oficial: o teólogo e historiador adventista C. Mervyn Maxwell assim o descreve: "ao terem os pecadores ao longo dos séculos buscado o perdão, Jesus tem levado o pecado dos registros de seus pecados confessados ao lugar santo, onde tem contaminado o santuário celestial...A purificação do santuário agora em processo é verdadeiramente uma grande obra de reconciliação; não é nada menos que a remoção final e eliminação de todo pecado que separa o povo de Deus de si mesmo" (História do Adventismo - p. 66).

Note bem o que a Bíblia diz sobre estes ensinos: "Doutra maneira necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo, mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou para ANIQUILAR o pecado pelo sacrifício de si mesmo. Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação" (Hb 9.26,28). Veja bem, Cristo de uma só vez - na cruz - ANIQUILOU o pecado daqueles que confiam nele, portanto, não há necessidade de se "purificar o santuário celestial" porque os pecados confessados por meio de Cristo já não existem, foram aniquilados.

Outra questão: Pode haver algo impuro no céu? Os adventistas respondem que sim: "Pode-se dizer que mesmo as 'coisas celestiais', na extensão em que personificam as condições da futura vida do homem, adquiriram pela queda alguma coisa que necessitava ser purificada" (Nisto Cremos - p. 417 - livro oficial de doutrinas da igreja adventista). A Bíblia, no entanto, diz que não: "E ali haverá um alto caminho que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele" (Is 35.8). Pense bem, a onde a Bíblia afirma que a queda do homem afetou o céu? A queda afetou a terra, e o próprio homem, mas nunca a habitação de Deus e dos santos anjos; este ensino é anti-bíblico e contraria a clara distinção apostólica entre as coisas da terra - contaminadas pelo pecado, e as do céu - incontaminadas, puras (Tg 3.15; 1 Co 15.47-50).

Voltemos a declaração de Maxwell, segundo ele o juízo investigativo é "verdadeiramente uma grande obra de reconciliação". A Bíblia afirma que "Deus nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo", "Agora, contudo vos reconciliou no corpo de sua carne, pela morte" (2 Co 5.18; Cl 1.21,22). Ou seja, biblicamente a reconciliação já se deu, o verbo está no passado, foi na cruz, não há mais obra de reconciliação, nós já fomos "reconciliados com Deus pela morte de seu Filho", "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (Rm 5.10; 2 Co 5.19). Portanto, não há nenhuma razão para o suposto "juízo investigativo".

Este ensino é perigoso pois é contrário as Escrituras no tocante a completeza da obra expiatória de Cristo e a segurança de salvação. A Bíblia nos diz: "Quem crer e for batizado será salvo" (Mc 16.16). Já os defensores do "juízo investigativo" ensinam: "Este julgamento, que ratifica as decisões quanto a quem deverá estar entre os salvos e quem estará entre os perdidos" (Nisto Cremos - p. 418). Ou seja, sua decisão por Cristo nada vale neste contexto, mas, graças a Deus pela Bíblia que nos afirma: "Arrependei-vos, pois e, convertei-vos para que sejam apagados os vossos pecados" (At 3.19).

Para o adventista fiel a cruz não foi suficiente, e ele não pode ter, aqui e agora, certeza absoluta de sua salvação, pois Ellen G. White, profetisa adventista, ensinou
: "Pela sua morte iniciou a obra, para cuja terminação ascendeu ao céu" (O Grande Conflito - Edição Condensada - p. 290). Já o cristão bíblico crê nas palavras de seu Mestre: "Está consumado" (Jo 19.30), não há "terminação" a fazer, já está terminado. Graças a Deus!

Os adventistas ainda afirmam que o tal "juízo investigativo" é necessário, pois muitos começam, mas desistem da fé cristã pelo meio do caminho. Quanto a isto, sabemos que Deus anuncia "o fim desde o princípio" (Is 46.9-11), Ele não precisa investigar, pois já conhece a decisão de cada um. Jesus chegou a afirmar: "Eu sou o bom pastor; CONHEÇO as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim" (Jo 10.14), portanto, na mente de Deus e de seu Filho não há nenhuma dúvida quanto a quem é ou não salvo, daí dispensasse o erro chamado de "juízo investigativo".

Outro argumento é que, com o "juízo investigativo" Deus mostra a sua justiça aos anjos, não restando dúvidas sobre o Seu caráter. Ora, depois de Deus não ter poupado "nem mesmo a seu próprio Filho" (Rm 8.32-39), restaria na mente de qualquer criatura celestial dúvidas sobre o santo caráter de Deus? Creio que não.

Mas você pode estar se perguntando: Se, como vimos, esta doutrina não tem respaldo bíblico, como ela surgiu então?

Tudo começou quando Guilherme Miller, um batista, a princípio não muito interessado em religião, tornou-se um pregador. Ele leu em Daniel 8.14: "Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado", com grande dose de imaginação e com pouco conhecimento hermenêutico (Os 4.6), chegou a conclusão inicial de que Jesus voltaria a terra "por volta do ano de 1843" (História do Adventismo - p. 13), como ele descobriu esta data? Baseando-se em Ezequiel 4.6,7 onde se lê: "um dia te dei por cada ano", Números 14.34 - "por cada dia um ano" e Levítico 25.8 - "contarás sete semanas de anos", Miller afirmou então que os 2300 dias de Daniel, eram 2300 anos literais. Partindo da suposta data do decreto de Artaxerxes para restaurar Jerusalém em 457 AC, chegou a 1843. No inicio de 1843, Miller mudou seus cálculos, afirmando agora que Jesus deveria voltar entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844 (História do Adventismo - p. 26). Como Jesus não voltou em 1843 e nem em março de 1844, os "milleritas" ou primeiros "adventistas" marcaram uma terceira data: o dia da expiação judaico de 1844, que naquele ano caiu em 22 de outubro (História do Adventismo - p. 29-34). Jesus novamente não veio. Veja Deuteronômio 18.22. Daí então, para justificar o grosseiro erro de interpretação bíblica, criou-se entre alguns adventistas milleritas a interpretação que em 22 de outubro de 1844, Jesus entrou no lugar santíssimo do templo celestial, começando assim, a tal purificação do santuário de Daniel 8.14.

Um dos "inventores" desta "nova" interpretação fora o irmão Crossier, que mais tarde reconheceu o seu erro de interpretação bíblica (Apostila: Ellen Gould White - Mulher falível ou falsa profetisa? - p. 7). A mente mais simples pode notar que esta doutrina surgiu da necessidade de se explicar grosseiros erros de interpretação bíblica, infelizmente nem todos tiveram a honestidade e a humildade do senhor Crossier em admitir seus erros, criando assim, doutrinas de conveniências que não passam de desculpas para suas falhas.

O grande problema dessa doutrina, está em sua raiz errada. Para interpretar um texto simbólico - Daniel 8.14, os adventistas usaram e usam até hoje o método literal dia/ano (Seminário: As revelações do Apocalipse, p. 83-87).

Agora, vejamos os textos em que eles se baseiam para isto: Nm 14.34 - este texto fala da punição de Deus a Israel pela falta de fé dos espias enviados por Moisés e do povo, não fala de contagem de tempo profético (basta ler o contexto - Nm 14.26-45); Lv 25.8 - aqui o texto está falando sobre o "ano do jubileu" (Lv 25.8-55) e não sobre profecia; Ex 4.6,7 - aqui o texto fala de uma profecia específica (capítulo 4) que o profeta Ezequiel entregou sobre o cerco de Jerusalém, porém, não pode ser aplicado a outras profecias. Pois senão vejamos, Jesus declarou profeticamente: "Derribarei este templo, e em três dias o levantarei" (Jo 2.19), se fossemos interpretar como fazem os adventistas, teríamos que crer que Jesus ficaria três anos na sepultura, pois o templo a que Ele se referia era o seu próprio corpo (Jo 2.21). Isto não aconteceu, os três dias proféticos, neste caso, se cumpriram literalmente (veja Lc 24.7).

Como os adventistas do sétimo dia explicam a não vinda de Jesus Cristo em 22 de outubro de 1844? Este fato eles chamam de "grande desapontamento" e baseando-se em uma interpretação novamente duvidosa de Lc 24.21 e ap 10.9-11 afirmam que Deus permitiu que eles se equivocassem sobre a interpretação de Daniel 8.14, afirmam ainda que isto estava até mesmo profetizado (Seminário: As revelações do Apocalipse - p. 86) e compararam esta experiência com a dos discípulos a caminho de Emaús. O fato é que, existe uma diferença substancial: os discípulos de Emaús tinham a doutrina correta que se cumpriu cabalmente (Lc 9.22), eles poderiam ter perdido a fé nela ou até mesmo dela ter se esquecido, mas a doutrina de Jesus cumpriu-se como fora anunciada, já no caso dos milleritas isto não aconteceu, sua doutrina fora alterada várias vezes para se adaptar a novas circunstâncias e não houve o cumprimento cabal da mesma. Novamente fica demonstrado a inexatidão da interpretação adventista.

Outro erro de cálculo interpretativo pode-se demonstrar nesta profecia. Para os adventistas Daniel 9.23-27 é "o selo de garantia dos 2300 dias" (Seminário: As revelações do Apocalipse - p. 83). Entendem eles a expressão "setenta semanas estão determinadas", como que estas setenta semanas sendo extraídas ou cortadas dos 2300 dias e sendo a prova visível de sua autenticidade.

Usando outra vez o princípio dia/ano (que já demonstramos ser errado), os adventistas concluem que seriam sete semanas de anos literais onde seriam construídas as praças e muros de Jerusalém, o que, segundo eles, ocorreu em 408 AC e mais sessenta e duas semanas de anos literais até que se manifestasse o Messias, o que, segundo eles, nos leva ao ano de 27 AD, data em que Jesus foi batizado e iniciou o seu ministério público (Seminário: As revelações do Apocalipse - p. 84).

Aparentemente está tudo correto, mas olhemos mais a fundo esta questão. Daniel 9.25 nos diz: "desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o Messias, o príncipe, sete semanas, e setenta e duas semanas". Ou seja, até a vinda do Messias deveria se cumprir o tal tempo, se fossemos interpretar como os adventistas do sétimo dia, esta profecia não teria se cumprido no tempo certo, pois Jesus não se tornou o Messias com o seu batismo, Ele já o era desde seu nascimento (Mt 1.20-23), uma vez que a profecia diz "até ao Messias" é obvio que deveria ser até o seu nascimento. Onde está então o erro? Na interpretação literalista e conveniente dos adventistas.

Agora note alguns erros de cálculo: se os 2300 dias começaram, como dizem os adventistas, em 457 AC; se cada dia profético equivale a um ano literal (já demonstramos que isto é errado); calculemos, os 2300 dias se cumpririam em 1843, portanto, a profecia adventista atrasou um ano. Veja, eles argumentam que o "decreto" (Dn 9.23-27) alcançou Jerusalém no outono de 457 AC (Es 7.8), mas note que Dn 9.25 diz que se deve contar "desde a saída da ordem" e não desde a chegada em Jerusalém, portanto, a saída da ordem foi na primavera de 457 AC, e se Jesus fosse realmente entrar no lugar santíssimo do templo celestial, à moda adventista, teria que ser, considerando o cerimonial típico do Antigo Testamento (Lv 16.29-34), no "yom kipur" (dia da expiação) de 1843 e não no de 1844. Por que então o atraso? Os anjos oficiantes estavam de greve? Não, o problema está nas falhas de cumprimento dos cálculos adventistas que foram mudados no mínimo três vezes (História do Adventismo - p. 30).

O mesmo erro se encontra quanto ao Messias, se interpretarmos, como fazem os adventistas, Daniel 9.25, daria um total de sessenta e nove semanas proféticas para o Messias, o que pelas contas deles dariam 483 anos literais. Partindo então, de 457 AC chegaremos ao ano 26 AD e não em 27 AD (isto sem considerar possíveis erros de quatro a seis anos no nosso calendário, o que aumentaria ainda mais o erro adventista), o que aconteceu em 26 AD com Jesus, o Messias? NADA que a Bíblia relate, portanto, aqui está, mais um erro de hermenêutica mal feita, adotada pelo adventismo. Principalmente se notarmos que, a ordem para a reconstrução de Jerusalém só saiu, de fato, no ano 445 AC segundo vemos em Neemias 2.1-8, o que derruba toda "teologia" adventista, pois aí as 2300 tardes e manhãs, segundo o absurdo método dia/ano deles, daria em 1855, aí, então, não haveria mais "grande desapontamento", passaria a ser o que verdadeiramente é: A GRANDE DESCULPA MENTIROSA.

O que queremos demonstrar com estes cálculos e com o aprofundamento nas profecias favoritas dos adventistas do sétimo dia? Queremos mostrar que "nem tudo o que reluz é ouro". Não é o fato de uma pessoa citar muitas passagens bíblicas que aparentemente se completam e nem o fato de você não ter resposta imediata aos sofismas de outros, que o que eles pregam é a verdade. Dou aqui meu testemunho pessoal: fiquei por volta de dez anos, do primeiro momento que tomei conhecimento da interpretação adventista de Dn 8.14 até poder compreender suas falácias. Neste tempo, por vezes, procurei ajuda de pastores e seminaristas para achar a resposta da questão. Só quando tive contato mais direto com os adventistas é que notei quão falazes são seus argumentos. Assim também o é com outras seitas como os mórmons, e todos aqueles grupos heterodoxos que permeiam nosso cotidiano.

Portanto, caro leitor, quando você passar por esse tipo de problema, principalmente se você for evangélico, recomendo a leitura acurada e crítica da Bíblia, bem como a oração, mas acima de tudo recomendo a paciência, pois para tratar com doutrina duvidosa "a pressa é inimiga da perfeição (verdade)".



OBRAS DE REFERÊNCIA DESTE CAPÍTULO:

- Bíblia Sagrada. Edição Revista e Atualizada no Brasil - 2ª edição - Sociedade Bíblica do Brasil.
- Bíblia Sagrada. Edição Revista e Corrigida - Imprensa Bíblica Brasileira.
- MAXWELL, C. Mervyn História do Adventismo. Casa Publicadora Brasileira - 1ª edição - 1982.
- Nisto Cremos. Casa Publicadora Brasileira - 2ª edição - 1990.
- WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. Edição condensada. Casa Publicadora Brasileira - 4ª edição - 1994.
- Apostila: Ellen Gould White - Mulher falível ou falsa profetisa? Instituto Cristão de Pesquisa.
- Livro Texto do Seminário: As revelações do Apocalipse.


Crítica feita por www.seitaadventista.hpg.com.br

segunda-feira, 29 de março de 2010

Você Precisa Nascer de Novo?

por

Dr. Palmer Robertson

Todo mundo fala em "nascer de novo". Mas o que isso significa? O que acontece se você nascer de novo? Como essa idéia se aplica a você? VOCÊ precisa nascer de novo? Estas perguntas importantíssimas precisam de respostas.


Primeiro, VOCÊ precisa nascer de novo?

Se você for como a mulher samaritana que encontrou Jesus no poço, então, é claro que precisa nascer de novo. Essa mulher teve cinco "maridos" diferentes, e apesar disso o homem com quem ela estava vivendo na época não era legalmente seu marido (João 4:16-18). Ela precisava de uma nova vida; precisava recomeçar; precisava apagar toda a sua vida passada em pecado; precisava "nascer de novo".

Sua vida passada pode ter sido uma vida de pecado, explícito. Sua consciência pode acusá-lo neste instante de pecados passados - pecados de imoralidade, de corrupção nos negócios, pecados de brutalidade, até mesmo assassinato. Mas tenha bom ânimo! Você pode nascer de novo, pode começar a vida de novo! Toda sua culpa por pecados cometidos no passado pode ser apagada, mesmo que tenha de viver com as conseqüências de alguns deles. Pela obra do Espírito de Deus dentro de você, enviado dos céus por meio de Jesus Cristo, poderá ter uma vida totalmente nova. Então, se você leva uma vida declarada de pecado, então, pode, a despeito disso, viver em esperança. Você precisa e pode nascer de novo.

É muito interessante notar, no entanto, que Jesus não disse a esta mulher pecadora que ela precisava nascer de novo, apesar de ser óbvio que precisava disso. Ao invés, Jesus diz a uma outra pessoa que é absolutamente necessário que ela nasça de novo. Sem dúvida nenhuma esta outra pessoa precisava de novo nascimento.

Então, quem era ele? Que tipo de pessoa, de acordo com Jesus Cristo, precisava desesperadamente nascer de novo? Quem no mundo de hoje precisa nascer de novo?

É a pessoa moralmente boa, a pessoa profundamente religiosa, que precisa nascer de novo! O ensino de Jesus freqüentemente está repleto de surpresas. Mas certamente se trata de uma grande surpresa quando ele diz a uma pessoa moralmente boa e profundamente religiosa que ela precisa nascer de novo!

O significado desse ensino deveria ser óbvio. Se esse tipo de pessoa precisa nascer de novo, então todo ser humano precisa nascer de novo.

Quem era essa pessoa? Como era a sua vida? Por que, de todas as pessoas, Jesus diz justamente para ela, que precisa nascer de novo?

Esta pessoa é Nicodemos. Era um líder religioso nos seus dias. Vivia uma vida moralmente reta. No entanto devia sentir um vazio na sua alma, pois veio a Cristo à noite procurando preencher um vazio em sua vida.

Jesus vai direto ao ponto. Nicodemos era um homem muito bom, se comparado a outras pessoas. Ainda assim precisava recomeçar a vida, do contrário não poderia ver o Reino de Deus. Já que não podia ver o reino de Deus, seria totalmente impossível entrar nele. Para ele havia apenas uma esperança - tinha que nascer de novo. Precisava ter uma nova natureza que seria totalmente diferente da sua natureza atual.

Na verdade Jesus diz, "Importa-vos nascer de novo" (João 3:3,7). Deus nos céus deve ter uma ação que é direcionada para o renascimento da sua alma antes mesmo que você possa ver o Reino de Deus. Apesar de ser uma pessoa profundamente religiosa, moralmente correta, você tem que nascer de novo.

Aceite essa verdade. É para o seu bem. Se uma pessoa tem uma doença, é muito melhor tomar conhecimento do fato do que viver sem ele. O quanto antes descobrir que tem uma doença do coração, câncer, malária, tuberculose ou cólera, maior será a sua esperança de ser curado. Então reconheça o fato. Cada pessoa neste mundo precisa nascer de novo. Ninguém pode nem sequer ver o reino de Deus, a menos que tenha nascido segundo vez pela obra do Espírito Santo na sua alma. Você precisa nascer de novo. Precisa de uma transformação total em sua alma.


Segundo, O que você deve fazer para nascer de novo?

Essa é uma pergunta muito natural de se fazer. Se o seu barco virar no meio do lago, você quer saber exatamente o que fazer para salvar a sua vida. Quer saber se deve agarrar-se a um pedaço de madeira até o socorro chegar, ou se deve nadar até a margem. Deseja saber exatamente em que direção deve nadar.

Então se você tem que nascer de novo para entrar no reino de Deus, o que tem de fazer? Teria que passar a noite toda em oração? Teria que jejuar por vários dias, não pôr comida na boca e nem tomar água? Teria que ir ao culto a cada domingo durante um ano ou dois a fim de "nascer de novo"?

Não, você não precisa fazer nenhuma dessas coisas para nascer do alto. Aliás, não pode fazer absolutamente nada para nascer do alto. Jesus não diz a Nicodemos o que ele deve fazer para nascer de novo. Ele simplesmente assevera o fato: "Você tem que nascer de novo". Jesus não dá essa ordem simplesmente porque Ele estaria ordenando o impossível (É bom lembrar que é um ato impossível ao homem - Nota do editor).

Pense por um momento sobre o seu primeiro nascimento. O que você fez para causar o seu próprio nascimento da primeira vez? Qual foi o seu papel em fazer que você fosse concebido no ventre de sua mãe?

Você não fez absolutamente nada. Como qualquer outra pessoa que já viveu, você não fez absolutamente nada para causar seu primeiro nascimento. Nenhuma pessoa que já viveu sobre a terra causou sua concepção no ventre de sua mãe, ou o ter nascido dela. Trata-se de uma impossibilidade completa.

O mesmo princípio se aplica cada vez que alguém "nasce de novo". A maioria das pessoas entende completamente errado esse ensino de Jesus. Eles acham que Jesus está dizendo a Nicodemos o que ele deve fazer e decidir nascer de novo. Eles concluem que Jesus ensina que se uma pessoa crê nEle nascerá de novo.

Mas esse entendimento das palavras de Jesus está totalmente errado. Jesus não diz a este homem o que ele deve fazer para nascer de novo. Jesus sabia que uma pessoa não pode fazer nada para que nasça de novo. Esse fato é plenamente ensinado num dos primeiros versículos do Evangelho de João, que diz que os filhos de Deus "não nasceram da vontade do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (João 1:13). O ensino é simples. As pessoas não nascem de novo para serem filhos de Deus por decisão humana. Ao invés disso, é algo de Deus e depende totalmente dEle; uma pessoa é nascida do céu para ser um filho de Deus.

Então, o que você deveria fazer? Deveria se humilhar perante o Deus Todo Poderoso e reconhecer que precisa ser totalmente transformado em outra pessoa. Reconheça que somente Deus, pelo Seu Espírito Santo enviado dos céus, pode fazer com que nasça de novo. Pare de tentar fazer de você mesmo uma nova criatura. Pois somente Deus pode fazer esta obra maravilhosa em você.

Terceiro, E se você "nascer de novo" pelo Espírito Santo?

Algumas pessoas lhe dirão coisas estranhas. Dirão que, se "nasceu de novo falará em línguas". Dirão que a única prova de que de fato nasceu de novo, do Espírito Santo de Deus, é que emita sons estranhos que nem você mesmo consegue entender.

Mas a Palavra de Deus diz algo inteiramente diferente. A Palavra de Deus diz que todos os crentes em Jesus Cristo formam "batizados no Espírito Santo", tenham eles falado ou não em "línguas". O apóstolo Paulo afirma claramente: "Todos fomos batizados num só corpo e num só Espírito" (1 Coríntios 12:13). Cada crente em Jesus Cristo nasceu de novo pelo batismo do Espírito Santo enviado dos céus. Mas Paulo prossegue para indicar que nem todos os crentes receberam o dom especial do Espírito Santo que uma vez capacitou algumas pessoas a falar em línguas estrangeiras que jamais haviam aprendido. Ele faz uma série de perguntas aos crentes de Corinto. Cada uma dessas perguntas espera por um "Não" como resposta. Ele pergunta: "Nem todos são apóstolos, são?" (A resposta que se espera é obviamente um "Não!"). Ele pergunta: "Nem todos são profetas, são?" (É óbvio que a resposta esperada é "Não!"). Ele pergunta: "Nem todos fazem milagres, fazem?" (A resposta esperada é "Não!"). Então ele pergunta: "Nem todos falam em línguas, falam?" (E mais uma vez a resposta óbvia que se espera é "Não!") - (1 Coríntios 12:29,30).

Não é de todo crente em Jesus Cristo que se espera o "falar em línguas". No entanto, todo crente foi batizado com o Espírito Santo. Doutra sorte não poderia ter "nascido de novo".

Assim, não pense que não pode nascer de novo a menos que "fale em línguas". Não pense que tem que "falar em línguas" se nasceu de novo. Você pode ser feito nova criatura em Cristo sem jamais ter demonstrado o dom especial de "falar em línguas".

Mas, uma outra coisa sempre acontecerá quando alguém nasce de novo pela obra do Espírito Santo. Se você nasceu do alto pela obra do Espírito Santo de Deus, começará sua nova vida se comportando exatamente como um bebê recém nascido. Assim como um recém nascido, a primeira coisa que fará é "gritar, chorar". É aí que a fé e o arrependimento entram em cena. A primeira coisa que um bebê recém nascido faz é gritar, chorar. O bebê sai do escuro do ventre de sua mãe e vê a luz pela primeira vez. O recém nascido pisca, fecha seus olhos de novo e cai no choro. Assim, dessa forma, a primeira coisa que uma pessoa faz quando nasce pela segunda vez é chorar. Ele sai da escuridão de uma vida de pecado para a gloriosa luz de Cristo. Ele pisca por causa do brilho daquela luz, e ele clama a Deus, "Salva-me!". Reconhece sua dependência total de Deus para o arrependimento pelos erros que cometeu. Ele ouve a mensagem sobre Jesus, o Salvador dos pecadores, e se entrega totalmente a Ele. Daquele ponto em diante vive uma vida diferente - não uma vida perfeita, não uma vida totalmente livre do pecado. Mas agora é uma nova criatura, um Cristão, e assim vive uma vida diferente.

E você? Já confessou que é um pecador e que merece o julgamento de Deus pelos seus pecados? Confiou em Jesus Cristo, como Filho de Deus e Salvador que morreu no lugar de pecadores? Se você se arrepender dos seus pecados e crer nEle, esse é um sinal seguro de que já nasceu de novo! Pois ninguém pode se arrepender dos seus pecados e crer em Jesus a menos que já tenha nascido de novo pelo Espírito de Deus enviado dos céus.

Tenha bom ânimo. Você pode ver o Reino de Deus? Entende que Jesus é o Filho de Deus enviado para abrir o caminho do céu a pecadores como você? Se tem esta fé em Jesus, então você pode ter certeza que já nasceu de novo. Uma vez que este novo nascimento tenha acontecido, será um filho de Deus para todo o sempre.

Então venha hoje. Não demore. Demonstre o fato de ter nascido de novo. Clame a Jesus em arrependimento e fé. Daquele ponto em diante, todo o curso de sua vida será diferente. Ao invés de viver sob a sombra da ira de Deus, você viverá sob o brilho do sol do "sorriso" de Deus. Pois Ele olhará para você como Seu filho ou filha amada.

Então considere a primeira pergunta mais uma vez. Você precisa nascer de novo?

A resposta a esta pergunta está clara. É um fato absoluto. Quem quer que você seja, precisa nascer de novo. Se for um pecador declarado como aquela mulher adúltera, você precisa nascer de novo. Se for uma pessoa moralmente boa, até mesmo profundamente religiosa como Nicodemos, ainda assim, você precisa nascer de novo. Cada pessoa que veio a este mundo de pecado precisa nascer de novo. Você entrou neste mundo com uma natureza pecaminosa. Mas precisa deixar este mundo com uma natureza santa. Pela obra do Espírito Santo de Deus, pode nascer de novo. Você pode ser uma nova criatura em Cristo. As coisas antigas passarão, e todas as coisas se farão novas.

Creia no Senhor Jesus Cristo. Não deixe para depois. O dito mais comum da Bíblia vem do mesmo capítulo onde Jesus insiste que uma pessoa precisa nascer de novo: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).

Coloque toda sua confiança nEle para a salvação tanto nesta vida como no porvir. Uma vez que você crê nEle, poderá se regozijar para sempre no fato de ter verdadeiramente nascido de novo, antes de poder crer.


O. Palmer Robertson é Professor de Teologia no: African Bible College, caixa postal 1028, Lilongwe, Malawi. Professor de Velho Testamento no: Knox Theological Seminary, 5554 N. Federal Highway, Fort Lauderdale, Flórida 33308, EUA.

Fonte: Revista Os Puritanos – Ano XI – Nº 03 – Julho/Agosto/Setembro/2003.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Ensino Bíblico Sobre Regeneração

por

Anthony Hoekema

O que a Bíblia ensina sobre regeneração? Já no Velho Testamento somos ensinados que só Deus pode transformar radicalmente o que seja necessário para capacitar seres humanos caídos a fazer o que é agradável aos Seus olhos. Em Deuteronômio 30:6, encontramos nossa renovação espiritual figurativamente descrita como circuncisão do coração: "O Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração da tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus de todo teu coração e de toda a alma, para que vivas". O coração é o cerne íntimo da pessoa e a Bíblia nos ensina que Deus nos limpa interiormente antes que verdadeiramente o possamos amar. O que chamamos de regeneração é exposto por Jeremias nestas palavras: "...Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhes escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (31:33). Ezequiel usa uma figura para ilustrar regeneração que, mesmo refletindo o modo de pensar do Velho Testamento, é usada ainda hoje: "Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne" (36:26; cf. 11:19). Aqui Deus, através de Ezequiel, promete aos exilados na Babilônia que no futuro os renovará a partir do interior.

O Novo Testamento também nos provê com mais ricos ensinamentos sobre a regeneração do que faz o Velho Testamento. Nos Evangelhos Sinóticos, a palavra "regeneração" não é usada no sentido de "novo nascimento". O pensamento, porém, está presente. Quando Jesus diz: "Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz maus frutos" (Mateus 7:17). Ele quer dizer que a árvore precisa ser feita boa antes que possa produzir bons frutos. Quando afirma: "Toda planta que meu Pai não plantou, será arrancada" (15:13) significa que aquelas Plantas que o Pai celeste plantou, não serão desarraigadas. Declarações como essas claramente sugerem a necessidade de regeneração.

Nenhum autor do Novo Testamento se refere mais freqüentemente à regeneração ou novo nascimento do que o apóstolo João. Olhemos primeiro para João 1:12,13:

v. 12: "Mas a todos quanto o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome;

v.13: "os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus".

Teólogos arminianos costumar citar o versículo 12 para provar que a fé tem que preceder a regeneração: "...deu-lhes o poder de serem filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome". Mas não podemos separar o versículo 12 do 13. O segundo nos diz que ser filho de Deus não procede da decisão humana, ou descendência, mas unicamente da atividade divina. É verdade que aqueles que crêem em Cristo receberam o direito de serem filhos de Deus - mas por trás dessa fé está a obra miraculosa de Deus, pela qual eles nascem de novo. Nascem, não do homem, mas de Deus.

Talvez nenhum capítulo do Novo Testamento ensine a soberania da atividade de Deus na regeneração de forma mais clara do que o capítulo 3 do Evangelho de João. Nicodemos, o fariseu, principal dos judeus, veio a Jesus de noite. Suas declarações iniciais evidenciam respeito por Jesus como mestre, mas mostravam falta de entendimento quanto à verdadeira missão de Cristo: "Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes se Deus não estiver com ele" (3:2). A resposta de Jesus no verso 3 soa como a chave para toda a discussão: "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo [ou 'do alto'; grego gennethe anothen], não pode ver o reino de Deus". Gennethe é uma forma aoristo passivo de gennao, que quer dizer tanto "gerar" quanto "nascer". As diversas versões tomam esse verbo como sentido de "nascer"; o versículo 4 mostra que era essa exatamente a intenção do autor. Anothen significa literalmente "do alto"; pode também significar "outra vez" ou "de novo". No Evangelho de João, a palavra anothen é usada três vezes no capítulo 3 (nos versículos 3, 7 e 31); é também usada três em 19:11 e 19:23. Nas três últimas vezes inquestionavelmente significa "do alto". Concluo que em 3:3 e 7, as palavras de Jesus podem ser traduzidas por "nascidos do alto". A expressão incluiria o pensamento de que alguém precisa nascer de novo, mas indica especificamente o fato de que esse novo nascimento é um nascimento do alto.

Jesus está dizendo a Nicodemos que ele não pode sequer começar a ver o reino de Deus que Ele, Jesus, está introduzindo, nem as realidades espirituais do reino a ser que nasça do alto. A forma aoristo do verbo, gennethe, mostra que o novo nascimento é uma ocorrência singular, acontecendo de uma vez para sempre. A voz passiva do verbo nos diz que essa é uma ocorrência em que o papel do ser humano é totalmente passivo. De fato, o verbo usado, mesmo sem voz passiva, diz a mesma coisa. Não escolhemos nascer; nada temos a ver com o nosso nascimento. Somos completamente passivos em nosso nascimento natural. Da mesma forma acontece com nosso nascimento espiritual. O advérbio anothen diz que o novo nascimento é do alto: um nascimento "do céu", distinguindo do nascimento natural, que é da terra.

Sumariando, do versículo 3 aprendemos que a regeneração é absolutamente necessária se queremos ver o Reino de Deus, e que se trata de uma transformação na qual os seres humanos são completamente passivos - tão passivos quanto no nascimento natural. Aprendemos também do versículo 3 que esse novo nascimento é "do alto" - isto é, precisa ser operado por um agente sobrenatural e sobre-humano.

Depois que Nicodemos expressou sua surpresa e perguntou sobre a possibilidade de entrar no ventre materno e nascer pela segunda vez, Jesus respondeu: "Em verdade, em verdade, te digo: Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus". Alguns intérpretes vêem na palavra "água" uma referência ao batismo, mas parece que aqui a palavra deve ser entendida como símbolo da purificação interna, como é freqüentemente utilizada no Velho Testamento. [1] A expressão"nascer do Espírito" revela o agente divino desse novo nascimento: o Espírito Santo. Antes Jesus disse que era um nascimento "do alto", e agora ele identifica especificamente o autor divino. Nesse novo nascimento, somos completamente dependentes da soberana atividade do Espírito de Deus.

Ao chegar ao v. 6 é preciso resistir à tentação de interpretar a palavra "carne" (sarx) no sentido Paulino usual, significando a natureza humana escravizada pelo pecado. Para João, a palavra "carne" freqüentemente significa a "fraqueza humana inseparável, inata, da existência humana", o que parece ser o caso aqui. Assim, quando Jesus diz: "o que é nascido da carne é carne, o que é nascido do Espírito, é espírito" (v. 6), ele está dizendo que quem é nascido meramente do físico continua sendo uma criatura não regenerada, nada mais, enquanto quem pe nascido do Espírito Santo é espiritual em sua essência. Passamos do nível inferior ao superior através de um novo nascimento sobrenatural. Regeneração, em outras palavras, é uma mudança radical em nossa natureza.

"Não te admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo" (v. 7). Essas palavras são freqüentemente entendidas como que dizendo que precisamos fazer alguma coisa em nossa força a fim de nascer de novo. Não foi isso que o Senhor quis dizer. Ele estava falando a Nicodemos que ele e outros (importa-vos) precisavam nascer "do alto" (anothen) a fim de ver e de entrar no Seu reino.

No v. 8, Jesus demonstra a soberania e o mistério da ação do Espírito Santo na regeneração. "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito". A ação do Espírito na regeneração das pessoas é tão soberana quanto o vento que sopra aonde quer. Mas essa ação é também profundo mistério, como são os movimentos do vento. Jesus ainda diz: "ouves a sua voz" - será que Jesus e Nicodemos sentiram soprar o vento naquele instante? Você não entende os movimentos do vento, mas pode ouvir seu som. Igualmente, você não entende o mistério do novo nascimento, mas você pode concluir de certos sinais externos, se você é nascido de novo. Quais sejam esses sinais nós aprenderemos ao estudarmos a primeira epístola de João.

Resumindo, uma vez mais, dos versos 5 a 8 aprendemos que o agente divino da regeneração é o Espírito Santo, que a nova vida recebida no novo nascimento é radicalmente diferente da vida meramente biológica, e que ainda que a regeneração seja um acontecimento misterioso, podemos saber se ela ocorreu observando os frutos.

O Ensino de Paulo

O que Paulo ensina sobre regeneração? Nos escritos de Paulo, a palavra "regeneração" (palingenesia) ocorre apenas uma vez, em Tito 3:5: "...ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Em João, a regeneração é retratada como um novo nascimento ou um nascimento do alto; aqui temos uma figura similar: paligenesia, de palin, significando "outra vez" e genesia, significando "gênesis" ou "nascimento". As palavras indicam um novo começo. A expressão "lavar regenerador" é provavelmente uma alusão ao batismo, mostrando simbolicamente sua realidade espiritual. [2] As palavras "renovador do Espírito Santo" nos diz que a regeneração envolve não só purificação dos pecados, mas também uma renovação que é gerada em nós pelo Espírito e que continua no processo de santificação.

Mesmo que seja esse o único lugar onde Paulo usa a palavra "regeneração", ele faz freqüentemente alusões à regeneração nas suas cartas. Em Efésios 2:5, Paulo afirma que, quando estávamos mortos nas nossas transgressões, Deus nos deu vida juntamente em Cristo. Em Efésios 2:10 e 2 Coríntios 5:17, Paulo usa uma nova figura para a regeneração. É um tipo tão surpreendente diferente de existência, que só pode ser comparado a uma nova criação: "Pois somos feituras dele, criados em Cristo Jesus..." e "E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura...". Dessas declarações de Paulo, aprendemos que a regeneração é o fruto da ação purificadora ou renovadora do nosso espírito [pelo Espírito de Deus], e que ela significa que agora nos tornamos parte da maravilhosa nova criação de Deus.

Pedro também lida com a regeneração em sua primeira epístola. Ele usa a palavra anagennao, que pode significar "gerar de novo" ou "fazer nascer de novo": "...nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo" (1 Pedro 1:3). Pedro liga a regeneração com a ressurreição de Cristo e com a nossa esperança. Deus fez com que nascêssemos de novo, ele diz, através da ressurreição de Cristo dentre os mortos. A ressurreição de Cristo é, na verdade, nossa fonte de vida espiritual; uma vez que Deus nos tornou vivos em Cristo, nossa vida é compartilhada na vida ressurreta de Cristo. Através desse maravilhoso evento fomos gerados de novo para uma viva esperança - a esperança de que um dia entraremos na posse da herança que jamais perece, estraga ou desvanece (v. 4). Pedro, então, vê a regeneração de uma perspectiva escatológica: o início de nossa vida em Cristo abre as portas à gloriosa vista de nossa herança eterna.

João faz diversas referências à regeneração na sua primeira epístola. Tais passagens reforçam que a regeneração é revelada por comportamentos específicos. Em 1 João 2:29 aprendemos que a pessoa regenerada prossegue em fazer o que é justo: "Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele". O verbo traduzido por "é nascido" está no tempo perfeito (gegennetai), indicando que a pessoa foi regenerada no passado e continua a mostrar no presente as evidências dessa regeneração no passado e continua a mostrar no presente as evidências dessa regeneração.

Aprendemos de 1 João 3:9, que aquele que foi regenerado não continua vivendo em pecado: "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus". A expressão "viver na prática do pecado", é traduzida de hamartian ou poiei; o tempo presente do verbo indica ação contínua. O significado é: "não prossegue em fazer e ter prazer no pecado, com completo abandono". "Não pode viver pecando" é tradução de dynatai hamartanein; o verbo "pecar" é outra vez usando no tempo presente. João quer dizer que a pessoa regenerada não é capaz de continuar pecando com prazer, isto é, viver em pecado. "O crente pode cair em pecado, mas não pode andar nele".

1 João 4:7 nos diz que a pessoa regenerada ama seus irmãos: "Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus". A palavra "amor" usada aqui, "agapao", implica abnegação, o tipo de amor exemplificado por Cristo. Quem é nascido de novo, João diz, prossegue amando altruisticamente a seus irmãos.

Em 1 João 5:1, lemos que a pessoa regenerada tem fé: "Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido Deus". Em oposição às opiniões dos que dizem que a fé antecede a regeneração, essa passagem mostra que a fé é evidência externa da regeneração.

Aprendemos de 1 João 5:4 que aquele que é regenerado vence o mundo: "Porque todo que é nascido de Deus vence o mundo". "Mundo", como é freqüentemente usado por João, significa o mundo em inimizade para com Deus, como fonte de tentação e pecado. Em 1 João 2:15, João adverte seus leitores a não amar o mundo nem o que nele há. Na passagem que estamos considerando, João assegura-nos de que aquele que é nascido de novo não será vencido pelas tentações do mundo, mas sairá vitorioso.

João afirma em 1 João 5:18 que a pessoa regenerada é tão guardada por Cristo que não cairá jamais da fé: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando (ouch hamartanei; o verbo outra vez no tempo presente) antes, aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não lhe toca". Tal como em 3:9, João diz que aquele que nasceu de novo não continua a viver em pecado. Por "aquele que nasceu de Deus", João quer dizer Cristo, que era o Filho de Deus de maneira singular. Cristo guarda a pessoa regenerada de forma que o diabo não pode fazer-lhe mal - não pode causar ferida mortal (Calvino). A pessoa que nasceu do alto, então, não cairá da graça, pois ele ou ela é guardado disso, por Cristo.

Aprendemos da primeira epístola de João que a pessoa regenerada tem sua vida marcada pelas seguintes características: é justa, não vive continuamente em pecado, ama seus irmãos, crê que Jesus é o Cristo, e obtém vitória sobre o mundo. Se alguém perguntar: Como posso saber se sou regenerado?, a resposta será pedir-lhe que procure essas evidências, pois João diz que elas são as marcas de quem nasceu de novo. [3]

Resumamos o que temos aprendido sobre o novo nascimento: regeneração é uma mudança radical da morte espiritual para a vida espiritual, operada pelo Espírito Santo - uma transformação na qual somos completamente passivos. Essa mudança envolve uma renovação interna de nossa natureza, é fruto da graça soberana de Deus, e ocorre na união com Cristo.

Baseados neste estudo exegético, temos que afirmar com força que a regeneração, como temos visto (como a implantação da nova vida espiritual) não é um ato em que o ser humano coopera com Deus, mas um ato do qual Deus é o único autor. A regeneração, portanto, é "monergística", [4] a obra de Deus unicamente, não "sinergística" [5] algo que só é realizado por Deus quando o homem está junto. Vimos que a regeneração é retratada no evangelho de João e em sua primeira epístola com a utilização de verbos na voz passiva: gennthe, gennethenai, gegennetai, gegennemenos. Notamos a figura poderosa encontrada em Efésios 2:5: "e estando nós mortos em nossos delitos e pecados, nos deu vida juntamente com Cristo...". Como poderiam pessoas que estão mortas provocar a própria vivificação? Regeneração, a Bíblia ensina, é a obra de Deus na qual os seres humanos são passivos. Desses ensinos bíblicos aprendemos a total soberania de Deus na sotereologia: nossa salvação é obra de Deus desde o início. Portanto, a Ele seja toda a glória!


[1] - Conferir Ezequiel 36:25: "Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados".

[2] - Observe que no Catecismo de Heidelberg, P. 73, essa expressão é interpretada como referente ao batismo.

[3] - A possibilidade que a regeneração pode permanecer inativa numa pessoa por muitos anos antes de induzir ao arrependimento e fé (regeneração dormente), ensinada, por exemplo, por Abraham Kuyper (veja E. Smilde, Een Eeuw van Strijd over Verbond em Doop [Kampen: Kok, 1946], pp. 105-6) parece ter sido abolida por essas passagens das epístolas de 1 João.

[4] - Termo formado por duas palavras gregas que significa, aqui, "trabalhar sozinho".

[5] - Termo formado por duas palavras gregas, significando "trabalhar junto", em cooperação. Oposto ao monergismo que significa "trabalhar sozinho".


Extraído do livro Salvos Pela Graça, de Anthony Hoekema - Editora CULTURA CRISTÃ, páginas 101-107.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Regeneração

por

Asahel Nettleton

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1.12-13).

Estes versículos ensinam uma doutrina simples mas importante: aqueles que recebem a Cristo - aos quais foi dado o poder para tornarem-se filhos de Deus e crêem no nome de Cristo - foram nascidos de Deus. Em outras palavras, uma pessoa se torna verdadeiro crente por meio de uma especial aplicação de poder por parte do Todo-poderoso, a fim de mudar seu coração. A expressão "nasceram... de Deus", freqüentemente utilizada pelos escritores do Novo Testamento, expressa linguagem figurada. Sua adequação, quando aplicada às coisas espirituais, resulta da analogia que existe entre o início de nossa existência física e de nossa vida espiritual. Os crentes são filhos de Deus; isto precisa ser entendido em um sentido peculiar.

Todos os homens são criados por Deus e dEle recebem suas capacidades naturais; neste sentido todos são filhos de Deus. Mas, quando a Bíblia aplica a expressão "filhos de Deus" aos crentes, para distingui-los das outras pessoas, ela o faz para ressaltar um relacionamento que Deus não tem com os demais seres humanos. E somente Ele é o autor da regeneração, pela qual os crentes se tornam seus filhos e é dito que eles são nascidos de Deus. As Escrituras afirmam que os crentes foram gerados por Deus, em comparação ao relacionamento que existe entre os pais terrenos e seus filhos.

O objetivo destes versículos é mostrar que nosso relacionamento com Deus, como seus filhos espirituais, foi produzido exclusivamente por meio de seu soberano poder. A princípio, estes versículos foram adaptados para oporem-se aos preconceitos carnais dos judeus. A opinião comum destas pessoas era que todos os descendentes de Abraão eram herdeiros das promessas divinas e tinham o direito à vida eterna. Este conceito foi consistentemente combatido por Cristo e seus apóstolos. Deixando de lado a tentativa de determinar o significado exato da afirmativa "os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus", observamos que havia três maneiras de pessoas serem consideradas filhos de Abraão: por descendência natural, por meio de um relacionamento ilícito e por adoção. Independentemente da maneira, os judeus imaginavam que se tornava um filho de Deus aquela pessoa que se tornava filho de Abraão. O bem-conceituado Dr. Lightfoot propôs que o objetivo do apóstolo João era aniquilar as falsas esperanças dos judeus, afirmando que, se alguém havia se tornado filho de Abraão através de alguma destas maneiras, isto não o transformava em filho de Deus. Outro tipo de nascimento é necessário; uma nova filiação, vinda do alto. Era preciso que Deus os fizesse nascer de novo. Qualquer que seja o significado específico destes versículos, a impressão geral e o objetivo específico do escritor sagrado é que todos os outros métodos de alguém tornar-se filho de Deus são falsos e imaginários, exceto o ser nascido de novo. Estas palavras foram escritas para combater as idéias predominantes naqueles dias, e hoje podemos utilizá-las de maneira semelhante.

Dentre todos os assuntos, aquele que se refere à nossa passagem da morte para a vida com certeza é o mais importante e interessante. Ter idéias claras e definidas sobre este assunto é crucial; errar no que concerne a ele equivale a um perigo terrível. Em certo sentido, todas as coisas pertencem a Deus. Ele é o Criador e Governador de tudo.

Todos os poderes e capacidades que um homem possui procedem de Deus. Todos os meios da graça e ordenanças espirituais foram instituídas por Ele. Mas, quando as Escrituras falam sobre nascer de novo, elas querem dizer muito mais do que um homem ser influenciado por esses meios da graça e ordenanças espirituais, ao utilizar seus poderes e capacidades naturais. A fim de evitar uma compreensão errada sobre o assunto, afirmei no início que a regeneração é uma obra especial efetuada pelo poder do Todo-poderoso. Os que erram neste assunto jamais tentaram negar abertamente que os crentes são nascidos de Deus, pois isto corresponderia a renunciar toda aparência de confiança nas Escrituras. Eles escolheram um método mais seguro para divulgarem suas opiniões: ao mesmo tempo que preservam as palavras dos autores sagrados, atacam e desprezam o significado das mesmas, de modo que a regeneração se torna uma simples aplicação de um rito externo ou uma persuasão da mente afetada de maneira comum, que resulta em uma reforma da moralidade.

Esclarecer o erro ajuda-nos a compreender a verdade. De maneira abreviada, consideraremos alguns conceitos errados sobre a regeneração e, em seguida, mostraremos o que significa ser nascido de Deus.

Não preciso gastar muito tempo esforçando-me para demonstrar que o batismo não é regeneração. Nada é tão evidente quanto o fato de que um rito exterior não pode mudar o coração. O batismo é apenas um sinal ou símbolo das salvadoras influências do Espírito Santo, e não a obra de
regeneração. Tanto a Escritura quanto a experiência mostram que nem todas as pessoas batizadas são regeneradas, pois algumas delas em suas vidas e conversas não diferem do "mundo", que "jaz no Maligno". Quanto a isto, precisamos apenas citar as palavras de um eminente teólogo inglês: "O ensino da regeneração através do batismo é a completa rejeição e desprezo da graça de nosso Senhor Jesus Cristo"; e acrescentou: "A vaidade desta presunção tola destrói a graça do evangelho; é uma presunção forjada para apoiar os homens em seus pecados e ocultar-lhes a necessidade de nascerem de novo e de se converterem a Deus. Entretanto, irmãos amados, não foi assim que aprendemos de Cristo".

O absurdo de alterar assim o verdadeiro ensino sobre a regeneração e outras doutrinas semelhantes é tão palpável e grotesco, que pode ser detectado e percebido onde existe qualquer grau de conhecimento acerca da natureza da vida espiritual. Encontramos menor perigo em tais noções extravagantes do que naquelas que são mais sutis e sofisticadas.

Pelágio, no século IV, inventou e advogou um esquema de regeneração que, com poucas modificações, às vezes na fraseologia ou no acréscimo e diminuição de algumas partes, tem sido o método de quase todos os sectários, os quais se apartaram dos ensinos ortodoxos do evangelho. Em épocas diferentes, autores têm surgido em diversos países, levando adiante este ilusório ensino sobre o novo nascimento em termos elaborados por eles mesmos. E muitos que lêem seus escritos de maneira superficial têm sido enganados, acreditando neste falso conceito. O fato é que quase todo o sistema de ensinos fundamentado em noções obscuras e inadequadas sobre este importante assunto da regeneração é apenas um reflexo da heresia de Pelágio, universalmente condenada pela igreja dos primeiros séculos, que agora se apresenta em nova roupagem e, para assegurar sua aceitação, segue os padrões do mundo moderno.

Os principais aspectos do ensino de Pelágio e Armínio (ambos, em essência, ensinaram as mesmas coisas) são estes:

1. Deus não somente proclama e oferece de maneira semelhante a graça e a salvação a todos os homens, mas também o Espírito Santo é derramado de modo suficiente e igual sobre todos eles, para garantir-lhes a salvação, contanto que se aproveitem dos benefícios que lhes são concedidos;
2. Os preceitos e promessas do evangelho, além de serem bons e desejáveis em si mesmos, são tão adaptados à mente do homem natural e aos interesses da humanidade, que estes se inclinarão a recebê-los, a menos que sejam vencidos pelo preconceito e por uma vida habitual no pecado.
3. Pensar sobre as ameaças e promessas do evangelho é suficiente para remover os preconceitos e levar a pessoa a deixar a vida no pecado.
4. Aqueles que meditam com seriedade e consertam suas vidas têm a promessa do Espírito Santo e recebem direito para desfrutarem os benefícios da nova aliança.

Esta irreal declaração de princípios fundamentais, capaz de convencer mentes que não ponderam sobre estes assuntos, anula a própria essência da verdade do evangelho. Este sistema de doutrina preceitua que todos os homens são regenerados de igual modo, possuem a mesma medida do Espírito, e a diferença entre um e outro encontra-se totalmente em si mesmos, dependendo da maneira como eles se beneficiam das bênçãos outorgadas. Neste caso, regeneração significa uma reforma na vida, induzida por meio de persuasão moral ou iniciada como resultado de ser iluminado o entendimento e as emoções serem comovidas exclusivamente por meio da verdade divina. Se indagarmos de que modo neste sistema de doutrina a salvação resulta da graça divina, a resposta é que todos os meios de alguém se beneficiar das bênçãos recebidas são concedidos por Deus e,
por conseguinte, constituem a graça.

Todo este sistema de doutrina resume-se no seguinte: Deus outorga as capacidades e a graça a todos os homens de maneira semelhante; e, tendo sido estas outorgadas, eles trabalham por sua própria salvação, sendo persuadidos a fazer isso por meio das promessas e ameaças do evangelho. A terrível ilusão causada por esse tipo de doutrina resulta de sua plausibilidade - tem aparência de verdade, mas está repleta de erros graves e perigosos.

Não tenho dúvidas de que o Espírito Santo utiliza-se da Palavra e de muitos outros instrumentos para trazer os pecadores a Cristo. Mas afirmar que os homens são naturalmente inclinados a aprovarem e obedecerem os preceitos do evangelho, exceto quando algum tipo específico de pecado os impede, isso claramente contradiz o evangelho. Pelo contrário, como princípio fundamental o evangelho revela que todos os homens, por natureza, são filhos da ira e cegos no que se refere à luz da verdade divina; estão em inimizade com Deus e mortos em ofensas e pecados. A idéia de que o Espírito Santo é conferido a todos, de maneira suficiente para salvá-los, anula o conceito da graça especial e torna nascidos de Deus tanto uns quanto outros! O texto bíblico citado no início afirma que todos quantos receberam a Cristo e creram em seu nome foram nascidos de Deus. Se isto é verdade, outros que não O receberam não foram nascidos de Deus; portanto, não podemos dizer que as influências do Espírito são iguais para todos.

É uma grande pedra de tropeço, para muitos, o fato de que Deus outorga do seu Espírito mais para uma pessoa do que para outras. A fim de remover este preconceito, Pelágio e muitos depois dele têm sustentado o ensino de que todos os homens recebem os mesmos dons, para labutarem em favor de sua própria salvação. É lógico que tal ensino destrói o novo nascimento e o torna comum a todos os homens. De acordo com este ensino, Judas Iscariotes recebeu tanto da graça divina quanto o apóstolo Paulo; Acabe se vendeu à impiedade, mas o mesmo poderia ter feito Davi, o homem segundo o coração de Deus. Toda a diferença entre os homens deve-se a maneira diferente como eles se aproveitam de seus privilégios.

Sei que esse tipo de doutrina agrada a natureza caída; e a aceitação que ela tem desfrutado desde que foi pregada pela primeira vez comprova quão agradável é ao raciocínio do homem natural. Porém, nem as Escrituras nem a experiência nos oferecem qualquer razão para crermos nessa doutrina. Não duvido que o Espírito Santo luta com todos os homens que não estão condenados. Reconheço que as ameaças e promessas do evangelho seriam suficientes para persuadir-nos a um viver santo, se nosso entendimento não estivesse obscurecido e nossas afeições não fossem depravadas. Entretanto, nego que a graça comum a todos nos torna filhos de Deus, ou que somos persuadidos a nos tornarmos cristãos sem haver uma especial realização divina; ou que todos os homens recebem a mesma medida do Espírito Santo.

Apesar de todos os meios preparatórios, todas as ameaças e promessas do evangelho, todas as atividades da graça comum e todos os esforços dos pecadores não-regenerados, eles precisam nascer de novo para que se tornem filhos de Deus. É necessário que ocorra uma nova criação, uma obra realizada pelo Todo-poderoso em "uma atividade soberana, especial e sobrenatural", à semelhança da criação do mundo ou do ressuscitar um morto, pois sem esta grandiosa realização ninguém pode ver o reino de Deus. A persuasão não é capaz de fazer novas criaturas. Se o Espírito Santo opera nas mentes dos homens somente por meio de apresentar-lhes os argumentos e motivos mais diversos e mais adequados para a sua conversão, afinal de contas a vontade do homem determinará se ele será regenerado ou não. Nesse tipo de ensino, a glória da regeneração pertenceria a nós mesmos. Também não haveria certeza se Cristo teria qualquer descendência espiritual, visto que dependeria da incerta resolução de cada pessoa diante da qual os motivos foram colocados. Isto contradiz as Escrituras. Deus não limita as realizações de seu Espírito à apresentação de motivos persuasivos diante dos homens, pois "apresentar-se-á voluntariamente o teu povo, no dia do teu poder" (Sl 110.3).

A persuasão moral que oferece uma vida melhor não outorga qualquer poder supernatural à alma, a fim de que esta seja capacitada a viver. A persuasão não produz novo interesse e discernimento espiritual. Se a regeneração acontece desta maneira, então o homem regenera a si mesmo, nasce de novo por si mesmo, tornando a si mesmo diferente dos outros homens. Se assim fosse, o Espírito Santo não teria mais a realizar do que fizeram Paulo e Apolo.

Não é por esse tipo de coisa que oramos: não oramos para que os motivos corretos sejam apresentados aos homens, para que regenerem a si mesmos. Oramos para que Deus mude os seus corações e os torne novas criaturas. As igrejas primitivas que sentiam intensas pressões externas invocavam esta súplica sobre os hereges, que negavam o exercício de um poder sobrenatural na regeneração.

Existe apenas uma maneira de uma pessoa morta em seus delitos e pecados ressurgir para a vida: por meio do poder de Deus que a vivifica e faz nascer de novo. Observe a linguagem que os escritores sagrados utilizaram para transmitirem este conceito: nascer de Deus, gerado de Deus, vivificar, receber vida e nascer de novo. Se disserem que esta linguagem é figurada, eu concordo. Mas, se encontramos qualquer significado nestas figuras, então a obra de regeneração fala do começo de uma nova existência espiritual. De outro modo, a linguagem das Escrituras, em todos os seus livros, é a mais obscura, imaginária e sem significado.

Você pode supor todas as preparações, conhecimento, motivos, moralidade, esforços que lhe convier; mas, apesar de tudo isso, repetimos, é necessário que aconteça o novo nascimento (os mortos precisam ser vivificados), pois os crentes são nascidos de Deus. O mesmo poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos, o supremo poder do Deus vivo tem de realizar esta obra. Essa foi a súplica do apóstolo: que conheçamos "qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder, o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos" (Ef 1.19-20).

Na verdade, meus amigos, onde mais podemos encontrar a fonte de uma mudança que nos torna verdadeiros cristãos e nos traz da morte para a vida, senão na onipotência do Espírito Santo? É nosso entendimento que realiza esta mudança? Mas nosso entendimento está em trevas "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las" (1 Co 2.14). É a nossa vontade? Somos inclinados para o mal, assim como dois e dois são quatro. Nossas vontades são perversas e rebeldes. É o nosso poder? Cristo morreu pelos ímpios, que estão sem poder. Não somos capazes em nós mesmos de ter bons pensamentos. São os nossos méritos que realizam esta mudança? Não merecemos nada, exceto a condenação. São os ministros de Deus que nos convencem? Alguns podem semear a Palavra, e outros, regá-la, mas a germinação é realizada por Deus.

Todos os esforços têm sido realizados pela ingenuidade humana, mediante doutrinas claramente errôneas ou aparentemente plausíveis, a fim de retirar do Espírito Santo a glória da obra de regeneração e levar o homem a reivindicar esta realização para si mesmo ou, pelo menos, a compartilhar da honra. No entanto, a origem da regeneração se encontra somente na livre e soberana graça do todo-poderoso poder de Deus. A regeneração é uma obra totalmente divina; a glória, portanto, tem de pertencer e pertencerá para sempre a Deus.

Uma doutrina sustentada pelos grandes mestres da Reforma e pelas igrejas evangélicas desde então é que a regeneração é uma obra física. Com isto eles queriam dizer que havia realmente uma nova criação, tão absoluta quanto a criação do mundo; um novo interesse, princípio e discernimento espiritual é implantado por meio de uma soberana obra criadora da parte de Deus e não simplesmente um novo direcionamento de velhas capacidades.

Uma vez que esta obra é reconhecida, todas as demais doutrinas que constituem a verdade evangélica fluem dela: as doutrinas da graça, a soberania de Deus, a eleição, a redenção somente por meio de Cristo, a depravação humana e outras a estas relacionadas. Existe um grande, harmonioso e perfeito conjunto de doutrinas, e Deus é a essência e a glória de todas elas.

Meus amigos, estou plenamente certo de que existem dificuldades nas doutrinas que acabamos de apresentar. Mas a Bíblia fundamenta todas elas; isto é o bastante. Diante dela nosso entendimento carnal tem de se prostrar e nossos corações, submeterem-se. Se você muda estas verdades, utilizando idéias misteriosas, conceitos inúteis ou inconsistências, será assaltado não pelos homens, e sim pelo próprio Deus. Leia e atente aos ensinos da Palavra de Deus. Ela afirma permanentemente, em caracteres reluzentes: "Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1.13).

Existe apenas um tipo de nascimento que pode nos preparar para o céu: "Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.3). Podemos atender à nossa imaginação e satisfazer nossa justiça-própria, ao adotarmos os vagos conceitos pelagianos a respeito deste assunto; podemos protestar contra a absoluta dependência da graça de Deus, conforme demonstramos; mas perceberemos que um novo coração e um espírito de retidão são absolutamente necessários, pois sem eles pereceremos eternamente.


Asahel Nettleton (1783-1844).

Logo após sua conversão, Nettleton decidiu que serviria ao Senhor nos campos missionários, mas Deus tinha outros planos. Nettleton entrou na Universidade Yale em 1805 e formou-se em 1809. Ele tinha um intenso amor por Cristo e pelos perdidos.

Após estudar sob a orientação do Rev. Bezaleel Pinneo, de Connecticut, Nettleton começou seu ministério itinerante. Nesta época, muitos excessos e divisões estavam surgindo como resultado do Grande Avivamento. Após estudar as causas e os efeitos das numerosas desordens, ele adotou uma postura saudável para si mesmo e seu ministério. Desde o início de seu trabalho, Deus abençoou sua pregação com glorioso poder, e ocorreram vários avivamentos. Em 1817, ele foi ordenado evangelista congregacional. Foi um dos mais sábios e cautelosos evangelistas itinerantes que já abençoaram os Estados Unidos. Sua teologia estava em completa harmonia com a de homens piedosos que o precederam nas igrejas congregacionais e presbiterianas de seu país.

Francis Wayland, pastor da Primeira Igreja Batista de Boston e presidente da Universidade Brown, em cujo tempo um grande avivamento religioso aconteceu sob a influência da pregação de Nettleton, descreveu-o assim: "Ele é um dos mais eficientes pregadores que já conheci. Ele conseguia fazer que a lógica assumisse uma forma atraente e produzisse efeitos decisivos. Quando Nettleton argumentava sobre grandes doutrinas, tais como as da carta aos Romanos: eleição, completa depravação do homem, a necessidade de regeneração e de expiação dos pecados, seu estilo de pregar com freqüência era socrático".


Extraído da revista "Fé Para Hoje", Editora Fiel, p.p. 11-18 (com permissão).